Massao Ohno e o Japão – e outros tópicos, inclusive algo sobre a relação de criação e vida, biografia e obra

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Chamavam-no de “Japonês”, “Japa”, “Editor Zen”, “Samurai”. Todas essas designações foram procedentes. Conforme relatou na extensa entrevista à Biblioteca Mário de Andrade, vinha de uma família tradicionalista e passou a expressar-se em português só aos 7 anos de idade. Se língua é cultura, ou vice-versa, o vínculo de Massao com o Japão é inequívoco. Atestado por sua colaboração com o Instituto Brasil-Japão (absurdo terem tirado o corpo fora e não colaborarem com o recente documentário Massao Ohno – poesia presente de Paola Prestes) e publicações de autores e temas japoneses (a ilustração deste post é do livro Os japoneses no Brasil, preparado por ele), além dos que convocou para ilustrar sua produção editorial, como João Suzuki e Manabu Mabe.

Contudo, a família provinha da ilha de Hokkaido, ao norte. Eram de origem ainu, etnia minoritária, caucasiana. E mais: judeu, contou-me certa vez (a propósito do meu pai, a quem conhecia e apreciava), de uma antiga comunidade judaica lá estabelecida há séculos. Exceção da exceção, minoria da minoria.

O adendo é para corrigir a visão do Japão como mundo homogêneo, desconhecendo sua diversidade. Não só geograficamente, mas culturalmente, é um arquipélago. Estereótipos resultam do desconhecimento. Por mais forte que seja a presença Zen – por sua vez uma das ramificações do budismo proveniente da China – a religião popular é o xintoísmo, culto animista, ao que consta com três milhões e oitocentos mil “deuses” ou entidades tutelares. Cristianismos (católicos e denominações protestantes) se expandiram desde a restauração Meiji de 1868, quando deixaram de ser proibidos, como o haviam sido após a unificação com o xogunato Tokugawa, em 1603. Isso, além da quantidade de seitas: algumas recentes, porém legitimamente orientais.

Nos comentários à postagem no Facebook da minha entrevista para o Instituto Hilda Hilst, outro dia, foi favoravelmente comentado eu me referir a mulheres, ausentes de outras fontes sobre Massao – no caso, Roswitha Kempf, sócia e patrocinadora no começo da década de 1980, e a atriz Aurora Duarte, presente em boa parte de sua vida. No artigo sobre a relação com Hilda Hilst, observei que Massao gostava de mulheres – as que publicou, contribuindo para um crescimento da presença feminina na poesia brasileira, e aquelas com quem teve relacionamentos íntimos, profissionais ou ambos.

Nunca vi alguém beber tanto como Massao, sem alterar-se. Mas comentou comigo, após o acidente em que fraturou o crânio em algum momento da década de 2000 – salvou-o Marjorie Sonnenschein, que providenciou tratamento médico –, que sentia mais falta do cigarro que da bebida. E foi o câncer no pulmão que o levou, e não a cirrose. Era notável sua inaptidão financeira e burocrática – quando trabalhei na Secretaria Municipal de Cultura na década de 1990 e o convidei para alguma atividade, contratamos a filha Beatriz no lugar dele: além de não ter conta em banco, sequer tinha documentos de identidade.

Massao Ohno – poesia presente de Paola Prestes, filme recentemente exibido na Mostra de Cinema, merece os elogios que recebeu. Não se propõe a estabelecer a biografia, porém a resgatar a contribuição como editor. Mas espero que não permaneça um registro que, por respeitar a intimidade, seja higienizado além da conta.

Amigos já falecidos e aos quais devo especial gratidão, não só por haverem sido interlocutores, mas por me prestigiarem e divulgarem enormemente, foram excêntricos e desregrados: Roberto Piva, Massao Ohno, Marcos Faerman. Seguiram a máxima de William Blake, percorreram o caminho do excesso para chegar ao palácio da sabedoria. Até que ponto os excessos devem constar? No caso de Faerman, o assunto já foi convertido em dramalhão – mas será retificado, observando que em seus últimos anos a capacidade de escrever e expressar-se se manteve. Quanto a Piva, o mais conspícuo desses personagens, embora em seus últimos anos se mostrasse reticente e, com razão, não quisesse ser folclorizado como doido, foi ele quem trouxe à tona certas peripécias, ao entrevistar-me em 1997 (na Funarte, a entrevista está reproduzida em meu Manifestos e disponível na rede).

Sempre achei o “recorte”, separando obra e vida, uma coisa de formalistas e outros burocratas do saber. Por isso, publiquei comentário neste blog contra a ridícula exclusão de informações sobre a pederastia de Mário de Andrade. Acho pertinente biógrafos de Alfred Jarry incluírem a impressionante conta do fornecedor de vinhos e conhaques do criador da patafísica e sua irmã nos últimos anos, em Laval. Assim como André Breton, na Antologia do humor negro, situar no mesmo plano a contribuição literária e as loucuras e excentricidades de autores que examinou, discorrendo sobre os modos de Baudelaire apresentar-se publicamente, os disparos de revólver de Alfred Jarry ou a morte de Petrus Borel: recusando-se a usar chapéu por ser símbolo burguês, caiu vítima de insolação na Argélia. Exemplos da busca romântica da unidade de arte e vida. Dialeticamente, uma não existe sem a outra.

Qualquer hora, quero escrever umas crônicas memorialísticas. Assunto não faltará, podem crer.

Minha entrevista para a revista do Instituto Hilda Hilst: http://www.hildahilst.com.br/tag/massao-ohno

O que escrevi sobre a relação de Massao Ohno e Hilda Hilst: https://www.academia.edu/14384940/Massao_Ohno_Hilda_Hilst_e_a_busca_da_poesia_total

O extenso depoimento de Massao para a Biblioteca Mário de Andrade: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/memoria_oral/index.php?p=7862

Algo mais extenso contra o “recorte” de obra e vida: https://www.academia.edu/6467785/ANDRE_BRETON_critico_literario

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