Contra o uso impróprio, abusivo e cretino das expressões “surreal” e “surrealista” e das qualificações do Brasil como país “surreal” e “surrealista”

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Volto ao assunto inspirado pela capa da Isto É da semana passada, tratando das peripécias que levaram o ainda senador Delcídio Amaral a ser preso. Virou cacoete: toda vez que acontece algo grotesco, distópico, acham “surreal”. Já me havia manifestado a respeito: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/02/02/surrealismo-no-brasil/ . Sou obrigado a insistir: surrealismo é pensamento utópico. “Um movimento de liberação total, não uma escola poética”, como observou Octavio Paz. Método para a exploração do desconhecido, como o caracterizou Alexandrian.

“Brasil, país surrealista”? Antes fosse. Realizaria o lema bretoniano: Amor, Poesia e Liberdade.

A demagogia, o oportunismo, a inépcia, a pilantragem, a esculhambação, a baixaria, a corrupção na política e fora dela, a luta pelo poder e manutenção de privilégios a qualquer preço não são surrealistas. O baixo populismo não é surrealista. A hipocrisia não é surrealista. A mediocridade nunca é surrealista. O mau gosto pode ou não ser surrealista (Breton achava que poderia, e antes dele Rimbaud também viu poesia no mau gosto – mas sob condições muito específicas, penso), embora o bom gosto dificilmente alcance o surrealismo. A burocracia pode ser kafkiana, como em O processo, mas não é e jamais será surrealista. O sectarismo fanático pode chegar a ser dostoievskiano, como em Os demônios, mas não é surrealista. A violência raramente é surrealista, apesar da recomendação bretoniana de pegar um revólver e sair atirando pela rua como ato surrealista mais elementar, e do tratamento que lhe foi dado por Sade e Lautréamont.

Governantes ineptos, federais, estaduais e municipais, nada têm de surrealista, emb0ra possam inspirar realismos fantásticos. A especulação imobiliária não é surrealista. O planejamento urbano regido pela especulação imobiliária tampouco é surrealista. As atuais desgraças coletivas não são surrealistas: nossos apocalipses são patéticos. A degradação ambiental não é surrealista. A lama no Rio Doce não é surrealista; a proliferação dos desastres e a irresponsabilidade das autoridades e dirigentes empresariais que acarretam isso não são surrealistas. Desperdício, sujeira por tudo que é canto, poluição desenfreada, não são surrealistas. Epidemias de dengue e doenças ainda piores não são surrealistas. As ineptas concessionárias de telecomunicações que nos atazanam com tarifas exageradas e péssimos serviços não são surrealistas. Os espantosos serviços brasileiros de saúde pública e o escorchante atendimento privado não são surrealistas. Editores – alguns, publicando obras valiosas sob o ponto de vista surrealista – encerrarem atividades reclamando de livreiros e falta de políticas públicas em favor do livro, decididamente, isso não é surrealismo. Analfabetismo funcional não é surrealista. Chavões não são surrealistas – especialmente o chavão de designar escândalos brasileiros como surrealistas.

O surrealismo no Brasil está em outros lugares. Nas comunidades indígenas não contaminadas, ainda intocadas, que vivem em seu mundo mágico. Em ruínas que afloram inesperadamente; em anacronismos que podem surpreender. Em alguns cultos sincréticos que resistem à hostilidade dos fundamentalistas. No meio da natureza, inclusive aquela que inesperadamente invade o ambiente urbano. Entre marginais visionários; entre alguns artistas criadores em artes visuais, poesia e prosa, cinema, dança, teatro, música, multimeios etc, por vezes pouco reconhecidos, à margem. Em alguns ensaios e artigos mais instigantes. Nas mostras de artistas surrealistas nas quais muito mais gente aprenderia algo, se as visitasse. Encontra-se surrealismo em bons vídeos – obra toda de Buñuel está disponível e Limite de Mário Peixoto está sendo lançado – ou em algum programa de TV que contrasta com centenas de produções medíocres ou horrorosas passando no mesmo horário. Em bons livros que circulam quase secretamente. Amanhã às 16h40. Nos encontros em que se dialoga. O surrealismo está em amantes que têm líricos momentos de enlevo e gozo. Nas manifestações de generosidade autêntica. Na entrega à poesia e ao poético.

Saber enxergar o que se passa é surrealismo. A lucidez é surrealista. A crítica sem concessões ao que está aí é surrealista. Difundir surrealismo como se deve, promovendo a leitura de bons autores surrealistas, isso é ação surrealista. E imprecar quando nos chamam de “país surrealista”. A última grande exposição internacional surrealista, de 1965, chamou-se L’écart absolu – o afastamento ou ruptura absoluta. O texto de Breton apresentando a exposição permite interpretar o vocábulo, de muitos sentidos, como quebra absoluta de paradigmas. A realidade presente convida a tal afastamento, quebra, ruptura; e aos subseqüentes encontros e descobertas, bem longe daqui, logo aqui ao lado.

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5 responses to this post.

  1. Posted by José Ilton G. Santos on 05/12/2015 at 23:00

    Muito bom.

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  2. Parabéns pela postagem! Muito grato! Muito boa! Também me revolto cada vez que escuto ou vejo essa palavra de forma imprópria e em vão (é uma blasfêmia!)!

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  3. Posted by Maria das Graças dos Santos on 06/12/2015 at 07:22

    Oportuno e muito bom

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  4. O uso indiscriminado do ‘Surreal’ deveria, ao menos, incitar as pessoas a pesquisar sobre o Surrealismo, frequentando mais oficinas willerianas…

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  5. Também reparei no uso leviano do vocábulo estampado na capa desta revista que brotou na minha mesa de trabalho – aliás, neste dia eu trabalhei no setor que não me é dedicado. De primeira, achei que seria algo sobre arte, o que não deixaria de ser preocupante, talvez até mais, mas aí prestei atenção. Aliás, tenho-o reparado há muito, o uso leviano. Breton, como bem me atentou Sergio Lima, em tua vasta obra não deve ter usado o vocábulo meia dúzia de vezes, e bem avisou para deixar o termo no oculto (terceiro manifesto?). É como banalizar uma Ideia, sem ter ideia. Como eu adormeci para a política e agora muita coisa explodiu, aproveitei o ensejo e acabei lendo a revista e, da maneira correta ou não pois que desconfio destas fontes, até me ‘atualizei’, fiquei a par de alguns nomes, e tal, mas entre suas linhas eu me perguntava constantemente, “Surreal não, né?”

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