PÁTRIA EDUCADORA

E-mail que reproduzo aqui – omitindo remetente e tema – é o terceiro nos últimos 3 meses, sobre bancas de que eu faria parte se instituições não estivessem quebradas e conseguissem me levar lá. Postei no Facebook e agora reproduzo neste blog, que tem maior circulação, pela gravidade do problema. Adiciono alguns comentários à postagem na rede social, de profissionais que atuam em ensino e pesquisa, e completo com algo do que tenho a dizer a respeito:

O E-MAIL:

“Saudações! Infelizmente, devido à atual situação de penúria pela qual as instituições de ensino federais estão passando, não foi possível viabilizar em tempo hábil sua participação na banca de minha defesa de mestrado sobre * * * Entretanto, reitero a minha gratidão pelos seus ensinamentos preciosos sobre a * * * Utilizei bastante suas indicações! Se quiser, posso enviar a você uma cópia impressa do trabalho para apreciação!”

ALGUNS COMENTÁRIOS NO FACEBOOK:

Gabriel Pinezi: Muito triste… conversei com alguns professores por aqui, dizem que nunca viveram situação parecida. Lembrando que corte de verbas de custeio foi de 75%, mas os critérios para avaliar pesquisadores e programas de pós continuam idênticos. O plano deve ser esse mesmo: na lógica empresarial da pesquisa brasileira, o objetivo é fazer com que produzamos mais gastando menos. Ah!, sim, claro: bolsas de estudo atrasadas pra dezembro também.

Carlos Bueno: Nós prestadores de serviços às Instituições estamos sem contratos devido à situação atual de desgoverno

Daniel Lins: Pois é Claudio, este ano vivi pelo ao menos três situações semelhantes… É a pindaíba instituída em sistema. No meu caso, foram três federais… Em algumas situações, a mestranda/o ou doutoranda/o, sobretudo, pagam de seu bolso, para não “prejudicar minha carreira”, disse-me um mestrando desesperado, do sudoeste do Brasil.

Suely Train: Com esse corte das verbas de custeio da CAPES, simplesmente os programas de PG estão na maior penúria, agonizando… E não importa se são cursos de excelência. Aqui no nosso programa a coordenação já comunicou: bancas de defesas presenciais só se os membros forem da região. Se forem de outros estados, só será possível se for por vídeo conferência, Skype…

Meus comentários adicionais: Universidades e demais instituições de ensino e pesquisa estão aí para a transmissão e produção do conhecimento. Conforme o projeto iluminista, são agentes do progresso. No quesito produção, com esta falta de recursos, torna-se difícil cumprirem esse propósito. Isso atrasa o país todo; compromete nosso futuro. Fico irritadíssimo com episódios como esses aqui relatados. Meu interesse em participar não é por querer engordar currículo – o que tenho já basta – e pontuar no Lattes. Preparar arguição de trabalhos acadêmicos substanciosos é uma trabalheira infernal, muito maior do que dar aulas ou palestras. Quero colaborar, examinando temas e autores que conheço, nos quais – por exemplo, Geração Beat ou Jack Kerouac, entre outros – sou dos poucos especialistas disponíveis com a titulação, preenchendo os requisitos. E assim, cada vez mais, vão promovendo certames “pro forma”, arrebanhando quem estiver disponível para não onerar contas cujos recursos foram zerados. Ou então, fazendo mágicas. Por exemplo, na ótima tese de Gabriel Pinezi sobre Kerouac na UEL de Londrina, a orientadora me inscreveu em um edital para que desse um curso lá, assim cobrindo as despesas de passagem e uma boa ajuda de custo. Claro que fiz as duas coisas com satisfação, dar o curso foi ótimo. Mas nem isso estão conseguindo; fonte dos editais também secou. Bolsas concedidas normalmente, como “doutorado sanduíche”, hoje não mais.

A propósito do título – desta crônica? – desta invectiva? – deste desabafo? –, por onde anda Renato Janine Ribeiro? Alguém tem notícias dele? Não teve tempo de corrigir as distorções decorrentes de sua passagem pela diretoria de avaliação do CAPES. Sim, foi ele, burocratizou para valer, implantou essa coisa dos pontos, dos periódicos A1, B6, G4, sei lá. Humanistas podem tornar-se tecnocratas implacáveis. Tem gente boa postergando término e publicação de livro que pode ser importante, obrigada a fazer outras coisas que rendem a tal da pontuação para seguir em frente, manter-se na carreira.

Enfim, o que estamos presenciando me parece ser a culminância de um somatório de erros, evidenciados agora, nesta quadra de irresponsabilidade.

Anúncios

2 responses to this post.

  1. Posted by Jilson Jenio on 14/12/2015 at 23:10

    Prezado Willer: a quantificação do ensino de terceiro grau é anterior à gestão de Renato Janine Ribeiro. Começa com Haddad e é efetivamente implementada na primeira passagem desse asno chamado Aluísio Mercadante, que nem deveria chegar perto do Ministério da Educação, vez que não tem qualificação técnico-burocrática na área. É ministro de cariz político, tapa-buraco, coringa.

    Resposta

    • eu me referi à passagem de Janine na direção e avaliação do CAPES, não na breve passagem pelo Ministério, em que não teve tempo para nada. Quanto aos qualificativos para Mercadante, me parecem corretos.

      Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: