Leitura de fim de ano:

A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami, por Davi Kopenawa e Bruce Albert. Companhia das Letras, 2015.

(estou reapresentando o que postei no final do ano passado: dei-me ao trabalho de transcrever um dos parágrafos do prefácio de Eduardo Viveiros de Castro sobre o modo como o governo Dilma Rousseff tratou os índios brasileiros. Há mais, inclusive sobre Belo Monte, tratada como traição e já designada antes em artigo do antropólogo como atentado à diversidade – natural e cultural – ao longo do rio Xingu. Significativo um dos atos de despedida de Dilma ser a consumação do atentado, inaugurando a usina – para satisfação dos devastadores e com o silêncio complacente de setores que se têm como progressistas)

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São 730 páginas de depoimento: cosmogonia, biografia, relato da resistência de um povo indígena, através de um de seus líderes, com a colaboração ativa de um antropólogo.

Informe sobre o livro:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12959

Trechos:

http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12959.pdf

“Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa”, clama Kopenawa. Vou seguindo em frente na leitura, e reparando na sincronia de mitos. Quer dizer que a primeira tentativa de criar o mundo por Omama falhou? Mas isso também não está no colossal Popol Vuh dos quiché, a criação por tentativa e erro até dar certo? Dois irmãos antagônicos, Omama e Ioasi, regendo o mundo? Mas não é a história de Ormuz e Ahriman iranianos? Da fraternidade de Satanael e Cristo dos bogomilos? Queda do céu também é mito gnóstico. O mundo fascinante do comparatismo.

O prefácio por Eduardo Viveiros de Castro está disponível on line, no Academia.edu:

https://www.academia.edu/12865947/O_recado_da_mata

Pergunto-me se as observações do autor de Metafísicas canibais sobre a relação entre pesquisadores e seus objetos de pesquisa não poderiam ser transpostas também para o campo dos estudos literários. Situar-se na posição do autor lido / estudado, em vez da “objetividade” cientificista.

E não resisto a transcrever um parágrafo desse prefácio, com observações paralelas àquelas já publicadas neste blog – lembrando que este texto de Viveiros de Castro é de 2015:

O presente governo, e refiro-me aqui ao Executivo, desde sua comandante até seus ordenanças ministeriais, vem-se mostrando o de pior desempenho, desde a nossa tímida redemocratização, no tocante ao respeito a esses direitos, agravando a já péssima administração anterior sob a mesma gerência: procedimentos de demarcação e homologação de terras indígenas praticamente nulos; políticas de saúde mais que omissas, desastrosas para as comunidades indígenas; uma indiferença quase indistinguível da cumplicidade diante do genocídio praticado continuadamente e às escancaras sobre os Guarani-Kaiowá, ou periodicamente e “por descuido” sobre os Yanomami e outros povos nativos, bem como diante do assassinato metódico de lideranças indígenas e ambientalistas pelo país afora – quesito no qual o Brasil é, como se sabe, campeão mundial.

Também diz algo sobre Belo Monte e iniciativas afins. Acredito que Kátia Abreu, se lesse, discordaria, diria que é conspiração.

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