Mais sobre tardígrados: em ‘Os cantos de Maldoror’ de Lautréamont

Animal-resistente1

Apreciaram eu trazer o minúsculo e indestrutível bichinho, aplicado a administradores que retardam pagamentos a convidados para eventos culturais e desaparecem, não dão respostas. Isso, a propósito da Feira do Livro organizada pela prefeitura de São Luis do Maranhão em outubro passado, conforme relatado na postagem precedente – comentários à minha postagem no Facebook trouxeram á tona episódios análogos. Então, em vista do interesse suscitado, reproduzo mais uma imagem da criatura. E minha tradução do trecho de Os cantos de Maldoror de Lautréamont onde o descobri. É o final da primeira estrofe do Canto Quinto, tal como publicada na edição do Lautréamont completo pela Iluminuras. Gosto de ler e comentar esta maravilha do humor negro em palestras e cursos, para mostrar o uso abusivo de recursos de estilo e figuras de retórica, hipérboles, paradoxos, enunciados vazios e demais ataques à relação de significação, além do modo como pilhava outras fontes – inclusive publicações científicas. Vem com minhas notas de rodapé – em 1996/97, quando preparei essa edição, deu-me um trabalhão, fui a bibliotecas onde havia o Larousse e outras enciclopédias, hoje acharia tudo no Google. Ao final, link com informação atualizada sobre tardígrados, mostrando que Lautréamont sabia do que tratava:

[…]

Não é verdade, amigo, que, até certo ponto, tua simpatia foi conquistada por meus cantos? Ora, o que te impede de transpor os outros degraus? A fronteira entre teu gosto e o meu é invisível; nunca a poderás enxergar: prova de que essa fronteira não existe. Reflete, pois, que então (eu me limito a esboçar a questão) não seria impossível que houvesses firmado uma aliança com a obstinação, essa agradável filha do asno, fonte tão rica de intolerância. Se não soubesse que tu não és um idiota, não te faria semelhante recriminação. De nada serve que te incrustes na cartilaginosa carapaça de um axioma que acreditas ser inabalável. Há outros axiomas que também são inabaláveis, e que caminham paralelamente ao teu. Se tiveres uma marcada preferência pelos caramelos (admirável farsa da natureza), ninguém considerará isso um crime; mas aqueles cuja inteligência, mais enérgica, e capaz de coisas maiores, prefere a pimenta e o arsênico, têm bons motivos para agir dessa forma, sem a intenção de impor sua pacífica dominação aos que tremem diante de um ratão silvestre[1] ou da expressão falante das superfícies de um cubo.[2] Digo-o por experiência própria, sem querer fazer aqui o papel de provocador. E, assim como os rotíferos e os tardígrados[3] podem ser aquecidos até uma temperatura próxima à ebulição, sem perderem necessariamente sua vitalidade, o mesmo acontecerá contigo, desde que saibas assimilar, com precaução, a amarga serosidade supurativa que se desprende vagarosamente da irritação causada por minhas interessantes elucubrações. Ora essa, já não chegaram a enxertar nas costas de um rato vivo a cauda arrancada ao corpo de outro rato? Tenta pois, do mesmo modo, transpor para tua imaginação as diversas modificações da minha razão cadavérica. Mas sê prudente. Na hora em que escrevo, novos frêmitos percorrem a atmosfera intelectual: trata-se apenas de ter a coragem de encará-los de frente. Por que fazes essa careta? E tu a acompanhas, até mesmo, com um gesto que só poderia ser imitado depois de uma longa aprendizagem. Podes estar certo de que o hábito é necessário em tudo; e, visto que a repulsa instintiva, que se havia declarado desde as primeiras páginas, diminuiu notavelmente de profundidade, na razão inversa da dedicação à leitura, como um furúnculo que está sendo lancetado, deve-se esperar, embora tua cabeça ainda esteja doente, que tua cura certamente não tardará, certamente, a entrar em sua etapa final. Para mim, é indubitável que já vogas em plena convalescença; contudo, teu rosto ficou bem abatido, ai de ti! Mas… coragem! há em ti um espírito pouco comum, eu te amo, e não desespero da tua cura completa, desde que absorvas algumas substâncias medicinais, que só farão apressar-se o desaparecimento dos últimos sintomas da doença. Como alimentação adstringente e tônica, arrancarás primeiro os braços da tua mãe (se é que ela ainda existe), tu os picarás em pedacinhos, e os comerás logo em seguida, em um só dia, sem que qualquer traço do teu rosto traia tua emoção. Se tua mãe for demasiado velha, escolhe outro paciente, mais jovem e mais fresco, sobre o qual a raspadeira cirúrgica tenha domínio, e cujos ossos tarsos, quando caminha, encontrem facilmente um ponto de apoio para fazer o movimento do balanço: tua irmã, por exemplo. Não posso deixar de lamentar seu destino e não sou daqueles em quem um entusiasmo muito frio só simula a bondade. Tu e eu derramaremos por ela, por essa virgem amada (mas não tenho provas para afirmar que ela seja virgem), duas lágrimas incoercíveis, duas lágrimas de chumbo. E será tudo. A poção mais lenitiva que te aconselho é uma bacia, cheia de pus blenorrágico com nódulos, na qual previamente terás dissolvido um quisto piloso do ovário, um cancro folicular, um prepúcio inflamado, virado para trás da glande por uma parafimose, e três lesmas vermelhas. Caso sigas minha receita, minha poesia te receberá de braços abertos, como quando um piolho seciona, com seus beijos, a raiz de um cabelo.

[1] Musaraigne, no original: musaranho, ratão silvestre.

[2] Na edição Flammarion da obra completa de Lautréamont, seu organizador, Jean-Luc Steinmetz, interpreta essa imagem sobremodo enigmática como referência ao jogo de dados (o cubo), símbolo por excelência do acaso, do aleatório.

[3] Rotíferos e tardígrados são animalúculos, microorganismos, que se viram envolvidos nas polêmicas da segunda metade do século XIX entre Pasteur e outros cientistas, por sua capacidade de resistir a temperaturas elevadas. Comentaristas observam como isso mostra até que ponto Lautréamont recorria a publicações científicas.

MAIS EM: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tardigrada

3 responses to this post.

  1. Posted by Nereu Velecico on 18/01/2016 at 22:30

    Reli o final da primeira estrofe do exemplar n’Os Cantos de Maldoror, edição de 1970, Vertente Editora, com uma bela ilustração de Maninha. É uma experiência muito boa, digo só isso pela dificuldade de usar adjetivos que não contribuem muito para expressar essa experiência. Gostei da sua analogia com o piolho e a criação de uma imagem que ilustra bem o impacto. Talvez a analogia com o inseto de Gregor Samsa seja também inspirador.

    Responder

  2. sim, mas o piolho do Lautréamont é o inverso da barata de Kafka – é agressivo.

    Responder

  3. Posted by Low Rhahn on 19/01/2016 at 20:29

    Caro Willer, tudo bem? Me chamo Low. Gostaria de saber como faço para poder trocar uns escritos meus (livros) contigo. A linha que escrevo é de inspiração por Lautreamont e afins, então acredito que possa ter bastante interesse. Admiro muito seu trabalho e gostaria de ter esta oportunidade com sua pessoa. Grato desde já!

    Responder

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