A propósito da exposição “Frida Kahlo – Conexões entre mulheres surrealistas no México” no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo

Claudio Willer

Frida fotografada por Lola Alvarez Bravo_1942_lg

Encerrou-se a 10 de janeiro de 2016 com 600.000 visitantes, recorde de público. Resultado depõe a favor da mostra, do público, de Frida Kahlo, do conjunto de obras apresentadas, da curadoria de Teresa Darcq, da instituição promotora, da equipe que trabalhou no projeto. Permanece o catálogo: além das reproduções espetaculares, ninguém poderá reclamar da falta de informação, contextualização e bom apoio crítico. É anunciado que a mostra irá para o Rio de Janeiro, através da Caixa Econômica Federal.

E assim o surrealismo se expande entre nós, ao mostrar não só Frida, porém artistas como Leonora Carrington, também escritora, e Remedios Varo, ambas da minha especial predileção. Além de trazer novidades, criadoras de qualidade, porém menos célebres: Alice Rahon, Bona Tinterelli de Pisis, Bridget Tichenor ou Sylvia Fein. Isso, lembrando que o mesmo Instituto Tomie Ohtake já nos havia proporcionado Miró e mais Dali, além de mostras importantes por outras instituições. Que sua presença também se amplie no modo impresso, através de obras importantes ainda inéditas no Brasil (pobreza editorial, se compararmos com o que se encontra em Portugal) ou publicadas, porém confinadas a editoras sem distribuição comercial.

Organizei duas “visites guidées” à exposição, uma para os participantes do meu curso de surrealismo na Unicamp e outra, em vista do interesse suscitado, para os que haviam feito cursos anteriores de surrealismo comigo. Não chamei mais interessados por causa da limitação do número, grupos não poderiam ultrapassar 20 pessoas. O que vem a seguir é inspirado nas duas visitas, além do que disse naquelas ocasiões, complementando a competente monitoria.

André Breton, Diego Rivera, Leon Trotsky, Jacqueline Lamba

ANDRÉ BRETON, SURREALISTAS E AS VOLTAS QUE A HISTÓRIA DÁ: Hoje, Frida Kahlo é a artista mexicana mais valorizada, estudada e comentada. Tornou-se ícone. É pop. Saiu do Instituto Tomie Ohtake mas continua em pôsteres, alguns bem toscos, vendidos por camelôs-artesões da Avenida Paulista. Umas décadas atrás não se falava nela. Arte mexicana do século 20 eram os grandes muralistas: Diego Rivera em primeira instância, David Alfaro Siqueiros e Jose Clemente Orozco, além do pintor Rufino Tamayo. Quem se maravilhou com os quadros de Frida foi Breton. Conheceu-a na viagem ao México de 1938, quando encontrou Trotsky e Rivera. Encaminhou-a à galeria Julien Levy em Nova York, escreveu a apresentação da mostra, e depois à exposição Mexique em Paris. Rivera jamais moveu um dedo para divulgá-la. Sabemos, contudo, que Frida não se considerava surrealista. Declarou que sua arte retratava sofrimentos que nada tinham a ver com inconsciente e sonhos. Observei em outras ocasiões que o episódio mostra como Breton se pautava pelo valor: não estava interessado em angariar adeptos (despachou inúmeros), mas em mostrar o que tivesse qualidade – mesma atitude identificável no modo como elogiou e divulgou, entre outros, Aimé Césaire, Magloire de Saint’Aude ou Malcolm de Chazal.

Frida Kahlo, Diego en mi pensamiento

MULHERES. “Por que só mulheres?”, foi-me perguntado em uma das visitas. Ao focalizar mulheres, exclusivamente, e relações entre elas, a exposição traz algo simultaneamente moderno e arcaico. Moderno porque a presença forte das mulheres nas artes visuais, na literatura, em outros campos da criação, é historicamente recente, foi crescendo ao longo do século 20. Nossa sociedade já foi mais patriarcal: basta verificar quantas mulheres participaram do romantismo como protagonistas, não como musas (Madame de Stael? Marceline Desbordes-Valmore? quantas outras?). Ou do impressionismo, do simbolismo. Dentre os movimentos de vanguarda, um deles teve uma mulher à frente, o grupo de Bloomsbury com Virginia Woolf; e houve uma impulsionadora das vanguardas, Gertrude Stein. Quantas mais? Conta-se nos dedos. Maior número de mulheres atuando, publicando, observei isso em nossa geração Novíssimos, já em 1960. Mas houve confrarias de mulheres em sociedades tradicionais. Mircea Eliade, por exemplo, trata das “sociedades de mulheres” em povos africanos com rituais de iniciação e linguajar próprios, em ‘Initiation, rites, societés secrètes’. Entre nossos Carajás, assim como em outros povos, a separação de sexos chega ao ponto de haver duas línguas, dos homens e das mulheres. Ocupou um lugar central da exposição o quadro de Frida “Diego em mi pensamiento”, um dos autorretratos, no qual se apresenta em um traje cerimonial zapoteca, a tehuana: um símbolo de matriarcado. Maria Izquierdo é mostrada ou se mostra, em outro autorretrato, como “rainha vermelha” dos maias. Sabiam que estavam evocando ou revivendo tradições. E colocando-as em prática ao se apoiarem, colaborarem umas com as outras. E a mostra informa como Frida foi ativa; como se empenhou em favor de tantas artistas.

1 2  maria izquierdo O altar das tristezas (1943)

MARIA IZQUIERDO. Gostei da inclusão dela. Surrealistas não a examinaram. Por excesso de iconografia católica? Quem escreveu sobre ela e a indicou para uma exposição em Paris foi Antonin Artaud, em sua viagem ao México de 1936. Disse que a cruz cristã nas obras dela se transformava na cruz simétrica de tradições pré-colombianas. Também elogiou outro artista mexicano, Ortiz Monasterio. Observei em outra ocasião, nesses dois artistas, o tratamento dado ao corpo; ou melhor, aos corpos, decapitados, esquartejados. Destruir o corpo para refazê-lo, obsessão de Artaud, desde impressionar-se com Heliogábalo esquartejado e as castrações promovidas pelo tresloucado imperador até o “corpo sem órgãos” dos escritos finais. A exposição informa o papel desempenhado por Maria Izquierdo nessa confraria ou sociedade de mulheres. Foi precursora. Nascida em 1902, uniu tradição e modernidade, evocou o México arcaico e assimilou a arte européia contemporânea. Defendeu direitos da mulher; expôs outras artistas; foi boicotada, teve a encomenda de um mural cancelada por pressão machista de Rivera e Siqueiros: achavam que só homens podiam fazer obras de grande porte, um episódio vergonhoso – o oposto da atuação não só de Breton, mas de outros surrealistas, Duchamp, Benjamin Péret e Wolfgang Paalen, não expostos, porém devidamente mencionados.

Remedios Varo Minotauro

CABEÇAS E CORPOS: Séries de autorretratos, especialmente de Frida, bem comentados nos textos do catálogo, interpretados como afirmação ou questionamento da identidade. E corpos, vários esquartejados, decapitados, desmontados e remontados. Já tratei do assunto em palestras e cursos, projetando o que diz Octavio Paz em ‘Conjunções e disjunções’ sobre a “dialética da cara e do cu”, o antagonismo de mente e corpo, símbolos e coisas; e Eliane Robert Moraes em O corpo impossível, ao sustentar que os acéfalos e figuras humanas com cabeças de animais, em Bataille e no surrealismo, a exemplo de minotauros e dos “abraxas” gnósticos, são ataques ao “cogito” cartesiano, proclamações da morte de Deus. Minha adição a essas referências bibliográficas consiste em trazer Artaud, radical nessa questão; e, agora, esse desfile de variações sobre o tema, a tensão entre mente e corpo. Especialmente geniais são duas telas de Remedios Varo, seu minotauro e a “Mulher saindo do psicanalista” com suas múltiplas caras, bem como as “Três mulheres com corvos” de Leonora Carrington.

Traje de Tehuana

ARTE TOTAL. Além das telas, há esculturas, colagens, montagens de objetos, muita fotografia, cenografias, esboços e rascunhos. Um arco que vai da gastronomia à dança, passando pela fotografia, com Rosa Rolanda; uma coleção de vestuários, criados ou trazidos para as obras. Frida não apenas pintava e desenhava, mas vestia-se, assim como também Maria Izquierdo, simbolizando a identidade da obra e do artista. O propósito das vanguardas, de romper barreiras entre gêneros, modalidades ou sistemas de signos foi acentuado pelo surrealismo, com especial atenção aos objetos encontrados. É como se Duchamp, ausente nas paredes da mostra porém mencionado por sua atuação, estivesse nos bastidores, figura tutelar. A multiplicidade de meios é acentuada pela projeção de vídeos em outra sala.

Leonora Carrington

ARTE E VIDA. Quer dizer que Jacqueline Lamba, musa de Breton em O amor louco e sua esposa até 1944, e cujas obras expostas mostram que foi uma bela artista, teve um relacionamento amoroso com Frida? Isso, eu não sabia. Entre outras relações: amorosas, de colaboração ou solidariedade, de trabalho criativo, reveladas na mostra e no catálogo, rico em informação biográfica. Sempre me insurgi contra o vezo burocrático do “recorte”, de isolar obra e vida do seu autor, partilhado por formalistas e deterministas. O contrário do que defendiam Breton e demais surrealistas: jamais separar; buscar a unidade, a síntese, a superação das antinomias. A mostra ‘Frida Kahlo – Conexões entre mulheres surrealistas’ é legitimamente surrealista ao trazer vidas, personagens que se confundiram com obras, e não apenas os resultados do trabalho criativo. No título, a ênfase deve ser posta em “conexões”, nessa cartografia que confere mais sentido á criação. Cito com freqüência a observação de Floriano Martins, em suas antologias de surrealismo latino-americano, sobre o caráter coletivo como fundamento ou algo essencial no surrealismo. Ou, de Octavio Paz: “A atividade surrealista foi coletiva e individual”. E, é claro, “a poesia deve ser feita por todos, não por um” de Lautréamont – aqui, transposto para o campo da criação visual, ou de todas as modalidades criativas.

Alice Rahon

MULTICULTURALISMO, DIVERSIDADE CULTURAL O OUTRO: Sim, “México, país surrealista”. Mas justamente por não haver apenas o México, como delimitação política e geográfica, porém vários México. País assentado na memória e vestígios de uma diversidade de povos, desde as civilizações complexas, os impérios Maia e Asteca, além dos precedentes e remanescentes Tloltecas, Olmecas, Zapotecas, até as sociedades tribais, os Taraumara, Iaqui, Pueblos. Ambiente para receber uma diversidade de visitantes e refugiados, como a espanhola Remedios Varo, a inglesa Leonora Carrington, esoterista e cultora de tradições célticas, várias francesas, além de uma alemã, uma suíça, uma húngara. Ainda elaborarei algo sobre essa dialética de identidades e diversidades de origens.

 

O VALOR DE FRIDA: A explosão Frida, agora pop, onipresente, suscita a questão: até que ponto seu prestígio é modismo passageiro, reflexo de um drama pessoal, de uma vida de sofrimento? Ou ela veio definitivamente para ficar? A exposição dá a resposta: em meio a artistas grandes – Leonora Carrington e Remedios Varo sempre me fascinarão de modo especial – a obra de Frida brilha. Teve uma personalidade própria, fortíssima. Soube expressá-la através de sua arte, e também, como revela essa exposição, por sua presença, por sua íntegra atuação pessoal.

3 responses to this post.

  1. Muito bom Willer!

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  2. Republicou isso em Samuel Prado.

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  3. Parêntese para Breton…

    E as voltas que a história dá e Arte e Vida

    Lembro que Frida não gostava nada de Breton. Considerava-o qualquer coisa um déspota, além do que um péssimo anfitrião. Isso segundo consta na biografia da Dora Maar, por Alicia Ortiz, num passagem em que Khalo hospedou-se na casa do casal para uma exposição internacional, e achou detestável – de tudo um pouco. Aliás, nesta biografia, toda a vez que Breton é citado, é criticado (como pessoa/poeta – e não só nesta, também na de Kiki M., na de Buñuel… porém especialmente na de Dora M.)).

    Escrevo de maneira genérica pois não estou consultando a biografia agora, li há um tempo, sei que ficou bastante na minha cabeça.

    Abraço-o!

    Responder

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