A PROPÓSITO DE WILLIAM SHAKESPEARE E SUA DUPLA DATA, HOJE: 23 de abril de 1564 – 23 de abril de 1616

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(embora houvesse escolhido outros filmes, Laurence Olivier como Hamlet é ícone)
(nas minhas escolhas de adaptações, deveria ter citado West Side Story, de Leonard Bernstein, Robert Wise, Jerome Robbins – uma das amostras da permanência de Shakespeare, pelo modo como captaram a mensagem de Romeu e Julieta)

Para homenagear, inventei uma enquete. Postei uma série de perguntas no Facebook. Pelo maior alcance, prefiro reapresentar e publicar respostas aqui, neste blog. Observando que sou falível e tem gente que entende muito mais de Shakespeare – embora me pareça que fiz algo original, trazendo um pouco de informação adicional.

  1. HOJE É DIA DE SHAKESPEARE (1616-2016, etc). VOU FAZER ENQUETES. A PRIMEIRA (Quem acertar, autografo): Quais são as minhas duas peças preferidas de Shakespeare? Por quais motivos?

A Tempestade, por causa do surrealismo, o “We are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with a sleep.” – “somos feitos da matéria dos sonhos” etc, e o restante, toda a simbologia. Hamlet, por haver inspirado uma rebelião teatral romântica, por derrubar as categorias clássicas de unidade de tempo e espaço, pela trama sinuosa, pelas altitudes alcançadas pelo texto, por todas as razões já observadas por uma quantidade de ensaístas, mostrando como Shakespeare prefigurou o homem moderno. Poderia incluir também Sonho de uma noite de verão – contorço-me de dar risadas com a magnífica paródia, a metalinguagem, os idiotas encenando a história de Priamo e Tisbe e outros motivos que observarei adiante.

  1. SEGUNDA ENQUETE EM HOMENAGEM AO DIA DE SHAKESPEARE (essa é difícil): Quais as duas peças de Shakespeare preferidas por Jack Kerouac e outros beats? (Lucien Carr, William Burroughs etc). Qual trecho eles mais citavam?

As you like it (“Como lhe aprouver”, “como preferir” etc) por causa da floresta de Arden, refúgio da protagonista, que se disfarça como Orlando (inspirando a célebre narrativa de Virginia Woolf). “We are in the Forest of Arden” ou “Let’s go to the Forest of Arden”, para designar uma situação difícil ou a decisão de cair fora, afastar-se. Isso era frequentemente dito por Kerouac, Carr, Ginsberg, enfim, pela turma por volta de 1944. Henrique V, pela mesma razão – a idéia de enfrentar desafios – cultuavam o discurso da batalha de Agincourt. Kerouac repete trechos e trechos dessa peça no livro que acabei de traduzir, Some of the Dharma. Bem na juventude, com seu colega Sammy Sampas e outros amigos, formou um grupo de leitura de Shakespeare em voz alta, para aprender a prosódia. Esse aprendizado transparece em suas obras mais complexas.

  1. TERCEIRA ENQUETE EM HOMENAGEM AO DIA DE WILLIAM SHAKESPEARE, À DUPLA DATA: Qual é minha adaptação cinematográfica preferida de Shakespeare ? (Nota: não conheço todas – aquele filme russo de Hamlet que foi citado ontem no Globonews Literatura, não vi, quero ver)

Ran, adaptação de Rei Lear por Akira Kurosawa. Quando foi lançado, acho que em 1986, vi umas cinco ou seis vezes consecutivas. A beleza trágica. A intensidade. Os personagens: o menino cego, o bobo da corte, aquela esposa malvada suavemente dizendo “dozo… dozo…” enquanto se prepara para esfaquear o marido (Kurosawa trocou os gêneros, são irmãos traidores e não irmãs). A atuação de Tatsuya Nakadai (que já havia estrelado outro filme extraordinário do mestre, Kagemusha – se é que os dois não se equiparam). Kurosawa também adaptou Macbeth, Trono manchado de sangue. Deixa a impressão de que japoneses são shakespearianos, ou de que Shakespeare foi japonês. Claro que há muitas outras adaptações notáveis – o que Laurence Olivier fez. Orson Welles. Foi bem lembrada, nos comentários, a adaptação de A tempestade por Peter Greenaway.

  1. QUARTA ENQUETE SOBRE O DUPLO DIA DE WILLIAM SHAKESPEARE – essa é bem mais fácil: Quais as peças mais subversivas dele, que mais incomodaram e se chocaram com valores da época ou com o contexto político? (foram várias)

Aquelas que desafiaram a família tradicional, a autoridade patriarcal. Romeu e Julieta. Os já mencionados Sonho de uma noite de verão e As you like it. Shakespeare detestava casamentos arranjados, impostos. As destituições de tiranos – Hamlet, em primeira instância. Macbeth. Mas não Ricardo III, peça magnífica, mas ele falseou demais para agradar os Tudor contra os Lancaster, me parece. Julio César, por ser apresentado pouco depois de um atentado contra a rainha. Regicídios como tema, naquele tempo isso pegava mal, podia resultar em censura. Foram citadas as peças violentíssimas dele, como Titus Andronicus, mas acho que não, o teatro pré-elizabetano já era assim, sanguinolento.

  1. QUINTA ENQUETE RELATIVA AO DUPLO DIA DE WILLIAM SHAKESPEARE (acordei maníaco, inspirado, possesso?) São dois textos de Rimbaud com referência, menção direta a personagens de Shakespeare. Um, conhecidíssimo, é o poema “Ofélia”. Qual é o outro?

Essa, acertaram logo. “Bottom” (personagem de Sonho de uma noite de verão transformado em asno), uma das prosas poéticas de Iluminações. Já apresentei em aulas, como exemplo de escrita cifrada.

 

2 responses to this post.

  1. Estava esperando suas respostas, não conhecia muitas delas. Tb vi vi Ran umas três vezes. Akira Kurosawa é um dos meus diretores de cinema preferidos. E viva Shakespeare que realizou a façanha de nascer e morrer no mesmo dia.

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  2. Willer, “A Memória de Shakespeare” e “Pierre Menard, Autor Do Quixote”. Essas duas aventuras de Borges partindo de Shakespeare e Cervantes.

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