A sinopse e imagens da minha palestra sobre Geração beat em Brasília

“A Geração Beat na literatura, na vida e no cinema”, na Mostra de Cinema Geração Beat, Centro Cultural do Banco do Brasil, Brasília, DF, dia 13 de julho de 2016. Combinar com a produtora Roberta Sauerbronn algum modo de fazer que chegue aos que compareceram (lotaram auditório e faltaram senhas). Imagens ficaram ótimas, acho. Centrei em Kerouac por preceder a exibição de Na estrada de Walter Salles. Obviamente, não segui todo este roteiro – improvisei algo. Principal referência bibliográfica, meus dois livros, Geração Beat e Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico (ambos pela L&PM) – mas fui além, disse coisas que não estão nos livros. Pretendo postar também sinopse da minha palestra de ontem, 23/07, sobre xamanismo e poesia.

BEAT PARA O FESTIVAL DE CINEMA – BRASÍLIA

  1. Histórico, formação e caracterização da beat. A origem do termo: Jack Kerouac, 1948, conversando com John Clellon Holmes, autor de Go!Beat Generation Lost Generation. Beat: Herbert Huncke. O papel de Allen Ginsberg: constituiu a beat. William Burroughs, o mentor.
  2. Traços em comum:
    • Valorização da espontaneidade. A cultura hipster; os músicos bop; o abstracionismo lírico e Jackson Pollock; os atores formados no Actors Studio.
    • Religiosidade (a idéia de religiões pessoais): Schlegel: “Apenas aquele que tem uma religião dentro de si mesmo e uma concepção original do infinito pode ser um artista”. Gnosticismo. Citar Kral Majales de Ginsberg. Kerouac: “Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico”.
    • O episódio de Burroughs e Ginsberg: ambientalismo e mística da natureza: o mamífero em Michael McClure: isto é xamanismo.
      • “QUANDO UM HOMEM NÃO ADMITE SER UM ANIMAL, ele é menos que um animal. […] O HOMEM NÃO É UM ISÔMERO DE MAMÍFERO – ele é precisamente um mamífero. A rota para essa consciência é necessariamente biológica. A poesia é biológica. […] O homem é um mamífero se experimentando
  1. Recusa da massificação, da prosperidade: Kerouac. As declarações de princípios: “Sou pobre e por isso tenho tudo o que eu quero” em Visions of Cody; “Quero ser um negro” em On the Road. A fascinação pelo outro e a recusa da ordem estabelecida. Negros, vagabundos, índios, mexicanos – “são índios, não Pedros e Panchos” em OR; “fellás”, excluídos e marginais; os vagabundos:
    • Vanity of Duluoz: “pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe.”
    • Os subterrâneos: “olhar para três ou quatro índios atravessando um campo é para os sentidos algo inacreditável como um sonho”
  2. On the Road: obra da segunda metade do século 20 que mais exerceu influência? Bob Dylan, Lou Reed, Thomas Wolfe, Hunter Thompson, Eduardo Bueno etc. Kerouac, profeta da contracultura em Os vagabundos iluminados – depois rejeitou como massificação. O ataque por críticos acadêmicos e conservadores. O espanto provocado pelas biografias. Um renascimento de Kerouac: conforme O livro de Jack de Gifford e Lee, em 1976 só havia três títulos dele disponíveis na praça – hoje, edições de inéditos, reedições, ensaios e teses.
  3. A origem canuk, o bilingüismo. A relação com a língua, escrita e falada; transmissão oral (Miles, Zott) e leitura. Gabrielle e Léo Kerouac: provincianismo vs. cosmopolitismo.
  4. A relação de Kerouac com a literatura: Os subterrâneos, um exemplo, viveu / reescreveu a seu modo Memórias do subsolo de Dostoievski. Formação revelada através de pesquisas. Kerouac, o leitor de James Joyce, Louis-Férdinand Céline e muito mais.
  5. A questão da espontaneidade: mitos e fatos sobre a criação de On the Road e outras obras de Kerouac. A saga dos originais, do manuscrito original à edição final. O processo de criação – inversão do paradigma realista. Comparar Diários com On the Road. (o trecho sobre o Rio Mississipi). A confusão de relato factual e ficção: o artigo de Burroughs em Rolling Stone.
  6. Valor literário e On the Road. Texto polifônico e dialógico, ambivalente. Uma narrativa picaresca. O relato oral, escrever como se estivesse contando uma história para alguém. Humanizar personagens: “o romance é um gênero focado em gente”; por isso, “não se escreve a partir de um assunto, mas de viventes que colocamos em cena”.
  7. A espantosa ambivalência de Kerouac. Contraria-se. O final de Vagabundos iluminados e o começo de Anjos da desolação, opostos. Invenções, mentiras: o tratamento de Gary Snyder em Os vagabundos iluminados. Versões diferentes da mesma história em Viajante Solitário, Anjos da desolação, Os vagabundos iluminados.
  8. Sugestão: ler On the Road, Vagabundos iluminados e Anjos da desolação como trilogia de ascensão e queda.
  9. Paratextos em Visões de Cody, sua obra mais complexa (uma reparação, mitifica Neal Cassady após abandoná-lo no final de On the Road), junto com Doctor Sax. Vanity of Duluoz, de 1967: um testamento impressionante.
  10. A beat no cinema: alguns comentários: Burroughs. The Magic Trip. Na estrada.

 

Alguns links:

Minha tradução de Kral Majales de Ginsberg: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Kerouac no Steve Allen Show: https://www.youtube.com/watch?v=3LLpNKo09Xk

Kerouac e os haicais: http://forum.saxontheweb.net/showthread.php?229667-Jack-Kerouac-Blues-and-Haikus-album&s=25f66bbbdb00f14a6bf30abc9e3abf4f

Michael McClure e os leões: https://www.youtube.com/watch?v=djtmpdlXKEA

Trechos de minha palestra sobre Gregory Corso e leitura de “Bomba”: https://acasadevidro.com/2016/06/08/video-claudio-willer-e-a-bomba-beatnik-de-corso-declamacao-e-palestra-no-xi-coloquio-filosofia-e-literatura-catastrofe-pensamento-e-criacao-31-min/

 

5 responses to this post.

  1. Parabéns Willer! Muito bom! Gostaria de ter presenciado…

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  2. Willer, adoro seu blog. Gostaria de saber em que parte da edição brasileira de On The Road posso encontrar a citação do Kerouac que tu compartilhou, no caso, esta: “o romance é um gênero focado em gente”; por isso, “não se escreve a partir de um assunto, mas de viventes que colocamos em cena”.

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    • Raphael, não é em On the Road, é nos diários.

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      • Valeu Willer. Vou procurar esse trecho nos Diários. Meu objetivo é fazer uma analogia com a etnografia, que aborda determinados temas, não por eles mesmos, mas a partir dos “viventes que colocamos em cena”.

  3. comentário por-mail

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