“Inventário da Rapina” de Aloysio Raulino no Youtube: os poemas citados

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Conforme o que declarou e consta na ficha técnica do filme, um curta de 25’ de 1985, inspirou-se na leitura do meu Jardins da provocação. Leu meu livro e se pôs a filmar. O link é este: https://www.youtube.com/watch?v=S_wmzBC27qs&feature=share

Resolvi transcrever os poemas e trechos de poemas que ele reproduz no filme. A seguir. São de Jardins da Provocação e também estão em Estranhas experiências. Aloysio Raulino (1947-2013) morreu, infarto fulminante, ninguém esperava, durante a gravação de leituras de poesia no lançamento da antologia Poesia.Br, da editora Azougue (na qual estou). Dirigiu um longa muito bonito, Noites Paraguayas, vários curtas e médias, e atuou muito como fotógrafo. Foi um excêntrico muito estimado; pessoa boníssima, querido e respeitado pelos colegas de ofício.

Os poemas e trechos de poemas:

“Pelos 40 anos da morte de García Lorca”:

[….]

porque as pessoas não querem mais lembrar

e desistiram de falar

pois esta é a era do silêncio

silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos

silêncio vigiado e preso

silêncio de poeiras há pouco assentadas

pois todos estão mudos e perplexos

alguns mortos incomodam demais

e ninguém quer saber

ninguém quer ver

ninguém quer saber o que tem a ver

[….]

e acharam tudo muito bonito

gostaram demais dos textos

de fato, era um grande poeta

e ficou por isso mesmo

 

“O dia seguinte”

ajuda-me a desembrulhar esta cidade

e seus pacotes de percepção

guardados pelos dedos murchos do inverno

guardados pelos dedos murchos do inverno

encaminha estas cartas cifradas

e atravessadas na garganta

pronuncia as senhas

e nomeia os afogados

mostra o sentido vertical

e horizontal da vida

revela o que está oculto

por trás da turva sombra:

sinal dos tempos luminoso e precoce

clarão de aproximações

poeira de maremotos

correspondência fatal

de relógios transparentes

e bilhetes de chegada

 

“Viagens 3”

[…]

sinto-me no Brasil

sei que estou na minha terra

não o país amordaçado e sangrado

dos vômitos alaranjados

e bandolins cegos da repressão

não o país das fantasias de poder

(ampola de bismuto escrachada sobre a face do planeta

e gosma paranóica escorrendo de todos os jornais)

não o país torturado                          esmagado e prostituído

suas noites encarceradas em cofres-fortes

e posto à venda a preços de ocasião

não este país fantasmagórico

que se quer presente o tempo todo

e tenta invadir até mesmo nosso sono

porém outro país

redescoberto agora                           mais uma vez

neste encontro dos nossos olhares

outro país

que ainda lateja

sob o tapete trêmulo do Terceiro Mundo

[…]

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