TONINHO MENDES, ANTONIO DE SOUZA MENDES, 1954-2017

 toninho

Não fazia idéia do que fosse colaborar em uma publicação que tirava 100.000 exemplares, com distribuição nacional, dirigida preferencialmente aos jovens. Percebi mais tarde, pelas pessoas que me disseram que seu interesse por Geração Beat e contracultura havia sido despertado por minhas matérias em Chiclete com Banana: Joca Reiners Terrón, que a comprava ainda em Cuiabá, o também criador de quadrinhos João Pinheiro, entre outros.

O restante daquela revista é uma efusão única de criatividade e anarquia. Celebração frenética da liberdade em um Brasil recém-redemocratizado, finalmente livre da censura. Uma farra. Além do parceiro e amigo de infância Angeli com todos os Bob Cuspe, Mara Tara, Skrotinhos e Rebordosa, de Laerte, Glauco, Luis Gê e outros renovadores do humor brasileiro, havia Roberto Piva e as crônicas incendiárias (estão no Volume 3 de Obras Reunidas), Glauco Mattoso e seus elogios da perversão, Cacá Rosset com umas invenções incríveis, a musa Cristiane Tricerri, Guto Lacaz e mais invenções, integrantes da côterie de Toninho como Furio Lonza e Souzalopes. Ponto alto da sua contribuição como editor e artista gráfico, Chiclete com Banana durou pouco. Sem anunciantes, sem patrocinador, não era auto-sustentável, apesar da circulação extensa e dos leitores.

Como não havia dinheiro, Toninho propôs que cada colaboração minha valesse um convite para jantar. Nas duas primeiras, escolhi o Cantábrico, à rua Homem de Melo nas Perdizes. Encantou-se com as ostras, mandou vir bandejas. Na terceira, o Vikings do Maksoud Plaza: não se entusiasmou com os acepipes escandinavos, provou todos aqueles defumados com indiferença. Mas comer, para ele, era algo muito sério, desde as pirâmides de tudo sobre o prato no Chá Moon, quando trabalhava na Isto É ao lado, até, recentemente, no Caçador da Heitor Penteado, próximo de onde moro e ele morava, na Rua Bica de Pedra, fundão da Vila Pompéia ou começo da Lapa – sempre preferiu a Zona Oeste, visitei-o muito na casa-ateliê na Barão de Bananal.

Seu descomedimento – bebeu um bocado, entre outras fruições – parecia um índice de vitalidade, que nunca baixou nem baixaria: nada fazia prever o infarto fulminante que o levou. Nas ocasiões recentes em que o encontrei, enfrentava a crise brasileira com firmeza, encarando toda sorte de trampos, de frilas – algumas vezes, passou correndo para pegar o ônibus na Heitor, sem me ver – enquanto preparava novos projetos. No meu aniversário, queria-o em um jantar, mas não foi possível, pois ficou até tarde cuidando de um estande na Comic.Com. Conversamos na véspera do Natal, sentados no banco diante da frutaria da Rua Paulistânia – como sempre, rememorando e rindo. Comentou como se sentia bem aos 62 anos. Jogamos no bicho, prática na qual, filho de um bicheiro, era exímio – chegou a livrar-se de uma enrascada apostando o número de um prontuário policial e assim arrecadando a quantia de que precisava. Falou-me dos projetos: reedição e exposição da Confissão sobre o Tietê, novas mostras e coletâneas de suas realizações pela Circo Editorial, Peixe Grande e outras iniciativas. Consta-me que seu acervo está organizado. Se estivesse em órgão público ou instituição cultural forte, providenciava já uma mostra do que deixou. Tanta coisa, a série do Visconde da Casa Verde pela L&PM, as edições recentes recuperando o pornô e obsceno brasileiro.

Conheci-o através de Roberto Piva (de quem mais poderia ser?) em 1977 – apresentou-o em uma das leituras de poesia no calçadão da Itapetininga. Piva também o incentivou a ler e criar poesia, e prefaciou a Confissão sobre o Tietê. Poderia tê-lo conhecido na mesma época através de outro grande amigo, Marcos Faerman. Não obstante a forma como se desligou do jornal Versus, mais uma de suas criações gráficas – tirou a roupa, subiu peladão na mesa da reuniões para discursar contra a vinculação daquele jornal a uma corrente política –, continuaram amigos próximos, encontrando-se regularmente (acontecimentos subsequentes lhe dariam razão). Impressionava em Toninho esse modo de expressar opiniões e avaliações, de aprovação ou desaprovação, com absoluta clareza, sem meias medidas.

Provinha da Casa Verde. Fazia questão de apresentar-se como alguém da periferia. Da sua turma juvenil fizeram parte Angeli, outros cartunistas se não me falha (Glauco? Laerte?) e amigos que o acompanharam por toda a vida. Foi capaz de dialogar e relacionar-se igualmente com a marginalidade, o mundo alternativo e figuras da alta cultura e do empresariado. Convencia a todos pela honestidade.

Foi meu hóspede por alguns meses em 1980. Diagramava na Isto É, após o expediente ainda passava por outros lugares, mas conseguia chegar à Peixoto Gomide. Nós dois naquela revista, recortando e colando uma a uma as tiras de papel couchê – era assim que se fazia – dos poemas de Jardins da Provocação, para que ficassem na disposição gráfica do original. Adaptou-se bem, contudo, às mediações digitais. Sempre esteve à disposição, fez todos os panfletos e jornais de campanha de que precisei. Fiel aos amigos – como se empenhou pela recuperação do projeto gráfico original de Paranóia de Piva e Wesley Duke Lee, resultando na edição do Instituto Moreira Salles em 2000, por iniciativa de outro amigo, Antonio Fernando de Franceschi.

De todos os velórios a que compareci, este de hoje foi quando fiquei com a voz mais embargada, ao dizer algo para a filha e amigos. A expectativa de novas alegrias substituída pela sensação de um irreparável nunca mais.

 

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One response to this post.

  1. Posted by carlos roberto bicelli on 22/01/2017 at 01:31

    longo e importantíssimo trabalho. Toninho!!!

    Responder

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