RADUAN NASSAR, O CAMÕES E SUA REPERCUSSÃO: A PROPÓSITO DO QUE HAVIA PUBLICADO NO FACEBOOK

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Repercutiu, tornou-se viral – por isso, reproduzo aqui, com observações adicionais. Teve adesões, críticas e apenas dois “haters”; ou seja, ambiente melhorou desde 2014. Um dos xingadores, Jorge Henrique Bastos (aquele que era da Martins Fontes? que coisa), além de depreciar-me como poeta (não ligo, tenho os leitores que mereço e não sou perseguidor de glórias) escreveu que apoiei o regime militar (jamais…! meu dossiê de atuações contra a ditadura é grande) e fiz carreira em cargos públicos – nem tanto e só em governos eleitos democraticamente, isso sem desmerecer quem ocupava cargos durante os militares e fez boas coisas, por exemplo o pessoal do então Serviço de Teatro da SEC do MEC que premiou autores censurados.

Aí vai o post:

ACHO QUE HOJE PERDI A PACIÊNCIA. Cada um escolhe a resistência e os heróis da resistência que preferir. Governo Temer é no mínimo deplorável e a perpetuação da corja ou parte dela deve ser denunciada. Mas desinformação e ingenuidade, somada à produção de bobagens, precisam ter um limite. Raduan Nassar é ótimo – benemérito inclusive, doou sua propriedade rural á UNESP – retifico, à UFSCar – , e eu queria ter registrado o que ele me disse sobre Jardins da Provocação em 1981. Merece as homenagens. Mas, durante o regime militar, absteve-se – chegou a sustentar que não houve censura de livros durante o dito regime – isso em julho 1981, em um encontro de escritores, UBE e SESC, eu estava lá, ele levou uma bronca do Péricles Prade (então presidente da UBE, havia atuado no caso Herzog) por isso. Não participou da visita ao Armando Falcão da Lygia, Nélida, Antonio Torres e outros escritores para protestar contra a censura. Nem de mais nada. Não acho que isso o reduza ou deva ser cobrado. Tem o direito de tomar a posição que bem entender em cada circunstância. Já Roberto Freire era dirigente do PC, o Partidão, com militantes presos, torturados e até mortos. E daí? São as voltas que o planeta dá sobre si mesmo? Baudelaire e a defesa do direito de contradizer-se? Provavelmente. Se a reunião de 1981 fosse de adeptos do regime militar e não de opositores, então ele defenderia a redemocratização? Mas as manifestações sobre esse episódio da premiação, do Camões deveriam conter mais informação e menos demagogia. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando e está omitindo, de ma fé. Estão inclusive enganando a garotada, o pessoal que chegou mais recentemente. Obliterar a história, esquecendo quem estava em qual lugar quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe) é péssimo, não se justifica de modo algum.

Como refutação, circulou algo do Brasil 247, que obviamente desconsidero (propaganda paga, não), e um artigo de Pádua Fernandes intitulado “Desarquivando o Brasil CXXXIII: Raduan Nassar e a ditadura militar”, citando-me. Este: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2017/02/desarquivando-o-brasil-cxxxiii-raduan.html

As informações de Pádua Fernandes são corretas. Sim, Um copo de cólera é lido como literatura de resistência, inclusive por gente do calibre de Leyla Perrone-Moisés e Milton Hatoun. E sim, Raduan publicava o Jornal do Bairro no fim da década de 1960, fichado pelo DOPS, e foi sócio da PAT Edições indexada pelo CENIMAR.

Mas isso não contradiz nada do que escrevi, nenhuma das informações do meu post. Jornalismo de resistência eram Pasquim, Opinião, Movimento (onde publiquei), Versus (onde colaborei) e outros tablóides de combate. Muito visitados pela repressão. Ter ficha no DOPS pouco significa, isoladamente. Sei disso por haver examinado minhas cinco fichas. Feitas por uns burocratas que não tinham noção (felizmente) e anotavam qualquer coisa – mais burros, só os censores. Iniciativas de maior alcance, não repararam. Federais, exército e SNI, eram mais perigosos: naquelas leituras de poesia na porta da Brasiliense no calçadão da Itapetininga em 1977, a quantidade de tipos fotografando e gravando que não eram jornalistas, mas o DOPS nem reparou naquilo.

E a interpretação de Um copo de cólera como literatura de resistência é de 1996, nos substanciosos Cadernos do Instituto Moreira Salles. Quando saiu, não lemos assim aquele desabafo de um machão desenfreado de uma só extensa frase. Literatura de resistência, no campo da narrativa em prosa, eram, entre outras, As meninas de Lygia Fagundes Telles (que ganhou Camões em 2005), com relato de tortura, ou Zero de Ignácio de Loyola Brandão, também com cenas de tortura e proibido na época. Pelo mesmo motivo não podia no Brasil O livro de Manuel de Julio Cortázar, comprei meu exemplar em Buenos Aires – mas, com toda a grandeza de Cortázar, naquele momento Zero me impressionou mais. Aliás, aí estaria um bom premiado do Camões, o Loyola, inclusive pelo antecipatório Não verás país nenhum e o experimental Os dentes ao sol. Sem comício e claque na entrega – em 1980, andava de estrelinha vermelha na lapela, foi se decepcionando e distanciando, perdeu de vez a paciência ao ser lesado pelo BANCOOP.

Isso, em prosa – em poesia, Ferreira Gullar levou um Camões em 2010, para decepção da banda sectária. Se é para registrar poemas de resistência, também lembro o belo Coração Americano de Renata Pallottini, apresentação no Municipal, organizei, foi outra das ocasiões em que o DOPS não chegou a tempo.

FINALMENTE, houve objeções a este trecho: “quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe)”. Acho a comparação entre o que houve e o que está acontecendo agora uma ofensa a muitos que tiveram que agüentar o regime militar (além dos que não agüentaram). Em dada altura, lá pela década de 1970, parecia escuridão sem luz no fim do túnel. Hoje tenho acesso ao que quiser, vou aonde me aprouver sem olhar sobre o ombro para ver se tem alguém seguindo. Sustos que passei, registros das vezes em que dei sorte (outros não tiveram a mesma sorte), não, nunca mais. Diferindo dos regimes de força, governo Temer tem data para acabar. Se anteciparem saída (pode acontecer, levando junto o Jucá massacrador de Yanomamis, Lobão e outros ex-ministros de Dilma), Brasil passaria a ser presidido por Rodrigo Maia – grande troca. Alguns militantes declaram que precisa mudar tudo – mas nesse caso, não teriam que fechar o Congresso…? Legalidade é só para cobrar dos outros? Ah, sei, uma ilegalidade justificaria a outra. Ou então, preparar-se para disputar eleições – manifestações de “fora Temer” podem até contribuir para mobilizar, aproveitando inteligentemente a conjuntura democrática. Eu focalizaria uns temas institucionais. Reforma partidária, chega dessas alianças doentias entre partidecos. Desburocratização, esse pessoal, que reclama das investigações e processos em curso tinha que olhar como é na Inglaterra etc – até em países que parecem ainda mais frouxos que o Brasil a delação da Odebrecht está tendo consequências rápidas.

Mas não, essa gente só quer mesmo recuperar o poder, impor suas crenças político-religiosas (‘catecismos leigos’, onde li essa expressão – no Roberto Calasso, eu acho, ou foi no Octavio Paz?). Vale qualquer coisa, e o episódio Raduan Nassar é um triste exemplo.

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