Novo curso na Casa das Rosas: barroco e surrealismo

 

Onde: Na Casa das Rosas, à Avenida Paulista, 37

Quando: Ao longo da próxima semana, de terça a sexta feira – dias 11 a 14 de julho, das 19 às 21 h.

Aprecio desafios intelectuais. Começarei criticando designarem como “barroco” todo texto mais suntuoso, exuberante, não-linear, valendo-se de tudo o que a estilística e a retórica oferecem; e como “surrealista” tudo o que parecer obscuro, hermético, delirante, incompreensível. Argumentarei que imagem surrealista e metáfora barroca correspondem a poéticas e visões de mundo distintas. Observarei, porém, que correntes literárias e artísticas não são partidos políticos, organizações fechadas. E os barrocos, especialmente os maneiristas, também enlouquecem. Há autores nos quais surrealismo e barroco, metáfora e imagem, se tocam e confundem: pretexto para examinar poetas da minha especial predileção, como García Lorca e Jorge de Lima. Quem sabe, prosadores como Guimarães Rosa ou Campos de Carvalho? O manancial de bons autores hispano-americanos do século 20? Talvez uma nova tentativa de situar Herberto Helder? (ou não, quando trato de Helder começo a falar sem parar) Mas mostrarei como o próprio André Breton expressava-se em prosa de modo barroco. Aliás, Octavio Paz e Julien Gracq também achavam isso, ou algo parecido. Citarei a frase algo irônica do bom estudioso de surrealismo Carlos M. Luís: “Quando leio Breton, ouço Bossuet.” O curso é qualificado como oficina pela Casa das Rosas; por isso, faremos alguns exercícios de leitura – será divertido e instigante.

INFORMA A CASA DAS ROSAS:

CURSO BARROCO E SURREALISMO

Por Claudio Willer

11, 12, 13 e 14/7, terça, quarta, quinta e sexta-feira, às 19h

Carga horária: 8 horas. Inscrição do curso deve ser realizada presencialmente na Casa das Rosas. É necessário confirmar a inscrição frequentando a primeira aula do curso. Faltar na primeira aula implica o desligamento automático do aluno.

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura

Avenida Paulista, 37 – próximo à estação Brigadeiro do metrô. Funcionamento: de terça a sábado, das 10h às 22h. Domingos e feriados, das 10h às 18h. Convênio com o estacionamento Parkimetro: Alameda Santos, 74 (exceto domingos e feriados). Telefone: (11) 3285-6986 | (11) 3288-9447 | http://www.casadasrosas.org.br

 

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3 responses to this post.

  1. FLORIANO MARTINS | Três comentários breves

    1 | Ah sim, tua abertura está bem temperada. Boa lembrança de Rosa e Carvalho. Helder me parece da terra exótica do não-qualificável. Breton era um barroco clássico na prosa e no poema era apenas um poeta razoável. Octavius Pace cometeu todos os crimes de quem sabe pela vida apagando os próprios rastros, reescrevendo a bel prazer a própria biografia. Carlos M. Luis já é um nobre defunto esquecido. Tenho seu livro de ensaios que deixou inédito. Poucos meses antes de morrer me havia enviado uma cópia impressa, me pedindo para revisar. Já pensei em editar, pela ARC, mas aí como pagar pela tradução e também pela gráfica?! Mesmo dilema eu tenho com um amplo volume de ensaios sobre César Moro e Enrique Molina, de André Coyné, cujos originais deixou comigo, corrigidos de próprio punho. Também tenho originais inéditos de Carlos Eurico da Costa. Eu tenho coisa que até o diabo desconfia. Como o capítulo final de Trés tristes tigres, que Cabrera reescreveu e mandou para um amigo. Não sei o que fazer com isto. Sei que com os 15 mil reais eu faria quatro belos livros, na casa de 100 exemplares de cada, como fiz com Cruzeiro Seixas e Sergio Campos.

    2 | Neruda é sub-barroco, assim como sub-surrealismo etc. Tudo em Neruda é fake absoluto e garantido. Se um dia voltar a escrever sobre ele tratarei de observar o patético camaleão que foi, certamente acreditando que o mundo era uma caixa de tolos. Barroco na América Hispânica possui três chaves de entrada: a primeira é a riquíssima distinção entre Lezama Lima e Alejo Carpentier, não apenas de ordem formal ou estilística, mas, sobretudo, abordando o destino que ambos davam ao tema, sendo Carpentier mais um iluminista e Lezama um metafísico, ambos dando ao tema conotação bem “novo mundo”. A segunda chave é a da fusão entre Barroco e Surrealismo, brilhantemente alcançada por poetas como Enrique Molina e Ludwig Zeller. A terceira, porque também vale abordar o equívoco, quando este ambiciona um trono histórico, é o malsinado “neo-barroco”, que parte de uma leitura equivocada de Severo Sarduy do romance Paradiso, do Lezama Lima. De repente, poetas contorcionistas no México, no Uruguay, na Argentina, em Cuba e até mesmo na fronteira sul do Brasil, adotaram essa linguagem cifrada, pretenciosa, artificial e meramente decorativa, baseado no fato de que a essência da escrita de Lezama era a impenetrabilidade. Mas há casos isolados, tais como Cabrera Infante e o poeta chileno Pablo de Rokha, que merecem boa leitura. Jorge de Lima está correto. Outro brasileiro que talvez devesse ser evocado é o Alcântara Machado, sobretudo nas peças de teatro e romances. Não esquecer que o Surrealismo em Lorca melhor se define em seus desenhos e nas duas primeiras peças de teatro. Sorte com o tema.

    3 | Neruda é completamente sub, se buscarmos a essência, o princípio-motor. As residências são a sua busca de integrar uma vanguarda, ele tinha um frenesi diabólico por querer fazer parte de seu tempo, assim como do passado e do futuro. Era um guloso astronômico. Estás certo sobre o livro do Severo – e foi este livro que gerou toda a equivocolatria em torno do “neobarroso” -, mas já não encontro em seus livros aparentados do Big Bang – Nueva inestabilidad (1987) e Un testigo perenne y dilatado (1993) – nenhum sinal de boa poesia. Einstein seria fatalmente melhor poeta do que ele. Tenho os livros de ensaios curtos e também o volume de receitas culinárias. Era um guloso também. Assim como José Kozer. Esse lado cubano, da voracidade a todo custo, não me interessa mais. Salvador Dalí recorda que as imagens de Poeta en Nueva York foram criadas a frio, intelectualmente, que Lorca ia e vinha sobre cada uma delas, como um obsessivo. Por isto defende que o grande Lorca surrealista é o dos desenhos automáticos. As duas primeiras peças de teatro também são da mesma safra. Assim que passarem cinco anos (1931) e O público (1933). A primeira eu estou traduzindo para a Sol Negro edições, juntamente com um estudo introdutório meu e a tradução de Divã no Tamarit (1940).

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  2. Não vejo relação entre as residências nerudianas e Huidobro. Huidobro era um quase surrealista que odiava o surrealismo porque não tinha sido descoberto por ele. Fez pirraça na forma de 10 manifestos que escreveu do que passou a chamar de Creacionismo. Leia meu estudo introdutório a Tremor de céu (Sol Negro, 2015). Em 2018 sairá Traduções do universo, uma coletânea de manifestos, ensaios e entrevistas de Huidobro que preparei para a mesma Sol Negro. Neruda chupou muito da geração ’27 espanhola, sobretudo Gerardo Diego e Rafael Alberti. A propósito, valeria cotejar proximidades de Herberto Helder com dois poetas dessa geração: Jorge Guillén e Miguel Hernández. Ao longo de sua vida, Breton torceu o nariz para três coisas: quem não escrevesse em francês, quem fosse homossexual e quem gostasse de música. Uma tolice imensa que o deixou simplesmente de fora de valiosas perspectivas de ampliação do Surrealismo. Buñuel deixou claro que foi muito pequena a participação de Dalí nos dois filmes, principalmente L’age d’or. Na Residência dos Estudantes, em Madri, todos eram suspeitos, exceto Lorca. Boa lembrança, a de Emilio Adolfo Westphalen, foi vigoroso e autêntico em seus dois primeiros livros, da casa dessa fusão de Barroco e Surrealismo. Depois foi morar em Portugal e seguiu em uma poética aproximativa de um Vladimir Holan, por sinal muito pouco lembrado como surrealista. Quanto ao Girondo, começando por En la masmédula, este não é nada, porque é escrito e publicado em 1954, quando aqueles jogos semânticos já haviam sido bastante usados por outros poetas, inclusive levado ao extremo por Ghérasim Luca. O resto da obra de Girondo, o aproxima de Oswald de Andrade, uma mescla de futurismo, construtivismo e até mesmo do poema-piada. Girondo é uma espécie de vanguarda datada. Curiosamente mantém algum frescor, exceto no livro En la masmédula.

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  3. Percebo que jamais estaremos de acordo sobre Neruda. Não te esqueças que ele escreveu e publicou até o ano de sua morte, 1974. 24 poemas é inteiramente chupado (incluindo versos inteiros) do poeta indiano, Rabindranath Tagore, que ele conheceu porque ambos pertenciam ao mundo diplomático. As residências são de 1935 e 1947. Ele sempre chegava atrasado. Sinceramente não vejo um fiapo de sombra de Huidobro em Neruda. Talvez algo de Últimos poemas, de 1948. Huidobro teve uma fase que vai de Horizon carré (1917) a Automme régulier (1925), que era bem herança de Apolinaire.

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