BILHETE PARA O BIVAR, de Roberto Piva

©twjonas

Soube há pouco que Antonio Bivar se foi. COVID. Poema do Piva para ele, de Estranhos sinais de Saturno, desgraçadamente atual. Foto de tw jonas, abril do ano passado, após mesa sobre contracultura e lançamento de Dias ácidos, noites lisérgicas.

BILHETE PARA O BIVAR

hoje é o dia que os
anjos descem nas
catacumbas de cimento
sem o aviso das
máquinas de empacotar
sem saltar sobre
caramanchões de poluição
disseminando comportamento
de Lacaio
é o momento do
último homem
o que dura mais
tempo
é o tempo do crime
& sua prova
a caveira que ri
na noite vermelha
a explosão demográfica
& a fome a galope
é o Sol mudo a
Lua paralítica
Drácula janta na
Esquina

E para que ser poeta
em tempos de penúria? Exclama
Hölderlin adoidado
assassinos travestidos em folhagens
hordas de psicopatas
atirados nas praças
enquanto os últimos
poetas
perambulam na noite
acolchoada

Dez anos sem Roberto Piva: 25 de setembro de 1937 – 3 de julho de 2010

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A foto é de uma palestra sobre Paranoia de Piva no MIS em 2016, examinando a relação entre os poemas e as imagens por Wesley Duke Lee. Outra palestra dessas, sobre o mesmo tema, na Tapera Taperá, está preservada, com vídeo disponível. Havia um convite para dar curso sobre Piva agora, neste meio de ano, que infelizmente rodou, por causa da pandemia.

A relação de dissertações e teses sobre Piva que organizamos para a Biblioteca Roberto Piva: https://bibliotecarobertopiva.wordpress.com/dissertacoes-e-teses/ . É um dos indícios – o principal, evidentemente, são os leitores – de como, à margem por décadas, agora é o poeta mais influente de sua geração.

Além dos três volumes da Obra Reunida pela Globo Livros, e da reedição de Paranoia pelo Instituto Moreira Salles, o leitor encontrará a coletânea de entrevistas Encontros – Roberto Piva pela Azougue e os inéditos de Antropofagias e outros escritos pela Córrego.  Aguarda-se a publicação de Corações de Hot-dog, do qual já publiquei algo neste blog.

Três ensaios em Academia.edu:

https://www.academia.edu/20566138/ROBERTO_PIVA_E_A_POESIA

https://www.academia.edu/20798539/ROBERTO_PIVA_E_O_SURREALISMO

https://www.academia.edu/21072084/ROBERTO_PIVA_POETA_DO_CORPO

Voltarei ao assunto – deu vontade de publicar mais. Quanto ao curso, fazer, usando os recursos de webcam. Na palestra de segunda feira passada sobre Alfred Jarry, tudo funcionou bem. Retomar.

 

 

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Nova palestra sobre Alfred Jarry e o Doutor Faustroll

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Pelo Google Meet. Informam os organizadores:

Quando e onde: 29/06/2020 – Segunda Feira – das 18h às 19h30 na sua Casa

Com Claudio Willer (escritor e tradutor) e João Andreazzi (diretor artístico e coreógrafo).

O texto “Os dias e as noites e Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico” Uma Novela Neo-Cientifica,  de Alfred Jarry , que escreveu seus primeiros fragmentos em maio de  1895, no Mercure de France,   recentemente traduzido para o português por Eclair Antonio Almeida Filho, que por indicação de Claudio Willer, convidou em 2014 a Corpos Nômades a fazer uma montagem inspirada nessa novela.

Embora mais conhecido como o criador da peça Ubu Rei, Alfred Jarry é um autor extremamente complexo. Ubu Rei um fragmento de uma obra colossal: são 4.500 páginas, em três volumes da coleção Pléiade. Inclui narrativas como Le sûrmale (O supermacho), Os dias e as noites e Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico. Nesta, apresenta os fundamentos da Patafísica, “ciência das soluções imaginárias”, dedicada ao estudo do particular e dos epifenômenos.

Fascinado pela ciência, assim como por hermetismo e ocultismo, antecipou as representações do Universo e do mundo sub-atômico concebidas por Einstein, Max Plank e Heisenberg. Chegou a transpor noções de física atômica e eletromagnetismo para a linguagem: palavras seriam objetos com propriedades eletromagnéticas, atraídas ou repelidas.

Antecipou a noção futurista de “palavras em liberdade” (Marinetti o traduziria para o italiano, já em 1909), bem como a concepção surrealista expressa no título da primeira obra de escrita automática, Les champs magnètiquesOs campos magnéticos, de 1919. Personagem de si mesmo, levou, como observa o ensaísta Roger Shattuck, a fusão de poesia e vida até o limite da autodestruição.

“Este projeto foi realizado com o apoio do Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura”.

Data: 29/06/2020 segunda das 18h às 19h30.

Público Alvo: escritores, poetas, artistas das artes cênicas, estudantes e as pessoas interessadas no tema.

Local: na sua casa, plataforma da Oficina Cultural Oswald de Andrade (Poiesis).

Inscrições: através da Plataforma Digital poiesis.org.br/maiscultura, link: http://poiesis.org.br/maiscultura/oficinas_culturais/alfred-jarry-criador-do-patafisico-dr-faustroll/

Vagas: limitada à capacidade da plataforma digital, junto ao Google Meet.

Faixa Etária: acima de 18 anos.

A Cinemateca Brasileira: como reagir à destruição das nossas políticas culturais públicas

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A Cinemateca Brasileira foi agregada ao então Ministério da Educação e Cultura, MEC, em 1977. Era então presidida pela escritora Lygia Fagundes Telles. Seu companheiro, o crítico e estudioso de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, acabara de falecer: o fundador e dirigente da Cinemateca  junto com outro personagem extraordinário, Francisco Luiz de Almeida Salles. Do trabalho desenvolvido desde então, destaco a digitalização de obras cinematográficas.

Em 1977… Durante o regime militar, no governo Geisel… Lygia tratou da salvação da Cinemateca com a então titular da pasta, Esther de Figueiredo Ferraz, ex-reitora do Mackenzie (expulsou dois amigos meus do último ano de Arquitetura em 1989, com base na infame Lei 477).

O informe ilustra a dupla face do regime militar. De um lado, implacável censura. Por exemplo – entre milhares de exemplos – qualquer coisa de Plínio Marcos era proibida, e Chico Buarque foi obrigado a adotar um pseudônimo. De outro, criação e ampliação de órgãos culturais públicos; alguns, como o IPHAN e INL, que vinham desde o governo de Getúlio Vargas, na gestão de Gustavo Capanema.

O governo Bolsonaro  vai além do regime militar que vigorou de 1964 a 1985. Censurar não pode, pois a Constituição impede: limita-se a alimentar seus veículos de propaganda de um fascismo rasteiro. Mas está liquidando as políticas culturais públicas existentes. Desencadeia sua “guerra cultural” – conforme proposta por seus ideólogos – através de uma estratégia de terra arrasada. Um dos exemplos, esta supressão de recursos para a Cinemateca.

A Constituição estabelece algumas obrigações do governo com relação à cultura. Fiz parte, inclusive, do grupo de representantes de entidades culturais que apresentou propostas aprovadas e incorporadas à Carta Magna.

Não sou advogado, mas tenho alguma experiência em  políticas culturais e sua legislação. Acho que, além das manifestações de protesto, é possível – necessário, talvez? – entrar com medidas judiciais para frear essa destruição. Isso vale para o caso da Cinemateca, para as enormidades de Sergio Camargo na Fundação Palmares e outras barbaridades – inclusive aquelas contra os “indígenas” abominados pelo atual (ainda) titular da Educação. Transcrevo, da nossa Constituição. Parece-me claro, evidente:

Título VIII
Da Ordem Social

Capítulo III
Da Educação, da Cultura e do Desporto

Seção II
Da Cultura

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

    § 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

    § 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

    § 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:

        I –  defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;

        II –  produção, promoção e difusão de bens culturais;

        III –  formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;

        IV –  democratização do acesso aos bens de cultura;

        V –  valorização da diversidade étnica e regional.

Filmes à margem, 16: Myiamoto Musashi

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Ou ‘Trilogia samurai’ Na versão em três episódios, realizados entre 1954 e 1956, por Hiroshi Inagaki, com Toshiro Mifune, Takakura Ken e Mariko Okada. Baseada no romance Musashi, por Eiji Yoshikawa. Música de Ikuma Dan. Fotografia de Jun Yasumoto.

E viva o esteticismo. Sim – a versão subsequente sobre o lendário samurai, por Tomu Uchida, é superior. E sim – os samurais de Hakira Kurosawa são mais próximos de seres humanos, mais distantes da mera estetização da violência. Aliás, tudo em Kurosawa é superior – quantas vezes assisti a Ran (oito vezes?) ou Kagemusha? Evidentemente, a realidade samurai – digamos assim – após a centralização do poder e derrocada do feudalismo é retratada  de modo mais fiel em Seppuku / Haraquiri de Masaki Kobayashi. E também em Kagemusha de Kurosawa: belíssimo, mas retratando a derrocada de um bando de idiotas sanguinolentos.

No entanto, como esta versão de Inagaki é bonita. Que fotografia. Que luminosidade do Eastancolor deles. Que direção segura. A música com acordes wagnerianos, grandiloquente, mas na medida certa. Cada cena, cada enquadramento são obras de arte. Expressão de uma inigualável sensibilidade visual e um extremo apuro estético no cinema japonês.  Sabiam usar lentes e câmeras. Especialistas falam em “profundidade de campo”. Fez escola. Uma fonte na qual tantos cineastas dos Estados Unidos e outras nacionalidades beberam.

Inagaki ganhou um Oscar de filme estrangeiro por este Myiamoto Musashi. Mais tarde, um prêmio em Cannes por O homem do Riquixá, enorme sucesso. Com a crise dos estúdios japoneses, entrou em depressão, saiu de cena, parou.

Vejam – e imaginem o que é perambular pelo bairro da Liberdade em 1959, entrar no Cine Niterói para conhecer, saber o que havia, e deparar-se com isso.

Filmes à margem, 15: Les liaisons dangereuses / As ligações perigosas

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Não é a versão – excelente – da narrativa pseudo-epistolar de Choderlos de Laclos por Stephen Frears, de 1988, com aquele requinte todo e as atuações marcantes de John Malkowich, Glenn Close e Michelle Pfeiffer – por sua vez, eclipsando outra adaptação, por Milos Forman, lançada simultaneamente. Porém aquela de 1959, criada / dirigida por Roger Vadim – e passando na contemporaneidade, na época da filmagem. Com Gérard Philipe (que morreria antes do lançamento do filme, de câncer no fígado, aos 36 anos), Jeanne Moreau, Annette Vadim, Jean-Louis Trintignant – e, em um papel menor, o escritor Boris Vian. Música de Duke Jordan, Art Blakey e The Jazz Messengers, executada por Thelonius Monk.

Deu escândalo (motivo para aprecia-lo): houve tentativas de censura e restrições à circulação, especialmente nos Estados Unidos. Como deixaram passar no Brasil, entenda-se (aqui, na mesma época tiraram de cartaz Les amants / Os amantes de Louis Malle, também protagonizado por Jeanne Moreau). Sexo à vontade e alguma nudez , porém de modo fiel ao espírito do livro. Transporem para o então presente, teria incomodado? Libertinagem podia, mas no século XVIII?

Vadim foi um diretor importante, embora desigual, oscilante. Sua contribuição não se resume a E Deus criou a mulher, um terremoto, convertendo Brigitte Bardot, que já atuava e a quem descobrira, em mito. Barbarella com Jane Fonda, acho uma bobagem, datado. Mas O repouso do guerreiro merece ser revisitado. E Rosas de sangue / Et mourir de plaisir, de 1960, adaptado da história de Sheridan le Fanu sobre vampiras mulheres, com Elsa Martinelli e Annette Vadim, é o ápice do esteticismo, especialmente nos quesitos fotografia, música e atrizes – a cena do beijo de Elsa e Annette é memorável.

Trilha sonora, capítulo à parte. A boa acolhida francesa ao jazz, adotado como fundo musical do ambiente boêmio e rebelde daqueles anos. Morar em Paris foi o melhor tempo da vida de Charlie Parker. Não se incomodavam com isso de alguém ser negro, afrodescendente, não segregavam. E já em 1902, Éric Satie, em carta para Maurice Ravel, afirmava que o blues era a expressão do sofrimento. Sabiam ouvir.

 

Filmes à margem, 14: Teorema

Teorema

Direção e roteiro de Pier Paolo Pasolini.

De 1968. Com Terence Stamp, Silvana Mangano, Anne Wiazemski, Laura Betti, Massino Girotti, Ninetto Davoli. Música de Enio Morricone. Fotografia de Giuseppe Ruzzolini. Produzido por Manolo Bolognini e Franco Rossellini.

Copio a boa sinopse da página de internet “Adoro Cinema”: Em Milão a vida de uma rica família burguesa é totalmente modificada por um misterioso visitante (Terence Stamp), que seduz a empregada, o filho, a mãe, a filha e finalmente o pai. Além disto tem um contato intelectual com todos eles, convencendo-os da futilidade da existência, e após cumprir seu objetivo parte em poucos dias. Após sua ida ninguém da família consegue continuar vivendo da mesma forma, sendo que cada um deles toma um caminho diferente: a mãe se entrega ao primeiro que surge, a empregada passa a levitar, o filho pinta quadros que suja com fezes, a filha se torna uma catatônica e o pai, um rico empresário, abandona sua fábrica, se desnuda em plena estação ferroviária de Milão e desaparece no deserto.

Ganhou um prêmio em Veneza e foi repudiado pelo Vaticano.  Culminância ou um dos mais expressivos registros de uma contestação da burguesia e seus valores que teve em 1968 seu ano emblemático? É belíssimo. Imagens esplêndidas e uma atuação extremamente ajustada de Terence Stamp. Um filme sedutor sobre a sedução, acho. Luminoso. Especialmente subversivo. Tem sido pouco lembrado, frente a outros títulos de Pasolini: o precedente O Evangelho segundo Mateus e a subsequente fase épica e de revisita a clássicos e mitos, Medeia, Decamerão, Édipo, As mil e uma noites, precedendo a chocante (e ambivalente) despedida com Salò. Fazem parte de uma obra gigantesca, que inclui, além de bastante cinema, a poesia, teatro, ensaio – e seu resgate do dialeto friuliano. Cabe perguntar como conseguiu fazer tanta coisa e o que mais faria esse crítico tão lúcido e radical, se não tivesse sido assassinado na idade de 53 anos.

Comentei no Facebook – nestes tempos de – de…. difícil qualificar – estou privilegiando o esteticismo e o confronto com a caretice. Andam juntos, como se vê em Teorema.

 

Filmes à margem, 13: Vaghe stelle dell’Orsa, Vagas estrelas da Ursa Maior

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Filme de 1965 realizado por Luchino Visconti. Com Claudia Cardinale, Jean Sorel, Michael Craig. Roteiro de Suso Cecchi d’Amico / Enrico Medioli / Luchino Visconti. Fotografia de Armando Nanuzzi. O título é extraído de um poema de Leopardi, “Le Ricordanze”. Música, “Prelúdio, coral e fuga” de César Frank.

Esteticismo. Sublime. O reencontro dos irmãos, ele incestuoso, apaixonado, no castelo de Volterra. Pura tensão, não acontece quase nada, só antecipações do trágico desfecho. Deslumbrantes imagens em preto e branco. Mais um caso de boa utilização de música em filmes.

O capítulo das músicas bem escolhidas, que pegaram depois que foi exibido o filme: Sexteto de Brahms em Os amantes de Malle. a Gnossiènne de Satie em Trinta anos esta noite também de Malle, o Adágio atribuído a Albinoni em O processo de Orson Welles, este Prelúdio Coral e Fuga em Vagas estrelas da Ursa.

Cronologicamente, segue o êxito de O Leopardo. Mas ficou um pouco à margem, não tem sido exibido ou comentado. Quantas vezes o assisti, fui ao extinto cine Coral?

Esteticismo de Visconti: devia comentar Senso, de 1954. Que filmagem de cena de batalha.

Na próxima postagem, ou em uma das próximas, tratarei de comédias italianas.

 

 

Filmes à margem, 12: Soldier Blue /Quando É Preciso Ser Homem

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De 1970. Dirigido por Ralph Nelson, com Candice Bergen, Peter Strauss e Donald Pleasence, Roteiro de John Gay, baseado em uma narrativa, Arrow in the Sun, de T. V. Olsen.

A lista de westerns a favor dos índios, denunciando seu extermínio ou segregação, inclui bons filmes. Do grande John Ford, Cheyenne Autumn / Crepúsculo de uma raça, além da ambivalência da obra máxima, The Searchers / Rastros de ódio. Outro muito bom é Last Train from Gun Hill / Duelo de titãs, com Kirk Douglas e Anthony Quinn.

Mas este filme de Nelson é especial, pelo modo “gráfico”, como dizem agora, que retrata o massacre de Sand Creek, de 1877: crianças e mulheres retalhadas a golpes de baioneta, dando o troco a uma derrota anterior de tropas dos Estados Unidos na guerra contra os índios.

Ralph Nelson foi um belo diretor. Havia emplacado um Oscar (de ator, para Cliff Robertson) por Charly, a história de alguém mentalmente incapacitado que é transformado em gênio por um tempo. Outro excelente western dele, mais frequentemente exibido, é Duel at Diablo / Duelo em Diablo Canyon, com James Garner, Liv Ullmann e Sidney Poitier: o personagem de Garner vai atrás de quem matou sua mulher, índia, e vendeu seu escalpo. Temas tabus ou que incomodavam, como relações de negros e brancas, também fazem parte de suas obras. Mas aprecio especialmente Soldier Blue, por suas qualidades como cinema e por representar um espírito anti-militarista daquele momento, de ampliação do repúdio à intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. Temas que, decididamente, não pertencem ao passado; ou que, ao menos, merecem ser relelmbrados; ou então, que repentinamente ganharam contemporaneidade..

 

 

Filmes à margem, 11: Um dia de chuva em Nova York / A rainy day in New York

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(meu espírito de provocação)

(não passa nos Estados Unidos e Allen processa a distribuidora e meio mundo – aqui, passou ontem, 12/05, n Telecine Premium)

Escrito e dirigido por Woody Allen. Com Elle Fanning, Timothée Chalamet, Selena Gomez, Liev Schreiber, Jude Law.

Em vez de comentar o filme – gostei muito – reproduzo um artigo de 2011 sobre Allen, que publiquei na revista Reserva Cultural – os filmes subsequentes, menores, exceto Blue Jasmine, uma forte versão de Um bonde chamado desejo de Tennessee Williams com uma atuação incrível de Cate Blanchett – e aquele outro em que um crime dá certo. Aí vai:

WOODY ALLEN, O CINEASTA-ASSUNTO

Claudio Willer

Para muitos, Woody Allen não está lista dos maiores cineastas, dos Orson Welles, Kurosawa, Fellini, Bergman, John Ford. Não obstante, ao longo de 45 anos e 45 filmes, constituiu uma confraria de apreciadores – talvez hoje com o ânimo arrefecido diante de filmes circunstanciais, do abuso da sátira auto-referente, da desproporção entre o sucesso de Vicky Cristina Barcelona (de 2008) e a banalidade do enredo, do fracasso em decalques de cineastas que admira (Bergman, Fellini). Mas o que ele tem de oscilante contribuiu mais ainda para torná-lo assunto de conversas inteligentes.

Até quem não é seu entusiasta reconhecerá a desenvoltura ao apresentar bobagens. Quem mais chamaria um mágico de feira de “Splendini”, como em Scoop, o grande furo (Scoop, de 2006)? Quem finalizaria um filme com aquela ridícula queda de avião para fazer aparecer um piloto-consorte, como em Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, de 1995)? Nesses e em outros filmes, a fábula é seu gênero narrativo. Fábulas têm um fecho que lhes dá sentido moral; mas em Woody Allen, nem sempre: o modo como mata “Splendini” proclama o sem-sentido como regra em um mundo regido pelo caos.

Apreciadores em diferentes graus, do entusiasmo à indiferença, apontarão seus Woody Allen preferidos. Zelig será citado, merecidamente. Todos – inclusive os que já se cansaram dele – reconhecerão a grandeza de Crimes e pecados (Crimes and misdemeanors, de 1989 –não o haverem traduzido por Crimes e contravenções engrossa a lista de reclamações contra traduções de títulos). A sucessão de lugares comuns, de expedientes de outros filmes – o confronto do cineasta pobre e independente (e neurótico, é claro) com o produtor que lhe toma a namorada – se apaga diante do poderoso final, o encontro em um fim de festa com o próspero personagem que mandou matar a amante (feito por Martin Landau) para declarar que lhe sobrou apenas um enorme vazio.

Meus prediletos ainda são Manhattan (1979) e Celebridades (Celebrity, de 1998). O motivo: a sensação de familiaridade, o déja vu. Pode ser que São Paulo passasse por um período feliz em 1979/1980, que a vida cultural estivesse especialmente animada. Ou então minha vida sócio-cultural girava mais rapidamente; mas como tive a impressão de que qualquer um dos enredos e situações de Manhattan poderia ter acontecido aqui. Sim: estive naquelas vernissages, bares, saguões de cinema. Conheci equivalentes à iniciante na vida protagonizada por Mariel Hemingway e a instável de Diane Keaton. Acho que cheguei a sair com ambas.

A mesma sensação de reconhecer personagens e enredos, com mais força ainda, em Celebridades. Sua derradeira tentativa de filmar em preto e branco foi um fracasso de bilheteria e objeto de restrições da crítica. Nem tanto o alterego desempenhado por Kenneth Branagh (suas mulheres, sim: todas as quatro me pareceram plausíveis, até familiares), porém aquele mundo da micro fama, do deslumbramento periférico, da deferência diante de quem já foi tema de reportagem ou apareceu na TV, tudo isso é tão real. Especialmente pela relação do entrevistador de TV feito por Joe Mantegna com a personagem de Judy Davis, o filme é uma parábola, uma fábula com esta moral: melhor viver bem sua vida do que perseguir a fama. Sátira, mas impregnada de ternura. Não é o melhor de seus filmes – mas me pareceu aquele em que a compaixão por este mundo, pelo que fizemos dele, por nós, mais desponta nas entrelinhas. Woody Allen ama a quem satiriza e ridiculariza, e esse aparente paradoxo confere força a seus filmes, ou àquilo que eles têm de melhor.