CURSO DE POESIA E XAMANISMO: UMA SINOPSE DA PRIMEIRA AULA

Tivemos um bom público, visivelmente interessado. Quem mão conseguiu vir, mas quiser comparecer à próxima sessão, pode, na forma prevista neste informe: https://claudiowiller.wordpress.com/2017/02/22/poesia-e-xamanismo-um-novo-curso/

Esta sinopse, como faremos para que chegue aos participantes? Grupo de e-mails? Grupo de Facebook? Coletar os e-mails? (acho que perdi meus enso de organização em algum lugar no trajeto entre a Av. Paulista e o teatro de Corpos Nômades)

Comecei pelo final, invertendo a sequência que adotei em minha palestra de julho de 2016.

  1. Abri com trecho do vídeo de Michael McClure rugindo para leões; li seu relato de experiência semelhante, conversar com animais, leões marinhos.
  2. Xamanismo e sua relação com a poesia segundo Jerome Rothenberg em Etnopoética do milênio
  3. A contribuição de Viveiros de Castro em Metafísicas canibais; o ataque à separação aristotélica, cartesiana e cientificista de sujeito e objeto (disse algo do que penso sobre behaviorismo e cientificismo em estudos literários) (também disse algo sobre mitos da criação do mundo, confrontando Gênesis, tão simples, com a exuberância do Popol Vuh)
  4. Poemas que podem ser lidos como xamânicos, valendo-nos da contribuição de Viveiros de Castro: “Versos dourados” de Gérard de Nerval. Voltarei a tratar de Nerval,a propósito de viagens órficas. “O céu jamais me dê a tentação funesta / de adormecer ao léu, na lomba da floresta” etc (que Roberto Piva declamava quando o conheci) em Invenção de Orfeu de Jorge de Lima.
  5. A distinção de Michel Riffaterre, o semiótico inteligente, entre delírio e alucinação em “Estilística estrutural”. Aplica-se a poemas que designei como xamânicos (ressalvando que no âmbito do xamanismo também há delírio, visões, sonhos e o restante).
  6. Enunciados xamânicos:
    1. “Eu sou um outro” de Nerval; os duplos românticos
    2. “O Eu é um outro” de Rimbaud – a vidência comentada por Rothenberg. Quem é este “outro” em Rimbaud? O bárbaro, o selvagem, conforme a declaração de princípios em “Mau sangue” de Uma temporada no inferno.
    3. O “índio interior” em Invenção de Orfeu de Jorge de Lima: um duplo. Minha leitura delirante de Jorge de Lima, enxergando xamanismo em toda a sua poesia – justifiquei com informação biográfica (e mais um ataque ao “recorte” cientificista de autor e obra)
    4. Os múltiplos “eus” em Michael McClure. O mamífero. “quando um homem não admite que é um animal, ele é menos que um animal”, etc.
  7. A múltipla percepção de animais e humanos, novamente conforme Viveiros de Castro – o morto humano no animal, a presa do animal no humano. Animais na literatura: quando são xamânicos?
    1. O Bestiário ou cortejo de Orfeu de Apollinaire, comparei o tratamento dado ao leão e ao polvo.
    2. A diferença entre a pantera de Rilke e o tigre de Blake, em dois poemas antológicos. A natureza sagrada em Blake, o “grande mamífero” segundo McClure.
    3. Mais animais xamânicos na poesia: a série de “cavalo em chamas” de Jorge de Lima. Remete a Lautréamont, o mais zoófilo dos escritores – comentei. Ou seria Guimarães Rosa o mais zoófilo? – observei que Guimarães Rosa é tão grande que não cabe neste curso.
    4. Herberto Helder: “espaço do leopardo”, “máscara”, “leopardo e leão”, “o idioma bárbaro”, “Estrelas africanas” “paisagem”.
    5. Os animais banidos ou submetidos nos grandes monoteísmos e no cartesianismo (mencionei M. E. Maciel, Literatura e animalidade).
    6. Li trecho de Oswald Spengler sobre deuses, cultos arcaicos e animais. Voltarei ao assunto, citarei Alain Danielou
  8. O xamanismo e o poeta performático segundo Rothenberg –O trickster, a “gargalhada de Deus”; o coiote em Gary Snyder. Artaud, nesse sentido – e em outros – foi intensamente xamânico. Mas Jorge de Lima foi performático? Não. Contudo tratou disso: o “claune”, o “triste palhaço”. Dois poemas que podem ser lidos como reconstituição de cenas xamânicas: “O grande circo místico” e “Exu comeu tarobá”.
  9. Ainda trocamos algumas idéias e informações sobre alucinógenos no xamanismo. Esbocei minha interpretação, mas voltaremos ao assunto.
  10. PRÓXIMA SESSÃO: voltarei a “tricksters”, brincalhões e travessos no xamanismo, pois acho que não examinei isso suficientemente. Há mais correlatos poéticos. E passarei a tratar de iniciação; especialmente, de catabases, viagens ao mundo dos mortos, e de Orfeu – “xamã exemplar” segundo Raymond Christinger.

UMA NOVA OFICINA LITERÁRIA EM UM NOVO FORMATO DE OFICINA LITERÁRIA

Como ainda há vagas, reapresento. Agradeço retransmissão e demais modos de divulgação.

Informam os organizadores:

A CRIAÇÃO POÉTICA, laboratório com Claudio Willer.

QUANDO: De 21 de março a 15 de junho de 2017, toda terça feira, das 20h às 22h. Portanto, três meses, algo próximo à nossa ideia de uma oficina permanente.

INSCRIÇÕES: EdLab, Rua Fradique Coutinho, 1139, Vila Madalena, fone 11 3097-8304, e-mail edlab@hedra.com.br.

INVESTIMENTO: R$ 500 mensais.

PROCEDIMENTO: Oficinas literárias são um trabalho coletivo. Seu coordenador não é neutro: intervém, avalia, sugere, recomenda leituras. Contudo, não deve impor seus valores e referencial poético. Além de um módulo expositivo e de exercícios de criação, textos escolhidos de autoria dos participantes serão examinados, discutidos e avaliados. Haverá, portanto, um trabalho centrado na produção da própria oficina. É importante que os inscritos tragam textos de sua autoria.

PUBLICAÇÃO DOS PARTICIPANTES: Ao concluírem a oficina, autores – selecionados por uma comissão que incluirá o coordenador da oficina, mais o coordenador do EdLab Vanderley Mendonça e um especialista convidado – terão a oportunidade de assinar um contrato e ter sua obra publicada pelas editoras que compõem o Ed.Lab. Terão à disposição profissionais de editoração, revisão e design gráfico para a conclusão do livro. A publicação não acarretará taxas adicionais. Será possível realizar um dos meus chavões prediletos em oficinas, quando textos me agradam: “Você está autorizado a publicar” ou “Vá procurar um editor”. O “imprimatur”, desta vez para valer – e com a participação dos ofocineiros.

CONTEÚDO: A oficina terá dois módulos, correspondentes a blocos temáticos: FORMAÇÃO: transmitindo conteúdos 1. Valores poéticos: o que permite que um texto literário seja considerado “bom”? 2. A imagem poética; 3. Poesia e prosa; a poesia na prosa; CRIAÇÃO: com avaliação de textos dos participantes, rodas de leitura e exercícios. Em acréscimo, tratará de leitura, entendida como expressão oral, em voz alta, e como interpretação, percepção de sentidos em um texto; Identidades literárias, afinidades dos participantes com diferentes vertentes, dicções, estilos e modos de escrever; A poesia e o poético; literatura e vida; poesia, linguagem e realidade.

O Ed.Lab é uma parceria da Editora Hedra com o Selo Demônio Negro e a Rizo Tropical, que criaram um laboratório para produção e publicação de projetos desenvolvidos, coletivamente nas oficinas, tanto em plataformas digitais (distribuídos pela Amazon) quanto em papel, distribuídos na rede de livrarias que atendem a editora Hedra. O ambiente do Ed.Lab é o “coworking” da Hedra, espaço perfeito para compartilhar experiências.

Foi criado o respectivo evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1440160219367323/ Facilitará acesso e inscrição.

Muitos já experimentaram saltos de qualidade, aquisição de estilo e mudanças na percepção de seus textos em oficinas comigo. Publicaram, alguns foram reconhecidos, até premiados. Isso se repetirá.

Uma apresentação de Piazzas de Roberto Piva e do meu Anotações para um Apocalipse

Escrita por José Paulo Vieira da Cunha, grande amigo nosso, extraordinário erudito (como podem ver pelo texto a seguir) e parceiro em vários episódios. Distribuído em folha solta para o lançamento dos dois livros – no Barroquinho na Galeria Metrópole, também teve uma banda musical, barril de 100 litros de vinho e uma quantidade de gente que me surpreendeu. Final de outubro de 1964. Transcrito agora por Guilherme Ziggy, como parte dos trabalhos de organização da Biblioteca Roberto Piva:

EM PROL DA NOVA METAMORFOSE

“Sob o sol ardente fundem-se as neves do Himalaia” (1964)

Tempos novos exigem obras novas. Mas o que querem os novos? Povoar naacàlicamente os céus de Inquanok? Ou derrubar as almênares do Qalaat-ul-Hamrâ? Ou ainda provar que o governador do Estado de São Paulo é pederasta? Talvez tudo isto e mais a deglutição da hidra do farisaísmo e filistinismo para vomitar o esplendor novo de sóis azuis e amarelos e mais os frágeis planetas dos tempos longínquos e imemoriais. É o que fazem, como novos, Roberto Piva e Claudio Jorge Willer, nos livros ora apresentados, de uma maneira belíssima, nos seus contatos com uma realidade superior mística e aceitável e uma realidade vizinha e cotidiana que não aceitam e que desejariam ver destruída ou relegada à categoria de ruína. Opondo-se categoricamente a uma realidade inaceitável, constroem, talvez num movimento compensatório, uma estratificação especial onde predominam os valores do por-vir. Isto, entretanto, não significa uma fuga ou uma evasão fundada em motivos psíquicos. É uma reação natural e a única válida na época natural. A literatura, digamos assim, do romantismo para cá, inserida no âmbito de uma sociedade industrial, onde prevalecem o útil, o eficiente, o técnico, o científico, vem passando por transformações tão desmesuradas que só as suas captações constituem, de per sí, uma introdução geral à essência da nossa época. Frente ao espectro do niilismo, porque verdadeiramente o niilismo é o grande devorador da nossa época, a literatura reage de maneiras as mais variadas. Não cabe enumerá-las “hic et nunc”, mas fica o registro do fato. Dentro deste contexto, que dizer de Roberto Piva e Claudio Jorge Willer? Suas obras enquadram-se na situação apenas esboçada acima? Sem dúvida alguma, o que não quer dizer que suas obras sejam de transição, mas sim construções acabadas e destinadas a placentar a nova geração. Pedagógicas ou não, éticas ou não, são obras definitivas e válidas no contexto sempre mutável do momento que passa. Pelas suas obras perpassam o hálito de Nietzsche, Rimbaud, Desnos, Böehme, Lautréamont, Freud, Bosh, dos alquimistas, dos poetas loucos, enfim da imensa sucessão dos eternos ressuscitadores. Além do mais, como obras profundamente geracionais, os seus traços marcantes são um constante esforço de lucidez e conscientização da problemática da época atual, aliada a tomadas de contato com forças estranhíssimas, as quais, hoje sabemos, dirigem verdadeiramente os destinos da Arte. Há, ainda, nestas obras, conexões sutilíssimas para as quais chamamos a atenção. A tarefa de vislumbrar e captar tais conexões pertence por inteiro aos leitores realmente integrados na problemática da nossa época. Para resumir, nada melhor que citar uma frase de Heidegger, o pensador inquietante: “na comunicação e na luta, a força do destino comum liberta-se” (“Ser e Tempo”, pg. 397).

Roberto Piva, verdadeiro “cavaleiro do mundo delirante”, quer e exige a Metamorfose. Daí o seu grito, tanto mais lancinante quanto mais próximo está do núcleo de fogo das forças terríveis. Poeta de segundo livro, com seu “Paranóia” vivenciou o dito de Jean-Paul Richter: “os reinos terrificantes dos mundos em formação”, agora, com “Piazzas”, lança-se segundo suas próprias palavras, “numa contemplação além do bem e do mal” (“Post-fácio”). Claudio Jorge Willer, “entrepreneur et entreteneur des choses terribles”, clarividente de todas as horas, com seu “Anotações para um Apocalipse” arroja-se numa aventura irreversível: a de desafiar as potências demoníacas de que nos fala Blake, para que saiam a campo conduzindo o Himalaia, e o Hindu-Kush, e num supremo transporte de prazer, destruam o potencial larvar-impecilho ainda subsistente em nossas relações e possibilidades de comunicação. Ambos constituem uma ameaça terrível para a continuação dos tempos. Tomem nota. A sucessão endiabrada das insignificâncias do todo-o-dia tem neles os seus mais ferozes inimigos. Que se precavenha a Lei, porque em suas mãos transformar-se-á em Canto. A magia das coisas não ditas transforma-se no teoremas da incompatibilidades totais. Daí, ambos correm para o país das alucinações, e convidam-nos, com insistentes gestos de amizade, para a aventura histórica de abrirmos um significado maior no âmbito da existência plena. Acho que devemos aceitar o convite e o conteúdo das suas mensagens. Aqui estão eles, pois. Degluta-os os leitores. Amém.

JOSÉ PAULO VIEIRA DA CUNHA

Xamanismo em Herberto Helder

Qual poderia ser a relação destes dois belos trechos de Húmus de Herberto Helder com xamanismo? (a marcação de páginas é desta recente edição da Tinta-da-China) Qual passagem de Metafísicas canibais de Eduardo Viveiros de Castro pretendo citar para mostrar essa relação? Venham ao meu curso, que se inicia na próxima quarta feira, e saberão.

HERBERTO HELDER

Fecho os olhos: vejo virem os gestos. O espanto

recamado de mundos caminha

desabaladamente.

Sinto os mortos.

A terra remexe. De mais longe

vem um ímpeto. Põe-se a caminhar a imensa

floresta apodrecida. Ouve-se

a dor das árvores. Sente-se a dor

dos seres.

vegetativos,

ao terem que apressar a sua

vida lenta. Pôs-se a caminho

um remexer de trevas. E não tardaram

as dispersas primaveras

uma atrás da outra. (p. 217)

[…]

Vê tu a árvore: uma camada de flor – um grito,

outra camada de flor – outro grito.

Sob o fluido eléctrico, o quintal

tresnoita. Até o escuro se eriça. Há diálogos

formidáveis na obscuridade.

Nesta primavera há duas primaveras – perfume,

ferocidade. Turbilhão azul sem nome.

O sonho irrompe como hastes de cactos, pélago

desordenado.

– Eu sou a árvore e o céu,

faço parte do espanto, vivo e morro. (p. 221)

Também separei trechos de Os selos de Helder – e mais de Gérard de Nerval, Rimbaud, Jorge de Lima e outros. O curso já foi divulgado aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2017/02/22/poesia-e-xamanismo-um-novo-curso/

O CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS E OUTROS TIPOS

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Após centenas de apresentações e participações, enxerguei uma tipologia:

  1. CONFERENCIATA DE COPO D’ÁGUA: Formal, protocolar (“sinto-me honrado” etc), fala pausadamente, mostra que sabe expressar-se, faz breve pausa para tomar três golinhos de água e prossegue – ainda hoje, em academias de letras e cenáculos afins.
  2. CONFERENCISTA POLÊMICO: Destrói o tema proposto em vez de expô-lo. Cognato do entrevistado polêmico, que vai questionando as perguntas que lhe são feitas em vez de respondê-las. Já encarnei. A última vez, setembro do ano passado, mesa sobre dadaísmo em Goiânia. Seria sobre “pós-história”, “pós-histórico”, algo assim, e minha simpatia por essa categoria é tão nula quanto pelo “pós-moderno” e “pós-modernidade”. Fui argumentando que dadá não é pós-histórico coisa nenhuma porque Tristan Tzara aderiu ao comunismo soviético, um determinismo histórico, relacionou dadá à Primeira Guerra Mundial e afirmou que surrealismo estava encerrado com o fim da Segunda Guerra Mundial (Breton foi à palestra dele de 1947 e deu um escândalo), etc. Na verdade, o tema era do meu companheiro de mesa, que o sustentou de modo adequado, e terminamos todos bem entendidos.
  3. CONFERENCISTA BALBUCIANTE, normalmente professor/a universitário/a ou aspirante a, hipnotizado pela tela do laptop, monocórdico, vai murmurando o que está na tela, entende-se com esforço. Variante do conferencista com a cara enfiada nas folhas do “paper”. Comum nos grandes eventos universitários em que apresentar qualquer coisa vale pontos no CAPES, prestigiados pela clientela dos certificados.
  4. CONFERENCISTA SALVADOR: nos mesmos eventos, brilhante, capaz de conferir credibilidade ao transmitir informação nessas ocasiões e através das subseqüentes publicações coletivas. Auditórios lotam e todos saem achando que compensou a viagem e o calor.
  5. CONFERENCISTA DERROTADO PELA TECNOLOGIA: aconteceu comigo no Festival Beat em São Paulo, em janeiro. Equipamento de data show do CCBB queimou. Palestra atrasou uma hora, improvisei sem as imagens selecionadas, ao final até que deu certo. Variante, o conferencista que esquece o pen drive em casa ou o perde na viagem – também já me aconteceu.
  6. CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS – encarnei no Festival Beat do Rio de Janeiro no CCBB, palestra sobre Jack Kerouac (dia 11 de fevereiro – a boa foto é de Thereza Christina Rocque da Motta). Calor e platéia muito informal (houve quem viesse sem camisa e quem esmurrasse a porta por não haver mais lugar no auditório). O dramaturgo Plinio Marcos fazia esse tipo, em eventos menos informais. Entre outros , por volta de 1985 na Biblioteca Mário de Andrade, em uma sessão promovida pela UBE sobre mercado editorial ou algo assim. Enquanto o outro participante da mesa, um presidente da Câmara Brasileira do Livro, expunha, cruzou as pernas e ficou mexendo no dedão do pé direito, tirando cutícula, acho. Ninguém reparou no que o presidente da CBL dizia, todos olhavam Plinio Marcos a ocupar-se com seu dedão. Antes, em sua fala, havia insultado o presidente da CBL – injuriado por não permitirem que vendesse seus livros, feito um camelô, na Bienal do Livro. Coordenei a sessão (outro tipo, o coordenador impassível). Inesquecível (tanto é que me lembro).

POESIA E XAMANISMO: UM NOVO CURSO

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Quando: Três sessões às quartas feiras, dias 8, 15 e 22 de março de 2017, das 19h30 às 21h30

Onde: Espaço Cênico O LUGAR da Cia. Corpos Nômades, Rua Augusta 325

Valor do ingresso: R$ 30,00 por aula, com direito à meia entrada para as categorias que têm direito à meia entrada, além de participantes de outros cursos e atividades dos Corpos Nômades, xamãs, poetas surrealistas e quem comprar para os 3 dias. Inscrevam-se e paguem antes através deste e-mail: ciacorposnomades@gmail.com com assunto: Poesia e Xamanismo (convém, pois o número de lugares é limitado, para 40 pessoas). Também poderão retirar/comprar o ingresso no Espaço Cênico O LUGAR de segunda a sexta das 15h às 18h, exceto no Carnaval (dinheiro ou cartão).

O curso: Em julho de 2016 dei uma extensa palestra sobre poesia e xamanismo. Falei por duas horas, público que lotou o auditório apreciou, mas não consegui cobrir todos os tópicos que havia proposto. Sobrou assunto. Desde então, pesquisei mais e novas leituras mostraram-me interpretações e modos originais de examinar o assunto. Daí programar três sessões. O objetivo é, em primeira instância, enriquecer a leitura da poesia, possibilitando enxergar mais sentidos, além de ampliar a sensibilidade dos leitores e proporcionar o acesso ao maravilhoso, ao mundo mágico-poético.

Examinaremos tópicos como estes:

Até que ponto alguns poetas podem ser identificados a xamãs? O que em suas obras justifica essa associação? O mito de Orfeu – patrono dos poetas – é xamânico? (muito, vou adiantando , e sob vários aspectos) A propósito, quais os principais poemas órficos? (quem mencionar Altazor de Huidobro acertou) Por que uma declaração como “O Eu é um outro” de Rimbaud corresponde a algo típico do xamanismo? E de Michael McClure, “QUANDO UM HOMEM NÃO ADMITE SER UM ANIMAL, ele é menos que um animal”? O que pode ser dito sobre animais no xamanismo e na poesia, inclusive em bestiários? E sobre instrumentos? Qual a contribuição de Herberto Helder à compreensão das afinidades de poesia e xamanismo? Um poema como “O índio interior” de Invenção de Orfeu de Jorge de Lima pode ser lido como xamânico? O soneto “Versos dourados” de Gérard de Nerval é xamânico? Cabem as associações de Antonin Artaud ao xamanismo? (claro que sim, porém detalharei) Quais as evidências de uma percepção lúcida e informada de xamanismo em Roberto Piva? Sobre quais outros contemporâneos nossos eu teria algo a dizer?

Além das abordagens clássicas – como aquela de Mircea Eliade – e contemporâneas – como a de Eduardo Viveiros de Castro (acho brilhante) – e referências obrigatórias como a Etnopoética de Jerome Rothenberg, trarei novidades, contribuições pessoais. Por exemplo, a categoria “alucinação” do semiótico Michel Riffaterre, como distinta do “delírio”, projetada na experiência poético-xamânica. Justificarei minha admiração por Patti Smith. E me apoiarei bastante em recursos audiovisuais, data-show e afins.

Agradeço retransmissão e outros modos de divulgação. Em breve publicarei outros posts, sobre o conferencista de sandálias e em seguida sobre a extensa oficina de criação também preparada para iniciar-se em março. Nosso problema não será a falta de assunto.

RADUAN NASSAR, O CAMÕES E SUA REPERCUSSÃO: A PROPÓSITO DO QUE HAVIA PUBLICADO NO FACEBOOK

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Repercutiu, tornou-se viral – por isso, reproduzo aqui, com observações adicionais. Teve adesões, críticas e apenas dois “haters”; ou seja, ambiente melhorou desde 2014. Um dos xingadores, Jorge Henrique Bastos (aquele que era da Martins Fontes? que coisa), além de depreciar-me como poeta (não ligo, tenho os leitores que mereço e não sou perseguidor de glórias) escreveu que apoiei o regime militar (jamais…! meu dossiê de atuações contra a ditadura é grande) e fiz carreira em cargos públicos – nem tanto e só em governos eleitos democraticamente, isso sem desmerecer quem ocupava cargos durante os militares e fez boas coisas, por exemplo o pessoal do então Serviço de Teatro da SEC do MEC que premiou autores censurados.

Aí vai o post:

ACHO QUE HOJE PERDI A PACIÊNCIA. Cada um escolhe a resistência e os heróis da resistência que preferir. Governo Temer é no mínimo deplorável e a perpetuação da corja ou parte dela deve ser denunciada. Mas desinformação e ingenuidade, somada à produção de bobagens, precisam ter um limite. Raduan Nassar é ótimo – benemérito inclusive, doou sua propriedade rural á UNESP – retifico, à UFSCar – , e eu queria ter registrado o que ele me disse sobre Jardins da Provocação em 1981. Merece as homenagens. Mas, durante o regime militar, absteve-se – chegou a sustentar que não houve censura de livros durante o dito regime – isso em julho 1981, em um encontro de escritores, UBE e SESC, eu estava lá, ele levou uma bronca do Péricles Prade (então presidente da UBE, havia atuado no caso Herzog) por isso. Não participou da visita ao Armando Falcão da Lygia, Nélida, Antonio Torres e outros escritores para protestar contra a censura. Nem de mais nada. Não acho que isso o reduza ou deva ser cobrado. Tem o direito de tomar a posição que bem entender em cada circunstância. Já Roberto Freire era dirigente do PC, o Partidão, com militantes presos, torturados e até mortos. E daí? São as voltas que o planeta dá sobre si mesmo? Baudelaire e a defesa do direito de contradizer-se? Provavelmente. Se a reunião de 1981 fosse de adeptos do regime militar e não de opositores, então ele defenderia a redemocratização? Mas as manifestações sobre esse episódio da premiação, do Camões deveriam conter mais informação e menos demagogia. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando e está omitindo, de ma fé. Estão inclusive enganando a garotada, o pessoal que chegou mais recentemente. Obliterar a história, esquecendo quem estava em qual lugar quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe) é péssimo, não se justifica de modo algum.

Como refutação, circulou algo do Brasil 247, que obviamente desconsidero (propaganda paga, não), e um artigo de Pádua Fernandes intitulado “Desarquivando o Brasil CXXXIII: Raduan Nassar e a ditadura militar”, citando-me. Este: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2017/02/desarquivando-o-brasil-cxxxiii-raduan.html

As informações de Pádua Fernandes são corretas. Sim, Um copo de cólera é lido como literatura de resistência, inclusive por gente do calibre de Leyla Perrone-Moisés e Milton Hatoun. E sim, Raduan publicava o Jornal do Bairro no fim da década de 1960, fichado pelo DOPS, e foi sócio da PAT Edições indexada pelo CENIMAR.

Mas isso não contradiz nada do que escrevi, nenhuma das informações do meu post. Jornalismo de resistência eram Pasquim, Opinião, Movimento (onde publiquei), Versus (onde colaborei) e outros tablóides de combate. Muito visitados pela repressão. Ter ficha no DOPS pouco significa, isoladamente. Sei disso por haver examinado minhas cinco fichas. Feitas por uns burocratas que não tinham noção (felizmente) e anotavam qualquer coisa – mais burros, só os censores. Iniciativas de maior alcance, não repararam. Federais, exército e SNI, eram mais perigosos: naquelas leituras de poesia na porta da Brasiliense no calçadão da Itapetininga em 1977, a quantidade de tipos fotografando e gravando que não eram jornalistas, mas o DOPS nem reparou naquilo.

E a interpretação de Um copo de cólera como literatura de resistência é de 1996, nos substanciosos Cadernos do Instituto Moreira Salles. Quando saiu, não lemos assim aquele desabafo de um machão desenfreado de uma só extensa frase. Literatura de resistência, no campo da narrativa em prosa, eram, entre outras, As meninas de Lygia Fagundes Telles (que ganhou Camões em 2005), com relato de tortura, ou Zero de Ignácio de Loyola Brandão, também com cenas de tortura e proibido na época. Pelo mesmo motivo não podia no Brasil O livro de Manuel de Julio Cortázar, comprei meu exemplar em Buenos Aires – mas, com toda a grandeza de Cortázar, naquele momento Zero me impressionou mais. Aliás, aí estaria um bom premiado do Camões, o Loyola, inclusive pelo antecipatório Não verás país nenhum e o experimental Os dentes ao sol. Sem comício e claque na entrega – em 1980, andava de estrelinha vermelha na lapela, foi se decepcionando e distanciando, perdeu de vez a paciência ao ser lesado pelo BANCOOP.

Isso, em prosa – em poesia, Ferreira Gullar levou um Camões em 2010, para decepção da banda sectária. Se é para registrar poemas de resistência, também lembro o belo Coração Americano de Renata Pallottini, apresentação no Municipal, organizei, foi outra das ocasiões em que o DOPS não chegou a tempo.

FINALMENTE, houve objeções a este trecho: “quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe)”. Acho a comparação entre o que houve e o que está acontecendo agora uma ofensa a muitos que tiveram que agüentar o regime militar (além dos que não agüentaram). Em dada altura, lá pela década de 1970, parecia escuridão sem luz no fim do túnel. Hoje tenho acesso ao que quiser, vou aonde me aprouver sem olhar sobre o ombro para ver se tem alguém seguindo. Sustos que passei, registros das vezes em que dei sorte (outros não tiveram a mesma sorte), não, nunca mais. Diferindo dos regimes de força, governo Temer tem data para acabar. Se anteciparem saída (pode acontecer, levando junto o Jucá massacrador de Yanomamis, Lobão e outros ex-ministros de Dilma), Brasil passaria a ser presidido por Rodrigo Maia – grande troca. Alguns militantes declaram que precisa mudar tudo – mas nesse caso, não teriam que fechar o Congresso…? Legalidade é só para cobrar dos outros? Ah, sei, uma ilegalidade justificaria a outra. Ou então, preparar-se para disputar eleições – manifestações de “fora Temer” podem até contribuir para mobilizar, aproveitando inteligentemente a conjuntura democrática. Eu focalizaria uns temas institucionais. Reforma partidária, chega dessas alianças doentias entre partidecos. Desburocratização, esse pessoal, que reclama das investigações e processos em curso tinha que olhar como é na Inglaterra etc – até em países que parecem ainda mais frouxos que o Brasil a delação da Odebrecht está tendo consequências rápidas.

Mas não, essa gente só quer mesmo recuperar o poder, impor suas crenças político-religiosas (‘catecismos leigos’, onde li essa expressão – no Roberto Calasso, eu acho, ou foi no Octavio Paz?). Vale qualquer coisa, e o episódio Raduan Nassar é um triste exemplo.