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Claudio Willer sobre o Acaso Objetivo: Poesia & Vida

Acaso objetivo - set 2018

(Gostei da colagem que o organizador, Matheus Chiaratti, fez comigo – adotei)
(Haverá livros meus – Estranhas experiências e A verdadeira história do século 20 – autografarei) (A palestra servirá como “esquenta” de um curso de surrealismo que apresentarei nos Corpos Nômades, a ser divulgado em breve)

Quando: Quinta-feira, 27 de setembro de 2018 de 19:00 a 21:30

Onde: Tapera Taperá, Av. São Luis, 187, 2º andar, loja 29 – Galeria Metropole, 01046-001  
Informa o organizador: Arte_Passagem e Tapera Taperá convidam o público a participar da mesa com o poeta Claudio Willer sobre a experiência do “acaso objetivo” na prática poética. A mesa ocorrerá em ocasião da abertura da intervenção artística Hotel Esfinge do artista Matheus Chiaratti para o arte_passagem.
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Claudio Willer (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta, tradutor, pesquisador do “acaso objetivo” na obra do surrealista André Breton, e publicou o ensaio “Magia, Poesia e Realidade: O Acaso Objetivo em André Breton”, disponível para leitura neste link: goo.gl/yZnJ1J
É a partir da herança da flânerie de Baudelaire na produção surrealista e suas reverberações na geração dos poetas brasileiros dos anos de 1960 que o artista encontra na cidade um campo fértil para suas deambulações, criando com ela uma disposição ao mistério e ao eventual, em que “sob os impulsos complementares do acaso e da sua imaginação, [o poeta ou o artista] procura melhor definir sua própria identidade, interrogando os diversos ‘enigmas’ encontrados – objetos, situações ou seres”. Nadja(1928), obra seminal de André Breton, será o ponto de partida para a nossa discussão.
A atualidade do “acaso objetivo” na produção artística é urgente. Encarar a cidade como um campo rico de embate, terreno fértil de história e de pensamento – ainda mais em tempos de gentrificação e de incêndios – é se integrar a ela como espectador ativo, dono de seu próprio percurso e atento aos símbolos que a cidade disponibiliza.
Uma passagem de Nadja, exaltada no prefácio de Eliane Robert Moraes da edição da Cosac Naify, conduz o pensamento para os mistérios do percurso: “Não sei por que é para lá, de fato, que meus passos me levam, que vou para lá quase sempre sem objetivo determinado, sem nada decisivo a não ser esse dado obscuro de saber que ali vai acontecer isto”.
 

 

André Breton, 28 de setembro (de 1966)

andre-breton_japcp

Abri assim meu ensaio MAGIA, POESIA E REALIDADE: O ACASO OBJETIVO EM ANDRÉ BRETON:

O episódio é relatado por Roberto Piva no vídeo Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti[1]: a 28 de setembro de 1966, por volta das 16 h, Piva e Roberto Bicelli caminhavam pela Avenida Rio Branco no trecho próximo ao viaduto sobre os trilhos, em São Paulo. Viram passar a toda velocidade um caminhão carregado de móveis e utensílios, encimados por um armário cuja porta, impelida pelo sacolejar do veículo, abria e fechava, batendo com força. Do móvel saía, esvoaçando, conduzido pelo vento, um longo lençol branco. Apontando para o conjunto insólito, Bicelli exclamou: É o fantasma de André Breton! Nem Bicelli, ao identificar desse modo a sacolejante mudança ao surrealismo, nem Piva lembraram-se deste trecho do primeiro Manifesto do Surrealismo, um parágrafo intitulado “Contra a morte”: “Não vos esqueçais de formular adequadamente vossas disposições testamentárias: eu, por exemplo, peço que me transportem ao cemitério num caminhão de mudanças.” No dia seguinte, leram nos jornais a notícia do falecimento de Breton naquela data e hora, às 16 h. de 28 de outubro de 1966. O acaso objetivo assim prestava uma oblíqua homenagem ao seu formulador.

[1] Produção da SP Filmes disponível em vídeo, exibido na TV Cultura de São Paulo e TV Educativa. Subsequentemente, também relatado no livro Os dentes da memória de Camila Hungria e Renata D’Elia e em outras ocasiões.

O ensaio todo está em Academia.edu, em https://www.academia.edu/11994592/MAGIA_POESIA_E_REALIDADE_O_ACASO_OBJETIVO_EM_ANDR%C3%89_BRETON Também em meu ensaio sobre acaso objetivo publicado na coletânea O surrealismo (Sheila Leirner e Jacó Guinsburg, orgs. Perspectiva, 2004)

O post mais visitado neste meu blog é minha tradução de “L’union libre” de Breton. Acrescentei9 imagens e uma gravação do próprio Breton lendo o poema: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/06/17/a-uniao-livre-de-andre-breton/

E assim se passam 50 anos.

Acaso objetivo: um relato meu

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Havia publicado o que vem a seguir entre os comentários a meu próprio post, aqui neste blog. Resolvi, agora, dar-lhe um espaço próprio. E convertê-lo, ao final, em exercício de leitura, ou de criação – não obstante ser tudo verdade. As demais histórias de acaso objetivo, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/25/acaso-objetivo/

(Em outra ocasião, anotei que sempre quis ser cronista.)

Julho de 1999.

Passava uma semana ou uns 10 dias em uma fazenda em Mato Grosso, convidado por um amigo, o cineasta João Callegaro. Perto de Xavantina e do Rio das Mortes, quase sopé da Serra do Roncador. Extensões do Centro-Oeste, horizontes luminosos e o perfil tão plástico e poderoso da serra. O Rio das Mortes, que beleza, água bem escura e limpa, atravessando mata virgem. Jacarés e tucunarés. Araras e ariranhas.

É uma terra de lendas e seitas. As famosas inscrições na pedra, os Martírios. Índios e colonos, convivendo – aparentemente, não há cenários de horror como os de Mato Grosso do Sul ou do Bananal, não vi degradação ou miséria extrema. Histórias de xavantes albinos nas cavernas de outra serra na região, fomos lá. Visitamos uma comunidade pós-hippie, simpáticos naturalistas, vivem em uma construção em círculo. Instalados na região, seitas e grupos esotéricos para todos os gostos. Acreditam, alguns, em passagens para o centro da Terra e no retorno do Coronel Fawcett, não fui vê-los, isso de mundo no interior do planeta vem das sociedades do Vril e ordem de Thule, influentes no nazismo, e o antissemitismo já está em Madame Blavatski, que postulou uma raça superior. Ademais, Fawcett não sumiu em uma gruta. Quando estive no Parque do Xingu em 1967, os Kalapalo visitaram o posto, perguntei: “Fawcett…?”, o intérprete apresentou-me o índio velhinho e sorridente que lhe aplicara o golpe final de borduna – se bem que, com os índios, nunca se sabe, apreciam fabular e há também a versão de que foram os Camaiurá e o esqueleto está no fundo da lagoa – de qualquer modo, Orlando Villas-Boas endossou que o explorador inglês havia forçado a mão, tentado obrigar índios a levá-lo a território inimigo (dos Suiá ou Juruna, Xingu abaixo) e por isso foi executado.

Luzes misteriosas e objetos celestes, óvnis e ETs, discos voadores e extraterrestres são tema constante na região, e não só entre esotéricos e adeptos. Um eufórico prefeito de Barra do Garça fez construir pista de pouso para óvnis no alto de um morro, perto dos banhos termais. Parece que todo mundo já viu algo. Domingo, fim de tarde, conversava sobre isso com Callegaro. Contou que era comum enxergarem luzes para os lados da serra. Passeávamos, cruzamos com um empregado da fazenda: “Como é, cadê as bolas de fogo? Tem visto muitas?”, perguntou meu hospedeiro. “Não, essa semana não teve, não vi nenhuma…”, respondeu. Vejam só – subentendido na resposta, as bolas de fogo serem comuns, aparecerem a toda hora.

Já anoitecia. Voltamos à sede da fazenda, amplo casarão térreo. Quando saí do quarto e entre na sala, o televisor estava ligado. Transmitia o Fantástico. Justamente, naquele exato momento, quando passei na frente do aparelho, exibiam um segmento sobre avistamentos de óvnis por tripulantes e passageiros de aviões. Um ministro, não me lembro mais qual, e que havia visto algo acompanhando seu vôo, por um bom trecho. Pilotos e copilotos, vários. Bolas de fogo, charutões luminosos, discos, clarões. O céu povoado de mistérios, de coisas ou entidades desconhecidas. Gente da Aeronáutica rompendo sigilo – relatórios sobre esses encontros existem, mas são reservados.

Não assisto ao Fantástico. Aquela hora daquele domingo, do milhão de pautas do programa, darem aquela. O que conversávamos há pouco estava sendo grifado.

Extraterrestres, ou o que for, visões, energias nossas, coisas da terra, meteoros diferentes, balões, nunca chegaram a me fascinar ou apaixonar. Não sou contra, pode ser que existam, já vi uma luz oscilando sobre a Represa Billings, talvez fosse ilusão de ótica (meteoros, satélites e avião em linha reta podem dar a impressão de ziguezague), mas foi noticiado nos jornais um avistamento de algo no céu na região do ABC naquele fim de semana. As bolas de fogo na região da Serra do Roncador também poderiam ser fogo-fátuo, alguma emanação da terra. Conheço quem encontrou, ou acha que encontrou. Tenho um amigo ufólogo. Misteriosíssimo. Roberto Piva também era – freqüentou grupos, colecionou bibliografia, publicou poema em Ciclones dedicado a Jacques Vallée (o consultor de Contatos imediatos de Spielberg), emprestou-me livro dele (que horror, os episódios de abduções e de mutilações, parece conto de Lovecraft, muito malvados alguns desses alienígenas, prefiro manter distância).

André Breton disse que acaso objetivo é expressão e materialização do desejo; projeção do desejo na realidade. Mas como? O que desejava eu, para merecer essa mensagem? O episódio é estranho pela gratuidade aparente, por eu não ser pesquisador, nem mesmo interessado – tenho bastante histórias estranhas, mas de outra ordem, escrevi um livro em torno do acaso objetivo, Volta. Não procurava nada naquela fazenda, na região, no Roncador, no Araguaia – só queria sair de São Paulo, ver / rever paisagens. Tomar banho nas termas de Barra do Garça, 22 anos depois, isso sim.

Ou então, o desejo não era meu. Algo, alguém ou algum outro, transmitia uma mensagem, até hoje indecifrada. É para eu voltar ao Roncador, a Xavantina? Para escrever a respeito? Para ficar quieto, ver e calar-me?

Se fosse ficcionista, faria a campainha tocar para deparar-me com uma criatura, um extraterrestre à porta, algo assim. Se quisesse replicar Maupassant, terminava o relato aqui. Se pretendesse imitar Ernesto Sabato, a criatura me levaria a tenebrosos mundos subterrâneos, a uma sucessão de experiências horripilantes. Com H. P. Lovecraft, fonte da qual Sabato bebeu, também seria esse trajeto, universo afora. Umberto Eco teria promovido uma perseguição por membros de alguma seita, até eu chegar à gênese de teorias conspiratórias baseadas na adulteração de um trecho de Balsamo de Alexandre Dumas, assim como fez em três de seus livros (Eco é bom, pode repetir-se) . Guimarães Rosa teria posto tudo, fazenda, bois, serra, fins de tarde luminosos, extensões e aparições, dentro do texto, e narrado na primeira pessoa, em tom de relato oral. André Breton não teria escrito ficção – iria até a Serra do Roncador e despejaria bastante prosa poética sobre os paredões de arenito, as inscrições rupestres e o restante. Michel Leiris se instalaria na aldeia xavante e produziria etnografia participativa. Cortázar… – com ele, tudo seria possível, até mesmo um relato direito, chapado, como este. José J. Veiga (belo escritor, esquecido, precisamos resgatá-lo), em alguma das vezes em que conversamos, teria me contato uma série de causos como este.

Que tratamentos isso – esse episódio, insisto, 100% real – receberia de outros narradores?

Acaso objetivo

Em tempo – postado a 27/05: pedi a participantes de oficinas e cursos que enviassem relatos de acaso objetivo – estão nos comentários. Quero mais.

Da entrevista que o poeta e estudioso Chiu Yi Chih está fazendo comigo para a revista eletrônica Zunaí, resolvi destacar este trecho (vai dar uma entrevista especialmente substanciosa, Chiu me leu bem e há perguntas que são ensaios):

14) Você conta experiências de “acaso objetivo” reportando-se às suas vivências e leituras no seu maravilhoso livro Volta, e de fato aconteceu comigo quando estava fazendo sua oficina em 2008. Você nos indicava várias leituras, dentre as quais, Nadja de André Breton, e logo depois eu vi três vezes esse nome Nadja em intervalos muito próximos: o primeiro num pára-brisa de caminhão quando estava numa estrada indo da minha casa para o centro de Embu das Artes, o segundo numa placa de sinalização na periferia do Embu e o terceiro numa loja de roupa aqui em São Paulo. São esses acontecimentos de sincronicidade onde as fronteiras do sonho e da realidade se comunicam que despertavam a imaginação dos poetas surrealistas como André Breton. Quando estamos em processo de criação, é como se abrisse uma brecha na realidade. Gostaria que falasse sobre essa ruptura dos limites no seu processo de escrita.

(falarei….)

(em tempo – acrescentei depois) – aquele episódio matricial de acaso objetivo, já relatado em várias entrevistas, a mais recente em Os dentes da memória – transcrevo do meu ensaio sobre acaso objetivo em O Surrealismo, ed. Perspectiva:

“O episódio é relatado por Roberto Piva no vídeo Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti: a 26 de setembro de 1966, por volta das 16 h, Piva e Roberto Bicelli caminhavam pela Avenida Rio Branco no trecho final, próximo ao viaduto sobre os trilhos, em São Paulo. Viram passar a toda velocidade um caminhão carregado de móveis e utensílios, encimados por um armário cuja porta, impelida pelo sacolejar do veículo, abria e fechava, batendo com força. Do móvel saía, esvoaçando, conduzido pelo vento, um longo lençol branco. Apontando para o conjunto insólito, Bicelli exclamou: É o fantasma de André Breton! Nem Bicelli, ao identificar desse modo a sacolejante mudança ao surrealista, nem Piva, lembraram-se, na hora, desta frase meio solta no primeiro Manifesto do Surrealismo, em um parágrafo intitulado “Contra a morte”: “Não vos esqueçais de formular adequadamente vossas disposições testamentárias: eu, por exemplo, peço que me transportem ao cemitério num caminhão de mudança”. No dia seguinte, leram nos jornais a notícia do falecimento de Breton naquela data e hora, às 16 h. de 26 de setembro de 1966. O acaso objetivo assim prestava uma oblíqua homenagem ao seu formulador.


[1] Produção da SP Filmes disponível em vídeo, exibido na TV Cultura de São Paulo e TV Educativa.

[2] André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Jorge Forbes, prefácio de Claudio Willer, Editora Brasiliense, 1985; ou André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Sérgio Pachá, Nau editora, Rio de Janeiro, 2001; esta, mais completa, segue André Breton – Manifestes du Surréalisme, Jean Jacques Pauvert éditeur, Paris, 1962, incluindo a Lettre aux Voyantes e Poisson Soluble, ausentes das edições Gallimard e Brasiliense.