Posts Tagged ‘Allen Ginsberg’

NOVA PALESTRA: A GERAÇÃO BEAT – REBELIÃO, VALOR LITERÁRIO E TRADUÇÕES

Onde: Centro de Pesquisa e Formação do SESC em São Paulo. Rua Dr. Plínio Barreto 285, 4º andar, Bela Vista

Quando: dia 07 de agosto, 2ª feira, de 15h00 a 17h00

O que será: Projetarei originais de poemas, de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, lerei e comentarei minhas traduções. Comentarei a contribuição literária dos beats. Minha sinopse: Libertação do corpo e da sexualidade; anti-autoritarismo; ampliação da consciência: são temas tão disseminados que nem nos lembramos que entraram em circulação, como objeto de interesse mais amplo, há poucas décadas, através do impacto provocado por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Gregory Corso, Michael McClure e outros autores ligados à Geração Beat. Contudo, essa contribuição política, impregnada de uma mística do excesso e da transgressão, não deve fazer que se perca de vista o valor literário, a consciência de que tiveram tamanha influência por terem sido extraordinários escritores. Isso será mostrado exibindo e comentando textos, especialmente de Ginsberg e Kerouac, confrontando originais e traduções.

VENHAM

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Minha postagem mais acessada no Facebook:

Foi a 13 de outubro de 2016. 685 reações, 242 compartilhamentos e  43 comentários, informa a rede social. Acompanhou-a este texto:

Lembrando que, após ler ‘On the Road’ de Jack Kerouac, o jovem Robert Zimmerman saiu de casa e adotou o nome de Bob Dylan (referência ao poeta galês). Literatura move. Aqui, a foto famosa, Ginsberg e Dylan no túmulo de Kerouac. Estamos em um mundo que dá voltas sobre si mesmo. Polêmicas não faltarão. .

Mais tarde no mesmo dia, declarei (para a Globonews) que poderiam ter dado o prêmio para Patti Smith. Obviamente sem saber disso, Dylan indicaria Patti para o representar na entrega do prêmio. Tarântula de Dylan é prosa poética kerouaquiana de excelente qualidade. Linha M de Patti é memorialística, também em prosa poética, primorosa.

E eu resolvi postar algo ameno, em face da sensação de haverem destampado, neste nosso país, uma enorme cloaca, ou de terem aberto a caixa de Pandora, ou qualquer outra metáfora que se ajuste ao momento presente.

20 anos sem Allen Ginsberg (3 de junho de 1926 – 5 de abril de 1997)

De um artigo de Mikal Gilmore publicado na Rolling Stone de maio de 1997 e reproduzido no substancioso compêndio The Rolling Stones Book of the Beats: “A uma dada altura em sua última semana de vida, ele [Ginsberg] cantou acompanhando uma gravação de “C. C. Rider” pela vocalista de blues da década de 1920 Ma Rainey – a primeira voz de que Ginsberg se lembrava de ouvir quando criança.” Em seu necrológio para Naomi Ginsberg, sua mãe morta em um hospício, pôs este verso “com teus olhos de Ma Rainey morrendo numa ambulância”. Tratei, em uma palestra recente, do significado dos blues para a poesia de Ginsberg. Seu modo de ler poemas, achava-o parecido com um “kantor” de sinagoga; mas Ginsberg esclareceu, em uma entrevista para Harvey R. Kubernik, também na Rolling Stone: “… eu cresci com os blues, Ma Rainey e Leadbelly. Ouvi-os ao vivo na estação de rádio WNYC, no final dos anos trinta e começo dos quarenta. Há algo de uma relação do canto hebraico com os blues que eu sempre tive.” Em outro trecho, comenta que Frank Sinatra havia aprendido seu modo de expressar-se, de dizer as palavras das músicas, com os negros. Pela mesma razão, suponho, Kerouac estava nas filas de fãs para assistir a shows de Sinatra em 1939, antes de conhecer Ginsberg e os demais beats.

Quero voltar a tratar disso em palestras, mostrando algo da contribuição dos negros americanos, com os quais Ginsberg, Kerouac e outros beats se solidarizavam e se identificavam. Associar aos rumos que a poesia de Ginsberg tomou depois dos poemas de alto impacto como “Uivo”, “América” e “Kaddish”, e suas parcerias com músicos (Bob Dylan, Paul McCartney em Dance of Skeletons, The Clash etc).

Também do artigo de Gilmore: “Mais que qualquer outra coisa, contudo, Ginsberg foi alguém que convocou a bravura para dizer verdades escondidas sobre coisas de que não se falava, e algumas pessoas ganharam consolo e coragem de seu exemplo. Esse exemplo – a insistência em que ele não iria simplesmente calar a boca e de que não se deveriam aceitar valores e experiências delimitadas – talvez seja o maior presente de Ginsberg para nós.”

Fiz uma seleta de posts sobre Ginsberg já publicados aqui:

Minha tradução de “Kral Majales”, seu poema sobre a expulsão da Tchecoslováquia em 1965, com observações sobre sua religiosidade plural, não-institucional: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Um dos meus posts mais visitados é “Allen Ginsberg para homofóbicos”, com a tradução de “Please master”, “Por favor meu amo”, por Paulo Henriques Brito, publicado em A queda da América (L&PM): https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/05/allen-ginsberg-para-homofobicos-um-poema-edificante-e-instrutivo/

Pdf de cartas d Ginsberg, incluindo instruções importantes para minha tradução: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/09/mais-paginas-de-cfartas-de-allen-ginsberg/

A comparação do trecho de “Kaddish” com “Union libre” de Breton, sugerida por Barry Miles: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/03/kaddish-de-allen-ginsberg-1926-1997/

Reproduzo trecho do meu post de 2011, sobre sua lucidez e capacidade de antecipação:

“A exaltação mística e o ímpeto messiânico de Ginsberg coexistiram com um pensamento político articulado e atento aos detalhes. A passagem de algumas décadas confere valor adicional a suas declarações e manifestações. Isso, pelas tomadas de posição que o projetaram como liderança na mobilização contra o militarismo norte-americano e a intervenção no Vietnã, e por críticas como aquela ao regime cubano, então precursoras e atualmente óbvias, em tópicos como a perseguição de homossexuais e repressão à “santeria”. E por precisas análises pontuais. Por exemplo, em sua palestra sobre Ezra Pound, “Poetic Breath, and Pound’s Usura”, de 1971, publicada em Allen Verbatim. Após discorrer sobre prosódia, ritmo e respiração em poemas de Charles Olson e William Carlos Williams, detém-se nos famosos versos sobre a usura do Canto XLV dos Cantos de Pound. Mostrando a musicalidade de um verso como “Azure hath a canker by usura”; comenta o modo como o próprio Pound lia esses versos; observa a escolha de “with usura the line grows thick” em vez de “with usura the line gets thick”, argumentando que em Pound o som tinha sentido e cada vogal tem “substancialidade”. Finalmente, levando em conta esses valores sonoros, caracteriza o Canto XLV como um “grande exorcismo da usura” e contextualiza, denunciando a privatização e controle do dinheiro por bancos, que por sua vez se tornam credores dos governos:

Assim, o que Pound está observando é que todo o sistema monetário, o sistema bancário, é uma alucinação, e ele está explicando a estrutura dessa alucinação e retroagindo historicamente, porque a estrutura muda em cada era da reforma bancária. […] A questão é que a franquia é comprada por um grupo de monopolistas privados; daí em diante eles possuem o negócio bancário, nesse sentido, pois pagaram um milhão ao governo e tem um milhão em seus porões, e subitamente, no papel, possuem dezoito milhões a mais do que o capital inicial.

Nem é preciso insistir na pertinência dessa análise; o quanto se aplica à crise econômica em curso, decorrente da condução de políticas econômicas por bancos e da especulação desenfreada. Poderia constar em artigos escritos de 2008 até hoje.

Outro exemplo da sintonia fina em análises políticas está em Indian Journals, o diário de sua estada na Índia por mais de um ano, de março de 1962 a maio de 1963. No meio de poemas, reflexões sobre criação poética, registros de leituras, relatos de alucinações e efeitos de drogas, descrições do que via no período em que, junto com Peter Orlowski, levou vida de saddhu, monge mendicante, acrescentou um recorte de jornal. É um artigo intitulado “A classe privilegiada”, denunciando que “1% dos lares do país possuem nada menos que 75% dos bens privados”. Assim argumentou que a estatização, a economia fechada e o monopólio bancário geram corrupção e acentuam a concentração de renda – também algo evidente hoje, à luz das melhoras do quadro econômico daquele país.

Ainda sobre os bons insights políticos de Ginsberg, seu exame, também precursor, do tema das drogas, tal como exposto na série de palestras-diálogos de Allen Verbatim intitulada “Political Opium” (ópio político). Nelas, ao caracterizar o tráfico de drogas como flagelo urbano, argumentou tratar-se de resultado da proibição . Focalizou especialmente o Harrison Act de 1920, que baniu o ópio e derivados, e criminalizou seus usuários – invariavelmente, conduzindo à colaboração entre policiais e crime organizado, além de desviar recursos do que realmente interessaria, pesquisas e políticas de saúde pública em favor de viciados, obrigando-os a ter nos traficantes seus únicos interlocutores.

Apontar economias fechadas e burocratização como fonte de corrupção; proclamar que a transferência das decisões de política econômica para os bancos levaria ao desastre; insistir em que a criminalização do uso de drogas fortalece o crime organizado; tomar a defesa da diversidade sexual e cultural como crítica ao ‘socialismo real’: aí estão tópicos de uma agenda que deixou de ser exclusiva de seguidores ou continuadores da Geração Beat. No entanto, Ginsberg formulou esse tipo de crítica em 1962 (relativamente às economias fechadas), 1965 (sobre Cuba), 1970 (contra a criminalização de drogados) e 1971 (sobre os bancos e a especulação financeira). Pode-se, por isso, caracterizá-lo como um lúcido analista político.

Em outras intervenções, Ginsberg foi igualmente precursor, nas manifestações pacifistas, na defesa incondicional da liberdade de expressão, do multiculturalismo, da tolerância e respeito à diferença.

Tudo isso, hoje em dia, é agenda de setores amplos da sociedade e de um diversificado elenco de personalidades públicas; mas eram temas minoritários, alguns vistos como excêntricos, quando apresentados por Ginsberg; e também, em inúmeras ocasiões, por McClure, Ferlinghetti, Snyder, Di Prima, Waldman e outros beats.

O registro dessas manifestações corrige um estereótipo relativo ao místico, como alguém isolado e alheio ao mundo. Passar metade do ano recluso, em meditação (na época em que o traduzi), e a outra metade dedicando-se a uma intensa atuação pública chega a ser uma metáfora da harmonia desses dois campos, misticismo e política.”

Também autografarei meu livro durante a palestra sobre Allen Ginsberg em Ribeirão Preto

A verdadeira história do século 20, meu livro mais recente de poesia, lançado ano passado:

O preço do exemplar é R$ 30,00.

A palestra será este sábado, às 11h00 no SESC de Ribeirão Preto, conforme as informações aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2017/03/20/nova-palestra-allen-ginsberg-e-a-geracao-beat-em-ribeirao-preto/

Agradeço avisarem interessados. Até lá.

 

 

Nova palestra: Allen Ginsberg e a Geração Beat, em Ribeirão Preto

Onde: SESC de Ribeirão Preto, Rua Tibiriçá, 50 – Centro, 14010090 Ribeirão Preto. No Auditório. 202 lugares. Acesso livre.

Quando: Sábado, dia 25 de março, às 11 h.

Informam os organizadores:

Em março, o CLIP – Clube de leitura com interesse em poesia – tratará da gênese da Geração Beat e da contribuição literária de Ginsberg através de “Uivo”, “América”, “Sutra do Girassol” e tantos outros poemas. Ginsberg insistiu que a criminalização do uso de drogas fortalece o crime organizado, tomou a defesa da diversidade cultural e sexual – praticando-a intensamente. Receberá atenção também a religiosidade heterodoxa de Ginsberg, mostrando que misticismo não é sinônimo de alheamento e abstenção.
Claudio Willer é poeta, tradutor, ensaísta e fez pós-doutorado em Letras pela USP.

Venham. Avisem interessados. Problema não será a falta de assunto. Trarei exemplares do meu livro de poesia A verdadeira história do século 20. Obrigado!

EM TEMPO: Reproduzo aqui também as gravações no YouTube das minhas palestras sobre Jack Kerouac e a Geração Beat, nas mostras de cinema beat no CCBB, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sobrou público, mesmo com auditórios grandes:

Em São Paulo: https://www.youtube.com/watch?v=i4pedYkXQcg&feature=share

No Rio de Janeiro: https://www.youtube.com/watch?v=uEQYTk0SPR4&feature=share

ALLEN GINSBERG COMPLETARIA 90 ANOS HOJE (DIA 03 DE JUNHO DE 2016)

ginsberg-a-balada-dos-esqueletos-3-de-junho

Já publiquei uma quantidade de posts relativos a Ginsberg aqui, neste blog. Poemas, artigos comentando sua lucidez política, sua capacidade de antecipação. Selecionei alguns links, estão no final deste texto. Há ainda as traduções, os ensaios etc. Agora, reproduzo trecho da minha palestra “Beats e catástrofes” na qual o cito. Apresentei terça feira passada, dia 31/05, em Goiânia, na UFG, no Colóquio Pensamento, Catástrofe e Ação da UFG, https://claudiowiller.wordpress.com/2016/05/25/coloquio-catastrofe-pensamento-e-acao-em-goiania-na-ufg/ Terminei lendo “Bomba” de Gregory Corso, e sugeri como epígrafe a frase de Breton “Este fim de mundo não é o nosso”.

Aí vai o trecho:

[…]

Em 1965 Allen Ginsberg já se declarava em favor da ampliação da consciência e dizia procurar “soluções ecológicas em vez de ideológicas”[1]. Um precursor:

Também há a questão do ”terceiro caminho”, nem comunismo nem capitalismo, que pregávamos enquanto os intelectuais procuravam extremos do marxismo ou do anticomunismo. Nossa preocupação é alterar estados de consciência e achar soluções ecológicas, não ideológicas.

[…]

Destaca-se, na presente programação, entre outros conferencistas qualificados, a participação de Annie Le Brun, uma pensadora importante, especialista em surrealismo, que está lançando no Brasil O sentimento da catástrofe: entre o real e o imaginário[2]. Reflete sobre a importância de respostas poéticas a catástrofes. E cita uma frase de André Breton, de 1948: “Este fim de mundo não é o nosso”, no artigo “La lampe et l’horloge”, de 1948. Há um foco ambientalista. Chernobyl é tema. Em O sentimento da catástrofe, menciona muita coisa do que se revelou após os acontecimentos entre 1989 e 1991, com o fim da União Soviética: o Mar de Aral que foi secado, a tundra siberiana devastada, as extensões de terra envenenadas (por exemplo, mencionaria, a região de Bielefeld na antiga Alemanha Oriental).

Estados burocráticos, regimes de planejamento central não são inocentes em matéria de agressões ao ambiente, contrariando a associação dessas apenas ao consumo desenfreado e consequente desperdício nas economias de mercado. Aliás, aqui no Brasil demonstramos que desperdício, poluição, sujeita descontrolada e os conseqüentes prejuízos não são, de modo algum, características de países ricos, das economias prósperas. Quando estive na Alemanha em 1989, observei que meus tios, que me hospedavam, já separavam o lixo para reciclagem. Aqui, até quando proliferarão os lixões… ?

É possível cotejar os regimes de planejamento central e as economias de mercado na capacidade de destruição do meio ambiente? (e, por decorrência, de seres humanos) A meu ver, equivalem-se. Difícil mensurar, por exemplo, qual catástrofe ambiental foi pior, aquela de Chernobyl ou a de Bhohal, na Índia, em 1984, com os envenenamentos provocados por um vazamento de gás da fábrica de fertilizantes da Union Carbide (subsequentemente incorporada á Dow Chemical): 3.000 mortes diretas e, estima-se, 150.000 pessoas afetadas. E, na Nigéria, o modo como a Shell explora campos petrolíferos continua devastador, com um completo descaso, com a cumplicidade dos governos locais, pela população e pelo ambiente.

Em uma palestra recente em São Paulo, Le Brun também tratou de Fukushima, a usina atômica construída sobre uma falha geológica, comentando como o desastre foi normalizado. E falou do nosso desastre mais recente, o rompimento da barragem de rejeitos de minérios da Samarco em Mariana.

Mas nós, brasileiros, teríamos tantas catástrofes a acrescentar. Da minha parte, classificando como catástrofe irreversível, incluiria na lista a usina hidroelétrica de Belo Monte, pelo dano permanente à diversidade biológica (já faltam peixes no Xingu) e cultural, como já foi observado por entidades e pesquisadores isentos (reproduzi em meu blog um dos veementes protestos do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro).

E temos um estado, me parece, de desastre ou catástrofe duradoura, que pode ser relacionado a governantes que decidiram, tardiamente, partilhar o destino dos países ditos petrodependentes. Com reflexos diretos na presente crise, acarretando conseqüências econômicas, sociais, e, visivelmente, políticas, apostaram na expansão do setor, investindo, do modo como sabemos, em refinarias e novos campos de exploração do petróleo, no momento quem que o mundo, ou uma ponta moderna do mundo, volta-se para outras fontes. Assim, espantosamente, países europeus hoje têm uma participação bem maior que a nossa maior não só de fontes eólicas, mas solares na geração de energia.

Nossos dirigentes não leram, entre tantas outras advertências, Ginsberg. Já em 1974, escrevia:

Quanto ao petróleo: seria aconselhável que os EUA desenvolvessem fontes de eletricidade solar, eólica e outras descentralizadas. Toda essa briga pela preservação das fontes de petróleo é uma característica do monopólio capitalista da indústria de petróleo & da aliança militar-industrial dentro de um contexto estático e fixado. Toda essa “crise” está fora do contexto ecológico mesmo. O custo do oleoduto do Alasca seria suficiente para as pesquisas e o desenvolvimento de formas de energia utilizando o sol ou as correntes oceânicas. Se existe crise, a reação de quem demanda mais petróleo é tão neurótica quanto a do viciado que quer mais uma dose. É parte de todo o contexto.[3]

[…]

 

Uma seleção de posts relacionados a Ginsberg:

https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/05/allen-ginsberg-para-homofobicos-um-poema-edificante-e-instrutivo/

https://claudiowiller.wordpress.com/2014/09/14/os-poetas-e-a-politica/ .

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/06/19/agora-um-trecho-de-allen-ginsberg/

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/03/a-traducao-da-despedida-de-ginsberg/

https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/

[1] Cf. este dossiê: http://folhadepoesia.blogspot.com.br/2016/04/wales-visitation-ginsberg.html

[2] São Paulo: Iluminuras, tradução de Fábio Ferreira de Almeida, prefácio de Eliane Robert Moraes

[3] Em Negócios de família, p. 146, coletânea com a correspondência com seu pai, Louis Ginsberg; reproduzi em meu blog, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/15/ainda-a-lucidez-de-ginsberg/

Allen Ginsberg para homofóbicos: um poema edificante e instrutivo

ginsberg

Anteontem, dia 03 de junho de 2015, Ginsberg teria completado 89 anos, se um câncer no fígado resultante de hepatite C não o tivesse levado aos 70, em 1997. O poema a seguir, “Por favor meu amo”, circulou no Facebook, postado por Sergio Cohn. Um professor de escola nos Estados Unidos o distribuiu para alunos e foi demitido (“et pour cause…”, diriam os francófonos) Adequado para homofóbicos em geral e os idiotas que reclamam da propaganda do Boticário em especial, também poderia enriquecer o repertório da Parada Gay deste próximo domingo. É a tradução de “Please, Master” por Paulo Henriques Britto, que integra o volume de poesias A queda da América, publicado pela L&PM. Já o comentei em meus Geração Beat e Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico. Observei o caráter litúrgico, acentuado pela repetição, pelo uso da anáfora. Ginsberg tratou as evocações do que fazia com Neal Cassady (morto em 1967) como cerimônia religiosa, confundindo ou invertendo propositadamente as esferas do sagrado e do profano. Paulo Henriques Britto é um tradutor dos mais qualificados, resolveu bem todas as obscenidades, e também enfrentou as dificuldades de Kerouac em Os subterrâneos (igualmente pela L&PM). Não obstante, eu teria utilizado “Por favor Mestre” ou “Por favor Senhor” para acentuar mais ainda esse tom litúrgico, de antinomismo religioso, oração em um culto às avessas. Se bem que “amo” tenha um duplo sentido interessante.

Por Favor Meu Amo Allen Ginsberg

Por favor meu amo deixa eu tocar teu rosto

por favor meu amo deixa eu me ajoelhar a teus pés

por favor meu amo deixa eu baixar tua calça azul

por favor meu amo deixa eu contemplar o teu ventre de dourados pêlos

por favor meu amo deixa eu tirar tua cueca devagarinho

por favor meu amo deixa eu desnudar tuas coxas para meus olhos

por favor meu amo deixa eu tirar minha roupa sob a tua cadeira

por favor meu amo deixa eu beijar teus tornozelos tua alma

por favor meu amo deixa eu colar meus lábios na tua coxa dura lisa musculosa

por favor meu amo deixa eu grudar o ouvido no teu estômago

por favor meu amo deixa eu abraçar tua bunda branca

por favor meu amo deixa eu lamber tua virilha de pêlos louros e macios

por favor meu amo deixa eu tocar com a língua teu cu rosado

por favor meu amo deixa eu esfregar o rosto no teu saco,

por favor meu amo, por favor, olha nos meus olhos,

por favor meu amo me manda deitar no chão,

por favor meu amo manda eu lamber tua pica grossa

por favor meu amo põe tuas mãos ásperas no meu crânio careca cabeludo

por favor meu amo aperta a minha boca contra o coração do teu pau

por favor meu amo aperta o meu rosto contra o teu ventre, me puxa

lentamente com teus polegares fortes

até tua dureza muda chegar à minha garganta

até eu engolir & sentir o gosto do teu pau-tronco cheia de veias carne quente delicada por favor

Meu amo empurra meus ombros me olha bem nos olhos & me faz

debruçar sobre a mesa

por favor meu amo agarra minhas coxas e levanta minha bunda até a tua cintura

por favor meu amo tua mão áspera no meu pescoço palma da outra mão na minha bunda

por favor meu amo me levanta, meus pés apoiados em cadeiras, até meu cu sentir o hálito do teu cuspe e teu polegar girando

por favor meu amo manda eu dizer Por Favor Meu Amo Me Fode agora Por Favor

Meu amo lubrifica meu saco e boca peluda com doces vaselinas

por favor meu amo unta teu caralho com cremes brancos

por favor meu amo encosta a ponta do teu pau nas pregas do buraco do meu eu

por favor meu amo enfia devagar, teus cotovelos envolvendo o meu peito

teus braços alisando o meu ventre, teus dedos tocam no meu pênis

por favor meu amo mete em mim um pouco, mais um pouco, mais um pouco

por favor meu amo enfia esse troço no meu cu bem fundo

& por favor meu amo meu faz rebolar para entrar a pica-tronco até o fim

até minhas nádegas aninharem tuas coxas, minhas costas arqueadas,

até eu ficar só solto no ar, tua espada enfiada latejando dentro de mim

por favor meu amo tira um pouco e lentamente esfrega em mim

por favor meu amo enterra fundo outra vez, e tira fora até a cabeça

por favor por favor meu amo me fode outra vez com o teu ser, me fode Por Favor

Meu amo enfia até machucar o meu macio o

Macio por favor meu amo faz amor com meu cu, dá corpo ao centro & me fode direitinho como uma garota

me abraça com carinho por favor meu amo eu me entrego a vós

& enterra no meu ventre o mesmo doce lenho quente

que dedilhaste em tua solidão em Denver ou no Brooklin ou fodeste uma donzela num estacionamento em Paris

por favor meu amo entra em mim com teu veículo, corpo de gotas de amor, suor de foda corpo de ternura, Me fode assim de quatro mais depressa

por favor meu amo me faz gemer sobre essa mesa

Gemer Ó meu amo por favor me fode assim

nesse teu ritmo de roça-enfia& tira-e-roça & enterra até o fim

até meu cu ficar mole cachorro sobre mesa ganindo de terror prazer de ser amado

Por favor meu amo me chama de cachorro, arrombando, me esculhamba

& fode mais violento, meus olhos escondidos por tuas mãos que agarram meu crânio

& enterra fundo com força brutal arrebentando a macieza úmida de peixe

& pulsa cinco segundos esguichando sêmen quente

& mais & mais, enfiando fundo enquanto eu grito o teu nome ah eu te amo

por favor meu Amo.

Em tempo: adicionei a notícia da bronca no professor de Connecticut – convenhamos, turma de 17 / 18 anos, não devia dar esse problema todo, garotada nessa idade já sabe das coisas:

http://www.thedailybeast.com/articles/2015/05/28/award-winning-teacher-fired-for-reading-an-allen-ginsberg-poem.html