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Nova palestra, com leitura de poemas, no IEL- Unicamp; desta vez, sobre Allen Ginsberg

Allen Ginsberg imagesDia 27 de novembro, quinta feira, às 14 h.
No Miniauditório do Centro Cultural do IEL
Título: “A tradução de Uivo e outros poemas de Allen Ginsberg e a atualidade de suas críticas”
No ciclo Rebeldes do Século XX
Por ocasião da minha palestra anterior no Centro Cultural do IEL, dia 28 de outubro, “Geração Beat e anarquismo místico”, perguntaram sobre minha tradução de Ginsberg. Disse que o tema possibilitaria uma nova palestra. Por isso, diante do interesse, foi agendada esta nova sessão.
Lerei algo das minhas traduções, projetando os originais no data show, assim possibilitando comparações, bem como passagens do próprio Ginsberg apresentando-se publicamente. Célia Musilli participará, lendo poemas que traduzi.
Citarei o que o grande poeta da Geração Beat disse sobre ritmo, prosódia e respiração. Mostrarei as cartas de Ginsberg, observando como me ajudaram nessa tradução. Comentarei algumas das minhas soluções. Por exemplo, a dupla tradução, dois vocábulos em português para um com duplo sentido em inglês. E minha opção pela sintaxe, ou pela hipotaxe, em passagens onde outros bons tradutores preferiram a parataxe. Não vou ler o poema “Uivo”, “Howl” na íntegra – mas lerei todo “No túmulo de Apollinaire”, em cuja tradução inventei alguma coisa, projetando simultaneamente o original.
Além de tratar de poesia e poética, falarei sobre o personagem: a importância de Ginsberg como formulador da Geração Beat, inclusive a impressionante atualidade das suas críticas e propostas. A sessão poderá interessar, portanto, aos leitores em geral, estudantes de Letras em geral, e do curso de tradução em especial.
Novamente, haverá exemplares de “Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico” e de “Uivo e outros poemas” de Allen Ginsberg à disposição do público.
O informe do IEL:
http://www.guiacultural.unicamp.br/agenda/outros/ciclo-rebeldes-seculo-xx

Os poetas e a política

De Allen Ginsberg, trecho do poema “Morte à orelha de Van Gogh”. Faz parte de Kaddish and other poems, e está na edição brasileira, Uivo e outros poemas (L&PM), que preparei. Citação inspirada pela qualificação de uma candidata à presidência como ‘poetisa’ por um ministro do atual governo:

Vachel Lindsay Ministro do Interior
Poe Ministro da Imaginação
Pound Ministro da Fazenda
e Kra pertence a Kra e Pucti a Pucti
cruzamento de Blok e Artaud
a Orelha de Van Gogh estampada no dinheiro
chega de propaganda de monstros
e os poetas devem ficar fora da política ou se tornarão monstros
eu me tornei monstruoso por causa da política
o poeta russo indiscutivelmente monstruoso em seu diário íntimo
o Tibete deve ser deixado em paz
Estas são profecias óbvias
A América será destruída
os poetas russos lutarão contra a Rússia
Whitman preveniu contra essa “maldita fábula das nações”
Onde estava Theodore Roosevelt quando ele mandou ultimatos do seu castelo em Camden
Onde estava a Câmara dos Deputados quando Crane leu em voz alta seus livros proféticos
Onde estava tramando Wall Street quando Lindsay anunciou o destino final do Dinheiro
Estariam escutando meus delírios nos vestiários do Departamento de Pessoal de Bickford’s ?
Deram ouvidos aos gemidos da minha alma enquanto eu lutava
com estatísticas de pesquisas de mercado no Fórum de Roma?

Ainda de Ginsberg, a propósito de intolerância religiosa, também evidente na atual campanha eleitoral – agravada pela hipocrisia, por partir de gente que comparece a toda sorte de templos dos mercenários da fé, para obter algum apoio adicional – o trecho de “Kral Mahales” cuja tradução eu já havia publicado neste blog:

e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Mahales na língua tcheco-eslovaca,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas escolheram meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em poucos minutos eu pousarei no Aeroporto de Londres,
e eu sou o Rei de maio, naturalmente, pois tenho origem Eslava e sou um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as contas de Xangô o Nigeriano cantando Shiva Shiva de um modo que inventei,

A tradução integral, devidamente contextualizada, aqui:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/
Anarquista radical, não obstante Ginsberg participava de frentes e coalizões. Um exemplo foi seu envolvimento nas manifestações de Chicago em 1968, em favor da indicação do pacifista George McGovern, crítico da guerra do Vietnã, como candidato do Partido Democrata (perdeu a indicação para Hubert Humphrey, o qual por sua vez perdeu a eleição para Richard Nixon).
Não pretendia me manifestar, por enquanto, sobre eleições brasileiras. Mas a designação de Marina Silva como ‘poetisa’ pelo ministro Gilberto Carvalho foi uma gota d’água. Esta:
http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,marina-era-uma-poetisa-e-nao-tinha-nenhum-poder-de-decisao-diz-carvalho,1559309
Houve, é claro, infâmias e distorções mais graves. Algumas revertem, em prejuízo de seus contendores – por exemplo, a educadora convertida em banqueira. Ou as dúvidas sobre sua viabilidade, análogas àquelas feitas por ocasião da candidatura de Lula em 2002, porém desta vez enunciadas por seus adeptos. Mas a dificuldade da candidatura de Marina Silva me parece estar, muito mais, na passagem de um movimento setorial e definido como alternativo para uma coalizão e um programa mais amplos. Daí resultam imprecisões e ambigüidades que podem afetar a credibilidade. Isso, agravado por recursos mínimos, tempo reduzido na TV e uma base ainda estreita. Segundo turno poderá alterar.
Quanto à envergadura como poeta, inexiste, penso. Mas conheço integrantes de sua equipe – e de um possível futuro governo – que são literariamente muito qualificados (e em outros campos também). Aguardemos o que vem pela frente. Ginsberg, se estivesse aqui, veria com simpatia – e reagiria, evidentemente, à desqualificação como poeta ou ‘poetisa’.

A nova Noite Beat no teatro Cemitério de Automóveis

Será dia 24 de julho, a próxima quinta feira.
Comemoração dos 30 anos da publicação da minha tradução de Allen Ginsberg, “Uivo e outros poemas” pela editora L&PM (agora na n-ésima edição). Lerei “Uivo”, nesta altura um clássico.
A organização é de Ivone fs e Guilherme Ziggy.
O Cemitério de Automóveis fica à Rua Frei Caneca, 384.
Chegarei após as 21 h, pois dou oficina. Mas convém não chegarem em cima da hora, pois a lotação do local é limitada. (terei escrito um enunciado ambivalente ou ambíguo?) (dará certo, em outras ocasiões tudo funcionou bem)
O teatro-bar de Mario Bortolotto também tem uma banca de livros, como sabem os freqüentadores. Haverá exemplares de “Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico”, “Geração Beat”, “Uivo e outros poemas” e outras edições da L&PM. Autografarei.
Haverá mais apresentações de qualidade. Artistas comparecerão. Na imagem, o programa completo.
noite beat o programa

Sincronia na livraria

na Livraria Cultura image Quem faz os arranjos de livros na Livraria Cultura? Na foto tirada e enviada por Lucas Bertolo, meu livro de poemas, Estranhas Experiências (editora Lamparina, está sendo vendido a R$ 25,00) e minhas traduções de Os cantos de Maldoror e o restante de Lautréamont (Iluminuras) e de Uivo e outros poemas de Ginsberg (L&PM) na excelente companhia da nova edição de Invenção de Orfeu de Jorge de Lima pela Cosac Naify. Por acaso, dei palestra e estou preparando um ensaio extenso sobre Jorge de Lima, poeta colossal.

As traduções de Allen Ginsberg: “Sobre a obra de Burroughs”

É continuação do meu penúltimo post, reproduzindo cartas que recebi de Ginsberg e observando como contribuíram para minha tradução. Referi-me à dupla tradução, o ‘rare’ de “On Burroughs work” traduzido como “raro” e “cru”, com o endosso dele. Achei no Google o original do poema. Reproduzo-o e em seguida minha tradução em Uivo e outros poemas, para esclarecer.
Nessa tradução, não economizei na prosódia, com aliterações e rimas internas. Foi espontâneo, direto, apoiei-me no ritmo. Outros poemas me deram mais trabalho. Além de “Uivo”, extenso e complexo, também “No túmulo de Apollinaire”, no qual brinquei com o “amar eternamente / amar é ter na mente / amar éter na mente”, além de aplicar uma pincelada proustiana – datilografei seis vezes, ainda não se usava computador em 1984, até ficar como eu queria. Futuramente, reproduzirei aqui o poema.

On Burroughs’ Work
The method must be purest meat
and no symbolic dressing,
actual visions & actual prisons
as seen then and now.

Prisons and visions presented
with rare descriptions
corresponding exactly to those
of Alcatraz and Rose.

A naked lunch is natural to us,
we eat reality sandwiches.
But allegories are so much lettuce.
Don’t hide the madness.

San Jose, 1954

Sobre a obra de Burroughs
O método deve ser a mais pura carne
e nada de molho simbólico,
verdadeiras visões & verdadeiras prisões
assim como vistas vez por outra.

Prisões e visões mostradas
com raros relatos crus
correspondendo exatamente àqueles
de Alcatraz e Rose.

Um lanche nu nos é natural,
comemos sanduíches de realidade.
Porém alegorias não passam de alface.
Não escondam a loucura.
San Jose, 1954

AS NOTAS:
1. raros relatos crus – a dupla tradução: no original, with rare descriptions. Rare é raro, diferente, especial, mas também cru, malpassado, em rare done meat. Crus faz um par com nu, dando nu e cru, expressão que significa verdadeiro, realístico, acentuando o sentido do poema.
2. um lanche nu – Este poema foi escrito na California em 1954, enquanto Ginsberg ia recebendo por carta, de Tanger, trechos do que Burroughs denominava de routines, narrativas que, remontadas, viriam a compor Naked Lunch, terminada em Paris quatro anos mais tarde. O sanduíche da linha seguinte leva a concluir que a tradução desse título para o português pode ser Lanche Nu, e não só Almoço Nu, apesar de lunch, em inglês, significar almoço, tanto quanto refeição leve. Ginsberg gostou da metáfora ‘sanduíches de realidade’, ‘reality sandwichwes’ e a usou como título de seu terceiro livro de poemas.

Mais páginas de cartas de Allen Ginsberg

432
Tem que clicar sobre os números, aparecem os arquivos em pdf. Mostram como Ginsberg esclareceu, uma a uma, minhas dúvidas. O terceiro dos arquivos, aqui numerado como 2, é especialmente importante. Conforme observei em artigos e em prefácios de Uivo e outros poemas, um procedimento que utilizei, sempre que tivesse função no texto, enriquecendo-o e adequando-se ao ritmo e prosódia, foi a dupla tradução, uma palavra para cada sentido. Isso foi sugerido pelo próprio Ginsberg. Uma das dúvidas que lhe apresentei referia-se à palavra rare, em “Sobre a obra de Burroughs”, um poema importante por conter uma poética, idéias sobre criação literária. Na frase “with rare descriptions”, a expressão “rare” corresponde a raro, diferente, especial; mas também podia significar cru, malpassado, como em “rare done meat”, bife malpassado. Ginsberg respondeu-me que, para ele, os dois sentidos cabiam, e a escolha ficava por conta da minha sensibilidade (“your delicay of feelings”, escreveu). Então, fiz a dupla tradução, obtendo como resultado “raros relatos crus”.
Em outras passagens também há palavras com duplo sentido como recurso para a polissemia. Por isso, acabei utilizando o mesmo procedimento, dupla tradução, em outros trechos desta edição, especialmente em estrofes de “Uivo”, sempre com o pensamento voltado para o sentido, e o ouvido atento à prosódia. É o caso de, em “Uivo”, no original, “incomparable blind streets”. Uma “blind street” pode ser a mesma coisa que “blind alley”, beco sem saída. Mas a tradução literal, “ruas cegas”, também cabe, pelo contraste com o “clarão da mente” e os postes de iluminação logo em seguida. Daí haver juntado as possibilidades, fazendo “incomparáveis ruas cegas sem saída”, a dupla tradução para o duplo sentido. Também em “Uivo”, em “leaping towards the poles of Canada & Paterson”, a palavra pole pode significar um pólo geográfico, e um poste de rua, mastro, estaca. Aqui, a dupla tradução, resultando em “pulando nos postes dos pólos do Canadá & Paterson”, gerou uma imagem sonora forte, com essa sequência consonantal, p-p-p-p, e vocálica, o-o-o-o-o-o, explosiva (pó-pó-pá, etc).

“Kaddish” de Allen Ginsberg (1926-1997)

Completaria 88 anos hoje, dia 3 de junho. Já postei inéditos dele, algo da minha tradução de Uivo e outros poemas, e comentários sobre sua lucidez política, especialmente https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/ .
Seu biógrafo Barry Miles, no excelente The Beat Hotel, compara o final de “Kaddish”, o extenso poema de Ginsberg sobre sua mãe, a um poema de André Breton, “Union Libre”, que ele teria lido naquela época.Será? Podem comparar, pois minha tradução do poema de Breton é o post mais acessado neste blog (e isso atesta em favor dos que me freqüentam): https://claudiowiller.wordpress.com/2013/06/17/a-uniao-livre-de-andre-breton/
De fato, é como se um fosse o avesso ou complemento do outro. Ambos valem-se da anáfora. Breton, lírico e luminoso; Ginsberg, sombrio e plangente. Um sobre o encontro, através de imagens poéticas; outro sobre a perda, com metáforas realistas e associações livres. Mas Ginsberg sempre usou magistralmente a anáfora ou mote, como no vigoroso final de “Uivo”, em “Eu estou com você em Rockland” etc.
Em Negócios de família (editora Peixoto Neto), a correspondência de Ginsberg com seu pai, Louis, também poeta, esse reconhece a grandeza de “Kaddish” – mas reclama da “longa barba negra ao redor da vagina”, inclusive pedindo que a retirasse.
Miles ainda conta, em The Beat Hotel, que Ginsberg chorava ao escrever poesia: ao criar “Kaddish”, teve certeza de que seria um bom poema, pois chorou muito. Tenho citado, como antídoto para a declaração de João Cabral, de que “a emoção não cria”. Claro que não exclusivamente – mas contribui.
KADDISH
IV
Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços
com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey morrendo numa ambulância
com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores
V
Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island
Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra
có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes
Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có Senhor
NY, 1959

Sinopse da palestra sobre poesia e loucura, SESC Santos, 15 de fevereiro

No ciclo Mente & Arte: Subjetivo infinito, coordenado por Flavio Viegas Amoreira. Não examinei todos os tópicos dessa sinopse. Pulei o exame de Artaud e geração beat: material para curso ou ciclo de palestras. Preferi dar maior atenção à questão de método ou de crítica ao final: a distinção entre o texto louco e o autor louco.

1. A MUDANÇA DE STATUS DA LOUCURA AO LONGO DA HISTÓRIA:
a) na Antiguidade, o louco como emissário divino; o delírio inspirado em Platão; sibilas, mênades, pitonisas oráculos e xamãs.
b) com o advento do cristianismo, o louco como um possuído pelo diabo.
c) a loucura clássica: o louco como alguém a ser isolado; caso extremo, a Nave dos Loucos (entre outras fontes, História da loucura de MICHEL FOUCAULT)
c) o louco como doente a ser tratado, com o Iluminismo, na virada dos séculos 18 e 19: PHILIPPE PINEL (1745-1826); a psiquiatria e as classificações ou tipologias da loucura.
d) os sintomas, especialmente o delírio, passam a ser considerados significativos, dotados de um sentido: PIERRE JANET (1859-1943), JOSEF BREUER (1842-1925) e especialmente SIGMUND FREUD  (1856-1938): da hipnose e associação livre à interpretação e à compreensão mais profunda do ser humano
d) o louco como um criador: especialmente, ANDRÉ BRETON (1896-1966) e o surrealismo.

2. A MUDANÇA DO VALOR LITERÁRIO AO LONGO DA HISTÓRIA:
Sugeri um paralelo entre a percepção da loucura e aquela do valor artístico e literário:
a) o classicismo, valor como ajuste ao cânone; a imitatio dos mestres – mas relativamente, também valorizaram a inovatio, exemplifiquei com Dante Alighieri, que na Divina Comédia apresentou Virgílio como mestre mas homenageou Arnaut Daniel e Guido Cavalcanti, dois inovadores.
b) o valor romântico, arte como expressão do indivíduo, da subjetividade, do “eu”; a correlata valorização da originalidade.
c) o valor simbolista: citei ROGER SHATTUCK em The Banket Years, The Origins of the avant-garde in France, para quem, na belle époque (de 1885 a 1918) criações passaram a interessar, não mais como reprodução da norma, mas como desvio dessas normas. Se o romantismo havia questionado a imitatio, contrapondo-lhe a originalidade, para os simbolistas o artista deixou de ser quem eterniza o ideal do classicismo; passou a ser aquele que rompe com o ideal, afirmando-se como individualidade e diferença. Daí as proclamações, identificando o novo ao valor, como “é preciso ser absolutamente moderno” de ARTHUR RIMBAUD (1854-1891), e sua poética do desregramento dos sentidos, do delírio e da loucura.

3. POETAS LOUCOS:
Loucos românticos. FRIEDRICH HÖLDERLIN (1770-1843), que prosseguiu a escrever poesia de qualidade depois de perder a identidade, mergulhar na loucura. GÉRARD DE NERVAL (1808-1855), autor de uma narrativa delirante, Aurélia, escrita quando internado e antes de suicidar-se: “O que são as coisas deslocadas! Não me acham louco na Alemanha. […] A imaginação trazia-me delícias infinitas. Recobrando o que os homens chamam de razão, não deveria eu lamentar tê-las perdido?”. Mas quando escreveu os sonetos perfeitos de As quimeras também teve surtos; e narrativas em prosa como Silvia tem estranhos desvios, como bem percebeu UMBERTO ECO em Seis passeios pelos bosques da leitura; os relatos de viagem que confundem descrições, mitos e invenções.
Um louco simbolista: GERMAIN NOUVEAU (1851-1920), colega de Rimbaud em Londres, saiu andando em peregrinação, voltou anos mais tarde, nunca mais falou e continuou a escrever poesia de excelente qualidade. ALFRED JARRY (1873-1907), autor de Ubu Rei: excêntrico delirante e inovador. Para Shattuck, “aquilo que distingue Jarry de toda uma tradição de visionários, de Plotino a Rimbaud, é, antes de tudo, haver tentado, chegando quase ao suicídio, atingir um grau novo de existência, através do mimetismo literário, de confusão entre vida e arte”. RAYMOND ROUSSEL (1877-1933), autor de Locus Solus e Impressões da África: caso psiquiátrico, paciente de Pierre Janet.

4. SURREALISMO E LOUCURA:
A formação de ANDRÉ BRETON (1896-1966) em psiquiatria. No Manifesto do surrealismo, “o medo da loucura não nos impedirá de hastear a bandeira da imaginação”. Gênese do surrealismo em Gérard de Nerval. Alucinações, ataque aos psiquiatras e manicômios em Nadja. À notícia de que Nadja, em pleno delírio, havia sido internada, afirmou que, se fosse internado, mataria alguém, de preferência um de seus médicos, para que o deixassem em paz, confinado no isolamento. Simulação da loucura em Imaculée Conception de Breton e PAUL ÉLUARD. Elogio da loucura em La clé des champs, l’art des fous, sobre o movimento Art Brut, com JEAN DUBUFFET: o artista louco é uma reserva de saúde moral, por não criar para a aceitação pela crítica e mercado.
ANTONIN ARTAUD (1896-1948), sua ligação com surrealismo: a Carta aos médicos-chefes dos manicômios, de 1925, antecipando seus internamentos a partir de 1937. As Cartas de Rodez; “Loucura e magia negra” em Artaud o Momo; Van Gogh, o suicidado pela sociedade: “O que é um louco?” O reencontro de Breton e Artaud em 1946, do qual tratei em meu blog: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/

5. GERAÇÃO BEAT: A VALORIZAÇÃO DA LOUCURA:
JACK KEROUAC (1922-1969), no início de On the Road: “[…] porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaah!’” Dentre os vagabundos encontrados por Kerouac em On the Road, o “fantasma de Susquehanna”, que “caminhava direto pela estrada no sentido contrário ao tráfego e quase foi atropelado várias vezes”. Perdeu a orientação espacial e já não sabe mais para onde vai. A mística da marginalidade como manifesto em On the Road: “Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, não era música o suficiente.” Paráfrase do que Rimbaud escreveu sobre o “mau sangue” em Uma estadia no Inferno: “Sou um bicho, um negro. […] Falsos negros que sois, vós, maníacos, perversos, avaros. […]” (Rimbaud 1998, p. 141) A cosmovisão de Kerouac se traduz em reverência diante dos vagabundos errantes, e de índios, negros e integrantes de culturas arcaicas. Em Vanity of Duluoz, uma afirmação de princípios em favor do multiculturalismo: “[…] pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe”. Em On the Road, camponeses indígenas são adâmicos e universais: “Essas pessoas eram indubitavelmente índias e não tinham, absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços, eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela.” Em Vanity of Duluoz, a revelação ao ser internado em um hospício em 1942 e conhecer “Mississipi Gene”, vagabundo errante por opção, também citado em On the Road. O personagem perfeito de Kerouac, alguém ao mesmo tempo negro, louco, emigrante, apátrida e delinqüente: conjunto de qualidades representadas por seu companheiro na balsa de Dover a Calais em Viajante solitário.
ALLEN GINSBERG (1926-1997) e a relação íntima com a loucura. A internação em 1949, quando conheceu CARL SOLOMON, leitor de Artaud. A loucura de sua mãe. Uivo, dedicado a Solomon: os trechos relacionados ao internamento de Solomon, e a terceira parte do poema: “Eu estou com você em Rockland”. Em Kaddish, o relato da loucura da mãe. Uma poética da loucura em “Sobre a obra de Burroughs”: “Não escondam a loucura”. A relação com Peter Orlowski e seus irmãos, também loucos.Uma visão de mundo: tolerância, uma sociedade em que coubessem os loucos e os normais, uma superação da dualidade loucura-normalidade.

6. UMA QUESTÃO DE FUNDO: A DIFERENÇA ENTRE O AUTOR LOUCO E O TEXTO LOUCO.
Convergência de ambos em Gérard de Nerval, louco que escreveu como um louco. Autor louco cujo texto nada teve de louco: GUY DE MAUPASSANT (1850-1893), autor de Bel Ami e O Horla. Há, contudo, confusão de ambos pela crítica, atribuindo características do texto ao autor, ao se declarar a loucura em LAUTRÉAMONT (Isidore Ducasse, 1846-1870), como o fizeram Léon Bloy, Rémy de Gourmont e outros. Exemplifiquei a boa interpretação da loucura de um texto com ROBERTO CALASSO, em A literatura e os deuses, sobre Lautréamont: “Elucubrações de um serial killer”. Li a estrofe de Os cantos de Maldoror sobre a cabeleira de Falmer (“Toda noite”… etc), com o abuso das repetições.
Autor de um texto louco sobre a loucura: CAMPOS DE CARVALHO (1916-1998), em A Lua vem da Ásia. Autora louca, que passou boa parte da vida internada, MAURA LOPES CANÇADO (1929-1993), cujo texto ora é racional, analítico, mas com metáforas estranhas, em O Hospicio é Deus; ora é delirante ou com imagens surrealistas em O sofredor de ver (deveria ser mais lida). A propósito de Maura, o horror manicomial brasileiro.
Autores em que texto e loucura são antagônicos, entidades separadas: o prosador RENATO POMPEU. E especialmente a poeta ORIDES FONTELA (1940-1998), autora de Teia e Alba, entre outras obras. Poesia luminosa, concisa, o oposto da miséria em que vivia – li alguns de seus poemas. Relatei suas loucuras, e seu desapreço por surrealismo e escrita delirante.
Um texto louco, e a loucura como valor literário: ROBERTO PIVA (1937-2010), desde Paranóia (1963). Li trechos e exemplifiquei equívocos da crítica, com “O delírio não cria” de Luis Costa Lima sobre Paranóia, citando como delírio não criativo um trecho – “os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos secos enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembléias de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar asilo em tua face?” que é evidente paráfrase, de boa qualidade, de O poeta em Nova York de Federico García Lorca, que nunca foi louco mas escreveu algumas obras delirantes.
O encontro de Roberto Piva e Renato Pompeu promovido por Maria Rita Kehl, relatado em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ha-metodo-em-sua-loucura,579155,0.htm “Renato, o “verdadeiro” louco, relatou sua experiência manicomial com muita sobriedade e resistiu à sedução do Piva, que tentou o tempo todo levá-lo para seu campo, do elogio à loucura.” programa de rádio de Maria Rita foi repreendido por causa das exteriorizações de Piva.
Haverá uma síntese? Penso que sim, em HILDA HILST (1930-2004) em Amavisse, retomando o desregramento dos sentidos de Rimbaud: “Estendi-me ao lado da loucura/ Porque quis ouvir o vermelho do bronze/ […] Um louco permitiu que eu juntasse a sua luz/ À minha dura noite”. […] “E o que há de ser da minha troca de inventos/ Neste entardecer. E do ouro que sai/ da garganta dos loucos, o que há de ser?” […] “Minha sombra à minha frente desdobrada/ Sombra de sua própria sombra? Sim. Em sonhos via./ Prateado de guizos/ O louco sussurrava um refrão erudito:/ – Ipseidade, senhora. – / E enfeixando energia, cintilando/ Fez de nós dois um único indivíduo”.

O DEBATE AO FINAL: Especialmente importante Flávio Amoreira haver lembrado JOSÉ AGRIPINO DE PAULA, autor louco de obra delirante. E citar ligação de Hilda Hilst com a cidade de Santos.

Jack Kerouac, o biografado

Ao final de O livro de Jack, recém-publicado em edição brasileira (Globo – Biblioteca Azul), a bibliografia, a relação dos títulos que constituem sua extensa obra. São vinte e seis. Há mais, a lista está incompleta. Contudo, a quantidade de biografias e ensaios biográficos sobre o porta-voz beat é ainda maior. Só aqui, em minha estante, tenho sete.

É compreensível – não só pelo impacto de On the Road e outras de suas narrativas, mas por serem autobiográficas. Ou melhor, serem e não serem – há omissões, histórias contadas pela metade, alguma ficcionalização. Daí despertar tamanho interesse, desde o trabalho pioneiro, e que continua valendo, de Ann Charters, trazendo à luz o que houve entre Jack, Neal e Carolyn Cassady, Luanne Henderson– o “quadrângulo amoroso”, como é dito em O livro de Jack – ou pentágono, adicionando Allen Ginsberg, ou alguma figura geométrica ainda mais complexa. A mais completa dessas biografias continua sendo Memory Babe de Gerard Nicosia. Recentemente foi lançada no Brasil Jack Kerouac – King of the Beats de Barry Miles (pela José Olympio) – é um especialista, também biografou Ginsberg e Burroughs.

Daí, no prefácio mais recente de O livro de Jack, de 1912, Barry Gifford comentar biografias:

“Em carta para Arnold Zweig, datada de 30 de maio de 1936, Sigmund Freud escreve: “Para ser biógrafo, você precisa ocupar-se de mentiras, acobertamentos, hipocrisias, falsidades e mesmo apagar sua falta de compreensão, pois a verdade biográfica é impossível e, se a ela chegássemos, não poderíamos utilizá-la… A verdade não é possível, a humanidade não a merece…” […] Foi Allen Ginsberg, amigo de longa data de Jack, que disse, tendo terminado de ler as provas ainda não revisadas do volume: “Meu Deus, é como o Rashomon – todo mundo mente, e a verdade vem à tona!” […] Kerouac não tinha atributos divinos, nem O livro de Jack foi pensado para ser a hagiografia de um ser inatingível. […] A despeito do dr. Freud, há, sim, uma espécie de verdade a ser encontrada aqui.”

Se fosse no Brasil, ou, pior, se o mundo seguisse o Brasil, e se a família Sampas (sucessores de Kerouac) perfilasse no ‘Procure saber’, obviamente O livro de Jack e boa parte do restante da bibliografia kerouaquiana jamais teria chegado aos leitores. Autores como Barry Miles e tantos outros amargariam o ineditismo ou teriam que escrever sobre outra coisa. A pergunta sobre a verdade, suscitada pelo confronto de opiniões de Freud e Ginsberg, permaneceria eternamente sem resposta – ou sequer haveria como formulá-la.

O espantoso programa da Noite Beat

Ocorrerá dia 07 de novembro, quinta-feira. Será no Teatro Cemitério de Automóveis, á Rua Frei Caneca, 384.

Enorme. Trepidante. Resultado do ímpeto visionário de Ivone Fs, Guilherme Ziggy e João Pinheiro. Quem assistir à programação toda sairá do teatro com sensações alucinógenas. Como podem ver, integro o elenco dos beats – falo e autografo, em ótima companhia. A seguir, o que eles engendraram:

07/11
no Cemitério de Automóveis

PROGRAMAÇÃO

Abertura – 18h00
Exposição Projeto Bill, de João Pinheiro com 12 artistas quadrinistas, ilustradores, plásticos: todas as criações são  ligados ao universo de William Burroughs

19h00 – Pocket Show “Estúdio Realidade” de Rodrigo Garcia Lopes, com lançamento do CD , Rodrigo Garcia Lopes – Canções do Estúdio Realidade

19h30 – Lançamento de livros com leitura de convidados 
O Cristo Empalado de Marcelo Mirisola
Editora Oito e Meio
leitura: Elizabeth Lorenzottii, Adriana BrunsteinOsvaldo Rodrigues, Vince Vinus

Haicais de Kerouac – Ed. Bilíngue, tradução de Claudio Willer. Editora L&PM. leitura: Natalia Barros, Luana Vignon e Roberto Bicelli

O livro de Jack – uma biografia oral de Jack Kerouac de Barry Gifford e Lawrence Lee, tradução de Bruno Gambarotto . (Ed. Globo Livros). leitura: Bruno Gambarotto e Mario Bortolotto

Estudio Realidade de Rodrigo Garcia Lopes (Ed. 7letras] leitura: Marcelo Montenegro Rodrigo Garcia Lopes  e Rita Medusa 

Geração Beat – Claudio Willer (Ed. L&PM).

Manifestos – Claudio Willer (Ed. Azougue) leitura: Paulo Sposati e Sergio Cohn

Paisagem em Campos do Jordão – Marcelo Mirisola e Nilo Oliveira
e-book (e-galaxia)

20:45 – Debate, leituras e depoimentos
Tema: Geração Beat
Mestre de cerimônias : Sergio Cohn
Convidados: Mario Bortolotto, Claudio Willer, Rodrigo Garcia Lopes, Eduardo Bueno (Peninha), Guilherme Ziggy, João Pinheiro e Bruno Gambarotto 

23:45 : Encerramento: leitura da peça “Paisagem em Campos do Jordão”, escrita a 4 mãos por Marcelo Mirisola e Nilo Oliveira. Atores: Aline Abovsky, Francisco Eldo Mendes e Nilo Bicudo

FICHA TÉCNICA
Curadoria: Ivone fs, Guilherme Ziggy e João Pinheiro 
Mestre de cerimônia: Sergio Cohn
Foto: Mbyja Gonzaléz
Cobertura: TV Cronópios
Discotecagem: Régis Trovão
Design/Arte: João Pinheiro , Carcarah e Diego Basanelli 
Concepção e Produção: Ivone fs, Guilherme Ziggy e João Pinheiro
Direção Geral : Ivone fs
Apoio: Teatro e Bar Cemitério de Automóveis, Tv Cronópios, Editoras: (L&PM, Azougue e Oito e Meio , Bblioteca Azul / Globo Livros, e-galaxia e 7Letras) , Revista Coyote, Buenas Bookstore, Balada Literária e Edith . 
ENTRADA FRANCA

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