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Uma sátira

Vejam esta luminosa contribuição que alguém enviou a meu blog. É, evidentemente, sátira. Dirigida ao sectarismo, ao argumento de que todo opositor é agente da CIA – ou da KGB, ou do Taliban, conforme o lado:

“Existem grupos pagos pelos Americanos para derrubar regimes que não estejam a favor da agenda capitalista, nem precisa buscar muito para encontrar na internet. Veja o que ocorreu na linda “primavera capitalista” do Egito, voltou tudo como estava. Porque esta primavera não ocorreu na Arábia Saudita, pior de todos? EUA não quis. Pessoas ingênuas são recrutadas para derrubar governos, democráticos ou não, para depois somente alinhar ao que eles pretendem, quando os inocentes são descartados. Se este comentário não for publicado vou entender onde reina autoritarismo, se for, parabéns pela diversidade.”

É um dos comentários, extemporâneo, a meu post sobre a invasão da Federação Anarquista em Porto Alegre:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/02/a-espantosa-invasao-da-federacao-anarquista-gaucha-em-porto-alegre/

A propósito, em que pé está esse caso? Tarso Genro – outro que adotou o discurso da ação de “estrangeiros” para explicar acontecimentos que lhe fogem ao controle – já mandou devolver os livros e as fichas de usuários da biblioteca anarquista, de supostos conspiradores internacionais?

Black Block e outros ativistas associados às recentes manifestações: minha impressão é que a formação de tais movimentos se assemelha àquela da Ordem Rosacruz. Não existia quando foram divulgados seus manifestos, criados por Johann Valentin Andreae, entre 1614 e 1618 (é o que afirmam Frances A. Yates, Alexandrian e outras boas fontes). Pessoas gostaram, adotaram-nos como discurso de resistência à Contra Reforma e ao absolutismo. Multiplicaram-nos, assim fazendo que essa associação passasse a existir; a crescer e ganhar importância.

São hipóteses.

Os parlamentares e o eclipse da representação

O abaixo-assinado sobre o qual havia sugerido, no Facebook, a simulação de um bolão de apostas, se submetido à consulta plebiscitária, é esse aí, reproduzido a seguir. Daria 78%…? 84% … ? 91%…?

Mas sequer me parece importante – acho que nem assinei. Valeria, quando muito, como intimidação adicional. Não adianta emagrecer parlamentares se continuarem tentando aprovar barbaridades como a degradação do Código Florestal e novas dificuldades para demarcar terras de índios. A propósito, tenho procurado me manter distante de sectarismos, de um ou outro naipe – mas o que vem ocorrendo no âmbito do atual governo e sua base de apoio é inadmissível. Justifica oposição cerrada. Provocarão danos irreversíveis – índios não ressuscitam, reservas naturais não se reerguem, peixes não retornam aos rios nem bichos às matas.

Reformas eleitorais, isso sim – embora esteja claro que nada irá valer para a próxima eleição. Voto distrital me parece uma boa proposta. Um Marco Feliciano, por exemplo, poderia ser freado na região de Orlândia. E o acréscimo de votos proporcionado por sua condição de celebridade não iria eleger uma bancada extra de retrógrados equivalentes. Além de reduzir custos das campanhas e respectivas negociatas. Já a lista fechada corresponde ao pior: submeteria de vez o eleitor à burocracia dos partidos.

O mais importante é prosseguir as práticas de democracia direta. E quanto mais irreverentes, melhor. Intervenção no casamento do magnata, expondo convidados ao ridículo, achei perfeita. Declamação de poesia na porta do gov. do Rio de Janeiro, beleza: organizaria concurso de sátiras.

Havia comentado a ligação de outros movimentos sociais com a cultura – as palestras de Emma Goldman lotando auditórios no começo do século 20, por exemplo. Ou os poetas da primeira geração romântica inglesa reunindo-se em casa de William Godwin, precursor do socialismo utópico. Mas, em face do que vêm produzindo alguns intelectuais – a exemplo do que comentei em minha postagem anterior – é melhor os atuais manifestantes prescindirem de quem os guie. Talvez a relação deles com a cultura seja mais sutil, menos evidente. Alguns, acho, passaram por palestras e oficinas comigo. Integrantes do Black Bloc, sei que estiveram – e apreciaram o que eu disse.

 

New message about Para a redução do número de congressistas e de seus salários, auxílios e despesas

Posted by Vince Ribeiro (campaign founder)

Add your voice

Caros amigos,

Gostaria de encaminhar-lhes uma mensagem do Avaaz.org:

A onda de democracia que está varrendo o país pode estar a apenas alguns centímetros de distância de conquistar uma vitória histórica: esta semana o Senado votou para deixar muito mais fácil o processo que torna as iniciativas populares em lei – depois da Avaaz ter sido mencionada várias vezes no debate! Vamos agora pressionar com urgência a Câmara dos Deputados a selar essa proposta!

Atualmente se quisermos forçar o Congresso a debater alguma legislação, assim como foi o caso com a Ficha Limpa, precisamos nos engajar em um processo extremamente oneroso que nos obriga a recolher assinaturas, em papel, de 1% do eleitorado, ou seja, cerca de 1,3 milhão de pessoas. Este sistema leva uma eternidade, desestimulando a participação cidadã. Mas esta semana o Senado concordou em reduzir pela metade o número de assinaturas necessárias e disse que elas podem ser ser recolhidas online. Infelizmente, esta reforma fundamental pode ser derrubada na Câmara dos Deputados se não agirmos – e rápido.

O Congresso está prestes a entrar em recesso, então vamos enviar uma forte mensagem com um milhão de vozes convidando nossos parlamentares a fazer desta a prioridade número 1 em suas agendas e endossar a proposta do Senado. Vamos juntar nossas vozes agora – e compartilhar com todos nossos amigos – dando um passo gigante rumo à verdadeira democracia no Brasil:

http://links.causes.com/s/clLjiq?r=EkhX

E se você ainda não assinou, assine também a nossa proposta para a redução do número de congressistas e de seus salários, auxílios e despesas:

http://links.causes.com/s/clLjir?r=EkhX

Que a nossa luta por um Brasil melhor continue firme e forte!

Att,

Vinicius

Want to get involved? See this petition on Causes

As manifestações, novamente – e seus comentaristas e observadores

Já havia comentado o acervo de informações reunido por Elizabeth Lorenzotti no Observatório de Imprensa:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_revolucao_sera_pos_televisionada

Não se deve, é observado, examinar fenômenos do século 21, relacionados à emergências de novos meios de comunicação, através de paradigmas do século 20. Diria que, em alguns casos, do século 19 mesmo. Gente discutindo mídias digitais sem, ainda, haver entendido as convencionais. Com dificuldade para assimilar sua natureza ambivalente. “Tem que dialetizar”: antigo chavão que se aplica a interpretações em circulação, incluindo restrições por adesão haver chegado a 80%, após cobertura da TV. Redes independentes foram decisivas para organização, mobilização e divulgação. Mídia corporativa foi atrás – se não fosse, espectadores mudariam de canal.

Tiveram repercussão reflexões de Marilena Chauí citadas no artigo de Lorenzotti. Diz que manifestações se tornaram espetáculo de massa, com a forma de um evento. E assumem uma dimensão mágica, pois seus usuários não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam. Sofismou. Se fosse para alcançar controle técnico e econômico do meio, sobraria pouco para expressar-se: mimeógrafos, cartas, “piche”, cordas vocais ampliadas por um megafone. No tempo da imprensa alternativa, o jornal era uma cooperativa, mas a gráfica não era nossa.

Postei recentemente algo de Hakim Bey. Para esse pensador, dimensão mágica seria qualidade. Defensor do ativismo cibernético, compara hackers e cyberpunks com antigas comunidades de piratas. Interessa-lhe, assim como a outros anarquistas, não a posse ou controle dos meios de produção, porém sabotá-los ou infiltrar-se neles.

Dimensão mágica? Julian Assange: nosso moderno Cagliostro – correndo o risco de ter o mesmo final, se o pegarem. Wikileaks, conjuração de magos. Membros das redes de comunicação independente baixam oferendas em praias, cachoeiras e encruzilhadas… Saravá.

Li todo o artigo de Chauí em Teoria e Debate, citado por Lorenzotti: http://www.teoriaedebate.org.br/materias/nacional/manifestacoes-de-junho-de-2013-na-cidade-de-sao-paulo?page=full

Defender ética na política, diz, é reprodução de linguagem midiática. A rejeição de partidos e “recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto indiferente à determinação de classe social”. Em outras palavras: as manifestações fogem ao paradigma da luta de classes. A mesma objeção do comunismo soviético à contracultura, aos beats, a outras rebeliões – exemplo, o maio de 1968 boicotado pelo Partido Comunista francês. Pouco importa que tais movimentos resultassem em avanços reais na liberdade de expressão, defesa do ambiente, da diversidade cultural, da diferença individual, do reconhecimento do corpo, entre outros. Conforme a versão determinista (e messiânica) do pensamento marxista, são questões para resolver depois da emancipação do proletariado, na sociedade sem classes.

Décadas atrás, Michel Foucault havia diferenciado o “intelectual universal’ (dono da verdade, entenda-se) do “intelectual específico” – em uma entrevista publicada em Microfísica do Poder, entre outros lugares. Os do tipo universal, parece-me, mostram dificuldade em interpretar a horizontalidade de novas mídias e movimentos, sem hierarquia, aparentemente difusos, sem partido político representando e conduzindo a classe. Já protagonistas da contracultura como Timothy Leary e William Burroughs apresentaram-se na internet assim que foi implantada, de modo pioneiro.

Um belo exemplo de intelectual específico é a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha. Entende de índios. Havia divulgado no Facebook suas denúncias, em entrevista à Folha de S. Paulo, de que governo permite retrocesso inédito, desde o tempo dos militares, na defesa de povos indígenas. Reforçam o que afirmei em minha postagem anterior neste blog. Pela gravidade da questão, reproduzo aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/13/que-as-manifestacoes-em-curso-incluam-em-sua-pauta-a-defesa-do-ambiente-e-dos-povos-indigenas/

Tenho mais sobre intelectuais e manifestações. Aguardem.

Hakim Bey para manifestantes

Recebi um manifesto do Black Bloc, a fração anarquista mais ativa (“vândalos”, ao que consta, e “barderneiros”, dizem). Deu-me vontade de postar algo de Hakim Bey. Um trecho de Caos: terrorismo poético e outros crimes exemplares. De modo evidente e declarado, dá seguimento a propostas de intervenção do movimento dadá e do situacionismo. Lembra-me também passagens de Coxas de Roberto Piva – apreciador de Hakim Bey, mas com um detalhe: o que vem a seguir foi escrito entre 1984/86, e Coxas é de 1978.

Voltarei a postar sobre as manifestações. Pequeno debate no Facebook após minha ironia sobre o caráter oportunista desta de hoje, das centrais sindicais, me motivou. Manifestações de junho foram o acontecimento mais importante no Brasil, nos últimos anos. Estão provocando um abalo. Também acho que tem gente discutindo redes sociais e internet sem haverem entendido sequer a complexa relação entre mídia tradicional e opinião pública.  Aguardem.

Hakim Bey, que também tem obras publicadas como Peter Lamborn Wilson, é um erudito de elevado calibre. Estudei bastante as conexões de anarquismo, rebeliões religiosas, antinomismos e misticismos divergentes: nesses tópicos, é fonte confiável, sólida. Deveria ser mais lido.

O que vem a seguir são os dois primeiros manifestos do capítulo 2 de Caos:

COMUNICADOS DA ASSOCIAÇÃO PARA A ANARQUIA ONTOLÓGICA

COMUNICADO I ( PRIMAVERA DE 1986 )

I. Slogans & Motes para Pichar no Metrô & para Outros Propósitos

COSMOPOLITISMO DESENRAIZADO
TERRORISMO POÉTICO
(para rabiscar ou carimbar em outdoors publicitários:)
ESTE É O SEU VERDADEIRO DESEJO
MARXISMO-STIRNERISMO
ENTRE EM GREVE PELA INDOLÊNCIA & BELEZA ESPIRITUAL
CRIANCINHAS TÊM PÉS LINDOS
AS CORRENTES DA LEI FORAM QUEBRADAS
PORNOGRAFIA TÂNTRICA
ARISTOCRATISMO RADICAL
GUERRILHA URBANA PARA A LIBERTAÇÃO DAS CRIANÇAS
XIITAS FANÁTICOS IMAGINÁRIOS
BOLO’BOLO25
SIONISMO GAY
(SODOMA PARA OS SODOMITAS)
UTOPIAS PIRATAS
O CAOS NUNCA MORREU

Alguns desses slogans da Associação para a Anarquia Ontológica (AAO) são “sinceros”, outros têm como objetivo despertar temores & apreensão pública – mas não sabemos bem qual é qual. Nossos agradecimentos a Stalin, Anon, Bob Black, Pir Hassan (ao seu nome ser mencionado, que reine em paz), F. Nietzsche, Hank Purcell Jr., “P.M.” & irmãos Abu Jehad al-Salah do Templo Islâmico de Dagon.

II. Algumas Idéias Poético-Terroristas que ainda Continuam em Triste Languidez no Reino da “Arte Conceitual”
1. Entre na área dos caixas eletrônicos do Citibank ou do Chembank numa hora de muito movimento, cague no chão & vá embora.
2. Chicago, Maio de 1886: organize uma procissão “religiosa” para os “mártires” do Haymarket – grandes faixas com retratos sentimentais coroados com flores & transbordando de fitas & lantejoulas, carregadas por penitentes vestidos em trajes com capuzes negros no estilo KKKatólico – escandalosos & efeminados acólitos de TV borrifam a multidão com água benta & incenso – anarquistas com rostos emplastrados de cinzas flagelam-se com pequenos relhos & chicotes – um “Papa” de túnica negra abençoa minúsculos caixões simbólicos carregados reverentemente para o cemitério por punks chorosos. Um espetáculo desse tipo deve ofender quase todo mundo.
3. Cole em lugares públicos um cartaz xerocado com a foto de um lindo garoto de 12 anos, nu & se masturbando, com o título bem à vista: A FACE DE DEUS.
4. Envie elaboradas & requintadas “bênçãos” mágicas pelo correio, anonimamente, para pessoas ou os grupos que você admira, por exemplo, por sua capacidade política ou espiritual, por sua beleza física ou por seu sucesso no mundo do crime etc. Siga o mesmo procedimento descrito no item 5 a seguir, mas utilize uma estética de bons votos, amor ou felicidade, o que for mais apropriado.
5. Rogue uma praga horrível contra uma instituição maligna, tal como o New York Post ou a empresa MUZAK. Aqui, uma técnica adaptada dos feiticeiros da Malásia: envie para a empresa um pacote com uma garrafa tampada & selada com cera negra. E dentro dela: insetos mortos, escorpiões, lagartos & coisas do tipo; um saco com terra de cemitério (“gris-gris” na terminologia vodu), junto com outras substâncias nocivas; um ovo perfurado por pregos & alfinetes de ferro; um pergaminho onde está desenhado um emblema (veja página 78).

(Esse iantra ou veve invoca o Djim27 Negro, a sombra do Eu. Detalhes completos podem ser obtidos na AAO.) Um bilhete explica que a bruxaria é contra a instituição & não contra os indivíduos – mas, a menos que a instituição deixe de ser maligna, a praga (como um espelho) começará a infectar as dependências com um destino terrível, um miasma de negatividade. Prepare um “comunicado” explicando a maldição & atribuindo a sua autoridade à Sociedade Poética Americana. Envie cópias para todos os empregados da instituição & para a mídia. Na noite anterior à chegada dessas cartas, cole nas paredes da instituição cópias do emblema do Djim Negro em locais que sejam visíveis a todos os empregados quando eles chegarem ao trabalho pela manhã.

(Nossos agradecimentos novamente a Abu Jehad & a Sri Anamananda – o Castelão Mouro do Belvedere Weather Tower – & aos outros camaradas da zona autônoma do Central Park & do Templo Número 1 do Brooklyn.)

A espantosa invasão da Federação Anarquista Gaúcha em Porto Alegre

Polícia – civil e brigada militar, a PM de lá – entrou sem mandado a 20 de julho. Houve apreensão dos livros da sua biblioteca. “Material inflamável”, também: o botijão de gás usado na preparação do chimarrão. Vi na Folha de domingo e achei algo pelo Google – link com a manifestação dos anarquistas aqui, ao final.

Deveria repercutir mais, virar escândalo. Episódio traz péssimas lembranças. Estilo 1973, por aí. Será conveniente esconder livros de anarquismo ou desfazer-se deles, assim como muitos desapareceram com livros marxistas ou soviéticos no pós-1964? Amiga minha enterrou seu Plekhanov no jardim. Um episódio emblemático relatado por Boris Schnaiderman: levaram-no ao DOI-CODI e perguntaram-lhe sobre os autores russos em sua biblioteca (publicamos relato em 1979 na Singular e Plural). Houve também uma apreensão famosa de Sófocles como subversivo. Esse pessoal da polícia gaúcha quer chegar lá – se possível, ultrapassar. E também o governador, que endossou integralmente.

O que deu em Tarso Genro? Veio a público, acusou anarquistas de conspiração internacional. Um ex-dirigente do Partido Revolucionário Comunista, ex-ministro da Justiça, um legalista dentro do PT. Virou o fio ou continua o mesmo?

A seguir, links das matérias na Zero Hora – cometendo erro jornalístico ao não darem o outro lado, a versão dos invadidos. Vejam esta: “interceptações feitas por autoridades policiais indicam que grupos de anarquistas internacionais estão orientando os líderes do movimento em Porto Alegre a adotar táticas de guerrilha”. Interceptações – não é só o Obama que faz espionagem. Sempre enxergam conspirações. Farsas como essas foram especialidade nazista e de outros totalitarismos. Durante o regime militar, o que desagradava aos agentes da repressão era atribuído a um tal de MSI, Movimento Comunista Internacional– sei do que falo, tive ocasião de ler relatórios de censores e escrever a respeito

Notícia deveria ser assim: “Polícia gaúcha assina certificado. Atesta validade do anarquismo.” E, evidentemente, declara a falência de partidos e lideranças que outrora, ou até há pouco, eram de esquerda.

Bouvard e Pécuchet, os dois personagens de Flaubert que citei na postagem anterior, retomam seu trabalho (Flaubert morreu antes de terminar inventário das “idéias recebidas”). Anotam: “anarquismo é conspiração internacional”; “anarquistas são vândalos, baderneiros de classe média”.

Na próxima vez em que for a Porto Alegre, visitarei a Federação Anarquista. Doarei exemplar de Geração Beat à biblioteca, o Ateneu Libertário A Batalha da Várzea.

O relato do que houve:

http://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2013/06/24/o-enredo-de-uma-farsa-a-tentativa-de-criminalizacao-da-federacao-anarquista-gaucha/

As matérias da Zero Hora (pesquisa de Célia Musili – comentário dela, acertado: “segundo o governo do RS, grupos internacionais estariam orientando os anarquistas de Porto Alegre a  “cortar tonéis de plástico para servir de escudo”, entre outras coisas. Ridículo demais, desde quando precisa ação internacional pra fazer escudo de plástico?”):

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/politica/noticia/2013/06/tarso-avalia-que-minoria-fascista-dominou-as-manifestacoes-de-rua-4177563.html

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2013/06/violencia-em-protestos-no-rio-grande-do-sul-preocupa-o-palacio-piratini-4175283.html

Novidades: Diane di Prima e santidades

Rogério de Campos dirigiu a Conrad, responsável por uma quantidade e diversidade de edições de HQs e livros como aqueles de Hunter Thompson, Hakim Bey e Luther Blisset, assim promovendo atualizações da contracultura e anarquismo. Após a incorporação da Conrad pela Nacional, Rogério inicia novo empreendimento, a editora Veneta. Dois lançamentos chamam a atenção, de imediato: Memórias de uma beatnik de Diane di Prima e O livro dos santos do próprio Rogério de Campos.

O livro de Diane estava no topo das minhas recomendações a editoras interessadas em lançar autores da geração beat. Já levei obras dessa poeta, narradora em prosa, ativista política, coordenadora de oficinas literárias, praticante do budismo e também ocultista e professora de magia a palestras e cursos sobre a beat. Com destaque para o final de Memórias de uma beatnik: após relatar como era a vida na década de 1950, mostrando quanta coisa mudou por influência beat, testemunha o impacto da leitura de Uivo de Ginsberg e culmina com a recepção de Ginsberg e Kerouac por ela e amigos que dividiam seu apartamento – há uma orgia, com um cenário de cerimônia religiosa e réplica de sexo tântrico. O episódio, incluindo o modo intenso como Kerouac e ela transaram, é atestado na biografia de Ginsberg por Barry Miles; mas não é citado em sua subseqüente biografia de Kerouac. Perguntei a Miles se, afinal, havia acontecido ou era licença poética, ficcionalização da biografia: não soube responder – ninguém saberá, exceto a própria Diane.

Em minha lista de recomendações também entra, de Diane,  a poesia de Revolutionary Letters. Tenho levado a cursos e palestras. Um trecho, que cito em meu ensaio sobre beat e anarquismo místico (ainda inédito…):

OLHEM PARA AS ‘HERESIAS’ DA EUROPA POR ANTEPASSADOS

(remanescentes da Europa pré-colonizada e pré-romana)

Insistente e esperançosa ressurgência de communards

amor livre & prazer: ‘em deus todas as coisas são em comum’

secreta celebração de antigas estações festas e luas

Re-escrevam o calendário.

O livro dos santos, do próprio Rogério de Campos, é uma colossal compilação de barbaridades, bobagens e absurdos católicos: abrange folclore religioso, trechos canônicos, informação histórica. Muito legível, documenta milagres estapafúrdios, extremos da misoginia (inclusive pelo apóstolo Paulo) e rejeição do corpo, fanatismo e intolerância de todo tipo, reacionarismo e simpatia pelo fascismo (sob os Pio 11 e 12), confrontos com a ciência e a liberdade de expressão. São 366 páginas, livro volumoso em edição muito cuidada. Custa R$ 39,00. Para meu gosto, podia ser em pocket, com ampla tiragem e distribuição maciça para o povo, inclusive em paróquias e outros centros da devoção. Pode ser complementado pelo que já postei aqui, sobre manifestações do alto clero:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/03/03/o-que-dizem-os-prelados/

(viajo – retorno quando voltar, ou vice-versa)