Posts Tagged ‘biografias’

Mário de Andrade, uma carta e dois parágrafos

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De duas uma: ou se faz biografia, ou não se faz. Na primeira hipótese, obviamente tem que constar a verdade. Os que defendem a exclusão da informação biográfica dos estudos literários querem uma crítica asséptica, higienizada, reducionista, cientificista, em suma, insipidamente neutra. O “recorte” do texto, recomendado em nossos cursos de Letras, é uma tentativa de burocratizar a literatura, separando-a da vida. Minha identificação com os beats e surreais é, justamente, por haverem promovido, de modos diferentes em cada caso, a confusão entre as duas esferas, da criação e da vida – assim como já o haviam feito alguns românticos e outros rebeldes. Cabeças de quem defende o “recorte” e a conseqüente interdição de informações sobre a vida de Mário de Andrade pararam no tempo – e há muito tempo… Para quem tem dúvidas a respeito, recomendo a leitura desse trabalho exemplar que é Federico García Lorca: uma biografia de Ian Gibson (editora Globo). Pesquisou tudo: atuação pública, casos com rapazes, as circunstâncias do assassinato. E comentou a obra. Deslocou Poeta em Nova York para o centro da criação lorqueana. Merecerá Mário de Andrade um Ian Gibson? Há condições para uma recuperação de informação biográfica dessa envergadura? Lá, o obstáculo eram os fascistas e os católicos tradicionalistas. Aqui, são os especialistas na matéria, professores de literatura. Entender os rumos tomados pelo modernismo brasileiro requer o exame das ambivalências de Mário de Andrade, do modo como, nele, se enfrentavam um inovador e um moralista católico. Acho que estudiosos, especialistas no assunto, estão nos devendo. (Ia escrever sobre Venezuela. Estive lá, em 2006 no Festival Mundial de Poesia. Visitei Barinas, terra natal de Hugo Chávez. Comentei com Floriano Martins que, quando baixassem as cotações de petróleo, seria o caos. Tratarei disso na próxima semana.)

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Jack Kerouac, o biografado

Ao final de O livro de Jack, recém-publicado em edição brasileira (Globo – Biblioteca Azul), a bibliografia, a relação dos títulos que constituem sua extensa obra. São vinte e seis. Há mais, a lista está incompleta. Contudo, a quantidade de biografias e ensaios biográficos sobre o porta-voz beat é ainda maior. Só aqui, em minha estante, tenho sete.

É compreensível – não só pelo impacto de On the Road e outras de suas narrativas, mas por serem autobiográficas. Ou melhor, serem e não serem – há omissões, histórias contadas pela metade, alguma ficcionalização. Daí despertar tamanho interesse, desde o trabalho pioneiro, e que continua valendo, de Ann Charters, trazendo à luz o que houve entre Jack, Neal e Carolyn Cassady, Luanne Henderson– o “quadrângulo amoroso”, como é dito em O livro de Jack – ou pentágono, adicionando Allen Ginsberg, ou alguma figura geométrica ainda mais complexa. A mais completa dessas biografias continua sendo Memory Babe de Gerard Nicosia. Recentemente foi lançada no Brasil Jack Kerouac – King of the Beats de Barry Miles (pela José Olympio) – é um especialista, também biografou Ginsberg e Burroughs.

Daí, no prefácio mais recente de O livro de Jack, de 1912, Barry Gifford comentar biografias:

“Em carta para Arnold Zweig, datada de 30 de maio de 1936, Sigmund Freud escreve: “Para ser biógrafo, você precisa ocupar-se de mentiras, acobertamentos, hipocrisias, falsidades e mesmo apagar sua falta de compreensão, pois a verdade biográfica é impossível e, se a ela chegássemos, não poderíamos utilizá-la… A verdade não é possível, a humanidade não a merece…” […] Foi Allen Ginsberg, amigo de longa data de Jack, que disse, tendo terminado de ler as provas ainda não revisadas do volume: “Meu Deus, é como o Rashomon – todo mundo mente, e a verdade vem à tona!” […] Kerouac não tinha atributos divinos, nem O livro de Jack foi pensado para ser a hagiografia de um ser inatingível. […] A despeito do dr. Freud, há, sim, uma espécie de verdade a ser encontrada aqui.”

Se fosse no Brasil, ou, pior, se o mundo seguisse o Brasil, e se a família Sampas (sucessores de Kerouac) perfilasse no ‘Procure saber’, obviamente O livro de Jack e boa parte do restante da bibliografia kerouaquiana jamais teria chegado aos leitores. Autores como Barry Miles e tantos outros amargariam o ineditismo ou teriam que escrever sobre outra coisa. A pergunta sobre a verdade, suscitada pelo confronto de opiniões de Freud e Ginsberg, permaneceria eternamente sem resposta – ou sequer haveria como formulá-la.

Biografias e assombrações

É meu artigo que saiu hoje, 30/10, no Correio Braziliense. Página de internet do jornal só permite acesso de anunciantes, por isso reproduzo o arquivo em word. Que coisa, havia-me esquecido do exemplo mais expressivo para ilustrar essa fobia dos biografados: O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde – obras na qual, justamente, se encontram os dois temas, do duplo ameaçador e do espelho.

Este blog está com 101.850 acessos, terá mais de 6.000 este mês e conta com 189 assinantes. QUERO MAIS. Premam o botão “seguir” – assim ficarão sabendo de todos os acontecimentos imanentes e transcendentes, espaciais e temporais.

Biografias e assombrações

Claudio Willer

Que estrondoso tiro pela culatra deram os integrantes do movimento “Procure saber”, através da desastrada porta-voz secundada por um coral de declarações titubeantes, algumas delirantes, da plêiade de artistas. Transformarão o Brasil em um país de leitores de biografias. Não sabem que a censura estimula o interesse pelo censurado? Que o recalcado volta com mais força? Que as vendas de Howl and other poems (Uivo e outros poemas) de Allen Ginsberg dispararam após o processo por obscenidade de 1957? Que gerações quiseram ler D. H. Lawrence e Henry Miller para saber o que havia desencadeado a fúria puritana? A divulgação em meu blog do depoimento de Domingos Pellegrini sobre Paulo Leminski bateu um recorde de acessos. Meu artigo de 2008 sobre a proibição da biografia de Guimarães Rosa por Alaor Barbosa (e sobre Lorca por Ian Gibson, Joyce por Richard Ellman etc) voltou a ter leitores.

Autorização para publicar biografias, assim como tutela antecipada, impedindo circulação: aberrações inexistentes em países civilizados. Atingem a produção do conhecimento. Não se trata apenas dessa ou daquela personalidade da literatura, artes ou política; mas de informação histórica, sociológica, sobre a vida. Pois já não houve herdeiros sequiosos que interferiram em pesquisas legitimamente acadêmicas?

Biografias podem ser de má qualidade, com equívocos, distorções? Que a crítica se manifeste. Podem ofender? Que ofendidos recorreram á justiça. O judiciário é lento? A pior solução, criar leis esdrúxulas.

Como o jogo parece definido, quero avançar. Examinar contrapartidas literárias da polêmica sobre biografias. São os doppelgänger, os duplos romântico dos relatos de E. T. A. Hoffmann, Von Chamisso e tantos outros. Receberam um tratamento de especial brilho através do “William Wilson” de Edgar Allan Poe, publicado em 1839. A história do jovem aristocrata, vítima de alguém idêntico – ao ganhar um jogo e ser denunciado como trapaceiro, ao ser impedido de seduzir uma mulher maravilhosa. Mata o “absoluto na identidade”: descobre que também se matara. Diz-lhe o duplo: “Em mim tu existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo”.

Outra história famosa de duplos, dessa vez não idênticos, porém opostos, é a do médico e o monstro, O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde de Robert Louis Stevenson, publicada em 1886. Com um final igualmente sanguinolento: o duplicado, ao destruir o duplo, dá fim a si mesmo. Mais uma variação sobre o tema, literariamente poderosa: O duplo de Dostoiévski, de 1846. Sincrônica àquela de Poe, mas protagonizada por um burocrata e não um aristocrata: o alterego o prejudica até levá-lo à destruição.

Duplos, o outro eu, foram, mais que tema, uma obsessão de Jorge Luis Borges. Assim como espelhos – abomináveis, disse, desde sua História universal da infâmia, por duplicarem a realidade. Julio Cortázar também escreveu contos esplêndidos com duplos.

Sua matriz, penso, está em Shakespeare, no Caliban que não suporta ver-se no espelho, em A tempestade. Contém ensinamentos que os membros do “Procure saber” desconhecem. Inspiraram a Freud o ensaio famoso, Das Unheimliche – que pode ser traduzido como “estranho”, “insólito”, “sinistro”. Categoria-chave para entender sua marcante presença literária, recorrendo à psicanálise: o narcisismo. São histórias de pessoas centradas em si, incapazes de estruturar o ego e relacionar-se com o mundo. Simbolicamente, os artistas que se puseram em evidência, de modo tão desfavorável, querem controlar suas imagens e o restante, o mundo todo. Os sucessores, pior ainda: o ilustre antepassado, agenciado ou representado, é uma pessoa interposta, através da qual buscam reduzir sua irrelevância.

Que vão todos bater á porta dos psicanalistas e outros terapeutas. Resolvam seus problemas de identidade, seu narcisismo, neuroses e fobias, sem impedir o trabalho de pesquisadores; sem criar transtornos a autores e editores; sem nos sonegar informação.

Livro de Domingos Pellegrini sobre Paulo Leminski

A seguir, os links através dos quais o livro pode ser baixado. Pellegrini – notoriamente um dos bons narradores contemporâneos brasileiros – perdeu a paciência e liberou o arquivo após autorização de publicação – pela Record – ser negada pelas herdeiras (Alice Ruiz? Estrela? Graça? que deplorável….! fora da minha lista de amizades no Facebook – fora das minhas referências bibliográficas! mesmo tratamento para todos os que controlam biografias com base nessa lei absurda!).

http://www.4shared.com/office/51s6IkpT/Passeando_por_Leminski_-_Domin.html

Passeando por Leminski – Domingos Pellegrini.doc www.4shared.com

Passeando por Leminski – Domingos Pellegrini.doc-4shared.com

https://docs.google.com/file/d/1JABSs7bj35dSbpkJbvDQic2zCXV6CA3_y1fmAhMG-spnQMCbkEpYOm2EEc_W/edit?usp=sharing

Mandaram-me links Celia Musili e Marcus Ribinski. Tornem-no viral, disseminem.

A mensagem de Pellegrini:

Olá, sou Domingos Pellegrini e, enviando o livro em anexo, Passeando por Paulo Leminski, espero contribuir para que o Brasil não seja o país das biografias chapa-branca.

    Em junho fui convidado pela Editora Nossa Cultura para escrever biografia de Leminski, de quem fui amigo. O editor me afirmou que fui escolhido de comum acordo por ele e pelas herdeiras de Leminski, com quem seriam divididos os direitos autorais e a quem os originais seriam submetidos.

    Inicialmente aceitei, honrado, mas logo me dei conta de que a tarefa me privaria de duas condições essenciais para uma escrita criativa condizente com Leminski, a paixão e a liberdade. Além disso, já havia uma biografia sua,  e eu teria ou de sugar informações dela ou buscar penosamente novas informações talvez não tão relevantes ou interessantes.  

    Assim, resolvi desistir da empreitada antes de assinar contrato – mas continuei a ter lembranças de Leminski, tantas que resolvi escrever  não exatamente uma biografia, mas uma mistura de minhas memórias com ele e necessárias observações críticas.  

    Escrevi em poucas semanas, apaixonado, e a Editora Record se interessou em publicar – desde que com autorização das herdeiras, pois, sem isso, toda editora brasileira hoje teme ter prejuízo com a publicação embargada judicialmente.

    Como as herdeiras negaram autorização, resolvi colocar o livro na internet, esperando honrar a memória e a obra de meu amigo.

    E desde já autorizo que o livro seja reproduzido e divulgado de qualquer forma.

    Grato!

EM TEMPO: (postado a 20/10): Vejam, ou melhor, leiam a observação do próprio Pellegrini ao final dos comentários a este post.

Biografias, artistas e bostas de vaca

Tenho especial predileção por comédias do Gordo e Magro, Laurel & Hardy, pelo corrosivo humor anarquista. Em um dos filmes da dupla, dos mais fracos, quando já estavam decadentes, ambos morrem em um desastre aéreo. Fugiam da cadeia em um teco-teco. Seus espectros olham para o campo onde caiu o avião no qual voavam, e vêem uma vaca pastando. O filme termina com um diálogo (reproduzo de memória). Oliver Hardy, o Gordo, vira-se para Laurel: “Pois é, Stan, veja como são as coisas, você está enterrado neste pasto, o capim vai crescer em cima de você, a vaca vai comer o capim, vai digerir o capim, vai despejar o que digeriu, fazer plof-plof-plof, eu vou olhar para o monte de bosta e dizer, puxa vida, como você mudou…” Stan Laurel, o Magro, responde: “Pois é, Ollie, veja como são as coisas, você está enterrado neste pasto, o capim vai crescer em cima de você, a vaca vai comer o capim, vai digerir o capim, vai despejar o que digeriu, fazer plof-plof-plof, eu vou olhar para o monte de esterco e dizer, puxa vida, como você não mudou nada…”

A cena me ocorre com freqüência. Lembrança suscitada por vários políticos contemporâneos, administradores públicos e também por artistas. Mais recentemente – hoje – por causa do apoio de Caetano, Gil etc à censura prévia a biografias defendida por Roberto Carlos.

Comentário a respeito:

http://andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br/2013/10/05/chico-gil-caetano-e-djavan-de-censurados-a-censores/

Aberração brasileira, isso só existe aqui – e dá-lhe aberração pois abrange até gente em domínio público, biografia de Lampião, imagine, e de Noel Rosa…. Já havia tratado desse assunto, em meu artigo “Em defesa das biografias”:

http://www.revista.agulha.nom.br/ag66willer.htm

Agora, nessa altura dos acontecimentos, não argumento mais. Só ironias, como essa da história do Gordo e o Magro. Eles mudaram muito ou não mudaram nada? Em qualquer caso, plof-plof-plof e outras sonoridades para eles.

Proteção às biografias

No Estadão de ontem, sábado 02/06, saiu bom artigo de Gustavo Binenbjom tratando da censura judicial a biografias.

Está em:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,historia–mal-contada-,881345,0.htm

Só para estimular a leitura, cito os dois primeiros parágrafos:

“Uma das modalidades em que se desdobra o direito à informação consiste no direito dos cidadãos ao conhecimento de sua história e à construção da memória coletiva. Tal direito se encontra em risco no Brasil, dada a proliferação dessa espécie de censura privada que é a proibição das biografias não autorizadas.

Por conta da abertura textual dos artigos 20 e 21 do Código Civil e da interpretação extensiva que lhes vem sendo dada pelo Poder Judiciário, biografias de pessoas notórias têm sido proibidas, em nome da proteção de sua vida privada. Em outras palavras, caminhamos para nos tornarmos um país onde somente as biografias chapa-branca têm vez. Como lembra o historiador José Murilo de Carvalho, o epíteto de biografia autorizada confere à obra uma conotação de fraude, pois significa que o biógrafo reportou apenas o que passou pelo prévio crivo do biografado.”

Gustavo Binenbjom é professor de direito na UERJ, e foi o advogado da ação que liberou humor e crítica jornalística no período eleitoral – ou seja, ajudou a arrancar uma mordaça. Faltam outras. Censura no Facebook, tal como vem sendo exercida, é claro. E a censura judicial a biografias, que ele questiona neste artigo – é um assunto do qual já tratei, em http://www.revista.agulha.nom.br/ag66willer.htm e outras ocasiões. Há projeto na Câmara protegendo biografias da censura– vale citar novamente o artigo de Gustavo Binenbjom:

“Não causa surpresa que os maiores opositores desses projetos tenham sido políticos de reputação duvidosa. Como regra, os opositores das biografias não autorizadas são aqueles que temem a sua própria biografia.”

Observação perfeita.