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Blogosfera ameaçada

Duas notícias, lado a lado, na Folha de S. Paulo de hoje.

Uma, sobre a decisão judicial determinando a retirada de uma das colunas de José Simão do meio digital, a pedido de uma ex-candidata a vereadora de Indaiatuba:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/110334-juiza-ordena-que-coluna-de-simao-seja-retirada-da-web.shtml

É um caso sumamente ridículo. Simão publicou o previsível comentário por essa candidata apresentar-se, na campanha eleitoral de 2012, como Alzira Kibe Sfiha. Ora – não quer ser objeto de gozações do colunista? Então, não adote pseudônimos como esse, convite à sátira.

A outra traz o espantoso caso da blogueira do Amapá que teve bloqueados os R$ 5.000,00 de sua aposentadoria, por dever multas acima de R$ 2 milhões, decorrente de processos movidos por aliados de José Sarney.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/110331-blogueira-processada-por-aliados-de-sarney-e-multada.shtml

Literatura do absurdo, a declaração de Sarney: quem moveu a ação não foi ele, porém o advogado.

Havia comentado aqui, recentemente, o caso do usuário do Facebook atingido por ações em série, por divergir de um empreendimento imobiliário na sua vizinhança.

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/19/censura-judicial-e-na-rede-social-somadas/

Trata-se, como havia observado, de episódio especialmente grave. Decisão de um colegiado, um tribunal superior, configura jurisprudência, me parece.

Ademais, no caso da imobiliária e de Sarney e PMDB do Amapá, há uma evidente discriminação econômica. Ganha essas paradas quem tem condições de bancar os escritórios de advocacia.

Decisões como essas, impondo tutela antecipada, caracterizam censura judicial. Abrem precedentes. Justificariam controle e vigilância, com algo de totalitário, do que circula no meio digital. Representam ameaça ao conjunto dos usuários dessas mídias.

Inclusive a este blog.

Censura judicial e na rede social, somadas

Trago a notícia publicada no Estadão de hoje. Sobre decisões judiciais que, ao invés de limitarem a censura no Facebook, reforçam-na. Eles querem mais. Acham que censura pouca é bobagem. Ou que liberdade de expressão tem que ser severamente vigiada. Aí vai:

http://noticias.r7.com/sao-paulo/protestos-nas-redes-sociais-vao-parar-na-justica-19052013

Trata da proibição de um usuário do Facebook expressar-se, protestando – certamente com razão – contra um empreendimento imobiliário.

O que me parece mais grave: a decisão é do Tribunal de Justiça de São Paulo. Uma instância superior, um colegiado, e não apenas algum juizão retrógrado. Estão institucionalizando a censura, apesar de expressamente proibida pela Constituição.

Já tratei aqui de censura judicial, proibição liminar da circulação de livros. Houve, também, inúmeras decisões proibindo jornalistas e jornais de mencionarem políticos – e ainda multando-os pesadamente: resultou, entre outros casos, em alguns jornalistas inadimplentes no Acre, de tão multados que foram por mexerem com Sarney e membros do clã. Também partiram para cima de blogs e do google.

E já tratei bastante de censura no Facebook, em várias postagens, formando dossiê.

Desta vez, com um tribunal interferindo em postagens no Facebook, é como se as duas modalidades convergissem, ou se somassem.

O arcaico contra o moderno. Quem ganhará a parada?

Mas, enquanto isso, qualquer hora dessas, é capaz de ainda quererem censurar este blog.

Mais censura: agora, o caso Kassandra em Santa Catarina

A seguir, texto vigoroso de Marco Vasques sobre censura a uma peça teatral em Santa Catarina.

Como prolifera. Tivemos a apreensão de livros em Macaé, a lei em favor da moral e dos bons costumes no Rio de Janeiro, os incríveis casos no Facebook (os mais recentes, mais uma foto de jornal de índios brasileiros e uma foto de 1939 exposta no museu do Jeu de Paume em Paris…), cláusulas de censura prévia em edital do Ministério da Cultura – tudo registrado aqui, neste blog. Haverá mais, receio.

Após a reprodução do artigo, alguns links: sobre o Erro Grupo, também catarinense, que foi autuado por causa de uma cena de nudez de 30 segundos; reprodução da matéria de Marco Vasques na revista catarinense Osiris; matérias em O Estado de S. Paulo de hoje sobre ocupação de comissões pela “bancada evangélica” – costumavam chamar a isso de aparelhamento.

CASO KASSANDRA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [18/03/2013]

Todos sabemos, pelo menos aqueles que vivem intimamente no meio teatral, que durante o último Festival de Teatro Isnard Azevedo tivemos um caso explícito de censura por conta da nudez cênica. Como se a nudez não estivesse todos os dias ao nosso alcance por tudo o que é meio de massa que insiste em fazer do corpo mais um produto do capitalismo. Todos sabemos, pelo menos aqueles que presenciaram, que o Erro Grupo foi autuado por conta de um nu de 30 segundos, que era um dos possíveis finais do espetáculo Hasard. Todos sabemos que a peça teatral O Tempo de Eduardo Dias – tragédia em 4 tempos, dos escritores Amílcar Neves e Francisco José Pereira, sofreu interdição judicial.

Todos sabemos que uma empresa, vendedora de planos de saúde, exigiu de um músico ― que pleiteava recursos para fazer seu álbum ― que retirasse algumas frases de umas letras. Ele retirou e foi agraciado com o famigerado recurso. Todos sabemos que a mesma empresa, que pretendia apoiar um livro de contos, exigiu que o autor retirasse um conto em que um dos personagens, um adolescente de 15 anos, morre divagando sobre a possibilidade de todas as enfermeiras agirem como prostitutas, doando-se fisicamente a todos os enfermos com um ato de extrema unção. O autor não aceitou e não recebeu o recurso solicitado.

Todos sabemos que a Ditadura Militar perseguiu, matou, censurou artistas e intelectuais. Todos sabemos que entramos em outras ditaduras: a do consumo, a da economia, a da ignorância, a da intolerância, a da opressão, a da omissão… Agora, todos ficamos sabendo que o espetáculo Kassandra, que é um ato poético grandioso, foi censurado por ter como cenário uma das casas de diversões mais famosas da cidade, o Bokarra.

Tudo que tínhamos para falar sobre as qualidades estéticas, poéticas e cênicas de Kassandra já expusemos neste jornal, onde exercemos também a crítica teatral. Talvez seja preciso dizer que o espetáculo Kassandra usa o Bokarra Club apenas como cenário, ou seja, o bordel fecha para recebê-lo; talvez seja preciso dizer que Kassandra é um trabalho construído com o aval financeiro da Fundação Nacional das Artes; talvez seja preciso dizer que a censura tem que ser combatida, jamais aceita; talvez seja preciso dizer que aceitar a ingerência, em uma programação cultural que tem uma curadoria, revela muito do que gestores, políticos, artistas e produtores culturais são capazes de fazer (ou não) para alcançarem seus objetivos; talvez seja preciso rever ― e os franceses estão fazendo isso ― o namoro milenar entre o poder político e a arte; talvez seja necessário saber quem solicitou a ausência de Kassandra na Maratona Cultural e indagar o motivo do “pedido” e, talvez, o mais triste dos talvezes seja pensar porque se aceitou tal “pedido”.

http://www.errogrupo.com.br/v4/pt/

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,evangelicos-miram-comissoes-que-tem-poder-de-barrar-temas-sensiveis-a-igreja,1009916,0.htm

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,de-cada-7-deputados-1-faz-parte-da-bancada-,1009985,0.htm

http://revistaosirisliteratura.wordpress.com/

Haverá mais – receio.

O abaixo-assinado contra a censura no Facebook

Achei termos do abaixo-assinado civilizadíssimos.  Idiotas que perpetram essas coisas deveriam ser energicamente apostrofados. É importante que tenha a maior circulação possível, para ficar claro que nem todos endossam o obscurantismo.

http://www.causes.com/causes/812837-por-um-facebook-sem-censura-e-que-respeite-as-diferencas/welcome

vamos multiplicar!

POR UM FACEBOOK SEM CENSURA E QUE RESPEITE AS DIFERENÇAS
Somos usuários do Facebook e acreditamos que as redes sociais devam e podem manter um padrão de qualidade que propicie trocas significativas entre seus membros. Contudo, por conta de uma falha na forma como a plataforma do Facebook funciona atualmente, não é isso que temos presenciado ao nos utilizarmos dela. Nos referimos ao modo como os conteúdos de cunho adulto são regulados. 
Segundo as configurações atuais, o Facebook favorece, encoraja e pratica sistematicamente a CENSURA de todo tipo de conteúdo erótico ou associado à nudez e ao sexo, o que inclui a exclusão de uma miríade de obras de arte dos mais variados períodos e regiões da história humana, nos mais diversos tipos de suportes (escultura, pintura, desenho, gravura, vídeo, filme, fotografia, textos, inscrições, graffiti, misto, etc, etc), que são parte do patrimônio cultural da humanidade e compõem junto com outras razões alguns dos motivos específicos pelos quais milhões de pessoas visitam museus e espaços culturais dentro ou fora da WWW, hoje e sempre. Associado a isso, o Facebook demonstra ser adepto da prática da INTOLERÂNCIA CULTURAL, ao censurar conteúdos que registram práticas de outras culturas diferentes da cultura ocidental dominante como a nudez de membros de etnias nativas que sempre viveram assim e tem sua própria razão de ser. O mesmo se pode dizer para imagens referentes à amamentação materna, que sempre foi considerada prática natural por pessoas saudáveis e encará-las sob a ótica da imoralidade implica em reconhecer essa mesma imoralidade mais nos olhos de quem vê do que naquilo que é exposto. 
Se não bastasse isso, além de praticar sistematicamente a censura dos próprios conteúdos e o BLOQUEIO, a SUSPENSÃO ou até a EXPULSÃO dos usuários, o Facebook encoraja a prática da DELAÇÃO por terceiros, criando na rede um ambiente insalubre e prenhe de suspeita entre os usuários, que desconfiam de terceiros que poderiam denunciar, pelas mais diversas razões possíveis, muitas vezes de cunho meramente subjetivo, a postagem de algum conteúdo que é equivocado apenas para a pessoa que denuncia mas não para a pessoa que posta. Ora, isso é tudo menos DEMOCRACIA. Para ser mais preciso, esse tipo de estrutura (CENSURA/DELAÇÃO/BLOQUEIO/SUSPENSÃO/EXPULSÃO) não é nada mais do que uma das características básicas de um regime ditatorial, autoritário e extremista, que não tem absolutamente nada a ver com um ambiente DEMOCRÁTICO, INTELIGENTE e SAUDÁVEL como nós esperaríamos encontrar no Facebook. 
Por outro lado, a mesma plataforma atual do Facebook se preocupa pouco com outros tipos de conteúdo adulto como aqueles associados à violência dos mais variados tipos, ao comportamento belicoso, ao racismo, à homofobia e outros conteúdos associados à pura disseminação do ódio que além de serem extremamente ofensivos para um número muito grande de pessoas em todo o mundo, desrespeitam a convicção básica de que uma rede social onde interagem pessoas diferentes do mundo todo deveria se pautar antes de mais nada pela TOLERÂNCIA e o RESPEITO A ESSAS DIFERENÇAS. Além disso, em muitos países essas práticas são consideradas ilegais e configuram ação criminosa. Então, temos com isso um cenário no Facebook no qual é difícil não suspeitar das reais intenções daqueles que são responsáveis pela criação e funcionamento de uma plataforma extremamente contraditória em si mesma e em nada digna do respeito e da admiração de seus usuários, tal como ela funciona hoje.
A SOLUÇÃO
Diante do que foi dito acima, NÓS ABAIXO-ASSINADOS gostaríamos de propor uma solução simples a ser implementada em toda a plataforma do Facebook, que evitaria todas essas contradições do sistema e ao mesmo tempo serviria para tornar o Facebook um espaço mais democrático, tolerante, inteligente e saudável para todos.
Para isso, basta que o Facebook introduza um marcador para cada tipo de postagem onde o usuário escolha se se trata de CONTEÚDO ADULTO (independentemente qual seja ele) ou não. E forneça a cada usuário a OPÇÃO de configurar seu próprio perfil como APTO A VISUALIZAR CONTEÚDO ADULTO ou não, pois a liberdade de escolha individual é um dos princípios básicos de um regime democrático.
Há hoje na WWW vários outros sites de conteúdo ou redes sociais que utilizam essa mesma solução: Flickr, Tumblr, You Tube, etc. Isso é um sinal de respeito ao usuário, independentemente de quais sejam suas crenças ou valores pessoais. Com essa mudança, ganham os usuários uma plataforma de melhor qualidade e ganharia o Facebook o respeito dos seus usuários. Nada mais justo e sensato.

Censura é oficializada no Brasil

Havia postado, neste blog, observações sobre editais da Funarte e Biblioteca Nacional com cláusulas que equivalem à censura prévia. Estão em

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/

A UBE, entidade da qual sou diretor, examinou o assunto e enviou ofício do presidente Joaquim Maria Botelho à Ministra da Cultura Marta Suplicy, embora isso acontecesse na gestão anterior, de Ana de Hollanda. Mas, pela resposta que recebemos da Funarte, continuará a acontecer. Como o ofício está em um arquivo jpg, que não cola aqui, pedi a Carlos Alberto Pessoa Rosa, do Meiotom, que o gravasse em sua página, assim dispondo de um link para mostrá-lo:

http://www.meiotom.art.br/evelitepsico.htm

Reparem no parágrafo final: a Funarte e a Biblioteca Nacional seguem diretrizes da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. É oficial, política de governo, e não trapalhada de burocrata com excesso de zelo.

Inevitáveis algumas observações:

1. Determinar que conteúdos ou temas em obras literárias podem ou não ser subvencionados, mesmo isso não implicando proibição de circulação, é censura prévia. Assemelha-se à proibição, na década de 1980, governo Reagan, de subvenção da USIS e outros órgãos culturais oficiais dos Estados Unidos a Allen Ginsberg e outros beats. Não proibiam, pois a censura havia sido derrubada nos tribunais, mas dificultavam a circulação, assim premiando-o por sua atuação.

2. É óbvio que diretrizes assim inibem a apresentação de obras mais transgressivas; reciprocamente, estimulam aquela de criações mais comportadinhas.

3. São episódios que me dão a impressão de um mundo às avessas. Em 1982, eu era secretário geral da UBE, formamos um comitê contra a censura quando proibiram o filme Pra frente Brasil. Integravam-no, junto com Ester Góes, João Batista de Andrade e outros, a ex-ministra Ana de Hollanda e o atual dirigente do MinC Sergio Mamberti. Estavam de um lado; bandearam-se…? Na mesma época, comissões da então FUNDACEN, da SEC do MEC (equivalente ao atual Ministério da Cultura), premiavam, propositadamente, obras proibidas pelo regime militar, como forma de resistência. Virada de 180 graus? Não sabem que inexiste censura boa ou má, politicamente correta ou incorreta? Ou é, ou não é. Não há meia-censura.

4. Os parâmetros da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República são vagos. Podem dar margem a tudo, a toda sorte de interpretação. O que é “promoção política de candidatos e/ou partidos” em uma obra literária?Poderia valer, unicamente, nos períodos de campanha eleitoral, pois só nesses há candidatos – mas o cronograma dos editais e os das campanhas eleitorais dificilmente coincidiriam. O que é “dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e da sociedade”? “Moral e bons costumes”… já ouvimos essa expressão – entidades como a TFP defendiam. No tempo em que se usava proibir filmes, peças de teatro, tirar livros de circulação etc. E “Tráfico ilícito de drogas e afins”? Obras literárias traficam drogas? De que jeito?

5. A lista de obras literárias relevantes que não resistiriam a esses critérios é infindável –releiam “São Marcos” em Sagarana de Guimarães Rosa, com destampatório racista alternando-se com esplêndida poesia em prosa – em “A hora e a vez de Augusto Matraga”, a família de negros que acolhe Matraga equivale ao grau mais baixo da escala social. Além disso, tanto em “A hora e a vez de Augusto Matraga” quanto em Grande Sertão: Veredas se pode enxergar apologia da violência, com a idealização dos confrontos entre pistoleiros para resolver questões de liderança e posse de terras. Isso, para não falar do que alguém, seguindo esses critérios, encontraria em Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Jorge Amado (Capitães da Areia – os garotos que transam…! horror…! horror…!) e tantos outros.

6. A orientação governamental legitima iniciativas repudiadas pela opinião pública, como as ações judiciais para retirar acepções do vocábulo “cigano” de dicionários e para restringir a circulação de obras de Monteiro Lobato. Dá mais força a neo-conservadores e outros paranóicos.

7. Comissões julgadoras entendem de crítica literária. Não são a instância ou foro adequado para tratar de moral e bons costumes, pedofilia, tráfico de drogas etc. Seria preciso criar algum novo órgão – ou melhor, recriar: antigamente chamava-se Tribunal do Santo Ofício; mais recentemente, no Brasil até 1988, Departamento de Censura da Polícia Federal. Chamem de volta os agentes que ainda não se aposentaram – entendem desse serviço, mais que críticos literários ou funcionários da Secretaria do Bem Estar Social (ou esses estarão recebendo treinamento, para a correta aplicação das diretrizes?).

8. Estranho essas cláusulas do edital da Funarte-FBN, publicadas em setembro deste ano, não terem tido repercussão maior. Colegas reclamaram de redução de verbas e demora na publicação de editais. Recusar-se a participar, por enxergar censura, que eu saiba, só o Carlos Alberto Pessoa Rosa (que me alertou). Omissão? Seletividade em protestos e denúncias? Se fosse no Facebook, reforçaria a merecida reputação de Zuckerberg e colaboradores como bando de reacionários. Se fosse do governo de São Paulo, iria recompensar o empenho do governador Alckmin para que lhe colem o rótulo de fascista na testa. Quando parte de gente que esteve do outro lado, que já militou pela liberdade, então ninguém diz nada, todo mundo abstrai, fica quieto?

Espero estar equivocado.

Libertinagem e civilização, moralismo e decadência

De Pierre Louÿs, no prefácio de Afrodite – Romance de costumes antigos (Ediouro):

“O amor, com todas as suas conseqüências, era para os gregos o sentimento mais virtuoso e mais fecundo em grandeza. […] Heródoto (1,10) diz-nos muito naturalmente: ‘Entre alguns povos bárbaros, é uma vergonha aparecer nu no meio da gente.’

Nessa perspectiva, seríamos bárbaros (somos). Pierre Louÿs inverteu o argumento conservador, associando “decadência” de costumes à decadência de nações:

“ […] parece que tanto o gênio dos povos, como o dos indivíduos, será, antes de tudo, sensual. Todas as cidades que reinaram como soberanas no mundo, Babilônia, Alexandria, Atenas, Roma, Veneza, Paris, foram por lei geral tanto mais libertinas quanto mais poderosas, como se tal dissolução se fizesse necessária a seu esplendor”

De fato: o Império Romano alcançou sua extensão máxima por volta de 100 d.C, sob Trajano e Adriano – portanto, depois de ser governado por libertinos espantosos, como Tibério (o pior de todos, pedófilo desenfreado), Calígula e Nero. Não é para elogiar esses déspotas, mas apenas para mostrar que os moralistas conservadores entendem a história ao contrário.

De Pierre Louÿs, também, As canções de Bilitis, sua obra mais conhecida, e Manual de boas maneiras para meninas (Azougue), muito instrutivo.

Queremos ser uma sociedade mais próspera, uma nação mais forte, uma civilização superior? Liberemo-nos.

Censura no Facebook: deputados são pornografia?

Apareceu uma campanha contra a pornografia no Facebook – são usuários da rede social reclamando de serem obrigados a ver coisas de que não gostam. Compartilhei em minha página, só para precedê-la de impropérios: que é manifestação de nossos 70% de analfabetos funcionais, apocalipse de classe média etc.

Há mais, porém. Reproduzo o post recebido a 09/11 de Elizabeth Lorenzotti, e alguns trechos do subseqüente diálogo. Vê-se que pretendem controlar tudo. Facebook devia ter, no mínimo, uma ouvidoria junto á qual se pudesse questionar esses abusos.

Elizabeth Lorenzotti: Que é isso? Ontem postei na minha página a lista dos deputados paulistas que votaram contra os royalties do petroleo para a educação.Era um quadro didático, com todos os nomes. Só reparei que deletaram porque o Mo Toledo, que compartilhou, denunciou o sumiço.
Além de proibir fotos de mães amamentando, nus, textos poéticos e etc, o tipinho do FB também está do lado dos que lutam contra a educação no Brasil. Rapaz!
Alem do que, tive dificuldades para postar isto, aparece este alerta:
The privacy settings for this attachment prevent you from posting it to this Timeline.

Eu: novo estágio da censura no Facebook – ou não, o mesmo: são contra a pornografia, maus políticos são algo pornográfico, então deletam…

Elizabeth Lorenzotti: já tivemos censuras de textos poeticos, que me lembre, e também politicos, até no face de europeus, o que prova que tem gente lendo sim, e não só robôs.

Célia Musili: Aqui acontecem coisas inacreditáveis, Elizabeth. Um tipo de censura que não supúnhamos mais que existisse. Outro dia me disseram que o Facebook é linha dura no Brasil, que em outros países não há tantas exigências, mas temos notícias de alguns bloqueios fora. Enfim, seria interessante pesquisar isso mais a fundo para saber como se dão as relações com outros usuários. Quanto ao nosso grupo de amigos, tenho claro que há uma censura ou denúncia constante. No meu caso hj, acredito mais em denúncia, por isso evito nus no meu mural, embora os publique em outras plagas porque curto o tema. E acho importante a gente não desistir e denunciar sempre tb quando nos acontecem coisas como a que aconteceu com vc! Agora que tem pessoas mal intencionadas tem, estas que denunciam, merecem ser escorraçadas pelo papel que desempenham.

MMA / UFC versus erotismo

Recebi este comentário à minha página contra censura no Facebook (transcrição é literal):

“existe um site no Facebok, com conteúdo erótico, eles estão postando as cenas na página do atleta Anderson Silva, fiquei assustada, quando vi que um parente meu, uma criança, admiradora do atleta assim como todos nós brasileiros somos, mas ofato é que havia pessias di exteriror que postam cenas d sexo explicito na página dele, infelizmente efetuei o bloqueo desta página. são cenas horriveis, e qq criança tem acesso \á ela.

Pergunto:

Se for para controlar conteúdos na rede social, o que, em primeira instância, deveria ser objeto de restrições: erotismo ou pancadarias através do MMA / UFC? Qual, dessas duas opções, é prejudicial à saúde? Qual delas estimula brigas, violência urbana? Qual corresponde ao maior distanciamento com relação a leituras, produção cultural, arte? (mormente quando as imagens censuradas no Facebook são de obras de artes visuais)

Nem chego perto dos canais que exibem as lutas, nos respectivos horários. Aprecio esportes – boxe, às lutas importantes, assisto; torço moderadamente para esse clube de futebol que, provavelmente, será o próximo campeão do mundo – além de ocasionalmente apreciar Santos e São Paulo, quando jogam bem. Agora, MMA – UFC, Anderson Silva etc, me parecem degradação – e que terá curta duração, logo se manifestarão problemas sérios de saúde, seqüelas do modo como se machucam – elas por elas, então chamem de volta os gladiadores. Voltem à luta greco-romana, praticada por sociedades que não tinham medo do corpo.

Certa vez veio pedido de amizade de um rapaz cujos interesses eram “Deus”, “Deus” e “Deus”, e cujo personagem predileto era Anderson Silva – desconsiderei, e acho que assim me livrei de um desses delatores.

Lembrando: a página (que precisa ser atualizada, não deu tempo) é esta:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/22/censura-no-facebook-um-dossie/

Censura a Monteiro Lobato (em 1948)

A Dra. Dirce Lorimier, historiadora, crítica literária e diretora da UBE, pesquisa a história da entidade. Vejam o que ela me mandou, das atas da ABDE, entidade antecessora da UBE, então presidida por Sérgio Buarque de Holanda:

“1948

7 de janeiro: Sergio Milliet solicita à ABDE manifestar-se contra o empastelamento de jornais paulistas, tendo como resultado a decisão de endereçar um telegrama ao Sindicato de Jornalistas e outro ao Sindicato de Diretores e Proprietários de Jornais solidarizando-se com todas as medidas tomadas por esses sindicatos sobre a questão.

Em 12 de fevereiro, Sérgio Buarque de Holanda sugeriu como tema de discussão a apreensão de um livro do escritor Monteiro Lobato pela Polícia do Estado e que a ABDE deveria protestar. Arnaldo Pedroso D´Horta discordou, acrescentado que o protesto fosse feito contra a apreensão de obras literárias em geral. Foi, então, redigido o seguinte texto:

 “A Associação Brasileira de Escritores, Seção São Paulo, fiel a sua própria razão de existência, vem lançar o mais veemente protesto contra as apreensões de livros ultimamente praticadas pela polícia do Estado e que representam um grosseiro atentado à livre expressão de pensamento. Esses atos que contribuem retorno (sic) lamentável das práticas da ditadura derrubada pelo movimento democrático de 29 de outubro de 1945 merecem a mais formal repulsa de todos os escritores.” Era a última reunião dessa gestão que foi encerrada com agradecimentos a Mário Neme.”

1948… Anagrama de 1984… Justifica denunciar retrocesso, diante das mais recentes ocorrências de censura ou das tentativas de reativá-la, através de ações de entidades ou na rede social. Mudaram seus agentes. Mudaram? Ou ampliaram-se suas agências?  Enfim, o documento corrobora o que havia observado nestas postagens sobre o anacronismo desses acontecimentos:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/11/monteiro-lobato-censura-e-analfabetismo-funcional/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/12/ainda-monteiro-lobato/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/22/censura-no-facebook-um-dossie/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/16/a-censura-na-abl-e-em-outros-lugares/

ETC

Pedagogia: o Colégio Rio Branco

Alunos do Colégio Rio Branco foram punidos em massa, 107 deles pegaram suspensão por se rebelarem contra a instalação de câmeras de vídeo nas salas de aula. Repercutiu na imprensa. (ao final, links com dossiê)

Inspira-me comentários:

1. Qual o valor pedagógico de alunos freqüentarem ambiente igualzinho à distopia 1984 de George Orwell, com o famoso Big Brother vigiando tudo? Mesmo sendo estabelecimento privado, Secretaria da Educação deveria opinar e Associação de Pais, promover reflexão.

2. Estranho – Rio Branco não costumava ser, que me lembre, colégio do tipo mais autoritário. Rotarianos, não é? Normalmente bonzinhos, sociáveis. Não estudei lá, mas freqüentei, havia festinhas. O que deu neles…?

3. Teatro tem alto valor pedagógico. Forma. Desenvolve sensibilidade. Minha sugestão, companhias teatrais apresentarem à direção do Rio Branco as seguintes peças, para encenar lá: Victor ou as crianças no poder de Roger Vitrac; O mestre de Eugéne Ionesco; Fim de curso (Classe términale) de René de Obaldia (esse tem outras peças instrutivas). Leituras…! Cultura literária! Começar por O ateneu de Raul Pompéia, um clássico, obrigatório – o capítulo do incêndio vai inspirar.

4. Situação diferente de câmeras na rua e em prédios, lugares onde há ameaças objetivas à segurança. Ou de colégios barra pesada, em bairros com desorganização social, alunos querendo pegar professores etc. Câmeras na rua, podia ter mais –  para flagrar motoristas folgados que atravessam os postos de gasolina aqui perto querendo evitar semáforo ou fazer conversão proibida à esquerda, tirando fina dos pedestres. Tinha que multar pesado. Burguesia delinquencial, é para pegar – garotada, que não tem como se defender, é covardia, autoritarismo 100% irracional.

5. Matérias na imprensa – para não falar do que circulou no meio digital – tratam da recaída autoritária, da onda de neo conservadorismo, dando como exemplos a censura judicial por juizões que mandam tirar tudo de circulação, o Facebook (bem feito, o ridículo pelo episódio dos mamilos de The New Yorker), os malucos anti Monteiro Lobato, o episódio da Academia (que coisa, Ana Maria Machado, com essa enorme contribuição, dar uma justificativa dessas, de que podia ter criança ouvindo – quando eu tinha 12 anos, buceta, assim como cu, caralho, puta, porra etc eram vocábulos correntes … só não falavam na frente de adultos – única consequência, a palestra de Jorge Coli tornar-se a mais comentada do ano, ainda bem que é um conferencista de qualidade).

6. Desde 2009, venho profetizando um apocalipse da classe média.

Links sobre Rio Branco – episódio é tão disparatado que até a revista Veja estranhou….

http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,rio-branco-suspende-107-alunos-apos-protesto-contra-cameras-em-sala-de-aula-,935669,0.htm

http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/09/26/para-advogado-dirigentes-do-colegio-rio-branco-podem-ser-penalizados-pelo-uso-de-cameras-nas-salas-de-aula.htm (tomara – será merecido)

http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/alunos-do-colegio-rio-branco-protestam-contra-instalacao-de-cameras-de-vigilancia-e-sao-suspensos