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Alguma contribuição ao debate sobre “drogas”?

Normalmente, deixo passar mais algum tempo antes de postar ensaios já publicados no Academia.edu. Mas não resisti, por causa do retorno do tema– ou do debate sobre o tema, ou tanto faz. A propósito do exame de alguma descriminalização pelo Supremo e das conseqüentes manifestações, mais ou menos interessantes, mais sensatas ou insensatas, pertinentes ou extemporâneas. Este artigo:

https://www.academia.edu/15657655/A_cria%C3%A7%C3%A3o_po%C3%A9tica_e_algumas_drogas

É sobre criação poética e também em artes visuais – acho que consegui ser original – e toca apenas de raspão, tangencialmente, em seu status jurídico.

Pretendo retornar ao assunto. Desde já, como eu aprecio as palavras, gostaria que fossem bem tratadas por quem as usa. Por isso, declaro-me consternado por haver pessoas que defendem a necessidade da manutenção da “proibição” de drogas, ao mesmo tempo em que essas são vendidas em sistema de feira livre, transformando a vida dos moradores do trecho da Rua Peixoto Gomide entre as ruas Augusta e Frei Caneca em um inferno, além de outros lugares de São Paulo. Por exemplo, os calçadões do centro, pontos de encontro de alegres cocainômanos e maconheiros à noite. Assim como em outras metrópoles brasileiras, cidades, cidadezinhas e até povoados.

Uma sugestão: passeios turísticos que incluam a cracolândia. Chegando lá, o guia apontará o amontoado e exclamará: “Vejam! O resultado de algumas décadas de combate às drogas!”

 

Nova oficina de criação literária: Criação Poética, no SESC-Ipiranga

Será às quintas feiras, no horário das 19 às 21 h.
Oito sessões. Começa dia 10 de julho, e seguirá até o dia 28 de agosto.
O SESC-Ipiranga fica à Rua Bom Pastor, nº 822; telefone; (11) 3340-2000. email; email@ipiranga.sescsp.org.br. É acessível, lembrando que a estação Sacomã do metrô fica na mesma Rua Bom Pastor, porém na altura do nº 3.000. Vejam o mapa: http://www.sesc.com.br/portal/sesc/unidades/saopaulo/sesc+ipiranga
A oficina será na sala de convivência, na mesma rua, porém no número 709, e a inscrição para a oficina pode ser realizada na Central de Atendimento: bit.ly/criacaopoetica . A inscrição é de R$ 4,00 para comerciários, R$ 10,00, meia, R$ 20,00, seres humanos em geral, para a oficina toda.
Seguirei o mesmo programa e metodologia de oficinas anteriores: tratarei da imagem poética, valor literário, prosa poética e poesia, a expressão não-discursiva, a leitura. Interessará a poetas e também a prosadores e apreciadores de literatura em geral. Pedirei aos que escrevem que tragam amostras de textos de sua autoria.
Agradeço retransmissão e demais modos de divulgação.
A seguir, o “flyer” da oficina.

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Palestra “A criação poética e algumas drogas” em Goiânia

Será dia 16 de maio, às 10 da manhã.
Local, o Centro Cultural UFG (Universidade Federal de Goiás) à Praça Universitária, 1533, Setor Universitário (ao lado da Caso do Estudante).
Faz parte do IX Colóquio de Filosofia e Literatura, coordenado por Fábio Ferreira.
Há várias outras palestras de interesse – programação do Colóquio é substanciosa.
Também será lançada Tempo de Lautréamont (Edições Ricochete, 2014), coletânea das conferências proferidas durante o VIII Colóquio de Filosofia e Literatura, dedicado a Lautréamont, inclusive meu “Lautréamont, leitor de Baudelaire”.
Palestra prossegue o que já apresentei aqui:
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/08/20/palestra-drogas-e-literatura-minha-sinopse/
A seguir, programa do evento. Agradeço retransmitirem para interessados em Goiânia e região.
PROGRAMA COLÓQUIO 2014

Entrevista para rádio: Paisagens Poéticas

Realizada por Renata Roman, solos de Romulo Alexis, para uma programação radiofônica da Casa das Rosas. Dou depoimento e leio poemas. Links para acessar (tem uma setinha misteriosa e algo sobre habilitar cookies – dará certo):
http://paisagensepoeticas.wordpress.com/2014/04/25/13_claudio-willer/
https://soundcloud.com/#atelie-sonoro/paisagens-e-poeticas_13_claudio-willer
http://casadasrosas.org.br/tv-cr/podcasts-poticos–paisagens-e-poticas–claudio-willer
Ouçam-me. Acho que complementa o que está em Os dentes da memória, no documentário Uma outra cidade e em outros lugares.
Uma seleta de trechos preparada por Célia Musili, que já está no Facebook:
“Não gostávamos nem um pouco dos tradicionalistas e não tínhamos nenhuma simpatia pelos formalistas. Éramos, eu principalmente era neo romântico.”

“Quando li que os Românticos gostavam mais da noite que do dia , mais da imaginação que da realidade, mais da inspiração do que do cálculo, mais do sonho que do cotidiano, e achavam que a emoção era mais importante que a razão, etc, percebi que eu era romântico. ”

“Os ocasionais intimismos líricos, as moças e mulheres que eu conheci com mais vocação para musa, inspiraram e me motivaram a escrever em momentos assim de maravilhamento. Lembro uma vez que eu estava no ateliê de uma amiga muito querida, com uma vista daqueles pores de sol roxo (…),alguém pos na vitrola o funeral de Siegfried de Wagner, na hora escrevi um poema em prosa que está publicado em Dias Circulares:
Uma montanha de anjos com insolação desaba sobre a terra/ Espalha-se pelas antecâmaras da esfinge/ respira um vento de alucinação que me dá plena consciência de amar/ e isso é um ponto fixo incrustado na minha retina.”

“Eu sou um afortunado, as traduções de alguns dos meus autores prediletos vieram ao meu encontro, legítimo acaso objetivo.”

Vamos estimular a criação poética

Claudio Willer em oficina literária sobre “A criação Poética” em São Paulo

 Na noite do dia 17/09, o poeta e tradutor pretende estimular a criação literária

 Com a análise de textos poético e teóricos, Claudio Willer instigará os participantes da oficina a desenvolver capacidade de leitura e expressão através da escrita. A oficina abordará questões como: valores poéticos; imagem poética; poesia e prosa, leitura entendida como expressão oral; a poesia e o poético e identidades literárias.

 O intuito é proporcionar a estudantes de letras, filosofia, poetas, prosadores e leitores em geral um melhor relacionamento com o texto literário e com a própria linguagem. Para escritores, a oficina pode ampliar a consciência de qualidade de seus trabalhos e o senso crítico, isso sem prejudicar a espontaneidade e o entusiasmo pela criação.

 O Espaço Tao é amplo, possuindo auditório, lounge, bar e ambientes diversificados, arquitetados para proporcionar aconchego e bem estar. Fica na Rua Alvarenga, número 1.682, no Butantã, em São Paulo, próximo a USP, a 700 metros do metrô e fácil acesso pela marginal. Confira mais no site recém lançado http://www.espacotaosp.com.br/destaques.

Serviço:

Oficina Literária “A Criação Poética”

Espaço TAO (100 lugares), na Rua Alvarenga, 1.682 – Butantã – SP

Dias: 17 /09/; 01, 08, 15, 22, 29/10/2013
Carga Horária Total: 12h

Horário: Das 19h30min às 21h30min

Valor: R$ 315,00 ou em 3x de R$ 116,67

Site: http://www.espacotaosp.com.br/increva-se/a-criação-poética—oficina-literária/40

 

Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor com vários livros publicados – poesia, ensaios, narrativa em prosa e traduções – além de participações em antologias e periódicos, no Brasil e no exterior. Doutor em Letras pela USP com a tese “Um Obscuro Encanto: Gnose, gnosticismo e a poesia moderna” (em livro: Civilização Brasileira, 2010). Pós-doutorado na USP com o tema “Religiões Estranhas, Misticismo e Poesia”. Coordenou dezenas de oficinas de criação e rodas de leitura (para escritores, agentes culturais, professores e estudantes), além de haver ministrado cursos, conferências e ciclos de palestras em instituições como a USP (curso de Letras), UFSCar (São Carlos – curso de Letras), Biblioteca Alceu Amoroso Lima (Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo), Instituto Moreira Salles, Escola Livre de Literatura da Secretaria em Santo André, Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Criança de Barueri, Clube Paulistano, Museu da Língua Portuguesa. Mais informações em https://claudiowiller.wordpress.com/about/      .

 

Barueri à tarde, Casa das Rosas à noite; palestra e apresentação de poetas

Tudo acontecerá nesta quinta-feira:

À TARDE:

Palestra do Dia do Escritor: “Poesia, história e sociedade”, por Claudio Willer: 

Dia 25/07 às 15:40 – Câmara Municipal de Barueri           

Endereço: Al. Wagih Salles Nemer, 200 CEP 06401-134, Barueri; telefone:(11) 4199-7900

Promoção: Departamento de Eventos – Secretaria de Cultura e Turismo de Barueri

À NOITE:  (claro que irei)

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Av. Paulista, 37
QUINTA POÉTICA
Curadoria: Paulo Sposati Ortiz.
Promovido pela Escrituras Editora.
Quinta-feira, 25 de julho, 19h.

Reúne boa poesia, com diferentes expressões artísticas, como dança, música, artes plásticas e cultura popular, envolvendo a leitura dos poemas.

59ª edição
Tema — Reencontro de beat-simbolistas: os oficineiros willerianos.
Convidados — Diogo Cardoso, Jeanine Will, Luís Henrique Nogueira e Vince Vinnus.
Participações especiais — Danã- Performance (teatro) e Gemini Lorca (música).

Publicarei em breve, neste blog, uma crônica sobre nudez – ainda não o fiz por falta de tempo – assunto não falta, cf. minha postagem anterior..

Revista Celuzlose: o lançamento dessa nova edição

A boa revista criada por Victor Del Franco, publicada em parceria pela Dobra e Patuá. Saiu o número 03, ou terceira edição impressa – alterna impresso e digital. A consagração pública será dia 20 de junho, quinta-feira, a partir das 19 h. Novamente no Bar Canto Madalena, na Rua Medeiros “de” Albuquerque, 471, Vila Madalena.

As aspas são por esse nome de rua ser um erro ortográfico ou toponímico da Prefeitura. É Medeiros e Albuquerque, conforme havia observado em outra postagem – o poeta satanista / decadentista, difusor do simbolismo, ao mesmo tempo ministro da justiça e autor do nosso primeiro código de direitos autorais – paradoxos brasileiros – é preciso mandar corrigirem. Esse bar Canto Madalena é um bom local – exibe 387 marcas diferentes de cachaça e outras coisas de brasileiro típico.

irei. Iremos…? (iremos!)

A seguir, pauta da revista. Poesia, ensaios, depoimentos. Satisfação em colaborar – desta vez, com um capítulo do ensaio ainda inédito (ainda inédito…!) sobre beats e rebelião religiosa – edições anteriores, foram poemas, entrevista, o ensaio sobre poetas da natureza.

 Celuzlose 03 (versão impressa)

 NESTA EDIÇÃO

Entrevista
Tarso de Melo

BR.XXI – Literatura Brasileira Contemporânea
Carina Carvalho

Carolina Barreto

Cesar Cardoso

Charles Marlon

Dalila Teles Veras

Edimilson de Almeida Pereira

Hélio Neri

Julio Mendonça

Leo Gonçalves

Luis Estrela de Matos

Marcelo Montenegro

Maria Alice de Vasconcelos

Rafael F. Carvalho

Reynaldo Bessa

GEO – Literatura sem Fronteiras
Gustavo Caso Rosendi (Argentina)
Jesús Ernesto Parra (Venezuela)

Caderno Crítico
A cidade e a vertigem: a poesia de Roberto Piva – por Susanna Busato
O túnel e o subsolo: presença de Dostoiévski

     em Ernesto Sabato – por Wanderson Lima
“Como se chama o que sinto?” a pergunta
     em Clarice Lispector – por Vera Helena Rossi
Poesia (Im)popular Brasileira: uma antologia necessária – por Adriano Scandolara

Uma conversa com Julio Mendonça,

     organizador da antologia Poesia (Im)popular Brasileira

Jack Kerouac: a poesia, a música e a fala de Deus – por Claudio Willer

BIO – Vida & Obra
Qorpo-Santo – por Julio Mendonça

LÚCIDA RETINA – Poesia Visual
Julio Mendonça

Paulo de Toledo

Série de palestras sobre poesia e prosa na Biblioteca de Pinheiros

Fui convidado para dar três palestras, em dias consecutivos, comemorando o Dia da Poesia, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros (Rua Henrique Schaumann, 777).

Dias 19, 20 e 21 de março, das 19:30 às 21:30. Da terça à quinta-feira.

Consultei freqüentadores de meus cursos e oficinas sobre o tema. Escolhi A prosa poética e o poema em prosa: convergências – havia sido proposto e abrange outras sugestões, como Rimbaud, e Lautréamont; além disso, me permitirá avançar em autores como Campos de Carvalho, menos estudado do que merece.

Uma satisfação, voltar a apresentar-me na Biblioteca Alceu Amoroso Lima – gostei de dar curso sobre Geração Beat e oficinas literárias, em 2009 / 2010. Conheci novos talentos poéticos.

Venham.

A biblioteca informa que é necessária a inscrição prévia. Pode ser pelo telefone: 3082-5023.

A seguir, copiado da programação da Secretaria Municipal de Cultura, outras informações e o programa / release que eu havia encaminhado.

BIBLIOTECA ALCEU AMOROSO LIMA

Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros 05413-021 São Paulo, SP
Tel. 11 3082-5023 – endereço eletrônico bmalceualima@yahoo.com.br

Ciclo “A prosa poética e o poema em prosa: convergências”
Com Cláudio Willer
Em O arco e a lira, Octavio Paz pergunta: “Se reduzirmos a poesia a umas poucas formas – épicas, líricas, dramáticas -, o que faremos com os romances, os poemas em prosa, e esses livros estranhos que se chamam Aurélia, Os cantos de Maldoror ou Nadja?
A série de três palestras examinará esses e outros “livros estranhos”, que desafiam classificações em gêneros e formas literárias. Tratará de obras que já são referência na poesia em prosa, como Iluminações de Rimbaud, mostrando, nelas, a expressão não-discursiva e o relato onírico; e do paroxismo dessas características em André Breton, Robert Desnos e outros surrealistas. Da literatura brasileira do século 20, a prosa poética em autores tão diversos como Jorge de Lima, Guimarães Rosa e, com especial atenção, por demandar mais leitura, Campos de Carvalho. Também examinará portugueses contemporâneos, como Herberto Helder. A intenção é interpretá-los; mostrar a riqueza de sentidos em obras que, aparentemente, destroem a relação de significação; e valorizar o alcance subversivo, sua rebelião contra o senso comum e a lógica do discurso. Pretende-se, desse modo, estimular a imaginação e contribuir para ampliar a capacidade de leitura dos participantes, além de promover debate.
Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. Doutor em Letras pela USP publicou Geração Beat, Estranhas Experiências, Dias Circulares, Lautréamont – Os Cantos de Maldoror e Poesias e Cartas, entre outros livros. Inscrições diretamente na unidade.

Mais sobre a programação da biblioteca, incluindo aquela minha foto simpática fazendo cara de autógrafo, em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_a_l/alceu/index.php?p=81

La Paz, Paulo Coelho, Claudio Willer: capítulo 5

Ontem, sábado, almoço, um dos assuntos foi esta série sobre ocultismo, literatura e Paulo Coelho. Meu anfitrião, Antonio Zago, mostrou-me a biografia de Coelho por Fernando Morais, O mago, lançada em 2008 pela Planeta. Desconhecia. Com 632 páginas, vendeu 100.000 exemplares e tem para download.

A parte inicial de O mago de Morais, poderei utilizar quando tratar de contracultura no Brasil. Há muita informação. Lá pela metade, diz que, depois de Brida, a crítica “cerrou fileiras” contra Coelho. O artigo de Teixeira Coelho na Leia, já mencionada aqui, é citada, com a observação de ser difícil.

Operar com as categorias “fácil” e “difícil” sugere que objeções da crítica a Coelho são por ele ser legível, acessível ao povo. Morais fez uma involuntária sátira das denúncias da conspiração da mídia a propósito de acontecimentos na esfera política. Críticos defenderiam valores da elite: por isso, rejeitam alguém que alcança tamanha difusão, por não escrever “difícil”. Isso, com o mais midiático dos autores brasileiros: toda vez que lança algo, ganha páginas na Ilustrada e afins, e matérias na TV – sempre em tom respeitoso (como já disse, assisti por acaso à reprise da matéria sobre Manuscrito encontrado em Accra na Globonews – tratamento foi reverencial).

O baixo populismo é sempre reacionário. Supõe que se deva rebaixar a mensagem para alcançar as massas. Maiakovski insurgia-se contra isso, no despontar do regime soviético. E tantos outros – Oswald de Andrade, por exemplo, sobre seu “biscoito fino” para as massas.

Circunstâncias, em primeiro lugar o interesse de leitores, me levaram a estender esta série de artigos. Sua origem, meu comentário sobre o artigo do sociólogo no suplemento Ilustríssima (esse sim, “difícil”, árido), afirmando que o “sistema literário” barrar Coelho é rejeição da elite. Wladyr Nader repercutiu, houve o aproveitamento por Rosane Pavam na famosa Carta Capital sobre declínio da cultura, e a intervenção de Felipe Lindoso, acusando-me de elitismo pelas restrições a Coelho, dizendo que nunca estive na periferia.

Ah, a periferia – última vez, em Perus, despertou interesse eu mostrar que a leitura de Paranóia de Piva contribui para enxergar mais qualidades em Cocktails de Luís Aranha. Citei “Kafka e seus precursores” de Borges. Poderia ter feito a mesma coisa em uma pós-graduação em Letras na USP. Nunca facilito – não precisa. A propósito, Diadema não é periferia? Sessão com Roberto Piva, Afonso Henriques Neto e eu, auditório lotado, público interessado, reclamei de nunca terem feito essa mesa na USP. Tudo é possível, do melhor ao pior, em todo lugar. Já mencionei as 2.000 pessoas para a programação que incluiu minha palestra sobre tradução em Passo Fundo. Multidão, também, no festival de poesia em Nova Prata, lá perto.

“É disso que o povo gosta”: argumento rasteiro para justificar os R$ 600.000,00 do governo do Ceará para o show de Ivete Sangalo em Sobral e tantos outros desperdícios. Se me convidarem, vou a Sobral – juntará menos gente, mas custo menos que Ivete.

O próprio Coelho irradia baixo populismo; paradoxalmente, desde seu castelo. Em várias ocasiões – entre outras, na contribuição a uma coletânea de depoimentos de escritores organizada por Suênio Campos de Lucena (21 escritores brasileiros, Escrituras, 2001), ao ser indagado sobre sua qualidade literária, deixou claro que, para ele, obras como a de Machado e Clarice são outra coisa. Transcrevo:

SUÊNIO: Alguns acham que o senhor toma o lugar de escritores como Machado de Assis e Clarice Lispector, e outros vêem o seu sucesso como algo passageiro. COELHO: Minha literatura não tem nada a ver com a deles. Não somos concorrentes. Esta discussão me parece algo como o sexo dos anjos. Se o sujeito quiser comprar Machado ou essa escritora, ele fará isso com ou sem Paulo Coelho. Acho que o sucesso incomoda demais as pessoas. (…) Peço para você não insistir nisso.

Mas o equivalente a Machado de Assis e a Clarice Lispector para Éliphas Lévi, Papus, Guaïta ou Péladan, os autores referenciais naquele momento, os Shakespeare, Goethe, Victor Hugo, não eram outra coisa. Antes, eram a mesma coisa que para Nerval, Baudelaire, Rimbaud e Huysmans. Lévi queria que seu texto fosse conforme aos padrões da alta literatura; e Victor Hugo foi conhecê-lo. Essa ambição também é evidente no Sär Péladan, em Crowley, que tinha em alta conta sua própria produção poética e se achava melhor que Yeats, seu contendor na Ordem da Aurora Dourada. Partilhar valores literários contribuiu para o diálogo entre magos e literatos (tratarei disso na próxima postagem).

Magos de hoje são menos literários? Parece. Houve alguma perda de prestígio da literatura, uma redução da importância que lhe era atribuída como fonte do conhecimento e modelo para o uso da linguagem; e, por decorrência, para a expressão do pensamento. Nos séculos 18, 19, na primeira metade do século 20, em matéria de valor literário e valorização da literatura, escritores e magos pareciam olhar na mesma direção. Hoje, voltam-se para direções distintas? Na coletânea aqui citada, a pergunta sobre valor literário é feita a um dos entrevistados, o único mago dentre eles. No entanto, não há recíproca, a nenhum dos demais entrevistados é feita qualquer pergunta sobre magia, ocultismo ou hermetismo.

– No próximo capítulo, para encerrar a série (será que consigo?), algo sobre os bons magos literários (houve muitos).

Uma biblioteca sobre Roberto Piva

Roberto Piva de Sergio Cohn, que acaba de sair pela coleção Ciranda de Poesia da editora da UERJ: o que eu teria a dizer sobre esse relato de encontros e diálogos que me soam tão familiares? Em primeiro lugar, que tudo é verdade. A descoberta de poetas pode modificar vidas:

Movido pelo intenso interesse despertado pela leitura de Piva, comecei uma formação autodidata de poesia, passando praticamente todas as minhas tardes na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, em companhia de Priscila, copiando a mão poemas dos autores que encontrava.

Concordo, especialmente, com o que diz sobre “referências a outros poetas”:

[…] não são vazias, nem estão lá para mostrar uma suposta erudição: funcionam como um real diálogo intertextual, um hiperlink pré-internet, propiciando que especialmente a obra de Piva possa ser lida, muitas vezes, como ensaio literário em forma de poesia.

Relato da formação, sintético bildungsroman: ler Piva e conhecê-lo em 1992, aos 18 anos, foi decisivo para que Cohn e amigos chegassem a suas próprias identidades literárias; para que escrevessem poesia – a de Cohn, reunida em O sonhador insone. E se decidissem por iniciativas como a revista Azougue, da qual resultou a editora homônima. Contribuiu para tal o entusiasmo de Piva, desde que visse alguém como interlocutor; sua “generosidade também de explicitar suas leituras, de mostrar que a poesia nãos e constrói sozinha, como obra do ‘gênio’, mas no diálogo com outros autores.”

Cohn retribuiu: na coletânea Encontros: Roberto Piva, por ele preparada; em entrevistas e publicação de poemas na revista Azougue; e com a edição de Os dentes da memória: Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia, por Camila Hungria e Renata D’Elia, Rio de Janeiro – tratando dos poetas nomeados no título, mas com Piva, a justo título, como protagonista.

Há mais em Roberto Piva de Cohn: um inédito de Piva; transcrição de outros poemas, citações e comentários; relato de como foi a preparação de Ciclones. Interessará a estudiosos.

Nesses últimos 20 anos, outros também partilharam e atestaram esse tipo de experiência. Tornamo-nos menos minoritários. Por isso, esse novo livro de Cohn vem somar-se à biblioteca piviana que se forma aos poucos.

Integram-na títulos como Deixe a visão chegar – a poesia xamânica de Roberto Piva de José Juva, pela Multifoco, adaptado da dissertação de mestrado em Letras na Universidade Federal de Pernambuco. Texto fluente, trata do xamanismo na poesia com precisão.

Também em livro – por ora no estaleiro, para reparos na edição – a tese de Gláucia Pimentel na Universidade Federal de Santa Catarina, Ataques e Utopias: Espaço e Corpo na Obra de Roberto Piva  (ed. Appris): trabalho extenso, ousado, combinando depoimento e painel de época (Gláucia conheceu Piva na época da Sociologia e Política, anos de 1970, no calor da contracultura) com o exame de tópicos de sua poesia, xamanismo inclusive.

À espera da publicação em livro, mas disponível em pdf, Estilhaços de visões: poesia e poética em Roberto Piva e Claudio Willer, mestrado em Letras na USP de Fabricio Clemente, também excelente poeta (Fabrício: lance logo seu livro de poesias … ! ache editor para sua dissertação…!). Pode ser carregado através de http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-11122012-101230/pt-br.php

Outro mestrado em Letras na USP: Teatralidade da palavra poética em Paranóia de Roberto Piva de Danilo Monteiro, defendida em julho de 2010, três dias após a morte do poeta. Piva queria que sua poesia fosse pública; declamava-a; inspirou-se em outros poetas eloqüentes, como García Lorca e Ginsberg. Em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-30092010-102524/pt-br.php .

Ha mais … ! De um historiador, Reginaldo Souza Chaves, da Federal do Piauí, Flanar pela cidade-sucata compondo uma estética da existência: Roberto Piva & seu Devir Literário Experimental (1961-1979)preciso e original, encontra-se em http://www.ufpi.br/subsiteFiles/mesthist/arquivos/files/Reginaldo%20Sousa%20Chaves.pdf (vou consultar / citar em minha palestra sobre Piva e a cidade no SESC do Bom Retiro, agora em janeiro)

De Bruno Eduardo da Rocha Brito, Roberto Piva, panfletário do caos, mestrado pela Federal de Pernambuco, ambicioso estudo comparativo de Paranóia e Ciclones, contracultura e vanguardas contemporâneas: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=157044

E o pioneiro trabalho de Thiago de Almeida Noya, também mestrado, para a UERJ, Roberto Piva e a “periferia rebelde” na poesia paulista dos anos 60 – curioso, desse não achei arquivo em pdf para descarregar – ao menos, no Google não tem nada.

A poesia de Piva também vem inspirando uma quantidade de criações artísticas bem sucedidas, desde os documentários – Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti e Assombração urbana de Valesca Dios. As mais recentes: São Paulo surrealista II: a poesia feita espuma, de Marcelo Marcus Fonseca: espero que a sensacional encenação retorne em 2013. E o balé Paranóia, de Ana Botosso e a Cia. de Dança de Diadema – que voltará a ser apresentado a partir de 25/01.

Se fosse elencar / comentar TCCs e ensaios, iria longe; preencheria mais algumas páginas. Piva fez restrições notórias à universidade; dificilmente se deixava entrevistar por pesquisadores. Mas essa produção funciona como antídoto ao que já denominei de “flipização” da crítica: sua conversão em desfile mundano. Somando-se a outras manifestações, estimulará leituras. Encaminha ao que interessa: os três volumes das Obras reunidas, pela Globo Livros, que estão aí, à espera de mais leitores.