Posts Tagged ‘criação literária’

Censura é oficializada no Brasil

Havia postado, neste blog, observações sobre editais da Funarte e Biblioteca Nacional com cláusulas que equivalem à censura prévia. Estão em

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/

A UBE, entidade da qual sou diretor, examinou o assunto e enviou ofício do presidente Joaquim Maria Botelho à Ministra da Cultura Marta Suplicy, embora isso acontecesse na gestão anterior, de Ana de Hollanda. Mas, pela resposta que recebemos da Funarte, continuará a acontecer. Como o ofício está em um arquivo jpg, que não cola aqui, pedi a Carlos Alberto Pessoa Rosa, do Meiotom, que o gravasse em sua página, assim dispondo de um link para mostrá-lo:

http://www.meiotom.art.br/evelitepsico.htm

Reparem no parágrafo final: a Funarte e a Biblioteca Nacional seguem diretrizes da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. É oficial, política de governo, e não trapalhada de burocrata com excesso de zelo.

Inevitáveis algumas observações:

1. Determinar que conteúdos ou temas em obras literárias podem ou não ser subvencionados, mesmo isso não implicando proibição de circulação, é censura prévia. Assemelha-se à proibição, na década de 1980, governo Reagan, de subvenção da USIS e outros órgãos culturais oficiais dos Estados Unidos a Allen Ginsberg e outros beats. Não proibiam, pois a censura havia sido derrubada nos tribunais, mas dificultavam a circulação, assim premiando-o por sua atuação.

2. É óbvio que diretrizes assim inibem a apresentação de obras mais transgressivas; reciprocamente, estimulam aquela de criações mais comportadinhas.

3. São episódios que me dão a impressão de um mundo às avessas. Em 1982, eu era secretário geral da UBE, formamos um comitê contra a censura quando proibiram o filme Pra frente Brasil. Integravam-no, junto com Ester Góes, João Batista de Andrade e outros, a ex-ministra Ana de Hollanda e o atual dirigente do MinC Sergio Mamberti. Estavam de um lado; bandearam-se…? Na mesma época, comissões da então FUNDACEN, da SEC do MEC (equivalente ao atual Ministério da Cultura), premiavam, propositadamente, obras proibidas pelo regime militar, como forma de resistência. Virada de 180 graus? Não sabem que inexiste censura boa ou má, politicamente correta ou incorreta? Ou é, ou não é. Não há meia-censura.

4. Os parâmetros da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República são vagos. Podem dar margem a tudo, a toda sorte de interpretação. O que é “promoção política de candidatos e/ou partidos” em uma obra literária?Poderia valer, unicamente, nos períodos de campanha eleitoral, pois só nesses há candidatos – mas o cronograma dos editais e os das campanhas eleitorais dificilmente coincidiriam. O que é “dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e da sociedade”? “Moral e bons costumes”… já ouvimos essa expressão – entidades como a TFP defendiam. No tempo em que se usava proibir filmes, peças de teatro, tirar livros de circulação etc. E “Tráfico ilícito de drogas e afins”? Obras literárias traficam drogas? De que jeito?

5. A lista de obras literárias relevantes que não resistiriam a esses critérios é infindável –releiam “São Marcos” em Sagarana de Guimarães Rosa, com destampatório racista alternando-se com esplêndida poesia em prosa – em “A hora e a vez de Augusto Matraga”, a família de negros que acolhe Matraga equivale ao grau mais baixo da escala social. Além disso, tanto em “A hora e a vez de Augusto Matraga” quanto em Grande Sertão: Veredas se pode enxergar apologia da violência, com a idealização dos confrontos entre pistoleiros para resolver questões de liderança e posse de terras. Isso, para não falar do que alguém, seguindo esses critérios, encontraria em Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Jorge Amado (Capitães da Areia – os garotos que transam…! horror…! horror…!) e tantos outros.

6. A orientação governamental legitima iniciativas repudiadas pela opinião pública, como as ações judiciais para retirar acepções do vocábulo “cigano” de dicionários e para restringir a circulação de obras de Monteiro Lobato. Dá mais força a neo-conservadores e outros paranóicos.

7. Comissões julgadoras entendem de crítica literária. Não são a instância ou foro adequado para tratar de moral e bons costumes, pedofilia, tráfico de drogas etc. Seria preciso criar algum novo órgão – ou melhor, recriar: antigamente chamava-se Tribunal do Santo Ofício; mais recentemente, no Brasil até 1988, Departamento de Censura da Polícia Federal. Chamem de volta os agentes que ainda não se aposentaram – entendem desse serviço, mais que críticos literários ou funcionários da Secretaria do Bem Estar Social (ou esses estarão recebendo treinamento, para a correta aplicação das diretrizes?).

8. Estranho essas cláusulas do edital da Funarte-FBN, publicadas em setembro deste ano, não terem tido repercussão maior. Colegas reclamaram de redução de verbas e demora na publicação de editais. Recusar-se a participar, por enxergar censura, que eu saiba, só o Carlos Alberto Pessoa Rosa (que me alertou). Omissão? Seletividade em protestos e denúncias? Se fosse no Facebook, reforçaria a merecida reputação de Zuckerberg e colaboradores como bando de reacionários. Se fosse do governo de São Paulo, iria recompensar o empenho do governador Alckmin para que lhe colem o rótulo de fascista na testa. Quando parte de gente que esteve do outro lado, que já militou pela liberdade, então ninguém diz nada, todo mundo abstrai, fica quieto?

Espero estar equivocado.

Palestra: poesia e cidade em Perus

Retransmito o informe do Grupo Pandora. Interessados em poesia e temas afins de Perus, Pirituba, Caieiras, Franco da Rocha, Jaraguá e outros nortes e oestes de São Paulo e região metropolitana, venham. Darei um panorama, de Baudelaire a Claudio Willer & friends, passando por surrealistas e beats. Serei autobiográfico, contarei ‘causos’. O bairro e a antiga fábrica de cimento Portland têm história, como todos sabem; inclusive de movimentos operários importantes e resistência ao regime militar. Há relações indiretas e desdobramentos interessantes: Parque Villa Lobos veio do espólio do dono da fábrica de cimento, o famoso ‘mau patrão’, que havia falido.

ENCONTRO COM CLAUDIO WILLER

A POESIA E A CIDADE: SÃO PAULO

O Grupo Pandora de teatro, em parceria com o Cursinho Comunitário Fábrica do Conhecimento, promove o encontro gratuito com Claudio Willer sobre símbolos, imagens poéticas e a relação da poesia com a cidade de São Paulo.

Data e horário: dia 20 de outubro de 2012, sábado, das 10 às 13 h.

Local: Rua Padre Manuel Campello 182, Perus, no Sindicato dos Trabalhadores de Cimento. Informações, fone 3917-9225

ABERTO AO PÚBLICO

Caso gravíssimo: censura em edital da FUNARTE e Biblioteca Nacional

Até agora, casos de censura aqui comentados, questionados e devidamente satirizados vinham ocorrendo no âmbito de entidades e instituições privadas: Facebook, Academia etc. Ou por recursos ao Judiciário de associações privadas. Desta vez, não – é iniciativa de órgãos públicos, FUNARTE e Biblioteca Nacional, assim institucionalizando a censura, tornando-a política de Estado. Onde estavam com a cabeça Galeno Amorim e Antonio Grassi quando assinaram um tamanho absurdo? Cadê os assessores?

Fui alertado por Carlos Pessoa Rosa, do Meiotom – http://www.meiotom.art.br/ . Chequei (abri o edital via Google), é isso mesmo. Reproduzo, porém com observações preliminares:

  1. Como é que ninguém reparou? Edital é de 19 de junho – reclamaram da redução de verbas (com razão) e deixaram passar cláusulas abusivas, que restringem criação e expressão. Sociedade anestesiada.
  2. Problema com esse tipo de cláusula é que possibilita veto de qualquer coisa, pela notória imprecisão de categorias como “moral”, “bons costumes”, “pornografia”. Abre – escancara, diria – as portas para o arbítrio.
  3. Administradores culturais não podem ocupar funções que cabem ao Judiciário – se o fizerem, atuarão como censores.
  4. Já existe jurisprudência, e bastante: tratar p. ex. de tráfico, perversões, violência etc não caracteriza incitação ao crime.
  5. Modo correto de órgão público cobrir-se, evitar aborrecimentos por causa de conteúdos além da conta: cada concorrente assina termo de responsabilidade – se houver alguma confusão, é com o autor, não com o promotor do concurso.
  6. Conforme a interpretação desses quesitos, não sobraria nada da lista de 38 temas, autores e obras – todos consagrados, integrantes do ‘corpus’ da literatura – que recomendei à ABL em minha postagem precedente.
  7. Restrições como essas, em órgãos culturais públicos, nem durante o regime militar – ao contrário, MEC, FUNARTE etc resistiam, enfrentavam o arbítrio, premiavam obras censuradas, assim gerando impasses, por volta de 1980.
  8. Em 1980, quando passei a freqüentar a UBE, promoveram um concurso literário – alguém mais conservador introduziu cláusulas desse tipo no regulamento – observei que UBE é comprometida com liberdade de expressão, retiraram as cláusulas que possibilitariam censura. 1980 – foi há 32 anos.

Enfim, por esses e outros motivos, setores esclarecidos da sociedade devem protestar, antes que isso se alastre.

Vejam:

http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/EDITAL%20CRIACAO%20LITERARIA.pdf

1.2. Os projetos concorrentes não sofrerão quaisquer restrições
quanto à temática abordada dentro da sua categoria, desde que

não caracterizem:
a) promoção política de candidatos e/ou partidos;
b) dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e
da sociedade;
c) pornografia;
d) pedofilia;
e) discriminação de raças e/ou credos;
f) tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins;
g) terrorismo;
h) tráfico de animais.

Ou então, na íntegra:

http://www.funarte.gov.br/wp-content/uploads/2012/06/Criacao-Literaria_1a-Pagina_Edital-FBN-Funarte-de.pdf

EM TEMPO: enviei a postagem a jornalistas. Raquel Cozer, da Folha de SP, imediatamente me respondeu e mostrou que havia tratado do assunto (e tratado bem):

http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/06/24/ha-limites-para-a-tematica-literaria/

Pior – houve quem reclamasse de pouca verba, demora; agora, liberdade de expressão, ficaram quietos. O tema era muito importante em 1980. Deixou de interessar?

Curso de Geração Beat, nova entrevista e matérias

Eu pretendia publicar uma extensa série de ironias inspiradas nesse episódio recente, da censura a expressões em uma palestra de Jorge Coli na Academia Brasileira de Letras. E vou fazer isso. Mas prefiro dar precedência a duas notícias, ou dois conjuntos de notícias: um sobre meu curso de Geração Beat; outro sobre as matérias na Zunaí, incluindo entrevista comigo e série idem sobre poesia, erotismo e corpo.

  1. O curso de Geração Beat

Informa a Casa das Rosas que as inscrições para meu curso de Geração Beat serão abertas dia 18 de setembro, a próxima terça-feira. Poderão ser na feitas a partir das 10h, até às 22h, na recepção da Casa das Rosas; e também pelo telefone da Casa das Rosas: 3285 6986. São gratuitas.

O informe sobre o curso, eu já havia postado. Será dividido em dois módulos:

1. OutubroMísticas da transgressão: Jack Kerouac e a Geração Beat. Terças-feiras, 9,16,23 e 30 de outubro, às 19h30.

 2. Novembro:  Geração Beat: criação poética e rebelião. Terças-feiras, 6, 13 e 27 de outubro e 4 de dezembro, às 19h30
(Obs: A terça-feira dia 20 de outubro é o Dia da Consciência Negra, por isso “pulamos” esta semana no cronograma.)

O conteúdo do curso: Retomando o que já escrevi em meu Geração Beat (L&PM Pocket, 2009), nas minhas traduções de Allen Ginsberg, e no que apresentei em outros cursos e palestras, avançarei – insistindo sempre no valor literário do tão questionado Jack Kerouac (claro que haverá tempo para discutirmos o filme, e o restante da cinematografia beat) e dos demais beats. Utilizarei minhas pesquisas mais recentes, sobre Geração Beat e místicas da transgressão: material inédito (desde o último curso que ministrei, na Letras da USP em 2010, li e acho que aprendi mais sobre o tema – na presente altura, sou aquele sujeito que leu toda a obra de Kerouac, além de boa parte do restante…).

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura: Av. Paulista, 37 – Bela Vista, CEP.: 01311-902 – São Paulo – Brasil – fones (11) 3285.6986 / 3288.9447; contato.cr@poiesis.org.br

 

  1. Entrevista, matérias

Já havia comentado, a propósito da entrevista comigo por Victor del Franco, publicada na revista literária Celuzlose, que entrevista boa é aquela feita por quem me leu. Isso vale, e com ênfase, para a refinada entrevista pelo poeta e estudioso Chiu Yi Chih. Publicada na edição da revista Zunaí de Claudio Daniel que acaba de ir ao ar, ou seja, de entrar no meio digital, está em: http://www.revistazunai.com/entrevistas/claudio_willer.htm .

Como Chiu também me fez perguntas sobre Roberto Piva, há informação inédita sobre esse poeta que, acredito, interessará a seus leitores e pesquisadores.

Também na mesma Zunaí, junto com muito mais matérias de qualidade, A subversão da nudez no Facebook, amplo dossiê (artigos, poemas, depoimentos) preparado pela poeta, pesquisadora e artista visual Célia Musili, do qual tenho a satisfação de participar, com trechos de um ensaio inédito sobre o assunto. Em http://www.revistazunai.com/materias_especiais/index.htm

O dossiê foi inspirado por nossas respostas às tentativas de cesura na rede social. É o paradoxo da censura, mormente quando praticada em sociedades abertas: acaba projetando o que foi censurado, suscitando novas leituras e discussões (o caso exemplar é mesmo o modo como a ação por obscenidade de 1956 catapultou as vendas de Howl and other Poems, Uivo e outros poemas, de Allen Ginsberg e projetou a Geração Beat). Aproxima pessoas atingidas pela censura ou que objetam a esses retrocessos. Foi o que ocorreu nesse episódio do Facebook: acabamos formando uma bela confraria de opositores, firmes defensores da livre criação e expressão.

Leiam.

Ainda Monteiro Lobato

Claro que gostei de ter centenas de acessos (630 até agora) a minha postagem sobre a discussão de racismo em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato, mais a torrente de comentários no Facebook.

Mas não sei se fui bem entendido. Por exemplo, na questão do valor e da ideologia de Monteiro Lobato.

“Jeca Tatu”, sua estréia em livro e principal obra em prosa ‘adulta’, é preconceituosa. Faz uma defesa obscurantista do progresso. Misturou positivismo e idéias adaptadas do evolucionismo, eugenistas, que tiveram conseqüências perversas. É possível, sim, recortar trechos racistas em sua atuação como polemista. Sua intervenção sobre modernismo foi um desastre. Como crítico musical, como bem mostra a biografia por Edgar Cavalheiro, foi confuso e idiossincrático.

Por outro lado, na literatura infantil foi um antes e depois, marco divisor ainda não ultrapassado sob certos aspectos. Criou um mundo mágico, liberou um imaginário brasileiro. Humanizou a criança – é difícil adultos fazerem isso. Retratou e ao mesmo tempo mitificou um ambiente rural, tornando-o paradisíaco. Trouxe a língua falada para o texto escrito – seus personagens falam, transmitem espontaneidade e por isso credibilidade – sem rebaixar o idioma. Ele sabia ouvir, e por isso sabia escrever. Além disso, soube transformar mitos em fábulas de modo magistral.

Foi corajoso. Encarou a repressão getulista. Como empreendedor no campo editorial, foi magnífico, um visionário lúcido. Íntegro e ao mesmo tempo duplo, um progressista e um conservador, ambos extremados, ambos movidos pela paixão.

Escritores são assim: ambivalentes, por vezes paradoxais. Não têm obrigação de se enquadrar na ideologia e escala de valores de todos os seus leitores.

Mostrar ideologia em criações literárias é tarefa para professores, pedagogos, críticos literários. Assim como o é, principalmente, mostrar onde está o valor, qual é a contribuição especificamente literária, quais os motivos para considerar relevante uma obra.

O que não admito, assim como no caso dos ciganos do dicionário, é atravessarem. Transferirem o que, em uma sociedade aberta, naturalmente é tema de debate, para o judiciário. É um modo do autoritarismo. Idem em outros casos – por exemplo, em Vilma Guimarães Rosa versus Alaor Barbosa: as objeções dela à biografia de Guimarães Rosa por Alaor são tipicamente do campo da crítica literária, e não do Direito (li trechos da ação).

O que faz ou deve fazer o juiz? Chamar peritos. Especialistas. Como neste caso, de Monteiro Lobato, opinarão, darão parecer, dirão coisas semelhantes às que estou dizendo aqui e que já estão sendo ditas. Em conseqüência, o processo todo acaba dando uma volta, chegando ao lugar de onde nunca precisaria ter saído, ao campo da crítica literária e disciplinas afins.

Qual a conseqüência da judicialização do debate literário? Alugar, emperrar, tomar tempo do Judiciário e de todo mundo envolvido no caso. Atrasar outras ações, coisas realmente sérias, julgamentos de indenizações, crimes etc. Essa tentativa de burocratizar (mais ainda) o saber devia receber condenações por litigância abusiva.

Há pior – como no caso de algumas biografias: os editores que se intimidaram, retiraram obras, fugiram dos processos.

A reação da sociedade, ou da parcela culta da sociedade, nesse caso de Monteiro Lobato, ajudará a corrigir esses abusos. Contribuirá para restaurar a livre circulação de informações. Extinguirá focos de obscurantismo, mesmo agindo em favor de idéias aparentemente progressistas, politicamente corretas. Algo da herança do Iluminismo, que privilegiava a liberdade de expressão e os avanços no saber, precisa ser preservado.

(alô alô – convites para palestras, estou disponível sobre beats, surrealistas, Piva & friends, Lautréamont & Rimbaud etc – sobre Monteiro Lobato, não – tem gente que entende mais que eu, isso que foi exposto acima é Lobato básico -mas ainda assim não alcançado pela turma do politicamente correto, por nossos analfabetos funcionais)

Monteiro Lobato, censura e analfabetismo funcional

Perto de 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais, mostram pesquisas. Travam diante de textos mais complexos.

Censura é um modo de analfabetismo funcional. Leitura linear, em uma só direção, com antolhos.

Censores sempre consagram o analfabetismo funcional.

Discussão da vez, de hoje, conforme noticiado: no Supremo, a ação contra o ‘racismo’ em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato. Está em:

http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI6145038-EI8266,00-STF+vai+discutir+polemica+em+obra+de+Monteiro+Lobato.html

Concordo com Alcir, Noemi e demais especialistas consultados na matéria da Folha: se submeterem obras literárias a esse crivo, não sobrará quase nada. Aplicar desse modo a correção política é passar um trator sobre conteúdos.

Ah, sim! E houve aquele outro caso, de Dalton Trevisan retirado dos vestibulares da Federal de Viçosa. Ponto a favor de Dalton. logo será a vez de Rubem Fonseca, de João Antonio, de….

Parecem aquele outro episódio, dos dicionários obrigados a retirar acepções da palavra ‘cigano’, que já comentei aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/28/as-palavras-proibidas/

Tal judicialização de questões do campo da linguagem e da literatura é um retrocesso bestial. Ao baterem desse jeito à porta dos tribunais, vão atropelando o conhecimento, desprezando quem estudou. Donos da verdade, querem impor-se na marra a especialistas sérios, instrumentalizando o judiciário e fazendo todo mundo perder tempo. Isso das expressões usadas para referir-se à Tia Nastácia: qualquer pedagogo minimamente preparado tira isso de letra, resolve – ajudará a compreender a questão, em vez de ampliá-la através de imposições autoritárias. Como se algum esbirro racista precisasse ler Monteiro Lobato. Querem combater racismo? Então mostrem a verdade, é tão simples (mas tão difícil de entender, para alguns) Como fez Umberto Eco, ao provar que os Protocolos dos Sábios do Sião eram cópia de um trecho de Balsamo, a biografia ficcionalizada de Cagliostro por Alexandre Dumas, apenas trocando os maçons (igualmente difamados, no caso) por judeus.

Praga da judicialização de questões literárias é prima-irmã da outra, a interferência em biografias e pesquisas. Ou são a mesma? Estão se tornando tipicamente brasileiras. Por causa de nossos 70% de analfabetos funcionais.

Geração Beat, o novo curso

O aguardado curso de geração beat será na Casa das Rosas, dividido em dois módulos:

1. OutubroMísticas da transgressão: Jack Kerouac e a Geração BeatTerças-feiras, 9,16,23 e 30 de outubro, às 19h30.

 2. Novembro:  Geração Beat: criação poética e rebelião. Terças-feiras, 6, 13 e 27 de outubro e 4 de dezembro, às 19h30
(Obs: A terça-feira dia 20 de outubro é o Dia da Consciência Negra, por isso “pulamos” esta semana no cronograma.)

 Inscrições se abrirão em setembro. Assim que, encaminharei nova postagem, com detalhes.

A CRIAÇÃO POÉTICA: UMA ENQUETE

Quarta-feira, dia 15 de agosto, participei de mesa no Centro Cultural, no Seminário de Ação Poética, sobre tendências da poesia, com Reynaldo Damazio e Claudio Daniel. Anunciei um apocalipse poético e reclamei da crítica privilegiar poetas inteligentes, cerebrais, deixando em segundo plano os visionários e viscerais. Falei também de recalque do sujeito e da subjetividade em estudos literários. Claro que João Cabral pode – mas como um dos pólos da criação, uma das poéticas, não como modelo hegemônico. Evidentemente, em qualquer caso, é preciso ler, em primeira instância.

Saí perguntando-me: mas, afinal, o que fazem os poetas? Como criam? Resolvi dirigir a pergunta a poetas de diferentes matizes e tendências, presentes na cena contemporânea.

É aberto – quem quiser, manifeste-se. Agradeço. Respostas, nos comentários a esta postagem. Depois, examino como editá-las de modo mais adequado.

Notem bem: não estou interessado no genérico e no geral. Sei que razão e emoção complementam-se, etc. Quero o particular – em termos mais precisos, o ideográfico (ou idiográfico, como grafam alguns), não o nomotético (sim, outrora estudei filosofia da ciência) (ideográfico = exame do particular; nomotético = busca de leis gerais). Podem relatar como criaram algum de seus poemas, como acontece ou como criam.

Por espírito de provocação, reproduzo citações que fiz na ocasião. Sei muito bem que alguns mudaram ou atenuaram opiniões (Octavio Paz e Haroldo de Campos, que contraponho, viriam a ser interlocutores) – outros, como Cabral, tornaram-se, com o tempo, cada vez mais dogmáticos.

  1. Razão e emoção:

João Cabral: “A emoção não cria”. Já Hilda Hilst declarou em várias ocasiões que achava Cabral um chato (entrevistas e em Contos d’Escárnio). Allen Ginsberg chorava quando escrevia, e seu biógrafo Barry Miles relata que, quando chorava bastante, sabia que o poema ia ficar bom (ao escrever Kaddish, ensopou lenços).

2.Sentido, significação versus destruição do sentido, da significação (referência vs. expressão, também pode ser

João Cabral:

João Cabral de Melo Neto

ANTI-CHAR 
 

Poesia intransitiva, 
sem mira e pontaria: 
sua luta com a língua acaba 
dizendo que a língua diz nada. 
 

É uma luta fantasma, 
vazia, contra nada; 
não diz a coisa, diz vazio; 
nem diz coisas, é balbucio.

Michel Foucault (em As palavras e as coisas):

Pode-se dizer, em um certo sentido, que a ‘literatura’, tal como se constituiu e se designou no limiar da idade moderna, manifesta o reaparecimento, onde não se previa, do ser vivo da linguagem. […] Durante todo o século XIX e em nossos dias ainda — de Holderlin a Mallarmé e a Antonin Artaud — a literatura só logrou existir na sua autonomia, só se desprendeu de linguagens alheias por um corte profundo, quando formou uma espécie de “contradiscurso” e quando passou assim da função representativa ou significante da linguagem a esse ser bruto esquecido desde o século XVI. […] Na idade moderna a literatura é o que compensa — e não o que confirma — o funcionamento significativo da linguagem. Através dela o ser da linguagem brilha de novo nos limites da cultura ocidental — e no seu interior — pois ele é, desde o século XVI, aquilo que lhe é mais estranho.

  1. Trabalho versus inspiração:

Haroldo de Campos (nos Manifestos da poesia concreta):

Evidentemente, a poesia concreta repudia o irracionalismo surrealista, o automatismo psíquico, o caos poético individualista e indisciplinado, que não conduz a qualquer tipo de estrutura e permite – como já disse alguém – uma espécie de “comunismo do gênio”. O poema concreto não se nutre nos limbos amorfos do inconsciente, nem lhe é lícita essa patinação descontrolada por pistas oníricas de palavras ligadas ao subjetivismo arbitrário e inconseqüente. […] O poema concreto é submetido a uma consciência rigorosamente organizadora, que o vigia em suas partes e no todo, controlando minuciosamente o campo de possibilidades aberto ao leitor. […] A poesia em vida – ambição romântica à qual não deixa de filiar-se esse misto de “capela literária, colégio espiritual e sociedade secreta” que, segundo Sartre, é o surrealismo – é algo estranho ao poema e que, no seu extremo, acaba mesmo prescindindo dele.

Octavio Paz (em O arco e a lira):

A inspiração tornou-se um problema para nós. Sua existência nega nossas crenças intelectuais mais arraigadas. […] Se a inspiração é um fato incompatível com nossa idéia de mundo, nada mais fácil que negar sua existência. […] Durante toda uma época foram denunciados os extravios a que conduzia a crença na inspiração. Seu verdadeiro nome era preguiça, descuido, amor pela improvisação, facilidade. Delírio e inspiração se transformaram em sinônimos de loucura e enfermidade. […] O ato poético era trabalho e disciplina; escrever: “lutar contra a corrente”. Não é exagero ver nessas idéias uma transferência abusiva de certas noções da moral burguesa para o campo da estética. Um dos maiores méritos do surrealismo foi ter denunciado a raiz moral dessa estética de comerciantes. Na realidade, a inspiração não tem relação alguma com noções tão mesquinhas como as de facilidade e dificuldade, preguiça e trabalho, descuido e técnica, que escondem a noção de prêmio e castigo: o “toma lá dá cá” com que a burguesia, segundo Marx, substitui as antigas relações humanas. O valor de uma obra não se mede pelo trabalho que custou a seu autor.

Haveria muito mais citações interessantes, ilustrativas – p. ex. o que li de Kerouac, diferenciando a qualidade de poemas  de T. S. Eliot, sublimes, e sua poética “constipada”. Ficam para outras ocasiões. Ah, sim – antes que me perguntem como eu escrevo, já publiquei algo a respeito, “A escrita automática e outras escritas”: http://www.revista.agulha.nom.br/ag54willer.htm

Acaso objetivo: um relato meu

Roncador-1

Havia publicado o que vem a seguir entre os comentários a meu próprio post, aqui neste blog. Resolvi, agora, dar-lhe um espaço próprio. E convertê-lo, ao final, em exercício de leitura, ou de criação – não obstante ser tudo verdade. As demais histórias de acaso objetivo, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/25/acaso-objetivo/

(Em outra ocasião, anotei que sempre quis ser cronista.)

Julho de 1999.

Passava uma semana ou uns 10 dias em uma fazenda em Mato Grosso, convidado por um amigo, o cineasta João Callegaro. Perto de Xavantina e do Rio das Mortes, quase sopé da Serra do Roncador. Extensões do Centro-Oeste, horizontes luminosos e o perfil tão plástico e poderoso da serra. O Rio das Mortes, que beleza, água bem escura e limpa, atravessando mata virgem. Jacarés e tucunarés. Araras e ariranhas.

É uma terra de lendas e seitas. As famosas inscrições na pedra, os Martírios. Índios e colonos, convivendo – aparentemente, não há cenários de horror como os de Mato Grosso do Sul ou do Bananal, não vi degradação ou miséria extrema. Histórias de xavantes albinos nas cavernas de outra serra na região, fomos lá. Visitamos uma comunidade pós-hippie, simpáticos naturalistas, vivem em uma construção em círculo. Instalados na região, seitas e grupos esotéricos para todos os gostos. Acreditam, alguns, em passagens para o centro da Terra e no retorno do Coronel Fawcett, não fui vê-los, isso de mundo no interior do planeta vem das sociedades do Vril e ordem de Thule, influentes no nazismo, e o antissemitismo já está em Madame Blavatski, que postulou uma raça superior. Ademais, Fawcett não sumiu em uma gruta. Quando estive no Parque do Xingu em 1967, os Kalapalo visitaram o posto, perguntei: “Fawcett…?”, o intérprete apresentou-me o índio velhinho e sorridente que lhe aplicara o golpe final de borduna – se bem que, com os índios, nunca se sabe, apreciam fabular e há também a versão de que foram os Camaiurá e o esqueleto está no fundo da lagoa – de qualquer modo, Orlando Villas-Boas endossou que o explorador inglês havia forçado a mão, tentado obrigar índios a levá-lo a território inimigo (dos Suiá ou Juruna, Xingu abaixo) e por isso foi executado.

Luzes misteriosas e objetos celestes, óvnis e ETs, discos voadores e extraterrestres são tema constante na região, e não só entre esotéricos e adeptos. Um eufórico prefeito de Barra do Garça fez construir pista de pouso para óvnis no alto de um morro, perto dos banhos termais. Parece que todo mundo já viu algo. Domingo, fim de tarde, conversava sobre isso com Callegaro. Contou que era comum enxergarem luzes para os lados da serra. Passeávamos, cruzamos com um empregado da fazenda: “Como é, cadê as bolas de fogo? Tem visto muitas?”, perguntou meu hospedeiro. “Não, essa semana não teve, não vi nenhuma…”, respondeu. Vejam só – subentendido na resposta, as bolas de fogo serem comuns, aparecerem a toda hora.

Já anoitecia. Voltamos à sede da fazenda, amplo casarão térreo. Quando saí do quarto e entre na sala, o televisor estava ligado. Transmitia o Fantástico. Justamente, naquele exato momento, quando passei na frente do aparelho, exibiam um segmento sobre avistamentos de óvnis por tripulantes e passageiros de aviões. Um ministro, não me lembro mais qual, e que havia visto algo acompanhando seu vôo, por um bom trecho. Pilotos e copilotos, vários. Bolas de fogo, charutões luminosos, discos, clarões. O céu povoado de mistérios, de coisas ou entidades desconhecidas. Gente da Aeronáutica rompendo sigilo – relatórios sobre esses encontros existem, mas são reservados.

Não assisto ao Fantástico. Aquela hora daquele domingo, do milhão de pautas do programa, darem aquela. O que conversávamos há pouco estava sendo grifado.

Extraterrestres, ou o que for, visões, energias nossas, coisas da terra, meteoros diferentes, balões, nunca chegaram a me fascinar ou apaixonar. Não sou contra, pode ser que existam, já vi uma luz oscilando sobre a Represa Billings, talvez fosse ilusão de ótica (meteoros, satélites e avião em linha reta podem dar a impressão de ziguezague), mas foi noticiado nos jornais um avistamento de algo no céu na região do ABC naquele fim de semana. As bolas de fogo na região da Serra do Roncador também poderiam ser fogo-fátuo, alguma emanação da terra. Conheço quem encontrou, ou acha que encontrou. Tenho um amigo ufólogo. Misteriosíssimo. Roberto Piva também era – freqüentou grupos, colecionou bibliografia, publicou poema em Ciclones dedicado a Jacques Vallée (o consultor de Contatos imediatos de Spielberg), emprestou-me livro dele (que horror, os episódios de abduções e de mutilações, parece conto de Lovecraft, muito malvados alguns desses alienígenas, prefiro manter distância).

André Breton disse que acaso objetivo é expressão e materialização do desejo; projeção do desejo na realidade. Mas como? O que desejava eu, para merecer essa mensagem? O episódio é estranho pela gratuidade aparente, por eu não ser pesquisador, nem mesmo interessado – tenho bastante histórias estranhas, mas de outra ordem, escrevi um livro em torno do acaso objetivo, Volta. Não procurava nada naquela fazenda, na região, no Roncador, no Araguaia – só queria sair de São Paulo, ver / rever paisagens. Tomar banho nas termas de Barra do Garça, 22 anos depois, isso sim.

Ou então, o desejo não era meu. Algo, alguém ou algum outro, transmitia uma mensagem, até hoje indecifrada. É para eu voltar ao Roncador, a Xavantina? Para escrever a respeito? Para ficar quieto, ver e calar-me?

Se fosse ficcionista, faria a campainha tocar para deparar-me com uma criatura, um extraterrestre à porta, algo assim. Se quisesse replicar Maupassant, terminava o relato aqui. Se pretendesse imitar Ernesto Sabato, a criatura me levaria a tenebrosos mundos subterrâneos, a uma sucessão de experiências horripilantes. Com H. P. Lovecraft, fonte da qual Sabato bebeu, também seria esse trajeto, universo afora. Umberto Eco teria promovido uma perseguição por membros de alguma seita, até eu chegar à gênese de teorias conspiratórias baseadas na adulteração de um trecho de Balsamo de Alexandre Dumas, assim como fez em três de seus livros (Eco é bom, pode repetir-se) . Guimarães Rosa teria posto tudo, fazenda, bois, serra, fins de tarde luminosos, extensões e aparições, dentro do texto, e narrado na primeira pessoa, em tom de relato oral. André Breton não teria escrito ficção – iria até a Serra do Roncador e despejaria bastante prosa poética sobre os paredões de arenito, as inscrições rupestres e o restante. Michel Leiris se instalaria na aldeia xavante e produziria etnografia participativa. Cortázar… – com ele, tudo seria possível, até mesmo um relato direito, chapado, como este. José J. Veiga (belo escritor, esquecido, precisamos resgatá-lo), em alguma das vezes em que conversamos, teria me contato uma série de causos como este.

Que tratamentos isso – esse episódio, insisto, 100% real – receberia de outros narradores?

Nova oficina Centro Cultural b_arco

Minha próxima oficina de criação poética será no Centro Cultural b_arco, em um horário mais conveniente para muitos interessados:

Local: Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros  São Paulo, 05415-020, tel. (0xx)11 3081-6986

Datas: de 28 de abril a 16 de junho, sábados, das 10h30 às 12h30 (oito sessões)

Valor: 2x de 250,00

Maiores informações em: http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=67717 e http://www.obarco.com.br/cursos/literatura/claudio-willer-criacao-poetica.html , inclusive formulário para inscrição.

OFICINA DE CRIAÇÃO POÉTICA

O objetivo desta oficina é estimular a criação literária e a capacidade de leitura.A partir de textos produzidos pelos participantes, serão trabalhados os temas: valor poético – o que permite considerarmos ‘bom’ um texto literário; a imagem poética e as expressões não-discursivas; poesia e prosa – a poesia na prosa; a poesia e o poético; percepção de sentidos em um texto; identidades literárias; afinidade dos participantes com diferentes vertentes; dicções; estilos e modos de escrever.

Serão propostos temas e exercícios de criação e de leitura, e recomendadas leituras de obras poéticas e também de prosa e ensaios. A programação de leituras incluirá textos tidos como difíceis ou herméticos, mostrando, através do trabalho do grupo, as várias possibilidades de interpretá-los.

Além do exame de textos dos participantes e da discussão de leituras propostas pelo coordenador, o curso terá uma parte expositiva. Esta consistirá no exame de temas da tese do coordenador, sobre gnosticismo e poesia, e de seu pós-doutorado, sobre “religiões estranhas”, misticismo e poesia.

Nas últimas décadas, oficinas de criação ganharam importância no Brasil. Tiveram continuidade e efeito multiplicador. Esse procedimento já trouxe resultados: talentos revelaram-se, e há novos autores que participaram de oficinas com essa orientação e coordenação que já receberam prêmios e subvenções, publicaram livros e até mesmo receberam elogios da crítica.