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Série de palestras sobre poesia e prosa na Biblioteca de Pinheiros

Fui convidado para dar três palestras, em dias consecutivos, comemorando o Dia da Poesia, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros (Rua Henrique Schaumann, 777).

Dias 19, 20 e 21 de março, das 19:30 às 21:30. Da terça à quinta-feira.

Consultei freqüentadores de meus cursos e oficinas sobre o tema. Escolhi A prosa poética e o poema em prosa: convergências – havia sido proposto e abrange outras sugestões, como Rimbaud, e Lautréamont; além disso, me permitirá avançar em autores como Campos de Carvalho, menos estudado do que merece.

Uma satisfação, voltar a apresentar-me na Biblioteca Alceu Amoroso Lima – gostei de dar curso sobre Geração Beat e oficinas literárias, em 2009 / 2010. Conheci novos talentos poéticos.

Venham.

A biblioteca informa que é necessária a inscrição prévia. Pode ser pelo telefone: 3082-5023.

A seguir, copiado da programação da Secretaria Municipal de Cultura, outras informações e o programa / release que eu havia encaminhado.

BIBLIOTECA ALCEU AMOROSO LIMA

Rua Henrique Schaumann, 777
Pinheiros 05413-021 São Paulo, SP
Tel. 11 3082-5023 – endereço eletrônico bmalceualima@yahoo.com.br

Ciclo “A prosa poética e o poema em prosa: convergências”
Com Cláudio Willer
Em O arco e a lira, Octavio Paz pergunta: “Se reduzirmos a poesia a umas poucas formas – épicas, líricas, dramáticas -, o que faremos com os romances, os poemas em prosa, e esses livros estranhos que se chamam Aurélia, Os cantos de Maldoror ou Nadja?
A série de três palestras examinará esses e outros “livros estranhos”, que desafiam classificações em gêneros e formas literárias. Tratará de obras que já são referência na poesia em prosa, como Iluminações de Rimbaud, mostrando, nelas, a expressão não-discursiva e o relato onírico; e do paroxismo dessas características em André Breton, Robert Desnos e outros surrealistas. Da literatura brasileira do século 20, a prosa poética em autores tão diversos como Jorge de Lima, Guimarães Rosa e, com especial atenção, por demandar mais leitura, Campos de Carvalho. Também examinará portugueses contemporâneos, como Herberto Helder. A intenção é interpretá-los; mostrar a riqueza de sentidos em obras que, aparentemente, destroem a relação de significação; e valorizar o alcance subversivo, sua rebelião contra o senso comum e a lógica do discurso. Pretende-se, desse modo, estimular a imaginação e contribuir para ampliar a capacidade de leitura dos participantes, além de promover debate.
Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. Doutor em Letras pela USP publicou Geração Beat, Estranhas Experiências, Dias Circulares, Lautréamont – Os Cantos de Maldoror e Poesias e Cartas, entre outros livros. Inscrições diretamente na unidade.

Mais sobre a programação da biblioteca, incluindo aquela minha foto simpática fazendo cara de autógrafo, em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_a_l/alceu/index.php?p=81

La Paz, Paulo Coelho, Claudio Willer: capítulo 5

Ontem, sábado, almoço, um dos assuntos foi esta série sobre ocultismo, literatura e Paulo Coelho. Meu anfitrião, Antonio Zago, mostrou-me a biografia de Coelho por Fernando Morais, O mago, lançada em 2008 pela Planeta. Desconhecia. Com 632 páginas, vendeu 100.000 exemplares e tem para download.

A parte inicial de O mago de Morais, poderei utilizar quando tratar de contracultura no Brasil. Há muita informação. Lá pela metade, diz que, depois de Brida, a crítica “cerrou fileiras” contra Coelho. O artigo de Teixeira Coelho na Leia, já mencionada aqui, é citada, com a observação de ser difícil.

Operar com as categorias “fácil” e “difícil” sugere que objeções da crítica a Coelho são por ele ser legível, acessível ao povo. Morais fez uma involuntária sátira das denúncias da conspiração da mídia a propósito de acontecimentos na esfera política. Críticos defenderiam valores da elite: por isso, rejeitam alguém que alcança tamanha difusão, por não escrever “difícil”. Isso, com o mais midiático dos autores brasileiros: toda vez que lança algo, ganha páginas na Ilustrada e afins, e matérias na TV – sempre em tom respeitoso (como já disse, assisti por acaso à reprise da matéria sobre Manuscrito encontrado em Accra na Globonews – tratamento foi reverencial).

O baixo populismo é sempre reacionário. Supõe que se deva rebaixar a mensagem para alcançar as massas. Maiakovski insurgia-se contra isso, no despontar do regime soviético. E tantos outros – Oswald de Andrade, por exemplo, sobre seu “biscoito fino” para as massas.

Circunstâncias, em primeiro lugar o interesse de leitores, me levaram a estender esta série de artigos. Sua origem, meu comentário sobre o artigo do sociólogo no suplemento Ilustríssima (esse sim, “difícil”, árido), afirmando que o “sistema literário” barrar Coelho é rejeição da elite. Wladyr Nader repercutiu, houve o aproveitamento por Rosane Pavam na famosa Carta Capital sobre declínio da cultura, e a intervenção de Felipe Lindoso, acusando-me de elitismo pelas restrições a Coelho, dizendo que nunca estive na periferia.

Ah, a periferia – última vez, em Perus, despertou interesse eu mostrar que a leitura de Paranóia de Piva contribui para enxergar mais qualidades em Cocktails de Luís Aranha. Citei “Kafka e seus precursores” de Borges. Poderia ter feito a mesma coisa em uma pós-graduação em Letras na USP. Nunca facilito – não precisa. A propósito, Diadema não é periferia? Sessão com Roberto Piva, Afonso Henriques Neto e eu, auditório lotado, público interessado, reclamei de nunca terem feito essa mesa na USP. Tudo é possível, do melhor ao pior, em todo lugar. Já mencionei as 2.000 pessoas para a programação que incluiu minha palestra sobre tradução em Passo Fundo. Multidão, também, no festival de poesia em Nova Prata, lá perto.

“É disso que o povo gosta”: argumento rasteiro para justificar os R$ 600.000,00 do governo do Ceará para o show de Ivete Sangalo em Sobral e tantos outros desperdícios. Se me convidarem, vou a Sobral – juntará menos gente, mas custo menos que Ivete.

O próprio Coelho irradia baixo populismo; paradoxalmente, desde seu castelo. Em várias ocasiões – entre outras, na contribuição a uma coletânea de depoimentos de escritores organizada por Suênio Campos de Lucena (21 escritores brasileiros, Escrituras, 2001), ao ser indagado sobre sua qualidade literária, deixou claro que, para ele, obras como a de Machado e Clarice são outra coisa. Transcrevo:

SUÊNIO: Alguns acham que o senhor toma o lugar de escritores como Machado de Assis e Clarice Lispector, e outros vêem o seu sucesso como algo passageiro. COELHO: Minha literatura não tem nada a ver com a deles. Não somos concorrentes. Esta discussão me parece algo como o sexo dos anjos. Se o sujeito quiser comprar Machado ou essa escritora, ele fará isso com ou sem Paulo Coelho. Acho que o sucesso incomoda demais as pessoas. (…) Peço para você não insistir nisso.

Mas o equivalente a Machado de Assis e a Clarice Lispector para Éliphas Lévi, Papus, Guaïta ou Péladan, os autores referenciais naquele momento, os Shakespeare, Goethe, Victor Hugo, não eram outra coisa. Antes, eram a mesma coisa que para Nerval, Baudelaire, Rimbaud e Huysmans. Lévi queria que seu texto fosse conforme aos padrões da alta literatura; e Victor Hugo foi conhecê-lo. Essa ambição também é evidente no Sär Péladan, em Crowley, que tinha em alta conta sua própria produção poética e se achava melhor que Yeats, seu contendor na Ordem da Aurora Dourada. Partilhar valores literários contribuiu para o diálogo entre magos e literatos (tratarei disso na próxima postagem).

Magos de hoje são menos literários? Parece. Houve alguma perda de prestígio da literatura, uma redução da importância que lhe era atribuída como fonte do conhecimento e modelo para o uso da linguagem; e, por decorrência, para a expressão do pensamento. Nos séculos 18, 19, na primeira metade do século 20, em matéria de valor literário e valorização da literatura, escritores e magos pareciam olhar na mesma direção. Hoje, voltam-se para direções distintas? Na coletânea aqui citada, a pergunta sobre valor literário é feita a um dos entrevistados, o único mago dentre eles. No entanto, não há recíproca, a nenhum dos demais entrevistados é feita qualquer pergunta sobre magia, ocultismo ou hermetismo.

– No próximo capítulo, para encerrar a série (será que consigo?), algo sobre os bons magos literários (houve muitos).

Uma biblioteca sobre Roberto Piva

Roberto Piva de Sergio Cohn, que acaba de sair pela coleção Ciranda de Poesia da editora da UERJ: o que eu teria a dizer sobre esse relato de encontros e diálogos que me soam tão familiares? Em primeiro lugar, que tudo é verdade. A descoberta de poetas pode modificar vidas:

Movido pelo intenso interesse despertado pela leitura de Piva, comecei uma formação autodidata de poesia, passando praticamente todas as minhas tardes na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, em companhia de Priscila, copiando a mão poemas dos autores que encontrava.

Concordo, especialmente, com o que diz sobre “referências a outros poetas”:

[…] não são vazias, nem estão lá para mostrar uma suposta erudição: funcionam como um real diálogo intertextual, um hiperlink pré-internet, propiciando que especialmente a obra de Piva possa ser lida, muitas vezes, como ensaio literário em forma de poesia.

Relato da formação, sintético bildungsroman: ler Piva e conhecê-lo em 1992, aos 18 anos, foi decisivo para que Cohn e amigos chegassem a suas próprias identidades literárias; para que escrevessem poesia – a de Cohn, reunida em O sonhador insone. E se decidissem por iniciativas como a revista Azougue, da qual resultou a editora homônima. Contribuiu para tal o entusiasmo de Piva, desde que visse alguém como interlocutor; sua “generosidade também de explicitar suas leituras, de mostrar que a poesia nãos e constrói sozinha, como obra do ‘gênio’, mas no diálogo com outros autores.”

Cohn retribuiu: na coletânea Encontros: Roberto Piva, por ele preparada; em entrevistas e publicação de poemas na revista Azougue; e com a edição de Os dentes da memória: Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia, por Camila Hungria e Renata D’Elia, Rio de Janeiro – tratando dos poetas nomeados no título, mas com Piva, a justo título, como protagonista.

Há mais em Roberto Piva de Cohn: um inédito de Piva; transcrição de outros poemas, citações e comentários; relato de como foi a preparação de Ciclones. Interessará a estudiosos.

Nesses últimos 20 anos, outros também partilharam e atestaram esse tipo de experiência. Tornamo-nos menos minoritários. Por isso, esse novo livro de Cohn vem somar-se à biblioteca piviana que se forma aos poucos.

Integram-na títulos como Deixe a visão chegar – a poesia xamânica de Roberto Piva de José Juva, pela Multifoco, adaptado da dissertação de mestrado em Letras na Universidade Federal de Pernambuco. Texto fluente, trata do xamanismo na poesia com precisão.

Também em livro – por ora no estaleiro, para reparos na edição – a tese de Gláucia Pimentel na Universidade Federal de Santa Catarina, Ataques e Utopias: Espaço e Corpo na Obra de Roberto Piva  (ed. Appris): trabalho extenso, ousado, combinando depoimento e painel de época (Gláucia conheceu Piva na época da Sociologia e Política, anos de 1970, no calor da contracultura) com o exame de tópicos de sua poesia, xamanismo inclusive.

À espera da publicação em livro, mas disponível em pdf, Estilhaços de visões: poesia e poética em Roberto Piva e Claudio Willer, mestrado em Letras na USP de Fabricio Clemente, também excelente poeta (Fabrício: lance logo seu livro de poesias … ! ache editor para sua dissertação…!). Pode ser carregado através de http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-11122012-101230/pt-br.php

Outro mestrado em Letras na USP: Teatralidade da palavra poética em Paranóia de Roberto Piva de Danilo Monteiro, defendida em julho de 2010, três dias após a morte do poeta. Piva queria que sua poesia fosse pública; declamava-a; inspirou-se em outros poetas eloqüentes, como García Lorca e Ginsberg. Em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-30092010-102524/pt-br.php .

Ha mais … ! De um historiador, Reginaldo Souza Chaves, da Federal do Piauí, Flanar pela cidade-sucata compondo uma estética da existência: Roberto Piva & seu Devir Literário Experimental (1961-1979)preciso e original, encontra-se em http://www.ufpi.br/subsiteFiles/mesthist/arquivos/files/Reginaldo%20Sousa%20Chaves.pdf (vou consultar / citar em minha palestra sobre Piva e a cidade no SESC do Bom Retiro, agora em janeiro)

De Bruno Eduardo da Rocha Brito, Roberto Piva, panfletário do caos, mestrado pela Federal de Pernambuco, ambicioso estudo comparativo de Paranóia e Ciclones, contracultura e vanguardas contemporâneas: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=157044

E o pioneiro trabalho de Thiago de Almeida Noya, também mestrado, para a UERJ, Roberto Piva e a “periferia rebelde” na poesia paulista dos anos 60 – curioso, desse não achei arquivo em pdf para descarregar – ao menos, no Google não tem nada.

A poesia de Piva também vem inspirando uma quantidade de criações artísticas bem sucedidas, desde os documentários – Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti e Assombração urbana de Valesca Dios. As mais recentes: São Paulo surrealista II: a poesia feita espuma, de Marcelo Marcus Fonseca: espero que a sensacional encenação retorne em 2013. E o balé Paranóia, de Ana Botosso e a Cia. de Dança de Diadema – que voltará a ser apresentado a partir de 25/01.

Se fosse elencar / comentar TCCs e ensaios, iria longe; preencheria mais algumas páginas. Piva fez restrições notórias à universidade; dificilmente se deixava entrevistar por pesquisadores. Mas essa produção funciona como antídoto ao que já denominei de “flipização” da crítica: sua conversão em desfile mundano. Somando-se a outras manifestações, estimulará leituras. Encaminha ao que interessa: os três volumes das Obras reunidas, pela Globo Livros, que estão aí, à espera de mais leitores.

Censura é oficializada no Brasil

Havia postado, neste blog, observações sobre editais da Funarte e Biblioteca Nacional com cláusulas que equivalem à censura prévia. Estão em

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/

A UBE, entidade da qual sou diretor, examinou o assunto e enviou ofício do presidente Joaquim Maria Botelho à Ministra da Cultura Marta Suplicy, embora isso acontecesse na gestão anterior, de Ana de Hollanda. Mas, pela resposta que recebemos da Funarte, continuará a acontecer. Como o ofício está em um arquivo jpg, que não cola aqui, pedi a Carlos Alberto Pessoa Rosa, do Meiotom, que o gravasse em sua página, assim dispondo de um link para mostrá-lo:

http://www.meiotom.art.br/evelitepsico.htm

Reparem no parágrafo final: a Funarte e a Biblioteca Nacional seguem diretrizes da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. É oficial, política de governo, e não trapalhada de burocrata com excesso de zelo.

Inevitáveis algumas observações:

1. Determinar que conteúdos ou temas em obras literárias podem ou não ser subvencionados, mesmo isso não implicando proibição de circulação, é censura prévia. Assemelha-se à proibição, na década de 1980, governo Reagan, de subvenção da USIS e outros órgãos culturais oficiais dos Estados Unidos a Allen Ginsberg e outros beats. Não proibiam, pois a censura havia sido derrubada nos tribunais, mas dificultavam a circulação, assim premiando-o por sua atuação.

2. É óbvio que diretrizes assim inibem a apresentação de obras mais transgressivas; reciprocamente, estimulam aquela de criações mais comportadinhas.

3. São episódios que me dão a impressão de um mundo às avessas. Em 1982, eu era secretário geral da UBE, formamos um comitê contra a censura quando proibiram o filme Pra frente Brasil. Integravam-no, junto com Ester Góes, João Batista de Andrade e outros, a ex-ministra Ana de Hollanda e o atual dirigente do MinC Sergio Mamberti. Estavam de um lado; bandearam-se…? Na mesma época, comissões da então FUNDACEN, da SEC do MEC (equivalente ao atual Ministério da Cultura), premiavam, propositadamente, obras proibidas pelo regime militar, como forma de resistência. Virada de 180 graus? Não sabem que inexiste censura boa ou má, politicamente correta ou incorreta? Ou é, ou não é. Não há meia-censura.

4. Os parâmetros da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República são vagos. Podem dar margem a tudo, a toda sorte de interpretação. O que é “promoção política de candidatos e/ou partidos” em uma obra literária?Poderia valer, unicamente, nos períodos de campanha eleitoral, pois só nesses há candidatos – mas o cronograma dos editais e os das campanhas eleitorais dificilmente coincidiriam. O que é “dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e da sociedade”? “Moral e bons costumes”… já ouvimos essa expressão – entidades como a TFP defendiam. No tempo em que se usava proibir filmes, peças de teatro, tirar livros de circulação etc. E “Tráfico ilícito de drogas e afins”? Obras literárias traficam drogas? De que jeito?

5. A lista de obras literárias relevantes que não resistiriam a esses critérios é infindável –releiam “São Marcos” em Sagarana de Guimarães Rosa, com destampatório racista alternando-se com esplêndida poesia em prosa – em “A hora e a vez de Augusto Matraga”, a família de negros que acolhe Matraga equivale ao grau mais baixo da escala social. Além disso, tanto em “A hora e a vez de Augusto Matraga” quanto em Grande Sertão: Veredas se pode enxergar apologia da violência, com a idealização dos confrontos entre pistoleiros para resolver questões de liderança e posse de terras. Isso, para não falar do que alguém, seguindo esses critérios, encontraria em Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Jorge Amado (Capitães da Areia – os garotos que transam…! horror…! horror…!) e tantos outros.

6. A orientação governamental legitima iniciativas repudiadas pela opinião pública, como as ações judiciais para retirar acepções do vocábulo “cigano” de dicionários e para restringir a circulação de obras de Monteiro Lobato. Dá mais força a neo-conservadores e outros paranóicos.

7. Comissões julgadoras entendem de crítica literária. Não são a instância ou foro adequado para tratar de moral e bons costumes, pedofilia, tráfico de drogas etc. Seria preciso criar algum novo órgão – ou melhor, recriar: antigamente chamava-se Tribunal do Santo Ofício; mais recentemente, no Brasil até 1988, Departamento de Censura da Polícia Federal. Chamem de volta os agentes que ainda não se aposentaram – entendem desse serviço, mais que críticos literários ou funcionários da Secretaria do Bem Estar Social (ou esses estarão recebendo treinamento, para a correta aplicação das diretrizes?).

8. Estranho essas cláusulas do edital da Funarte-FBN, publicadas em setembro deste ano, não terem tido repercussão maior. Colegas reclamaram de redução de verbas e demora na publicação de editais. Recusar-se a participar, por enxergar censura, que eu saiba, só o Carlos Alberto Pessoa Rosa (que me alertou). Omissão? Seletividade em protestos e denúncias? Se fosse no Facebook, reforçaria a merecida reputação de Zuckerberg e colaboradores como bando de reacionários. Se fosse do governo de São Paulo, iria recompensar o empenho do governador Alckmin para que lhe colem o rótulo de fascista na testa. Quando parte de gente que esteve do outro lado, que já militou pela liberdade, então ninguém diz nada, todo mundo abstrai, fica quieto?

Espero estar equivocado.

Palestra: poesia e cidade em Perus

Retransmito o informe do Grupo Pandora. Interessados em poesia e temas afins de Perus, Pirituba, Caieiras, Franco da Rocha, Jaraguá e outros nortes e oestes de São Paulo e região metropolitana, venham. Darei um panorama, de Baudelaire a Claudio Willer & friends, passando por surrealistas e beats. Serei autobiográfico, contarei ‘causos’. O bairro e a antiga fábrica de cimento Portland têm história, como todos sabem; inclusive de movimentos operários importantes e resistência ao regime militar. Há relações indiretas e desdobramentos interessantes: Parque Villa Lobos veio do espólio do dono da fábrica de cimento, o famoso ‘mau patrão’, que havia falido.

ENCONTRO COM CLAUDIO WILLER

A POESIA E A CIDADE: SÃO PAULO

O Grupo Pandora de teatro, em parceria com o Cursinho Comunitário Fábrica do Conhecimento, promove o encontro gratuito com Claudio Willer sobre símbolos, imagens poéticas e a relação da poesia com a cidade de São Paulo.

Data e horário: dia 20 de outubro de 2012, sábado, das 10 às 13 h.

Local: Rua Padre Manuel Campello 182, Perus, no Sindicato dos Trabalhadores de Cimento. Informações, fone 3917-9225

ABERTO AO PÚBLICO

Caso gravíssimo: censura em edital da FUNARTE e Biblioteca Nacional

Até agora, casos de censura aqui comentados, questionados e devidamente satirizados vinham ocorrendo no âmbito de entidades e instituições privadas: Facebook, Academia etc. Ou por recursos ao Judiciário de associações privadas. Desta vez, não – é iniciativa de órgãos públicos, FUNARTE e Biblioteca Nacional, assim institucionalizando a censura, tornando-a política de Estado. Onde estavam com a cabeça Galeno Amorim e Antonio Grassi quando assinaram um tamanho absurdo? Cadê os assessores?

Fui alertado por Carlos Pessoa Rosa, do Meiotom – http://www.meiotom.art.br/ . Chequei (abri o edital via Google), é isso mesmo. Reproduzo, porém com observações preliminares:

  1. Como é que ninguém reparou? Edital é de 19 de junho – reclamaram da redução de verbas (com razão) e deixaram passar cláusulas abusivas, que restringem criação e expressão. Sociedade anestesiada.
  2. Problema com esse tipo de cláusula é que possibilita veto de qualquer coisa, pela notória imprecisão de categorias como “moral”, “bons costumes”, “pornografia”. Abre – escancara, diria – as portas para o arbítrio.
  3. Administradores culturais não podem ocupar funções que cabem ao Judiciário – se o fizerem, atuarão como censores.
  4. Já existe jurisprudência, e bastante: tratar p. ex. de tráfico, perversões, violência etc não caracteriza incitação ao crime.
  5. Modo correto de órgão público cobrir-se, evitar aborrecimentos por causa de conteúdos além da conta: cada concorrente assina termo de responsabilidade – se houver alguma confusão, é com o autor, não com o promotor do concurso.
  6. Conforme a interpretação desses quesitos, não sobraria nada da lista de 38 temas, autores e obras – todos consagrados, integrantes do ‘corpus’ da literatura – que recomendei à ABL em minha postagem precedente.
  7. Restrições como essas, em órgãos culturais públicos, nem durante o regime militar – ao contrário, MEC, FUNARTE etc resistiam, enfrentavam o arbítrio, premiavam obras censuradas, assim gerando impasses, por volta de 1980.
  8. Em 1980, quando passei a freqüentar a UBE, promoveram um concurso literário – alguém mais conservador introduziu cláusulas desse tipo no regulamento – observei que UBE é comprometida com liberdade de expressão, retiraram as cláusulas que possibilitariam censura. 1980 – foi há 32 anos.

Enfim, por esses e outros motivos, setores esclarecidos da sociedade devem protestar, antes que isso se alastre.

Vejam:

http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/EDITAL%20CRIACAO%20LITERARIA.pdf

1.2. Os projetos concorrentes não sofrerão quaisquer restrições
quanto à temática abordada dentro da sua categoria, desde que

não caracterizem:
a) promoção política de candidatos e/ou partidos;
b) dano à honra, a moral e aos bons costumes de terceiros e
da sociedade;
c) pornografia;
d) pedofilia;
e) discriminação de raças e/ou credos;
f) tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins;
g) terrorismo;
h) tráfico de animais.

Ou então, na íntegra:

http://www.funarte.gov.br/wp-content/uploads/2012/06/Criacao-Literaria_1a-Pagina_Edital-FBN-Funarte-de.pdf

EM TEMPO: enviei a postagem a jornalistas. Raquel Cozer, da Folha de SP, imediatamente me respondeu e mostrou que havia tratado do assunto (e tratado bem):

http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/06/24/ha-limites-para-a-tematica-literaria/

Pior – houve quem reclamasse de pouca verba, demora; agora, liberdade de expressão, ficaram quietos. O tema era muito importante em 1980. Deixou de interessar?

Curso de Geração Beat, nova entrevista e matérias

Eu pretendia publicar uma extensa série de ironias inspiradas nesse episódio recente, da censura a expressões em uma palestra de Jorge Coli na Academia Brasileira de Letras. E vou fazer isso. Mas prefiro dar precedência a duas notícias, ou dois conjuntos de notícias: um sobre meu curso de Geração Beat; outro sobre as matérias na Zunaí, incluindo entrevista comigo e série idem sobre poesia, erotismo e corpo.

  1. O curso de Geração Beat

Informa a Casa das Rosas que as inscrições para meu curso de Geração Beat serão abertas dia 18 de setembro, a próxima terça-feira. Poderão ser na feitas a partir das 10h, até às 22h, na recepção da Casa das Rosas; e também pelo telefone da Casa das Rosas: 3285 6986. São gratuitas.

O informe sobre o curso, eu já havia postado. Será dividido em dois módulos:

1. OutubroMísticas da transgressão: Jack Kerouac e a Geração Beat. Terças-feiras, 9,16,23 e 30 de outubro, às 19h30.

 2. Novembro:  Geração Beat: criação poética e rebelião. Terças-feiras, 6, 13 e 27 de outubro e 4 de dezembro, às 19h30
(Obs: A terça-feira dia 20 de outubro é o Dia da Consciência Negra, por isso “pulamos” esta semana no cronograma.)

O conteúdo do curso: Retomando o que já escrevi em meu Geração Beat (L&PM Pocket, 2009), nas minhas traduções de Allen Ginsberg, e no que apresentei em outros cursos e palestras, avançarei – insistindo sempre no valor literário do tão questionado Jack Kerouac (claro que haverá tempo para discutirmos o filme, e o restante da cinematografia beat) e dos demais beats. Utilizarei minhas pesquisas mais recentes, sobre Geração Beat e místicas da transgressão: material inédito (desde o último curso que ministrei, na Letras da USP em 2010, li e acho que aprendi mais sobre o tema – na presente altura, sou aquele sujeito que leu toda a obra de Kerouac, além de boa parte do restante…).

Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura: Av. Paulista, 37 – Bela Vista, CEP.: 01311-902 – São Paulo – Brasil – fones (11) 3285.6986 / 3288.9447; contato.cr@poiesis.org.br

 

  1. Entrevista, matérias

Já havia comentado, a propósito da entrevista comigo por Victor del Franco, publicada na revista literária Celuzlose, que entrevista boa é aquela feita por quem me leu. Isso vale, e com ênfase, para a refinada entrevista pelo poeta e estudioso Chiu Yi Chih. Publicada na edição da revista Zunaí de Claudio Daniel que acaba de ir ao ar, ou seja, de entrar no meio digital, está em: http://www.revistazunai.com/entrevistas/claudio_willer.htm .

Como Chiu também me fez perguntas sobre Roberto Piva, há informação inédita sobre esse poeta que, acredito, interessará a seus leitores e pesquisadores.

Também na mesma Zunaí, junto com muito mais matérias de qualidade, A subversão da nudez no Facebook, amplo dossiê (artigos, poemas, depoimentos) preparado pela poeta, pesquisadora e artista visual Célia Musili, do qual tenho a satisfação de participar, com trechos de um ensaio inédito sobre o assunto. Em http://www.revistazunai.com/materias_especiais/index.htm

O dossiê foi inspirado por nossas respostas às tentativas de cesura na rede social. É o paradoxo da censura, mormente quando praticada em sociedades abertas: acaba projetando o que foi censurado, suscitando novas leituras e discussões (o caso exemplar é mesmo o modo como a ação por obscenidade de 1956 catapultou as vendas de Howl and other Poems, Uivo e outros poemas, de Allen Ginsberg e projetou a Geração Beat). Aproxima pessoas atingidas pela censura ou que objetam a esses retrocessos. Foi o que ocorreu nesse episódio do Facebook: acabamos formando uma bela confraria de opositores, firmes defensores da livre criação e expressão.

Leiam.