Posts Tagged ‘Desmatamento’

Dilma Rousseff e Kátia Abreu: pseudônimos

Brasília 2014 Foto: manifestação recente de povos indígenas em Brasília.
Há um manifesto de militantes denunciando “regressão” por causa dos anúncios de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e Kátia Abreu no Ministério da Agricultura. Acho que não –reformulando meu post anterior, continua tudo como estava, nomear Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura não muda nada. Dilma Rousseff e Kátia Abreu são a mesma pessoa. Kátia Abreu vem governando o Brasil desde 2011. A prova: o recente aumento de 120% no desmatamento da Amazônia – isso sim, é retrocesso, ou “regressão”. E o índice zero de criação de novas reservas indígenas. As efetivamente homologadas – a exemplo daquelas dos Pataxó na Bahia e Xavantes em Mato Grosso – o foram cumprindo, finalmente, decisão judicial, após décadas de luta.
Autores dos encômios piegas que vi circularem no meio digital, o que farão? Engolirão em seco? Ou considerarão que algum stalinismo não fará mal a ninguém, que são necessárias algumas alianças (com oligarquias regionais e latifundiários) e alguns sacrifícios (de índios e reservas florestais) para promover a derrota final do capital?
EM TEMPO (postado no dia seguinte): Informe de que desmatamento na Amazônia caiu 18%, conforme os dados do Prodes do INPE, refere
-se ao período de agosto de 2013 até julho de 2014. Informe de que desmatamento na Amazônia deu um salto de 122%, conforme a Iamazon e o Deter-INPE, refere-se aos meses de agosto-setembro de 2014. Portanto, divulgação dos dados do Prodes não compromete minha argumentação de que Dilma Rousseff e Kátia Abreu são dois nomes diferentes da mesma pessoa,conforme exposto aqui.

Do tempo em que o Brasil era assim

My beautiful picture
Foto de 1967, tirada do avião da FAB (reflexos são da janela), chegando ao Parque do Xingu. Hoje, exceto no parque, é região desmatada. Até Belém do Pará, uma extensão verde que não existe mais. Postei no Facebook sobre pessoal que está comentando falta d’água: estão reclamando da redução de um conforto doméstico. O pior vai ser o impacto da seca no Sudeste brasileiro sobre a produção de alimentos. Vamos nos tornar importadores de alface. Agricultores, ao se pronunciarem contra redução do desmatamento, dão tiro no pé.
Também postei esta revisão de 200 pesquisas relacionando desmatamento à seca:
http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2014/10/1541080-amazonia-ja-esta-entrando-em-pane-afirma-cientista.shtml
Do mesmo pesquisador, Antonio Nobre, o artigo sobre a “bomba climática”:
http://www.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/futuro-climatico-da-amazonia.pdf
Há também os levantamentos sobre a degradação do cerrado. Voltarei ao assunto. E publicarei novas fotos.

Uma seleta de postagens minhas sobre desmatamento e outros ataques ao meio ambiente

Publicada em comemoração aos 38 graus Celsius de temperatura e umidade de 16% em São Paulo e outras localidades do Sudeste brasileiro, transformando-nos em figurantes da narrativa ‘Não verás país nenhum’ de Ignacio de Loyola Brandão, publicada em 1979. Mantenho atribuição de responsabilidades ao governo federal – mas sem isentar governos estaduais também irresponsáveis.
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/10/14/mais-sobre-desmatamento-e-suas-consequencias-evidentes/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/09/23/desmatamento-da-amazonia-segundo-a-fapesp/
https://claudiowiller.wordpress.com/2011/12/05/belo-monte-codigo-florestal-desmatamento/
https://claudiowiller.wordpress.com/2011/06/11/a-opiniao-publica-e-o-codigo-do-desmatamento/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/09/09/adeus-ecoceticos/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/13/que-as-manifestacoes-em-curso-incluam-em-sua-pauta-a-defesa-do-ambiente-e-dos-povos-indigenas/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/14/mais-argumentos-contrarios-a-usina-de-belo-monte/
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/22/veta-dilma-2/
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/28/veta-dilma-veta/

Mais sobre desmatamento e suas conseqüências evidentes

Após os 36 graus de ontem em São Paulo, com 16% de umidade do ar, clima de um deserto agravado por alta concentração de poluentes, volto a achar que minhas postagens sobre temas ambientais deveriam circular mais. Uma delas reproduziu boletim da UNESP, instituição neutra, relacionando seca no Sudeste com desmatamento da Amazônia. Aqui vai outro da UNESP, acabo de receber.
Uma notícia de hoje, terça dia 14, sobre a tardia e eleitoreira criação de novas reservas extrativistas na Amazônia, traz novamente que desmatamento na região cresceu 29% em 2013. Há devastação no entorno de Altamira, por causa da obra de Belo Monte, feita sem respeitar acordos ambientais e com índios. Por isso, reafirmo meu repúdio à candidata que sobe em palanque com Kátia “motosserra” Abreu, a líder ruralista que insiste na tese de que ambientalismo é conspiração estrangeira para enfraquecer nossa agricultura – essa faz que eu me sinta estrangeiro em minha terra.
Examinem:
Desmatamento eleva em 20% emissão de gás carbônico na atmosfera, revela pesquisador da Unesp
http://podcast.unesp.br/radiorelease-13102014-desmatamento-eleva-em-20-emissao-de-gas-carbonico-na-atmosfera-revela-pesquisador-da-unesp
As reservas – tardias, oportunistas, hipócritas:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/190526-governo-cria-3-unidades-de-conservacao-na-amazonia.shtml
Evidentemente, governo de São Paulo partilha responsabilidade. Faltou preservação da Serra da Mantiqueira, da qual a Cantareira é um ramo, entre outras providências. SABESP sabia, desde 2012 – levaram um ano até fazerem algo. Mas a seca, a poluição e o calor extemporâneo são nacionais, portanto federais. Observem, conforme a notícia, que até agora o índice de criação de reservas por Dilma foi zero, equivalente àquele do governo Geisel. E que foram criadas reservas no primeiro mandato de Lula, período no qual Marina Silva era ministra do Meio Ambiente – ou seja, até Lula ceder a empreiteiras e ala agressiva dos ruralistas, bancada da motosserra, despachando-a após reclamar que preservação de “uns bagres” retardava obras de usinas no Rio Madeira.

Ruralistas voltam a atacar

Agora querem “flexibilizar” o Código Florestal – como se já não o tivessem enfraquecido suficientemente. Assim: uma grande propriedade passaria a poder ser cadastrada como um conjunto de propriedades menores. A mágica permitirá que figurem como pequenos ou médios proprietários, com menos exigências no tocante á preservação, especialmente a restauração de áreas desmatadas.

Deu no jornal:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/155090-bancada-ruralista-ja-tenta-flexibilizar-o-codigo-florestal.shtml

Encabeça a iniciativa o deputado Luis Carlos Heinze (PMDB), líder da forte bancada ruralista – sim, aquele mesmo do discurso inflamado contra gays, índios e “tudo o que não presta”, que repercutiu no meio digital. No Senado, certamente conta com a atuação de Kátia Abreu (PMDB): essa sustenta a tese de que movimento ambientalista é conspiração internacional para enfraquecer agricultura brasileira. São da “base de apoio”.

Criatividade desse pessoal é inesgotável. Outrora, uma coisa dessas, fracionar propriedades do mesmo dono, seria chamada de fraude, falsidade ideológica, por aí.

A Serra da Mantiqueira ameaçada

Artigo de hoje, 20/11, no Estadão. Comenta a devastação e defende a criação de um corredor ecológico, inclusive para garantir a sobrevivência de algumas espécies:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-serra-da-mantiqueira-pede-socorro-,1098559,0.htm

Basta viajar pela Rodovia Presidente Dutra e imediação para ver o estado a que chegou. Ir a Campos de Jordão ou qualquer outro lugar na região serrana. Sobrevoar a Serra da Cantareira, reduzida a uma estreita faixa de mata.

Lideranças ruralistas dirão, mais uma vez, que defender preservação é conspiração internacional para enfraquecer o agronegócio, reduzindo nossa produção.

Serra da Mantiqueira é diretamente citada em dois poemas meus, publicados em Estranhas Experiências, que reproduzo a seguir. Indiretamente, implícita, em outros.

A CHEGADA

finalmente
      em um dia febril como este
      sol claro depois da chuva:
eu sou a umidade do ar
sou as cores do ar
sou o horizonte e todas as formas no horizonte
sou uma crista azulada de morros da Serra da Mantiqueira
sou o próprio ar
o som de um sino escondido no vale que logo soará ao longe
sou a terra molhada e as sensações que a própria terra tem por estar molhada
e um jardim, sou o meu jardim
e todos os demais jardins da rua
e a folha que se mexe ao vento
e a chuva e o sol claro após a chuva
e também sou aquela leitura de poemas em um auditório sombrio com umas cinqüenta pessoas extremamente atentas
sou a noite passada e suas vozes
por isso
                           estou aqui
                                          onde sempre quis estar

 

É ASSIM QUE DEVE SER FEITO (final)

(….)

túneis de borracha cega abrem-se para receber nossos corpos
                         armários em chamas rolam pelas escadarias
     um arco-íris tenta executar os passos finais de um balé
          ele tropeça e cai
          desabando sobre as encostas da Serra da Mantiqueira
          explodindo em um caleidoscópio de cores
          as montanhas racham-se
          fontes de água quente jorram contra as nuvens
     sobre um palco de cartolina azul sapateiam três dançarinas nuas
                         com suas botas vermelhas
     uma vitrola distante toca In a Silent Way de Miles Davis
          um montão de papel picado é jogado para o alto
               multidões rezam orações sem sentido
     um avião se transforma em gota d’água e fica suspenso no céu
os navios da noite chegam mais perto
          eles já dobram a barra do porto
               suas luzes piscam
                    já se ouve a música das festas nos conveses
duas mil lavadeiras
          batem peças de roupa em suas tábuas
                    em uma praia na margem direita do rio Araguaia
no fundo do quarto há uma porta
          ela se abre para uma escada de ferro em caracol
                                             pela qual descemos
     para penetrar no bojo deste cometa alucinado dos nossos corpos

Que as manifestações em curso incluam em sua pauta a defesa do ambiente e dos povos indígenas

Provocaram um abalo, fazendo que parlamentares e dirigentes públicos se pusessem a trabalhar. Seria ótimo o efeito reproduzir-se em temas vitais (sei que classificar a questão ambiental como vital é um pleonasmo). Principalmente, em face do modo como, cinicamente, ao mesmo tempo em que atendem ou encenam atender a reclamações populares, parlamentares vão rifando nossos índios, dando andamento a projetos que impossibilitarão novas demarcações. É o que se vê através deste informe recente:

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/447312-AGRICULTURA-APROVA-REGULAMENTACAO-DE-DEMARCACAO-DE-TERRAS-INDIGENAS.html

É golpe. Passariam a ser de relevante interesse público “os atos de ocupação, domínio e posse de áreas ocupadas por não-indígenas até 5 de outubro de 1988, desde que realizados de maneira pacífica, ou resultados de alienação ou concessão de direito de uso feita pelo Poder Público”. Portanto, invasões como as das terras aos pataxós do Sul da Bahia, em 1979, ou dos xavantes de Mato Grosso, igualmente naquela década, seriam sancionadas, e não mais corrigidas (nos dois casos –e  em outros – invasores ganharam títulos de propriedade).

Continua vivo, também, o projeto que submete novas demarcações de territórios indígenas ao Congresso, apesar de obviamente inconstitucional. E o executivo não desistiu de submeter reintegrações de índios à Embrapa.

Na pauta ambiental, o artigo a seguir mostra que é possível melhorar. Retrata o quanto estamos atrasados:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,na-area-de-energia-mudancas-animadoras-,1052642,0.htm

Uso da biomassa, energia eólica e solar, outras fontes renováveis vêm aí. São irreversíveis. E o Brasil está atrasado. É interessante o aproveitamento da biomassa, dos dejetos – como se realizasse um ideal da alquimia, conversão do “nigredo” em luz, energia.

Nossos governantes raciocinam como petroleiros: exemplo, a observação da dirigente da Petrobrás, Graça Foster, de que congestionamentos beneficiam o faturamento da empresa.  E como empreiteiros: atender a demandas de energia é tocar grandes obras, e o vertiginoso crescimento do desmatamento, da ordem de 400%, concentrado no entorno de Belo Monte, seria um mal necessário. Nenhuma atenção ao desperdício de 40% da energia, desde a fonte produtora até o usuário. Preferem gastar em obras a investir em programas de economia.

Possíveis conseqüências impressionam. Se matriz energética for mudando– a exemplo do que já fazem os Estados Unidos, adotando o metano –, cairá o valor do petróleo. Haverá um abalo geopolítico. Projeto do pré-sal, grande aposta governamental, perderia viabilidade. O que está ocorrendo com as empresas de Eike Batista, o bilionário oportunista da vez (apoiado por verbas públicas, como sempre), pode ser apenas o começo.

Allen Ginsberg já anunciava / denunciava isso, na década de 1970.

Voltarei a escrever sobre as manifestações –e as recentes tentativas de desqualificá-las, acompanhadas pelo fracasso em instrumentalizá-las.