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Dilma Rousseff e Kátia Abreu: pseudônimos

Brasília 2014 Foto: manifestação recente de povos indígenas em Brasília.
Há um manifesto de militantes denunciando “regressão” por causa dos anúncios de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e Kátia Abreu no Ministério da Agricultura. Acho que não –reformulando meu post anterior, continua tudo como estava, nomear Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura não muda nada. Dilma Rousseff e Kátia Abreu são a mesma pessoa. Kátia Abreu vem governando o Brasil desde 2011. A prova: o recente aumento de 120% no desmatamento da Amazônia – isso sim, é retrocesso, ou “regressão”. E o índice zero de criação de novas reservas indígenas. As efetivamente homologadas – a exemplo daquelas dos Pataxó na Bahia e Xavantes em Mato Grosso – o foram cumprindo, finalmente, decisão judicial, após décadas de luta.
Autores dos encômios piegas que vi circularem no meio digital, o que farão? Engolirão em seco? Ou considerarão que algum stalinismo não fará mal a ninguém, que são necessárias algumas alianças (com oligarquias regionais e latifundiários) e alguns sacrifícios (de índios e reservas florestais) para promover a derrota final do capital?
EM TEMPO (postado no dia seguinte): Informe de que desmatamento na Amazônia caiu 18%, conforme os dados do Prodes do INPE, refere
-se ao período de agosto de 2013 até julho de 2014. Informe de que desmatamento na Amazônia deu um salto de 122%, conforme a Iamazon e o Deter-INPE, refere-se aos meses de agosto-setembro de 2014. Portanto, divulgação dos dados do Prodes não compromete minha argumentação de que Dilma Rousseff e Kátia Abreu são dois nomes diferentes da mesma pessoa,conforme exposto aqui.

Do tempo em que o Brasil era assim

My beautiful picture
Foto de 1967, tirada do avião da FAB (reflexos são da janela), chegando ao Parque do Xingu. Hoje, exceto no parque, é região desmatada. Até Belém do Pará, uma extensão verde que não existe mais. Postei no Facebook sobre pessoal que está comentando falta d’água: estão reclamando da redução de um conforto doméstico. O pior vai ser o impacto da seca no Sudeste brasileiro sobre a produção de alimentos. Vamos nos tornar importadores de alface. Agricultores, ao se pronunciarem contra redução do desmatamento, dão tiro no pé.
Também postei esta revisão de 200 pesquisas relacionando desmatamento à seca:
http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2014/10/1541080-amazonia-ja-esta-entrando-em-pane-afirma-cientista.shtml
Do mesmo pesquisador, Antonio Nobre, o artigo sobre a “bomba climática”:

Clique para acessar o futuro-climatico-da-amazonia.pdf


Há também os levantamentos sobre a degradação do cerrado. Voltarei ao assunto. E publicarei novas fotos.

Uma seleta de postagens minhas sobre desmatamento e outros ataques ao meio ambiente

Publicada em comemoração aos 38 graus Celsius de temperatura e umidade de 16% em São Paulo e outras localidades do Sudeste brasileiro, transformando-nos em figurantes da narrativa ‘Não verás país nenhum’ de Ignacio de Loyola Brandão, publicada em 1979. Mantenho atribuição de responsabilidades ao governo federal – mas sem isentar governos estaduais também irresponsáveis.
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/10/14/mais-sobre-desmatamento-e-suas-consequencias-evidentes/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/09/23/desmatamento-da-amazonia-segundo-a-fapesp/
https://claudiowiller.wordpress.com/2011/12/05/belo-monte-codigo-florestal-desmatamento/
https://claudiowiller.wordpress.com/2011/06/11/a-opiniao-publica-e-o-codigo-do-desmatamento/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/09/09/adeus-ecoceticos/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/13/que-as-manifestacoes-em-curso-incluam-em-sua-pauta-a-defesa-do-ambiente-e-dos-povos-indigenas/
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/14/mais-argumentos-contrarios-a-usina-de-belo-monte/
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/22/veta-dilma-2/
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/28/veta-dilma-veta/

Mais sobre desmatamento e suas conseqüências evidentes

Após os 36 graus de ontem em São Paulo, com 16% de umidade do ar, clima de um deserto agravado por alta concentração de poluentes, volto a achar que minhas postagens sobre temas ambientais deveriam circular mais. Uma delas reproduziu boletim da UNESP, instituição neutra, relacionando seca no Sudeste com desmatamento da Amazônia. Aqui vai outro da UNESP, acabo de receber.
Uma notícia de hoje, terça dia 14, sobre a tardia e eleitoreira criação de novas reservas extrativistas na Amazônia, traz novamente que desmatamento na região cresceu 29% em 2013. Há devastação no entorno de Altamira, por causa da obra de Belo Monte, feita sem respeitar acordos ambientais e com índios. Por isso, reafirmo meu repúdio à candidata que sobe em palanque com Kátia “motosserra” Abreu, a líder ruralista que insiste na tese de que ambientalismo é conspiração estrangeira para enfraquecer nossa agricultura – essa faz que eu me sinta estrangeiro em minha terra.
Examinem:
Desmatamento eleva em 20% emissão de gás carbônico na atmosfera, revela pesquisador da Unesp
http://podcast.unesp.br/radiorelease-13102014-desmatamento-eleva-em-20-emissao-de-gas-carbonico-na-atmosfera-revela-pesquisador-da-unesp
As reservas – tardias, oportunistas, hipócritas:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/190526-governo-cria-3-unidades-de-conservacao-na-amazonia.shtml
Evidentemente, governo de São Paulo partilha responsabilidade. Faltou preservação da Serra da Mantiqueira, da qual a Cantareira é um ramo, entre outras providências. SABESP sabia, desde 2012 – levaram um ano até fazerem algo. Mas a seca, a poluição e o calor extemporâneo são nacionais, portanto federais. Observem, conforme a notícia, que até agora o índice de criação de reservas por Dilma foi zero, equivalente àquele do governo Geisel. E que foram criadas reservas no primeiro mandato de Lula, período no qual Marina Silva era ministra do Meio Ambiente – ou seja, até Lula ceder a empreiteiras e ala agressiva dos ruralistas, bancada da motosserra, despachando-a após reclamar que preservação de “uns bagres” retardava obras de usinas no Rio Madeira.

Ruralistas voltam a atacar

Agora querem “flexibilizar” o Código Florestal – como se já não o tivessem enfraquecido suficientemente. Assim: uma grande propriedade passaria a poder ser cadastrada como um conjunto de propriedades menores. A mágica permitirá que figurem como pequenos ou médios proprietários, com menos exigências no tocante á preservação, especialmente a restauração de áreas desmatadas.

Deu no jornal:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/155090-bancada-ruralista-ja-tenta-flexibilizar-o-codigo-florestal.shtml

Encabeça a iniciativa o deputado Luis Carlos Heinze (PMDB), líder da forte bancada ruralista – sim, aquele mesmo do discurso inflamado contra gays, índios e “tudo o que não presta”, que repercutiu no meio digital. No Senado, certamente conta com a atuação de Kátia Abreu (PMDB): essa sustenta a tese de que movimento ambientalista é conspiração internacional para enfraquecer agricultura brasileira. São da “base de apoio”.

Criatividade desse pessoal é inesgotável. Outrora, uma coisa dessas, fracionar propriedades do mesmo dono, seria chamada de fraude, falsidade ideológica, por aí.

A Serra da Mantiqueira ameaçada

Artigo de hoje, 20/11, no Estadão. Comenta a devastação e defende a criação de um corredor ecológico, inclusive para garantir a sobrevivência de algumas espécies:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-serra-da-mantiqueira-pede-socorro-,1098559,0.htm

Basta viajar pela Rodovia Presidente Dutra e imediação para ver o estado a que chegou. Ir a Campos de Jordão ou qualquer outro lugar na região serrana. Sobrevoar a Serra da Cantareira, reduzida a uma estreita faixa de mata.

Lideranças ruralistas dirão, mais uma vez, que defender preservação é conspiração internacional para enfraquecer o agronegócio, reduzindo nossa produção.

Serra da Mantiqueira é diretamente citada em dois poemas meus, publicados em Estranhas Experiências, que reproduzo a seguir. Indiretamente, implícita, em outros.

A CHEGADA

finalmente
      em um dia febril como este
      sol claro depois da chuva:
eu sou a umidade do ar
sou as cores do ar
sou o horizonte e todas as formas no horizonte
sou uma crista azulada de morros da Serra da Mantiqueira
sou o próprio ar
o som de um sino escondido no vale que logo soará ao longe
sou a terra molhada e as sensações que a própria terra tem por estar molhada
e um jardim, sou o meu jardim
e todos os demais jardins da rua
e a folha que se mexe ao vento
e a chuva e o sol claro após a chuva
e também sou aquela leitura de poemas em um auditório sombrio com umas cinqüenta pessoas extremamente atentas
sou a noite passada e suas vozes
por isso
                           estou aqui
                                          onde sempre quis estar

 

É ASSIM QUE DEVE SER FEITO (final)

(….)

túneis de borracha cega abrem-se para receber nossos corpos
                         armários em chamas rolam pelas escadarias
     um arco-íris tenta executar os passos finais de um balé
          ele tropeça e cai
          desabando sobre as encostas da Serra da Mantiqueira
          explodindo em um caleidoscópio de cores
          as montanhas racham-se
          fontes de água quente jorram contra as nuvens
     sobre um palco de cartolina azul sapateiam três dançarinas nuas
                         com suas botas vermelhas
     uma vitrola distante toca In a Silent Way de Miles Davis
          um montão de papel picado é jogado para o alto
               multidões rezam orações sem sentido
     um avião se transforma em gota d’água e fica suspenso no céu
os navios da noite chegam mais perto
          eles já dobram a barra do porto
               suas luzes piscam
                    já se ouve a música das festas nos conveses
duas mil lavadeiras
          batem peças de roupa em suas tábuas
                    em uma praia na margem direita do rio Araguaia
no fundo do quarto há uma porta
          ela se abre para uma escada de ferro em caracol
                                             pela qual descemos
     para penetrar no bojo deste cometa alucinado dos nossos corpos

Que as manifestações em curso incluam em sua pauta a defesa do ambiente e dos povos indígenas

Provocaram um abalo, fazendo que parlamentares e dirigentes públicos se pusessem a trabalhar. Seria ótimo o efeito reproduzir-se em temas vitais (sei que classificar a questão ambiental como vital é um pleonasmo). Principalmente, em face do modo como, cinicamente, ao mesmo tempo em que atendem ou encenam atender a reclamações populares, parlamentares vão rifando nossos índios, dando andamento a projetos que impossibilitarão novas demarcações. É o que se vê através deste informe recente:

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/447312-AGRICULTURA-APROVA-REGULAMENTACAO-DE-DEMARCACAO-DE-TERRAS-INDIGENAS.html

É golpe. Passariam a ser de relevante interesse público “os atos de ocupação, domínio e posse de áreas ocupadas por não-indígenas até 5 de outubro de 1988, desde que realizados de maneira pacífica, ou resultados de alienação ou concessão de direito de uso feita pelo Poder Público”. Portanto, invasões como as das terras aos pataxós do Sul da Bahia, em 1979, ou dos xavantes de Mato Grosso, igualmente naquela década, seriam sancionadas, e não mais corrigidas (nos dois casos –e  em outros – invasores ganharam títulos de propriedade).

Continua vivo, também, o projeto que submete novas demarcações de territórios indígenas ao Congresso, apesar de obviamente inconstitucional. E o executivo não desistiu de submeter reintegrações de índios à Embrapa.

Na pauta ambiental, o artigo a seguir mostra que é possível melhorar. Retrata o quanto estamos atrasados:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,na-area-de-energia-mudancas-animadoras-,1052642,0.htm

Uso da biomassa, energia eólica e solar, outras fontes renováveis vêm aí. São irreversíveis. E o Brasil está atrasado. É interessante o aproveitamento da biomassa, dos dejetos – como se realizasse um ideal da alquimia, conversão do “nigredo” em luz, energia.

Nossos governantes raciocinam como petroleiros: exemplo, a observação da dirigente da Petrobrás, Graça Foster, de que congestionamentos beneficiam o faturamento da empresa.  E como empreiteiros: atender a demandas de energia é tocar grandes obras, e o vertiginoso crescimento do desmatamento, da ordem de 400%, concentrado no entorno de Belo Monte, seria um mal necessário. Nenhuma atenção ao desperdício de 40% da energia, desde a fonte produtora até o usuário. Preferem gastar em obras a investir em programas de economia.

Possíveis conseqüências impressionam. Se matriz energética for mudando– a exemplo do que já fazem os Estados Unidos, adotando o metano –, cairá o valor do petróleo. Haverá um abalo geopolítico. Projeto do pré-sal, grande aposta governamental, perderia viabilidade. O que está ocorrendo com as empresas de Eike Batista, o bilionário oportunista da vez (apoiado por verbas públicas, como sempre), pode ser apenas o começo.

Allen Ginsberg já anunciava / denunciava isso, na década de 1970.

Voltarei a escrever sobre as manifestações –e as recentes tentativas de desqualificá-las, acompanhadas pelo fracasso em instrumentalizá-las.

Ecochatos versus ecocéticos

Voltava do Rio de Janeiro – não me lembro exatamente quando, mas foi entre 1975 e 1980. A meu lado no avião, um canadense britânico. Engenheiro especializado em filtros, disse-me que vinha ao Brasil para cuidar de instalações de limpeza da água em indústrias. “Input or output?”, perguntei-lhe. “Input, only input”, respondeu-me. Seus clientes só estavam interessados na qualidade da água que entrava, que iriam usar, e não naquela que despejavam. Observei que, se todos cuidassem da água que saía, do “output”, não precisariam gastar com a filtragem da que recebiam, do “input”. Concordou.

Seria a Champion Papel e Celulose, em Mogi Mirim, SP, um de seus clientes? Em 1987, o vazamento em um tanque de resíduos dessa indústria contaminou o Rio Mogi de ponta a ponta: provocou mortandade de peixes, despovoou o rio, levou anos para recuperar. Parecido com o caso mais recente, da mineradora em Muriaé, MG na temporada de chuvas e alagamentos do ano passado: o rompimento de uma de suas barragens contaminou toda a extensão de Muriaé até a foz do Rio Paraíba, prejudicou o abastecimento de água em todas as cidades no caminho. Esses, entre tantas outros conseqüências de empresas filtrarem o que entra sem cuidarem do que sai.

Da cobertura jornalística da Rio + 20, recortei e postei no Facebook este trecho de Luiz Felipe Pondé, publicado ontem, domingo, dia 17: “Qualquer solução para a “energia limpa” virá do mercado e jamais de burocratas e seus pontos e vírgulas”. O artigo é sobre “burocratas verdes”. Sexta, dia 15, Pondé havia publicado uma crônica contra “ecochatos”, reclamando da “vocação autoritária dos verdes em geral, assim como seu caráter ideológico travestido de evidência”. Casos como esses que citei, da Ripasa e de Muriaé (e há tantos outros), fundamentam a opinião contrária: ambientalistas deveriam ser muito mais chatos; “burocratas verdes”, de órgãos públicos e entidades não-governamentais, deveriam ser muito mais ativos.

Pondé é professor de Teologia na PUC-SP, referência sólida em sua área – textos que li dele sobre religiões e misticismo têm qualidade. Por isso, provocam estranheza seus artigos na Folha de SP com evidentes erros lógicos e de informação (outra hora, trato de uns textos incríveis dele sobre canibalismo). As crônicas que citei são uma espécie de contraponto, nesse jornal, à cobertura da Rio + 20. Uma cobertura pobre, burocrática, aguada. Bem melhor a do Estadão que, tradicionalmente, examina bem os temas ambientais – subscrevo tudo o que um de seus articulistas, Washington Novais, tem publicado.

Um bom serviço à cobertura da Rio + 20 foi dado pela última edição da revista Veja (para quem ainda não percebeu, leio jornais e revistas como sociólogo: interessa-me o que é noticiado, e não acho que veículos de imprensa devam ser um espelho do que penso – se fosse assim, só leria jornais anarquistas e bons periódicos literários….). Além de matérias de qualidade sobre a intersecção de ecologia e demografia, sobre água, aquecimento global, Amazônia, o modo bem sucedido como os índios suruís administram sua reserva florestal, a preocupante situação dos oceanos (o tema que mais deveria ser levado a sério na pauta ambiental), traz uma excelente amostra do pensamento conservador, anti-ambientalista, ao entrevistar um “ecocético”, o jornalista inglês James Delingpole.

O título da matéria: “A conspiração dos verdes”. Delingpole é contra a busca de “energias alternativas”. Ataca “a grande mentira do aquecimento global antropogênico”: não há provas, argumenta, de que gás carbônico e outros poluentes na atmosfera provoquem aquecimento. O título de seu livro lançado no Brasil é repugnante: Os melancias – o termo usado pela repressão para perseguir liberais, que seriam vermelhos por dentro, comunas disfarçados ou inocentes úteis a serviço dos soviéticos. A fundamentação do ceticismo de Delingpole é estritamente política: militância ambientalista é ameaça à economia de mercado, ao capitalismo. Isso é observado com precisão por Nelson Ascher na resenha de Os melancias: o título, diz, “se refere aos militantes mais exaltados que, verdes por fora mas vermelhos por dentro, alegam defender baleias e florestas, índios e geleiras, mas desejam mesmo acabar com o capitalismo, tal como a esquerda revolucionária tradicional”.

Quem achou o pensamento de Pondé pouco claro poderá entendê-lo através de Delingpole e Ascher. Ainda bem que o ambientalismo tem apoio majoritário da sociedade. A quem ficou sem água para beber ou tomar banho entre Muriaé e Barra de São João , no episódio que relatei, não interessa se o controle da poluição é bandeira do velho comunismo ou de um capitalismo mais moderno. Querem água, e não preleções políticas. Formadora de opinião em favor da proteção ao ambiente: a TV Globo. Não por ser uma organização voltada para a destruição da economia de mercado, mas por desastres ambientais, a exemplo daqueles de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, das cidades serranas e do Norte fluminense, etc, serem notícia, fatos jornalisticamente relevantes, assim como o exame de suas causas e consequências. 

A argumentação dos ecocéticos não só é irresponsável, mas criminosa. Suponhamos que o dia esteja nublado e a previsão do tempo dê que vai chover. Mas isso não comprova, categoricamente, que choverá – apenas informa que há uma probabilidade de vir a chuvarada. Um hipotético climacético ou meteorolocético justificaria, então, sair sem o guarda chuva, já que nuvens e previsões do tempo não são conclusivas. É o raciocínio dos ecocéticos, sobre a falta de prova conclusiva de que o aquecimento global é provocado pelo aumento da poluição. Seguindo-os, estaríamos a descoberto ao sobrevir uma catástrofe. O bom ceticismo, aquele fundamentado no verdadeiro pensamento científico, recomenda o contrário: prevenir-se para o  pior. Não é catastrofismo, porém bom senso. O assim chamado ecocético é alguém irracional, fóbico, paranóico. Nem leva em conta qualquer um dos benefícios – à vida no planeta, à vida marinha em especial, à saúde, à economia – do controle da poluição e da redução da degradação ambiental.

Em 1972, convidei um amigo, o agrônomo, paisagista e ambientalista Rodolfo Geiser, para dar uma palestra sobre ecologia na Psicologia da USP, onde eu lecionava. Deu o exemplo do barranco à beira da estrada, que vai acabar desmoronando, para mostrar que os estragos ambientais sempre provocam prejuízo, sempre são da ordem do barato que sai caro. Fatos lhe deram razão. Daí haver empresários envolvidos na militância ambiental – alguns, sérios, sem saber que são “melancias”, agentes disfarçados ou inocentes úteis a serviço de ideologias estranhas. Há também os oportunistas, como o banco que fez propaganda dizendo que preserva ambiente porque não manda mais extratos impressos.

Se eu fosse chefe de estado, não assinava esse documento final da Rio + 20. Onde já se viu, não quererem aprovar um fundo para ajudar países pobres na preservação e recomposição ambiental. Entre um mau acordo e um impasse, prefiro o impasse. Passada a conferência, dia 28 de junho, quinta-feira, será lançada uma nova edição da revista Celuzlose. Nela, a versão ampliada do meu artigo sobre poetas e a natureza. Minha visão é estética e minha abordagem é filosófica – mas qualidade estética e refinamento filosófico enriquecem a vida, melhoram o ambiente. E, de William Blake a Allen Ginsberg e Roberto Piva, poetas avisaram. Sabiam o que iria acontecer. Já publiquei aqui o trecho de Ginsberg, de 1974, sobre a loucura de persistir no uso de combustíveis fósseis, não-renováveis: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/15/ainda-a-lucidez-de-ginsberg/ Ginsberg, um ecochato da pior espécie. Como ainda é grande a distância entre o que dizem poetas e o que assinam chefes de estado.

EM TEMPO – (postado no dia seguinte) – Só podia dar nisso:

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/1106909-texto-da-rio20-e-fracasso-colossal-criticam-ongs.shtml

Uma vergonha.

Notícias do planeta

Ontem ter sido Dia do Meio Ambiente e estarmos às vésperas da Rio + 20 gerou notícias.

A mais importante, o relatório de cientistas divulgado pela ONU, mostrando que tudo vai mal, muito mal. Prever catástrofe era, umas décadas atrás, coisa de poetas visionários, Ginsberg e os beats, Piva & friends; como precursores, alguns românticos como William Blake e os transcendentalistas norte-americanos, Thoureau, Whitman, Emerson. Hoje, é tema de manifestações que desmontam a falácia retrógrada segundo a qual essa preocupação seria coisa de “ecochatos”. Mostra a hipocrisia dos argumentos de nossos parlamentares ruralistas, o cinismo de dirigentes de corporações e de governantes. O link é do Estadão, com este título: “Avanço de metas ambientais globais em 40 anos é quase nulo, mostra ONU” – mas saiu em todo lugar.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,avanco-de-metas-ambientais-globais-em-40-anos-e-quase-nulo-mostra-onu-,883404,0.htm

Como se complementasse, essa, na página seguinte do mesmo jornal:

http://estadao.br.msn.com/ciencia/ruralistas-tentam-derrubar-mp-do-c%C3%B3digo-no-stf

Citando: “Integrantes da bancada ruralista do Congresso Nacional acionaram ontem o Supremo Tribunal Federal (STF) com um mandado de segurança para tentar derrubar a medida provisória editada pela presidente Dilma Rousseff sobre o novo Código Florestal.”. Essa turma não aceita nem mesmo avanços mínimos, tentativas tímidas de garantir alguma preservação.

E, na página seguinte, esta, pelo comentarista de ciência Fernando Reinach:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,abelhas-intoxicadas-se–perdem-ao-voltar-para-casa-,883497,0.htm

Morte de abelhas já vinha sendo noticiada, de uns 5 anos para cá. E comentados os danos às demais espécies, pois abelhas fazem polinização. Mistério está explicado: é intoxicação, são os agrotóxicos.

Mas o mais assustador, na pauta ambiental, é mesmo a situação da vida marinha – inclusive por ser menos evidente para quem não é biólogo de vida marinha, oceanógrafo ou pescador. Vivendo em terra, é mais fácil perceber o estrago na Serra da Cantareira, por exemplo (uma vergonha como deixaram os loteamentos avançarem sobre essa reserva, do avião dá para ver direitinho), do que debaixo d’água.

Ah – em tempo: “Notícias do planeta” é título de um livro de poemas de Allen Ginsberg, da década de 1960. “Planet News”. Impressão de que, infelizmente, receberemos mais dessas notícias.

Ainda o código florestal

A presidenta Dilma vetará, espera-se, vários artigos do que a Câmara aprovou. Sairão anistia a desmatadores e redução de proteção em margens de rios.

A mobilização em favor do veto é positiva. Dos tópicos que reproduzi em postagem anterior, merece especial interesse a lista dos deputados e seus votos: que sejam indigitados, permanentemente lembrados. Talvez venham a entender que não podem votar desse jeito, desrespeitando a opinião pública e, principalmente, os interesses da nação.

Espantosos os argumentos em favor da versão do Código aprovada na Câmara: em um fórum de debates, um líder ruralista afirmou que flexibilidade da legislação ambiental permitia que houvesse comida barata no Brasil. Cara de pau. Em primeiro lugar, comida no Brasil é cara. Preços atuais equivalem aos de países europeus e dos Estados Unidos. E a devastação gera um custo, uma conta que todos nós pagamos – inclusive pela redução de colheitas, encarecendo produtos. Querem baratear comida? Então, promovam a redução de desperdícios – aqui, por exemplo, 40% do volume de grãos se perde entre a colheita e o destino final.

Acabamos, porém, mesmo com essa mobilização toda, nos contentando com o menos ruim, menos desastroso. A presidenta deveria vetar tudo e reabrir o debate. Convém reler pareceres de especialistas, ainda relativos ao que havia sido aprovado no Senado, expostos em http://www.ecodebate.com.br/2012/02/29/codigo-florestal-projeto-reduz-protecao-ao-meio-ambiente-dizem-pesquisadores/. Em especial, a questão da proteção aos mangues e áreas alagadas. Proteção à vida marinha em geral deveria ser ampliada. Décadas atrás, comer lagosta no Recife ou em Fortaleza era lanche, mesmo preço de carne – hoje, não tem mais – e logo acabarão com o beijupirá e os outros bons peixes regionais.

Política de geração de energia também é anacrônica. Hipócrita, a propaganda das construtoras de usinas veiculada na televisão. Programa de redução do desperdício, somado a algum investimento em fontes renováveis, bastaria.

Enfim, falta muito para que viajar pelo Brasil deixe de ser deprimente para quem viu como era. Norte de Mato Grosso, Norte de Goiás, Sul do Pará – antes, voar até Belém era apreciar aquela extensão verde, hoje não tem mais nada, tudo foi derrubado. Esse não é o preço do progresso, porém da irresponsabilidade. Herança do regime militar, que os governos civis não souberam ou não quiseram reverter.

Voltarei ao assunto.