Posts Tagged ‘Erotisjmo’

CONTRA A CENSURA, SEMPRE

Foi criado no Facebook, pelo poeta Rubens Zárate, um grupo intitulado ‘Clube Willeriano do Crime’ – alusão a um verso meu, epígrafe do grupo: “O crime é a mais bela carícia aos ouvidos humanos’. Já tem 260 participantes. Vai aumentar. Conteúdo: poemas, imagens (agora, uma série de Bosch), links, informação interessante. Bastante, é claro, sobre beat e surrealismo.

Zárate postou duas fotos de Allen Ginsberg e Peter Orlowsky, inteiramente nus. Au naturel. Em português claro: de pau pra fora. Foram apagadas, deletadas por censores do Facebook. Política da casa.

Por isso, decidimos que 12 de março será o dia contra a censura no Facebook.

Ação: postar a maior quantidade de fotos de nus possível.

A poeta Elizabeth Lorenzotti publicou o link de um manual de censura do Facebook – parece que um grupo de assalariados, no Marrocos, examina páginas e corta o que não se enquadra.

Inumeráveis as fotos de Ginsberg desse jeito: tinha mania de nudez, tirava a roupa em público, protagonizou episódios famosos. Atitude política, é claro. E religiosa (adiante, falarei sobre isso). Em seu Indian Journals, foto de um saddhu, devoto mendicante, sem nada a não ser seu corpo. Hilário o episódio de Henry Michaux ir conhecê-lo no Beat Hotel, ser recebido por um Ginsberg peladão, cortando as unhas dos pés. As vezes em que tirou a roupa em récitas de poesia e outros eventos  – isso e tópicos relacionados, comento no Geração Beat.

Sei o que vou mandar dia 12: um Shiva ictifálico, tem nas imagens de Konarak e também, me parece, de Angkor Wat, o deus de pernas cruzadas, o pau ereto chegando até o queixo. E imagens dos murais de Pompéia, decoração romana – salas de visitas de mansões de famílias e não bordéis como pensaram os primeiros a descobri-las – com toda sorte de posições e variações sexuais. Haveria coisa melhor– alguém passaria o scanner em Les larmes d’Eros de Georges Bataille? Literatura! Links com paginas do Lori Lamby de Hilda, de Henry Miller, de …

Tenho observações adicionais sobre a inominável cretinice de quererem controlar o que podemos ver ou não, assim restaurando o reinado da hipocrisia.

A censura foi abolida no Brasil pela Constituição de 1988. Nos Estados Unidos, desistiram em 1966, após a batalha judicial que culminou na liberação de Naked Lunch, Almoço Nu, de William Burroughs: se podia aquilo, raciocinaram, então não havia motivo para proibir o que fosse. Até pouco antes, não entravam –Correios agindo como órgão de censura – Henry Miller, D. H. Lawrence, James Joyce, entre outros. Nessa época liberaram oficialmente o Marquês de Sade na França.

Mas sempre, insisto, sempre há alguém tentando fazer a censura voltar pela porta dos fundos. Uma de suas modalidades: censura judicial, a pretexto de proteção de biografados. Isso, já denunciei energicamente – o que escrevi está, entre outros lugares, em http://www.revistabula.com/posts/arquivo/em-defesa-das-biografias .

Defesa da liberdade de expressão e repúdio à censura compõem o item 1 das conclusões do recente Congresso de Escritores da UBE, postadas aqui neste blog. Volta e meia  também censuram artes visuais. O famoso caso da exposição de Robert Mapplethorpe. Aqui, de Nelson Leirner – e tantos outros. E cinema: pois não é que, logo após a aprovação da Constituição de 1988, tiraram do ar Je vous salue Marie de Godard?

O argumento mais comum em favor da censura: proteger crianças, menores, que são tutelados. Pois deveriam protegê-las da hipocrisia, isso sim. Faria bem saberem que o corpo humano é assim, que não é a cegonha que faz. Prejudicial é o recalque. E, atualmente, tudo está exposto, Saló de Pasolini na TV a cabo etc: mundo ambivalente.

Outro argumento é jurídico: não poderia o que é proibido por lei: pedofilia, estupro. Claro. Tarados, perpetradores de violências, seu lugar é dentro de alguma instituição. Mas há confusões entre o fato e sua representação. Observo isso toda vez que dou palestra sobre Lori Lamby de Hilda: na platéia, alguém respira ou faz cara de alívio quando chego ao final: “Ah … ! Então a menininha estava inventando todas essas histórias! Ela não fez nada disso … !” E assim alguém cai na armadilha que Hilda, genialmente, preparou para o realismo ingênuo: como se fizesse diferença, como se, independentemente do desfecho da narrativa, tudo não pertencesse ao mundo da escrita, e não dos fatos.

Ah, sim, os fatos: quanto a esses, basta fazer de conta que não existem… – só não passar pela praia de Iracema em Fortaleza em uma noite movimentada, nem reparar em todos aqueles hotelzinhos mais afastados – e em tantos outros lugares neste Brasil, abstraídos pelas boas consciências, acobertados por outros, posto que isso movimenta dinheiro.

Mas chega de sociologia. Passemos à informação histórica.

Aí vai um parágrafo de Shiva e Dioniso – A religião da natureza e do Eros, de Alain Daniélou (ed. Martins Fontes):

“A identificação do deus e do homem com a natureza implica a nudez. O homem verdadeiro é nu. A religião hipócrita e farisaica da cidade é que exige a roupa. Shiva é nu. O sábio e o monge shivaístas erram pelo mundo nus e sem vínculos. Na Índia a nudez é sinônimo de liberdade, virtude, verdade e santidade. A antiga religião atéia da Índia, o jainismo, rival do shivaísmo, também exige que seus fiéis sejam nus. O mundo grego conheceu esses gimnosofistas, ascetas nus que vinham da Índia, e os soldados de Alexandre que, na Índia, quiseram seguir os ensinamentos dos filósofos, tiveram que se desnudar. A nudez tem um valor mágico e sagrado. “Semeia nu, lavra nu, colhe nu, se queres em seu tempo terminar todos os trabalhos de Deméter, a fim de que, para ti, cada um de seus frutos também cresça em seu tempo.” (Hesíodo, Os trabalhos e os dias)

Teria mais para citar, de Daniélou e outros especialistas (Eliade inclusive) sobre nudez sagrada, erotismo místico, sexo ritual e temas correlatos.

É o sentido da recorrente nudez de Ginsberg, adepto e iniciado, ordenado, como se sabe, em uma corrente tântrica do budismo tibetano.

Um cacoete recorrente entre conservadores é associar liberdade sexual e libertinagem à “decadência” (conservadores à ‘direita’ e à ‘esquerda’: “decandência” foi uma categoria pela qual stalinistas tinham especial predileção), ao ocaso de civilizações, à desagregação de sociedades. É o contrário: libertinos franceses do século XVIII, por exemplo, não podem ser separados do avanço do Iluminismo, da luta contra o absolutismo, a opressão.

Observações sobre a “decadência” romana incorrem nesse erro. Tentaram proibir as bacanais em 263 a.C. – não conseguiram. As espantosas condutas nas cortes de Nero, Tibério (foi o pior, pedófilo desenfreado), Calígula, precedem a expansão máxima do Império, com Trajano e Adriano, por volta de 100  / 120 d.C. Pompéia, com as decorações libertinas de salas de jantar, foi soterrada em 73 d.C. Retratos de um apogeu, não de uma decadência. Igualmente, as variações da luxúria no Satiricon de Petrônio, tão bem transpostas por Fellini.

Coincidiu com a adoção do cristianismo em 323 d.C, por Constantino, o Império ir se desagregando (não que Constantino fosse santo – envenenou um dos filhos, método da época para resolver disputas de sucessão, por exemplo).

Na série de TV Roma (HBO), a cena de Marco Aurélio fazendo com uma escrava sobre a mesa da sala de visitas, na frente de todo mundo, antes do célebre discurso no Senado, retrata a naturalidade com que romanos se relacionavam com o corpo e o sexo.

Escreveria mais algumas páginas sobre os gregos. Importa que censores não sabem de nada disso, e não querem saber. Procuram impedir que os outros saibam.

Alguns tentam transmitir conhecimento – outros querem perpetuar a ignorância.

Dia 12, no Facebook.