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A comida na obra de Jack Kerouac e mais alguns tópicos literários, sociais e gastronômicos

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Revi, ampliei e publiquei o capítulo 8 de meu Os rebeldes: Geração beat e anarquismo místico (L&PM, 2014) sobre as comilanças relatadas por Kerouac ao longo de toda a sua obra (em tempo, adicionando informação: foto é de 1958, época da filmagem de ‘Pull my Daisy’; nela, David Amram, o jazzista erudito, Kerouac, Larry Rivers, Ginsberg; o gorro é de Gregory Corso) :

https://www.academia.edu/12451304/Comida_e_misticismo_ilumina%C3%A7%C3%A3o_e_mem%C3%B3ria_na_obra_de_Jack_Kerouac

Havia dito que faria isso, a propósito de alguma polêmica no Facebook ao manifestar-me de modo veemente, em vários posts, contra um projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal de São Paulo proibindo comercialização do “foie gras”. o fígado gordo de ganso, e do respectivo patê, bem como de roupas de peles de animais. De autoria do vereador Laércio Benko, do PHS, com apoio da Sociedade Vegetariana. Kerouac classificaria como totalitarismo. Notícias dão como certo que o prefeito vetará, por inconstitucionalidade e pouca relevância (se convertido em lei, quem quisesse compraria no município mais próximo, sem problemas). Meus posts receberam aprovações. Não obstante, algumas reações merecem comentários adicionais:

  1. Quando divulguei a notícia do provável veto, houve quem postasse que poderia continuar a comer o “foie gras”. Isso faz tanto sentido quanto dizerem que sou maconheiro pela quantidade de manifestações sobre o assunto, os protestos contra a proibição da “marcha da maconha”, o artigo sobre criação literária e algumas drogas que acaba de sair (noticiarei) etc. É igualmente reacionário.
  2. Reclamei que ninguém fala da crueldade na criação de galináceos em confinamento. Há um viés populista em algumas das condenações do “foie gras”. Visa atingir os ricos que podem permitir-se ir ao restaurante Cosi para saborear a receita de canelloni à romana com o fígado de ganso no lugar dos miúdos de galinha. Ressentimento é um péssimo ingrediente da política. Abominar os ricos não promove justiça social, a exemplo das proclamações de que “os ricos odeiam os pobres”, frequentes durante a recente campanha eleitoral.
  3. Minha diarista de uma vez por semana não virá amanhã. Hospitalizada com intoxicação após comer uma salsicha estragada. Vão defender a qualidade do que servem aos pobres, em vez de importunar os abonados. Vereadores e seus eleitores: exijam fiscalização das espeluncas, para começo de conversa.
  4. Observei que, atendendo ás premissas do projeto, todo mundo teria que se tornar vegetariano. Um intelectual ativo e qualificado respondeu que é vegano: vegetariano radical, nada de origem animal. Observei que cintos e sapatos de couro também teriam que ser proibidos. O intelectual ativo e qualificado me respondeu que usava cinto e sapato de pano, e sente-se muito bem assim. Devia ter-lhe perguntado se aprovaria leis banindo todos os produtos de origem animal. Em caso afirmativo, corroboraria minhas suspeitas de totalitarismo. Ditadura do politicamente correto.
  5. É claro que alguns aprovam a tutela completa do indivíduo. O controle de tudo. Os fundamentalistas – bebida alcoólica não pode porque a religião proíbe etc. E os adeptos do estado burocrático, dos regimes de planejamento central. Os stalinistas, minoritários, porém muito sonoros ultimamente.
  6. Esta tirada, já havia postado na rede social, porém reproduzo: Sou contra a hipocrisia e a demagogia. As faixas, “Ribeirão Preto, cidade livre do cigarro”, em um centro ocupado por nóias de crack. Aqui, se fosse sancionada (não vai) onde iriam estender a faixa da Sociedade Vegetariana, “São Paulo, cidade livre do foie gras”? Na Cracolândia, nos baixos do Viaduto Glicério, em algum terminal superlotado?
  7. Querem discutir comida? Diversidade, esse é o nome do jogo. Restaurantes bons e baratos de self service têm um bom astral, por causa da quantidade de pessoas satisfeitas com o que estão comendo. Outra hora, escrevo sobre o tempo em que lagosta era boa e barata em Fortaleza e no Recife. Uma deliciosa salada, só folhas de alface bem frescas e pedaços de lagosta no Recife em 1965. Farei mais evocações ao modo de Kerouac. Leiam meu artigo. Bom apetite.