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Lautréamont para homofóbicos

Quantidade de coisas para fazer – inclusive divulgação do que preparamos para os 80 anos de Piva. Mas, diante da efusão de alucinados atacando mostras de arte, encenações e o que estiver ao alcance, homenageio-os co0m a publicação de um trecho de Os cantos de Maldoror de Lautréamont, o começo da estrofe dos pederastas (quinta estrofe do Canto Quinto, na minha tradução na edição da Iluminuras):

“Ó pederastas incompreensíveis, não serei eu quem irá lançar injúrias contra vossa grande degradação; não serei eu quem irá atirar o desprezo contra vosso ânus infundibuliforme. Basta que as doenças vergonhosas, e quase incuráveis, que vos assediam, tragam consigo seu infalível castigo. Legisladores de instituições estúpidas, inventores de uma moral estreita, afastai-vos de mim, pois sou uma alma imparcial. E vós, jovens adolescentes, ou melhor, mocinhas, explicai-me como e porquê (porém mantende-vos a uma distância conveniente, pois eu também não sei resistir a minhas paixões) a vingança germinou em vossos corações, para ter feito aderir ao flanco da humanidade tamanha coroa de feridas. Vós a fazeis ruborizar-se por seus filhos, por vossa conduta (que, de minha parte, venero!); vossa prostituição, oferecendo-se ao primeiro que vier, põe à prova a lógica dos mais profundos pensadores, enquanto vossa sensibilidade exagerada ultrapassa o limite do espanto da própria mulher. Sois de uma natureza mais ou menos terrestre que a de vossos semelhantes? Possuís um sexto sentido que nos falta? Não mintais, e dizei o que pensais. Não é um interrogatório, isto que vos faço: pois, desde que freqüento como observador a sublimidade das vossas inteligências grandiosas, sei até onde devo ir. Sede abençoados por minha mão esquerda, sede santificados por minha mão direita, anjos protegidos por meu amor universal. Beijo vosso rosto, beijo vosso peito, beijo com meus lábios suaves as diversas partes do vosso corpo harmonioso e perfumado. Porque não dissestes logo quem éreis, cristalizações de uma beleza moral superior? Foi preciso que eu adivinhasse sozinho os inumeráveis tesouros de ternura e castidade que ocultavam as batidas de vossos corações oprimidos. Peito ornado de grinaldas de rosa e vetiver. Foi preciso que eu abrisse vossas pernas para vos conhecer, e que minha boca se pendurasse às insígnias de vosso pudor. Mas (coisa importante para ter em mente) não esquecei de, todo dia, lavar a pele de vossas partes com água quente, pois, senão, cancros venéreos cresceriam infalivelmente sobre as comissuras fendidas dos meus lábios insaciados. Ó! se em lugar de ser um inferno, o mundo não fosse mais que um imenso ânus celeste, vede o gesto que faço com meu baixo ventre: sim, teria enfiado minha vara através do seu esfíncter sangrento, destroçando, com meus movimentos impetuosos, as próprias paredes do seu recinto! A desgraça não teria soprado, então, dunas inteiras de areia movediça nos meus olhos cegos; teria descoberto o lugar subterrâneo onde jaz a verdade adormecida, e os rios do meu esperma viscoso teriam assim encontrado um oceano onde precipitar-se. Mas porque me surpreendo a lamentar-me por um estado de coisas imaginário, que nunca receberá a recompensa da sua realização ulterior? Não vale a pena construir fugazes hipóteses. Enquanto isso, que venha a mim aquele que arde no desejo de compartilhar meu leito; mas imponho uma condição rigorosa a minha hospitalidade: é preciso que não tenha mais de quinze anos. Que ele, de sua parte, não acredite que eu tenha trinta: que diferença faz? A idade não diminui a intensidade dos sentimentos, longe disso; e, embora meus cabelos tenham se tornado brancos como a neve, não foi por causa da velhice; foi, ao contrário, pelo motivo que sabeis. Eu não gosto das mulheres! Nem mesmo dos hermafroditas! Preciso de seres semelhantes a mim, em cujas testas a nobreza humana esteja marcada em caracteres mais nítidos e indeléveis!

A festa e o homofóbico

No final de 1959, morava com meus pais no Brooklin Novo, Rua Michigan. Ao nos mudarmos daquele ermo, resolvi dar uma festa de despedida do lugar. Aproveitei que meus pais saiam aos sábados à noite, deixando a casa à minha disposição. Juntaram-se duas turmas – a da ACM, Associação Cristã de Moços, onde eu nadava e coordenava um grupo de música; e a dos freqüentadores dos bares atrás da Biblioteca e na Avenida São Luis, por onde também já circulava: então, o ponto de encontro de uma fauna híbrida, de intelectuais e artistas a playboys, passando pelas amostras então possíveis da diversidade sexual. Não convidei, propriamente – como sempre, a notícia se espalhou, as pessoas vieram.

Não vi muita coisa daquela festa. A maior parte da noite, fiquei no carro de um amigo estacionado em frente da casa, entretendo-me com uma moça – juro, não me lembro mais quem era. Saí do carro e voltei para dentro da casa térrea pouco antes de meus pais chegarem – viram muita coisa, um belo panorama de fim de festa. Dois amigos meus, André e Demétrio, estendidos no chão do quarto deles, desmaiados de tanto beber (o que rolava então? vodca? também não me lembro). Viram outros desmaios, bagunça, sujeira pra todos os lados. Não deram escândalo, eram tolerantes, só ficaram olhando enquanto todo mundo levantava acampamento. Já era madrugada mesmo e o Brooklin ficava longe,os  bêbados iam sendo carregados e enfiados nos automóveis, outros seguiram a pé.

Das cenas hilariantes, de algumas, fiquei sabendo depois. Um grupo que bebericava na cozinha. A mocinha – graciosíssima, uma loira de olhos azuis e pele clara, cara de boneca – da turma da ACM, Aninha, chamava-se, e o namoradinho dela. O atraente ator gay da turma da São Luis, Jean Lafont  (que fim terá levado?) pegou na mão do rapaz que aceitou, deixou-se acariciar, Aninha, quando reparou, teve um ataque, começou a gritar. Outras cenas, Sergio Mamberti, que estava lá (e não freqüentava a ACM) me relatou anos mais tarde – houve algo no quintal dos fundos.

Veio à festa um rapaz, da turma da ACM, um chato: acho que se chamava Milton, mas não tenho certeza. Fazia o tipo compenetrado. Especialidade dele eram reclamar de homossexuais. Eram “problemados”, dizia, em um tom dramático – como é que podia uma coisa dessas, ficava repetindo. Mal o tolerávamos. Homofobia era a regra, homossexuais – naquele tempo dizia-se “entendido”, e não “gay” – eram um bocado segregados – ou então, se enrustiam, ficavam no armário.

Um amigo, Roberto Amaral (outro que nunca mais) me contou, contorcendo-se de rir: o terreno baldio ao lado de casa, alguns da festa transferiram-se para lá (foram fazer o que? fumar maconha?). Pois bem, aquele Milton ofereceu o seguinte espetáculo: esqueceu suas reservas com relação ao homossexualismo, encostou-se em  um rapaz; baixou suas calças, virou-se de costas, curvou-se, agarrou o pau do outro e o enfiou em seu rabo. Assim – sumariamente, rapidamente, com a maior naturalidade.

Existe toda uma literatura com enredos de machões que soltaram a franga – João Silvério Trevisan dedicou alguns contos ao tema.  Roberto Piva, muito atento a tudo que fosse relato perverso, certamente saberia de histórias parecidas, dos momentos em que alguém teve a revelação da sua identidade sexual.

Desde aquela noite, o desbravador dos matinhos da Rua Michigan nunca mais foi visto. Que fim terá levado? Sabendo-se flagrado, resolveu sumir? Entrou no exército? Procurou um psiquiatra? Escondeu-se em algum nicho burocrático? Filiou-se a algum culto religioso?  Assumiu-se como “entendido” e passou a circular em outros ambientes? A viver com um amante, e ambos foram felizes para sempre? Ou radicalizou e virou travesti? Não que me interesse saber o que houve com ele – bastou ter-nos oferecido aquela performance exemplar, didática.

Generalizações devem ser evitadas. Não seria capaz de afirmar que todo oponente dos gays consome-se no desejo de fazer uma coisa dessas. Mas o episódio é paradigmático. Tem um elevado valor simbólico, ou como metáfora. Gays, em meio século, ganharam alguns direitos, algum reconhecimento. Apesar de uma forte reação conservadora, mobilizando, acredito, todos os êmulos daquele pretérito e obscuro Milton.