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NOVA PALESTRA: A GERAÇÃO BEAT – REBELIÃO, VALOR LITERÁRIO E TRADUÇÕES

Onde: Centro de Pesquisa e Formação do SESC em São Paulo. Rua Dr. Plínio Barreto 285, 4º andar, Bela Vista

Quando: dia 07 de agosto, 2ª feira, de 15h00 a 17h00

O que será: Projetarei originais de poemas, de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, lerei e comentarei minhas traduções. Comentarei a contribuição literária dos beats. Minha sinopse: Libertação do corpo e da sexualidade; anti-autoritarismo; ampliação da consciência: são temas tão disseminados que nem nos lembramos que entraram em circulação, como objeto de interesse mais amplo, há poucas décadas, através do impacto provocado por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Gregory Corso, Michael McClure e outros autores ligados à Geração Beat. Contudo, essa contribuição política, impregnada de uma mística do excesso e da transgressão, não deve fazer que se perca de vista o valor literário, a consciência de que tiveram tamanha influência por terem sido extraordinários escritores. Isso será mostrado exibindo e comentando textos, especialmente de Ginsberg e Kerouac, confrontando originais e traduções.

VENHAM

Nova palestra: Jack Kerouac e a Geração Beat, um guia de leitura

Quando: Na próxima quinta feira, 30 de março às 19h30 até as 21h30

Onde: EdLab – Editora Hedra: Rua Fradique Coutinho, 1139, Vila Madalena – São Paulo – SP. Fone 11 3097-8304 / e-mail: edlab@hedra.com.br.

Inscrições: R$ 10,00

Informam os organizadores: O poeta, ensaísta e tradutor CLAUDIO WILLER retoma o ciclo de palestras sobre a Geração Beat desta vez para inaugurar um novo espaço de debates e produção literária: o Ed.Lab, na sede da Editora Hedra.

Veja também em https://www.facebook.com/events/404429646589624/ –

Meu comentário: Palestras anteriores sobre o tema – nas mostras de cinema beat em Brasilia, São Paulo e Rio de Janeiro – lotaram auditórios, a ponto de faltarem lugares e sobrar público. Por isso retomo, desta vez utilizando as confortáveis instalações do EdLab da editora Hedra e seus parceiros, cobrando um ingresso de R$ 10,00. Entendo que, a cada nova apresentação, é possível adicionar, refinar interpretações desse autor cada vez mais lido e estudado, assim desmentindo a crítica retrógrada que negava seu valor. Palestras anteriores estão disponíveis no YouTube – mas, convenhamos, ao vivo, podendo conversar, é mais confortável e interessante.

Kerouac fascina. Examinar sua obra é desvendar um universo. Explorou as possibilidades da expressão escrita através de narrativas memorialísticas e de auto-ficção, poemas, crônicas e outras modalidades. Interessa especialmente o que o criador do termo “Geração Beat” tem de paradoxal, ambivalente, contraditório. O modo como ficcionalizou sua biografia e ao mesmo tempo se inventou, transformando-se em personagem de si mesmo. A mitologia pessoal que criou. Por exemplo, a criação de On the Road: sim, ele escreveu o livro em três semanas; no entanto, três revisões subseqüentes foram por sua iniciativa, antes de entregá-lo à Viking Press; e, como atestam seus diários, já o vinha escrevendo desde 1948. Ele se pôs a viajar com Neal Cassady depois da decisão de fazer seu registro da Geração Beat.

Tomando o conjunto da obra de Kerouac e On the Road em especial, é possível propor roteiros de leitura e interpretações que adicionam sentido, recorrendo a uma ensaística que vem crescendo, atestando sua importância e atualidade. Examinarei a relação de On the Road e Visões de Cody, outra de suas obras primas; mostrarei como Doctor Sax é polifônico; interpretarei a flagrante contradição entre Vagabundos iluminados e Anjos da desolação. Principalmente, mostrarei como explorou topdas sua prosódia, na qual se combinam o apaixonado por jazz, o falante do dialeto joual (sua primeira língua) e o leitor de Shakespeare, Joyce, Dostoievski, Rimbaud e tantos outros

A sinopse e imagens da minha palestra sobre Geração beat em Brasília

“A Geração Beat na literatura, na vida e no cinema”, na Mostra de Cinema Geração Beat, Centro Cultural do Banco do Brasil, Brasília, DF, dia 13 de julho de 2016. Combinar com a produtora Roberta Sauerbronn algum modo de fazer que chegue aos que compareceram (lotaram auditório e faltaram senhas). Imagens ficaram ótimas, acho. Centrei em Kerouac por preceder a exibição de Na estrada de Walter Salles. Obviamente, não segui todo este roteiro – improvisei algo. Principal referência bibliográfica, meus dois livros, Geração Beat e Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico (ambos pela L&PM) – mas fui além, disse coisas que não estão nos livros. Pretendo postar também sinopse da minha palestra de ontem, 23/07, sobre xamanismo e poesia.

BEAT PARA O FESTIVAL DE CINEMA – BRASÍLIA

  1. Histórico, formação e caracterização da beat. A origem do termo: Jack Kerouac, 1948, conversando com John Clellon Holmes, autor de Go!Beat Generation Lost Generation. Beat: Herbert Huncke. O papel de Allen Ginsberg: constituiu a beat. William Burroughs, o mentor.
  2. Traços em comum:
    • Valorização da espontaneidade. A cultura hipster; os músicos bop; o abstracionismo lírico e Jackson Pollock; os atores formados no Actors Studio.
    • Religiosidade (a idéia de religiões pessoais): Schlegel: “Apenas aquele que tem uma religião dentro de si mesmo e uma concepção original do infinito pode ser um artista”. Gnosticismo. Citar Kral Majales de Ginsberg. Kerouac: “Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico”.
    • O episódio de Burroughs e Ginsberg: ambientalismo e mística da natureza: o mamífero em Michael McClure: isto é xamanismo.
      • “QUANDO UM HOMEM NÃO ADMITE SER UM ANIMAL, ele é menos que um animal. […] O HOMEM NÃO É UM ISÔMERO DE MAMÍFERO – ele é precisamente um mamífero. A rota para essa consciência é necessariamente biológica. A poesia é biológica. […] O homem é um mamífero se experimentando
  1. Recusa da massificação, da prosperidade: Kerouac. As declarações de princípios: “Sou pobre e por isso tenho tudo o que eu quero” em Visions of Cody; “Quero ser um negro” em On the Road. A fascinação pelo outro e a recusa da ordem estabelecida. Negros, vagabundos, índios, mexicanos – “são índios, não Pedros e Panchos” em OR; “fellás”, excluídos e marginais; os vagabundos:
    • Vanity of Duluoz: “pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe.”
    • Os subterrâneos: “olhar para três ou quatro índios atravessando um campo é para os sentidos algo inacreditável como um sonho”
  2. On the Road: obra da segunda metade do século 20 que mais exerceu influência? Bob Dylan, Lou Reed, Thomas Wolfe, Hunter Thompson, Eduardo Bueno etc. Kerouac, profeta da contracultura em Os vagabundos iluminados – depois rejeitou como massificação. O ataque por críticos acadêmicos e conservadores. O espanto provocado pelas biografias. Um renascimento de Kerouac: conforme O livro de Jack de Gifford e Lee, em 1976 só havia três títulos dele disponíveis na praça – hoje, edições de inéditos, reedições, ensaios e teses.
  3. A origem canuk, o bilingüismo. A relação com a língua, escrita e falada; transmissão oral (Miles, Zott) e leitura. Gabrielle e Léo Kerouac: provincianismo vs. cosmopolitismo.
  4. A relação de Kerouac com a literatura: Os subterrâneos, um exemplo, viveu / reescreveu a seu modo Memórias do subsolo de Dostoievski. Formação revelada através de pesquisas. Kerouac, o leitor de James Joyce, Louis-Férdinand Céline e muito mais.
  5. A questão da espontaneidade: mitos e fatos sobre a criação de On the Road e outras obras de Kerouac. A saga dos originais, do manuscrito original à edição final. O processo de criação – inversão do paradigma realista. Comparar Diários com On the Road. (o trecho sobre o Rio Mississipi). A confusão de relato factual e ficção: o artigo de Burroughs em Rolling Stone.
  6. Valor literário e On the Road. Texto polifônico e dialógico, ambivalente. Uma narrativa picaresca. O relato oral, escrever como se estivesse contando uma história para alguém. Humanizar personagens: “o romance é um gênero focado em gente”; por isso, “não se escreve a partir de um assunto, mas de viventes que colocamos em cena”.
  7. A espantosa ambivalência de Kerouac. Contraria-se. O final de Vagabundos iluminados e o começo de Anjos da desolação, opostos. Invenções, mentiras: o tratamento de Gary Snyder em Os vagabundos iluminados. Versões diferentes da mesma história em Viajante Solitário, Anjos da desolação, Os vagabundos iluminados.
  8. Sugestão: ler On the Road, Vagabundos iluminados e Anjos da desolação como trilogia de ascensão e queda.
  9. Paratextos em Visões de Cody, sua obra mais complexa (uma reparação, mitifica Neal Cassady após abandoná-lo no final de On the Road), junto com Doctor Sax. Vanity of Duluoz, de 1967: um testamento impressionante.
  10. A beat no cinema: alguns comentários: Burroughs. The Magic Trip. Na estrada.

 

Alguns links:

Minha tradução de Kral Majales de Ginsberg: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Kerouac no Steve Allen Show: https://www.youtube.com/watch?v=3LLpNKo09Xk

Kerouac e os haicais: http://forum.saxontheweb.net/showthread.php?229667-Jack-Kerouac-Blues-and-Haikus-album&s=25f66bbbdb00f14a6bf30abc9e3abf4f

Michael McClure e os leões: https://www.youtube.com/watch?v=djtmpdlXKEA

Trechos de minha palestra sobre Gregory Corso e leitura de “Bomba”: https://acasadevidro.com/2016/06/08/video-claudio-willer-e-a-bomba-beatnik-de-corso-declamacao-e-palestra-no-xi-coloquio-filosofia-e-literatura-catastrofe-pensamento-e-criacao-31-min/

 

Escritores e gatos: um poema de Kerouac

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Na dicotomia tradicional de cães e gatos, escritores parecem ter tomado, majoritariamente, o partido dos gatos. Entre outros, formando um elenco díspar, Baudelaire, Hemingway, Joyce, Cortázar, Guimarães Rosa, Burroughs, Bukowski, Kerouac. De Joyce acaba de ser lançado O gato e o diabo, seguido de Os gatos de Copenhagen, tradução de Eclair Antonio Almeida Filho, pela Lumme.

Qual terá sido o melhor texto, o mais intenso expressando admiração por gatos? Orientação dos gatos de Cortázar ou O gato por dentro de Burroughs?

Baudelaire e Bukowski também escreveram contra os cães, por verem a decantada fidelidade como submissão (ou vice versa). Quanto a mim, sou neutro, nada contra uns e outros. Certa vez tentei criar uma jibóia, gostei de ver como ficavam nos telhados das casas em Pindaré Mirim no Maranhão, trouxe um espécime em uma caixinha no avião (naquele tempo tudo era permitido), mas não deu certo, infelizmente não se aclimatou. Tive um amigo excêntrico, maníaco por cães e que detestava gatos. Criou um Sealyham Terrier que ganhava prêmios em exposições. Certa vez foi visto caminhando pela Rua Higienópolis vestindo um terno xadrez e passeando seu terrier com um daqueles coletes de cachorro exatamente do mesmo pano xadrez do terno dele – achei sensacional.

Gatos estão na iconografia e na poesia de Kerouac, no Livro de haicais e nos Mexico City Blues, entre outros lugares. De Some of the Dharma, Coisas do Darma, que estou traduzindo, selecionei, no meio da doutrinação frenética e por vezes delirante, este memento, jóia lírica:

1º DE NOVEMBRO DE 1954

Pinky foi atropelado — o que eu

amava em Pinky agora percebo era

aquela parte dele que não era real,

eu estava enamorado por seu pelo

branco & rosa, engraçadas idas &

vindas, o ronronar satisfeito, maneiras

soltas, todas as doçuras do Carma

de seu Carma de gato — essas marcas

de sua individualidade foram atropeladas

& desapareceram da minha

janela solitária — mas a Verdadeira Pinky,

a Beatitude Invisível que

o tornou possível, não está morta

porém anda por toda parte

e prossegue na paz e unidade permanente

e Pinky está restaurado naquela Brilhante

Vacuidade ileso exceto por seu corpo imaginário

& sua imaginária alma de gato —

em outras palavras, Pinky é Nirvana

antes e agora & eu só me dou conta disso

quando seu corpo do “mundo” desaparece

— Asvhaghosha diz: “Os desejos e hábitos de agarrar & apego … são dependentes da mente pensante, sem qualquer natureza própria.” A Verdadeira Mente não lamenta.

Jack Kerouac, budista e crítico radical

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Traduzindo Some of the Dharma para a L&PM. Escolhi como título Coisas do Darma. Imenso, dará umas 600 pgs, vai demorar para sair. Escrito com a intenção de “converter a humanidade”, foi sendo encaminhado por ele a editores para receber sucessivas rejeições, só publicado em 1997.Tem de tudo: reflexões, notas de leitura, comentários, trechos de diários, poemas. É a profusão do fragmento. Contrasta com os organizados Scripture of the Golden Eternity, o sutra que criou por sugestão de Gary Snyder, límpida série de poemas em prosa, e Livro de haicais, que já traduzi. Acho que também podem ser incluídos na sua temática budista o pungente Tristessa, que aprecio muito, além, é claro, de Vagabundos Iluminados, The Dharma Bums – disponíveis pela L&PM. A comparação desses livros mostrará a diversidade, quando não a variabilidade da escrita de Kerouac.

Escolhi como primeiro teaser (farei mais), este trecho:

A idéia do Padre-Operário, de compartilhar o sofrimento dos trabalhadores, eu acredito que seu nome é Abbé Pierre e Bob Lax me mostrou uma foto dele na Revista Jubilee sentado com as pernas dobradas debaixo de si, pode se tornar a involuntária ferramenta do Capitalismo Totalitário, ou Trabalhismo, se não prestar atenção — Uma bela sociedade de ficção científica assustadoramente dividida entre Pios Trabalhadores Sofredores e Irreligiosos Patrões Contentes — em favor da “Produção”, na qual eu receio que o Abbé Pierre acredita, uma vez que ele evidentemente não acredita em Desabrigo para os Irmãos. E na Pobreza e Castidade para os Leigos.

O Tao Chinês diz: “Não perturbe a sua essência vital.” O sofrimento dos trabalhadores em todo o mundo nunca produziu uma fatia de pão ou uma saca de vagens dos férreos cintos de castidade deles. É uma quimera, insanidade. Não há necessidade de carros, não há necessidade de rádios, não há necessidade de metrôs, não há necessidade de canhões, não há necessidade de isqueiros, não há necessidade de óleo ou de aquecimento a óleo, não há necessidade de copos de plástico, não há necessidade de canhões, não há necessidade de guerra e, sobretudo, não há necessidade da necessidade, que a “Produção” só multiplica.

Só há necessidade de respiração, comida, repouso e meditação santa.

O original:

The Worker-Priest’s idea, of sharing suffering of workers, I believe his name is Abbé Pierre and Bob Lax showed me picture of him in Jubilee Magazine sitting with legs folded under him, may become the unwilling tool of Totalitarian Capitalism, or Laborism, if he doesn’t watch out — A nice science Fiction society eerily divided into Suffering Pious Workers and Areligious Contented Employers—for sake of “Production” which I’m afraid Abbe Pierre believes in since he evidently doesn’t believe in Homelessness for the Brothers And in Poverty and Chastity for Laymen

Chinese Tao says: “Perturb not your vital essence. “ The suffering of workers all over the world has never produced one loaf of bread or one apronful of stringbeans from off those bloody iron belts of theirs. It’s a chimera, insanity. There is no need for cars, no need for radios, no need for metros, no need for cannons, no need for cigarette lighters, no need for oil or oil heat, no need for plastic cups, no need for cannons, no need for war and above all no need for need, which“Production” merely multiplies.

There is only need for breath, food, rest and holy meditation.

“Iron belt”, certifiquei-me com um amigo mais anglófono que eu de tratar-se de um cinto de castidade – mas como “iron” é forte, não resisti à dupla tradução e fiz “férreos cintos de castidade”.

Em breve, publicarei um trecho de Artaud, das palestras no México, igualmente recusando socialismo como ideologia do trabalho, equiparado ao capitalismo. Convergência de críticos radicais. Loucos, na opinião de alguns.

A comida na obra de Jack Kerouac e mais alguns tópicos literários, sociais e gastronômicos

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Revi, ampliei e publiquei o capítulo 8 de meu Os rebeldes: Geração beat e anarquismo místico (L&PM, 2014) sobre as comilanças relatadas por Kerouac ao longo de toda a sua obra (em tempo, adicionando informação: foto é de 1958, época da filmagem de ‘Pull my Daisy’; nela, David Amram, o jazzista erudito, Kerouac, Larry Rivers, Ginsberg; o gorro é de Gregory Corso) :

https://www.academia.edu/12451304/Comida_e_misticismo_ilumina%C3%A7%C3%A3o_e_mem%C3%B3ria_na_obra_de_Jack_Kerouac

Havia dito que faria isso, a propósito de alguma polêmica no Facebook ao manifestar-me de modo veemente, em vários posts, contra um projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal de São Paulo proibindo comercialização do “foie gras”. o fígado gordo de ganso, e do respectivo patê, bem como de roupas de peles de animais. De autoria do vereador Laércio Benko, do PHS, com apoio da Sociedade Vegetariana. Kerouac classificaria como totalitarismo. Notícias dão como certo que o prefeito vetará, por inconstitucionalidade e pouca relevância (se convertido em lei, quem quisesse compraria no município mais próximo, sem problemas). Meus posts receberam aprovações. Não obstante, algumas reações merecem comentários adicionais:

  1. Quando divulguei a notícia do provável veto, houve quem postasse que poderia continuar a comer o “foie gras”. Isso faz tanto sentido quanto dizerem que sou maconheiro pela quantidade de manifestações sobre o assunto, os protestos contra a proibição da “marcha da maconha”, o artigo sobre criação literária e algumas drogas que acaba de sair (noticiarei) etc. É igualmente reacionário.
  2. Reclamei que ninguém fala da crueldade na criação de galináceos em confinamento. Há um viés populista em algumas das condenações do “foie gras”. Visa atingir os ricos que podem permitir-se ir ao restaurante Cosi para saborear a receita de canelloni à romana com o fígado de ganso no lugar dos miúdos de galinha. Ressentimento é um péssimo ingrediente da política. Abominar os ricos não promove justiça social, a exemplo das proclamações de que “os ricos odeiam os pobres”, frequentes durante a recente campanha eleitoral.
  3. Minha diarista de uma vez por semana não virá amanhã. Hospitalizada com intoxicação após comer uma salsicha estragada. Vão defender a qualidade do que servem aos pobres, em vez de importunar os abonados. Vereadores e seus eleitores: exijam fiscalização das espeluncas, para começo de conversa.
  4. Observei que, atendendo ás premissas do projeto, todo mundo teria que se tornar vegetariano. Um intelectual ativo e qualificado respondeu que é vegano: vegetariano radical, nada de origem animal. Observei que cintos e sapatos de couro também teriam que ser proibidos. O intelectual ativo e qualificado me respondeu que usava cinto e sapato de pano, e sente-se muito bem assim. Devia ter-lhe perguntado se aprovaria leis banindo todos os produtos de origem animal. Em caso afirmativo, corroboraria minhas suspeitas de totalitarismo. Ditadura do politicamente correto.
  5. É claro que alguns aprovam a tutela completa do indivíduo. O controle de tudo. Os fundamentalistas – bebida alcoólica não pode porque a religião proíbe etc. E os adeptos do estado burocrático, dos regimes de planejamento central. Os stalinistas, minoritários, porém muito sonoros ultimamente.
  6. Esta tirada, já havia postado na rede social, porém reproduzo: Sou contra a hipocrisia e a demagogia. As faixas, “Ribeirão Preto, cidade livre do cigarro”, em um centro ocupado por nóias de crack. Aqui, se fosse sancionada (não vai) onde iriam estender a faixa da Sociedade Vegetariana, “São Paulo, cidade livre do foie gras”? Na Cracolândia, nos baixos do Viaduto Glicério, em algum terminal superlotado?
  7. Querem discutir comida? Diversidade, esse é o nome do jogo. Restaurantes bons e baratos de self service têm um bom astral, por causa da quantidade de pessoas satisfeitas com o que estão comendo. Outra hora, escrevo sobre o tempo em que lagosta era boa e barata em Fortaleza e no Recife. Uma deliciosa salada, só folhas de alface bem frescas e pedaços de lagosta no Recife em 1965. Farei mais evocações ao modo de Kerouac. Leiam meu artigo. Bom apetite.

CARTA DE UM JOVEM LEITOR DOS BEATS

Beats livros LP&MEste post tem interesse pedagógico. Espero que seja retransmitido. Transcrição literal do que recebi pelo ‘inbox’ do Facebook. Autor cursa primeira série de ensino médio em uma cidade do interior gaúcho – tem perfil na rede social, chequei. Já recebi muitas mensagens de leitores, bem jovens inclusive – mas esta justifica observações, que vêm a seguir.

A MENSAGEM:
“Claudio o que falar de você,tu não sabe como eu agradeço por tu existir hehe.Traduz coisas maravilhosas seus artigos são muitos bons não cheguei a ler os teus livros por falta de money.Mas eu tava quase reprovado na escola em física,biologia e química.Mas um dia pego e encontro um poema de Ginsberg,que nunca tinha visto falar através dai fiquei sabendo o qual carente é nosso ensino pois em nenhum momento algum professor meu soube falar sobre a geração beat.Então decidi fazer um trabalho sobre essa geração,li e li,pela falta de money e não ter muitos livros nessa cidade consegui ler livros do Bukowski e comecei a ler a obra prima de Kerouac.Através desse trabalho consegui me mostrar de outro jeito para meus professores,tirei nota máxima em todos quesitos e fui aprovado,e consegui fazer que vários adolescentes que gostam dessas sagas infantis a ser interessar por algo muito bom. Cara meu sonho é um dia chegar no teu patamar
Também esclareceu: “na minha escola eu achei só o On the Road,pq foi doado por uma ex professora mas tava num canto escondido,sem qualquer indicação pra leitura”

MINHAS OBSERVAÇÕES:
1. Obras como essas que ele cita, e tantas outras, deveriam estar à disposição em bibliotecas públicas em todo lugar, evitando que isso que ele chama de “falta de money” dificulte acesso.
2. Não é anômalo leitura literária estimular desempenho em outras áreas. Entusiasmo ativa o cérebro. Grandes cientistas na área de Exatas foram ou são leitores refinados. Efeito típico da leitura de “On the Road” e “Uivo” é Robert Zimmerman transformar-se em Bob Dylan e sair de casa, ou Eduardo “Peninha” Bueno ir viajar – mas, nesses casos e em tantos outros, criatividade foi despertada, definiram identidade, alcançaram sua voz.
3. Já me apresentei para turmas de ensino médio, com um bom diálogo. Volta e meia, encontro algum autor que, quando garoto, ficou vivamente impressionado pela série ‘Beat e Contracultura’ que eu fazia na revista Chiclete com Banana de Toninho Mendes, por volta de 1990 – não tinha idéia do alcance de uma revista com tiragem de 100.000 exemplares. Portanto, a mensagem aqui reproduzida não é extraterrestre.
4. Literatura é o mundo da diversidade. Desta vez, foi a leitura de Kerouac e Ginsberg, assim como poderia ter sido um poema de Drummond ou uma infinidade de outros autores.
5. Episódio compromete a idéia de leituras “recomendadas” para faixas etárias e graus do ensino. “On the Road” de Kerouac e “Uivo e outros poemas” de Ginsberg são polivalentes, não-lineares – o que alguns luminares ainda não perceberam, ou não querem perceber.
6. Também compromete o dogma sociocultural (seguida por nossos parâmetros curriculares do ensino médio), de que leituras e ensino da língua devem relacionar-se ao “contexto”, o ambiente do aluno. Esses livros despertaram interesse por mostrarem algo diferente, outra realidade. Vão a contrapelo do cardápio de trivialidades oferecido pela indústria cultural. E ainda, mesmo minoritário, pode desmentir os apocalípticos da cultura digital. Mundo não se reduz a pessoas olhando fixamente para a tela do smartphone ou i-pad.
7. Brasil tem índice elevado de analfabetos funcionais. Como se vê, um a menos para preencher o índice. Ou um a mais no lado bom da estatítica. Professores, orientadores e agentes culturais promoverem acesso a obras reduzirá a burocratização do ensino.

Slim Gaillard, personagem de Kerouac, e suas apresentações

Esse músico ocupa algumas páginas de On the Road de Kerouac (219 a 221 na edição brasileira, da L&PM); e, por isso, do meu Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico (L&PM), a propósito do som anteposto ao sentido, das glossolalias. Quando preparei olivro, não achei quase nada sobre ele no meio digital. Mas, nesse manancial infinito, aparecem agora bons registros; inclusive um documentário extenso da BBC, descoberto pelo músico Pita Araujo, que colaborou em dois dos meus cursos sobre Geração Beat.
A seguir, links com Gaillard. E um trecho dos comentários em meu livro, incluindo citação de Kerouac.
O documentário da BBC:

Uma apresentação em que entoa as glossolalias – algo semelhante ao que Kerouac e Cassady presenciaram:

Reparem que nessa seção do Youtube há outros bons segmentos com ele.
O precursor ‘Tutti Frutti’ (do qual Little Richard se apropriou, expandindo o rock):

A sinopse biográfica na Wikipédia:
http://en.wikipedia.org/wiki/Slim_Gaillard
Meus comentários em Os rebeldes:
Um dos trechos exaltados da louvação a jazzistas em On the Road é sobre um dos mais originais dentre aqueles músicos. É quando Kerouac e Cassady se encontram com Slim Gaillard, o excêntrico guitarrista negro que, ao falar, se expressa através de glossolalias, fonemas não-semantizados. Cassady o proclama “Deus”; Kerouac o retrata como iluminado, xamã:
“Slim Gaillard é um negro alto e magro com grandes olhos melancólicos que tá sempre dizendo “Legal-oruni” e “que tal um bourbon-oruni?” […] E então [depois de interpretar seu jazz] ele se levanta lentamente, pega o microfone e diz, com muita calma: “Grande-oruni…. belo-ovauti… olá-oruni…. bourbon-oruni… tudo-oruni…. como estão os garotos da primeira fila, fazendo a cabeça com suas garotas-oruni…. oruni…. vauti…. orunirumi….” Continue lendo

Sinopse da palestra sobre poesia e loucura, SESC Santos, 15 de fevereiro

No ciclo Mente & Arte: Subjetivo infinito, coordenado por Flavio Viegas Amoreira. Não examinei todos os tópicos dessa sinopse. Pulei o exame de Artaud e geração beat: material para curso ou ciclo de palestras. Preferi dar maior atenção à questão de método ou de crítica ao final: a distinção entre o texto louco e o autor louco.

1. A MUDANÇA DE STATUS DA LOUCURA AO LONGO DA HISTÓRIA:
a) na Antiguidade, o louco como emissário divino; o delírio inspirado em Platão; sibilas, mênades, pitonisas oráculos e xamãs.
b) com o advento do cristianismo, o louco como um possuído pelo diabo.
c) a loucura clássica: o louco como alguém a ser isolado; caso extremo, a Nave dos Loucos (entre outras fontes, História da loucura de MICHEL FOUCAULT)
c) o louco como doente a ser tratado, com o Iluminismo, na virada dos séculos 18 e 19: PHILIPPE PINEL (1745-1826); a psiquiatria e as classificações ou tipologias da loucura.
d) os sintomas, especialmente o delírio, passam a ser considerados significativos, dotados de um sentido: PIERRE JANET (1859-1943), JOSEF BREUER (1842-1925) e especialmente SIGMUND FREUD  (1856-1938): da hipnose e associação livre à interpretação e à compreensão mais profunda do ser humano
d) o louco como um criador: especialmente, ANDRÉ BRETON (1896-1966) e o surrealismo.

2. A MUDANÇA DO VALOR LITERÁRIO AO LONGO DA HISTÓRIA:
Sugeri um paralelo entre a percepção da loucura e aquela do valor artístico e literário:
a) o classicismo, valor como ajuste ao cânone; a imitatio dos mestres – mas relativamente, também valorizaram a inovatio, exemplifiquei com Dante Alighieri, que na Divina Comédia apresentou Virgílio como mestre mas homenageou Arnaut Daniel e Guido Cavalcanti, dois inovadores.
b) o valor romântico, arte como expressão do indivíduo, da subjetividade, do “eu”; a correlata valorização da originalidade.
c) o valor simbolista: citei ROGER SHATTUCK em The Banket Years, The Origins of the avant-garde in France, para quem, na belle époque (de 1885 a 1918) criações passaram a interessar, não mais como reprodução da norma, mas como desvio dessas normas. Se o romantismo havia questionado a imitatio, contrapondo-lhe a originalidade, para os simbolistas o artista deixou de ser quem eterniza o ideal do classicismo; passou a ser aquele que rompe com o ideal, afirmando-se como individualidade e diferença. Daí as proclamações, identificando o novo ao valor, como “é preciso ser absolutamente moderno” de ARTHUR RIMBAUD (1854-1891), e sua poética do desregramento dos sentidos, do delírio e da loucura.

3. POETAS LOUCOS:
Loucos românticos. FRIEDRICH HÖLDERLIN (1770-1843), que prosseguiu a escrever poesia de qualidade depois de perder a identidade, mergulhar na loucura. GÉRARD DE NERVAL (1808-1855), autor de uma narrativa delirante, Aurélia, escrita quando internado e antes de suicidar-se: “O que são as coisas deslocadas! Não me acham louco na Alemanha. […] A imaginação trazia-me delícias infinitas. Recobrando o que os homens chamam de razão, não deveria eu lamentar tê-las perdido?”. Mas quando escreveu os sonetos perfeitos de As quimeras também teve surtos; e narrativas em prosa como Silvia tem estranhos desvios, como bem percebeu UMBERTO ECO em Seis passeios pelos bosques da leitura; os relatos de viagem que confundem descrições, mitos e invenções.
Um louco simbolista: GERMAIN NOUVEAU (1851-1920), colega de Rimbaud em Londres, saiu andando em peregrinação, voltou anos mais tarde, nunca mais falou e continuou a escrever poesia de excelente qualidade. ALFRED JARRY (1873-1907), autor de Ubu Rei: excêntrico delirante e inovador. Para Shattuck, “aquilo que distingue Jarry de toda uma tradição de visionários, de Plotino a Rimbaud, é, antes de tudo, haver tentado, chegando quase ao suicídio, atingir um grau novo de existência, através do mimetismo literário, de confusão entre vida e arte”. RAYMOND ROUSSEL (1877-1933), autor de Locus Solus e Impressões da África: caso psiquiátrico, paciente de Pierre Janet.

4. SURREALISMO E LOUCURA:
A formação de ANDRÉ BRETON (1896-1966) em psiquiatria. No Manifesto do surrealismo, “o medo da loucura não nos impedirá de hastear a bandeira da imaginação”. Gênese do surrealismo em Gérard de Nerval. Alucinações, ataque aos psiquiatras e manicômios em Nadja. À notícia de que Nadja, em pleno delírio, havia sido internada, afirmou que, se fosse internado, mataria alguém, de preferência um de seus médicos, para que o deixassem em paz, confinado no isolamento. Simulação da loucura em Imaculée Conception de Breton e PAUL ÉLUARD. Elogio da loucura em La clé des champs, l’art des fous, sobre o movimento Art Brut, com JEAN DUBUFFET: o artista louco é uma reserva de saúde moral, por não criar para a aceitação pela crítica e mercado.
ANTONIN ARTAUD (1896-1948), sua ligação com surrealismo: a Carta aos médicos-chefes dos manicômios, de 1925, antecipando seus internamentos a partir de 1937. As Cartas de Rodez; “Loucura e magia negra” em Artaud o Momo; Van Gogh, o suicidado pela sociedade: “O que é um louco?” O reencontro de Breton e Artaud em 1946, do qual tratei em meu blog: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/

5. GERAÇÃO BEAT: A VALORIZAÇÃO DA LOUCURA:
JACK KEROUAC (1922-1969), no início de On the Road: “[…] porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaah!’” Dentre os vagabundos encontrados por Kerouac em On the Road, o “fantasma de Susquehanna”, que “caminhava direto pela estrada no sentido contrário ao tráfego e quase foi atropelado várias vezes”. Perdeu a orientação espacial e já não sabe mais para onde vai. A mística da marginalidade como manifesto em On the Road: “Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, não era música o suficiente.” Paráfrase do que Rimbaud escreveu sobre o “mau sangue” em Uma estadia no Inferno: “Sou um bicho, um negro. […] Falsos negros que sois, vós, maníacos, perversos, avaros. […]” (Rimbaud 1998, p. 141) A cosmovisão de Kerouac se traduz em reverência diante dos vagabundos errantes, e de índios, negros e integrantes de culturas arcaicas. Em Vanity of Duluoz, uma afirmação de princípios em favor do multiculturalismo: “[…] pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe”. Em On the Road, camponeses indígenas são adâmicos e universais: “Essas pessoas eram indubitavelmente índias e não tinham, absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços, eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela.” Em Vanity of Duluoz, a revelação ao ser internado em um hospício em 1942 e conhecer “Mississipi Gene”, vagabundo errante por opção, também citado em On the Road. O personagem perfeito de Kerouac, alguém ao mesmo tempo negro, louco, emigrante, apátrida e delinqüente: conjunto de qualidades representadas por seu companheiro na balsa de Dover a Calais em Viajante solitário.
ALLEN GINSBERG (1926-1997) e a relação íntima com a loucura. A internação em 1949, quando conheceu CARL SOLOMON, leitor de Artaud. A loucura de sua mãe. Uivo, dedicado a Solomon: os trechos relacionados ao internamento de Solomon, e a terceira parte do poema: “Eu estou com você em Rockland”. Em Kaddish, o relato da loucura da mãe. Uma poética da loucura em “Sobre a obra de Burroughs”: “Não escondam a loucura”. A relação com Peter Orlowski e seus irmãos, também loucos.Uma visão de mundo: tolerância, uma sociedade em que coubessem os loucos e os normais, uma superação da dualidade loucura-normalidade.

6. UMA QUESTÃO DE FUNDO: A DIFERENÇA ENTRE O AUTOR LOUCO E O TEXTO LOUCO.
Convergência de ambos em Gérard de Nerval, louco que escreveu como um louco. Autor louco cujo texto nada teve de louco: GUY DE MAUPASSANT (1850-1893), autor de Bel Ami e O Horla. Há, contudo, confusão de ambos pela crítica, atribuindo características do texto ao autor, ao se declarar a loucura em LAUTRÉAMONT (Isidore Ducasse, 1846-1870), como o fizeram Léon Bloy, Rémy de Gourmont e outros. Exemplifiquei a boa interpretação da loucura de um texto com ROBERTO CALASSO, em A literatura e os deuses, sobre Lautréamont: “Elucubrações de um serial killer”. Li a estrofe de Os cantos de Maldoror sobre a cabeleira de Falmer (“Toda noite”… etc), com o abuso das repetições.
Autor de um texto louco sobre a loucura: CAMPOS DE CARVALHO (1916-1998), em A Lua vem da Ásia. Autora louca, que passou boa parte da vida internada, MAURA LOPES CANÇADO (1929-1993), cujo texto ora é racional, analítico, mas com metáforas estranhas, em O Hospicio é Deus; ora é delirante ou com imagens surrealistas em O sofredor de ver (deveria ser mais lida). A propósito de Maura, o horror manicomial brasileiro.
Autores em que texto e loucura são antagônicos, entidades separadas: o prosador RENATO POMPEU. E especialmente a poeta ORIDES FONTELA (1940-1998), autora de Teia e Alba, entre outras obras. Poesia luminosa, concisa, o oposto da miséria em que vivia – li alguns de seus poemas. Relatei suas loucuras, e seu desapreço por surrealismo e escrita delirante.
Um texto louco, e a loucura como valor literário: ROBERTO PIVA (1937-2010), desde Paranóia (1963). Li trechos e exemplifiquei equívocos da crítica, com “O delírio não cria” de Luis Costa Lima sobre Paranóia, citando como delírio não criativo um trecho – “os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos secos enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembléias de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar asilo em tua face?” que é evidente paráfrase, de boa qualidade, de O poeta em Nova York de Federico García Lorca, que nunca foi louco mas escreveu algumas obras delirantes.
O encontro de Roberto Piva e Renato Pompeu promovido por Maria Rita Kehl, relatado em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ha-metodo-em-sua-loucura,579155,0.htm “Renato, o “verdadeiro” louco, relatou sua experiência manicomial com muita sobriedade e resistiu à sedução do Piva, que tentou o tempo todo levá-lo para seu campo, do elogio à loucura.” programa de rádio de Maria Rita foi repreendido por causa das exteriorizações de Piva.
Haverá uma síntese? Penso que sim, em HILDA HILST (1930-2004) em Amavisse, retomando o desregramento dos sentidos de Rimbaud: “Estendi-me ao lado da loucura/ Porque quis ouvir o vermelho do bronze/ […] Um louco permitiu que eu juntasse a sua luz/ À minha dura noite”. […] “E o que há de ser da minha troca de inventos/ Neste entardecer. E do ouro que sai/ da garganta dos loucos, o que há de ser?” […] “Minha sombra à minha frente desdobrada/ Sombra de sua própria sombra? Sim. Em sonhos via./ Prateado de guizos/ O louco sussurrava um refrão erudito:/ – Ipseidade, senhora. – / E enfeixando energia, cintilando/ Fez de nós dois um único indivíduo”.

O DEBATE AO FINAL: Especialmente importante Flávio Amoreira haver lembrado JOSÉ AGRIPINO DE PAULA, autor louco de obra delirante. E citar ligação de Hilda Hilst com a cidade de Santos.

Jack Kerouac e as políticas públicas de assistência a dependentes de drogas

Tristessa de Kerouac, narrativa breve (100 páginas na edição da L&PM Pocket), representa o melhor da sua prosa poética. Expressa de modo dramático sua visão de mundo. Ou melhor, do submundo: na Cidade do México, apaixona-se pela esquálida viciada em morfina Esperanza Villanueva, a Tristessa do título. Penetra no âmago da miséria – em sua visão, um absoluto: pessoas cuja vida se resume a esperar pela próxima dose alcançaram o nirvana. Budismo e sacralização da miséria na versão mais niilista. Registra tudo em uma escrita polifônica. Em companhia dessa gente, injeta-se com morfina para neutralizar seu alcoolismo. Acometido pela fome, sai pela cidade e vai devorando comidas repugnantes oferecidas em barraquinhas de rua.

Durante essa estada no México, também escreveu a maior parte dos 242 choruses de Mexico City Blues, poesia sublime. O vizinho de Kerouac, morador no mesmo prédio de paredes de adobe, é “Bull”, Bill Garver, parceiro de William Burroughs em roubar bêbados, furtar em restaurantes e traficar. Marginal culto, como descrito por Kerouac: “na cadeia, ele era sempre o bibliotecário, é um grande erudito, de muitas maneiras. Com um interesse maravilhoso por história e antropologia e tudo relacionado com a poesia simbolista francesa, acima de tudo Mallarmé”. Ao final do extenso Anjos da Desolação, há um lamento pela sua morte, tratando-o como mestre.

Citando Garver, Kerouac trata de assistência a drogados:

O problema dos viciados, abençoados os viciados em narcóticos, é conseguir a parada – Vêem recusas por todos os lados, estão permanentemente infelizes – “Se o governo me desse morfina o suficiente todos os dias, eu seria totalmente feliz e teria a maior disposição de trabalhar como enfermeiro em um hospital – Cheguei a mandar minhas idéias sobre o assunto para o governo, em uma carta em 1938 enviada de Lexington, na qual dizia que era possível resolver o problema dos narcóticos botando os viciados para trabalhar, com suas doses diárias, na limpeza do metrô, qualquer coisa, como qualquer outra pessoa doente – Como os alcoólatras, eles precisam de remédio –

Já citei esse trecho de Kerouac em palestras. Com  ressalvas. Colocar essa política pública em prática, acho que só em situação de pleno emprego – em caso contrário, não-dependentes estariam sendo preteridos. Prefiro a abordagem sociologicamente consistente de Ginsberg, já exposta neste blog, denunciando a proibição por originar o tráfico e, por decorrência, o quadro atual – assim antecipando as liberações parciais a exemplo de Colorado e do Uruguai.

Não obstante, quem diria, a proposta de Kerouac / Garver começa a ser executada pela Prefeitura de São Paulo. Hotel para moradores de rua, 4 horas de jornada de trabalho, 2 de requalificação profissional, tratamento para quem quiser. Avaliação seria prematura. Mas esvaziou um trecho da horrenda cracolândia – lugar que sugeri para visitação turística, com o guia dizendo: “Vejam. Este é o resultado das décadas de proibição das drogas”. É preferível às tentativas anteriores, de remoção à força. Investimento que compensa, pela redução da degradação. Acolher é abrir uma porta para a ressocialização. Ser tratado como gente é terapêutico. Que nenhum reaça venha interferir alegando superioridade do tratamento policial, declarando que lugar de usuário de drogas é a cadeia, ou algo assim.

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