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“Filme demência” de Carlos Reichenbach, com minha participação

A foto foi achada e publicada no Facebook pelo internauta Leonardo Chagas.

Aqui, o filme completo, disponível no meio digital. Já havia impressionado na época do lançamento. Ganhou com o tempo.

https://www.youtube.com/watch?v=KASIZoasyjc

A cena comigo é aos 28 minutos. Leio um poema de Jardins da Provocação no Bar Redondo, Avenida Ipiranga. Em 1985/86, época da realização do filme. Digo algo sobre geração beat, de um modo bem antecipatório. O Fausto que ele criou parece não gostar de mim ou do que digo. O Mefistófeles atualizado vem paquerar uma garota na minha mesa. Filmagem foi rápida: preciso, não refazia tomadas.

Carlão apreciava muito a beat. Para um filme subseqüente, Alma Corsária de 1993 (aquele lançamento de livro de poesia em um botequim, tão semelhante a outros em que estive ), pediu-me uma foto de Allen Ginsberg, ampliou-a e transformou em pôster no quarto do protagonista, um poeta.

Um filme anterior, Extremos do prazer, de 1984, passa-se em uma ilha, inspirada na casa de campo de um amigo nosso, o Irco, na Represa Billings – entra um personagem, anuncia: “olha, eu trouxe um livro bom para vocês lerem!”, era o Jardins da provocação.

Reparem que mais à frente, altura de 1h15, comparece um de seus tipos , o poeta-declamador Orlando Parolini – morreu em 1991, felizmente há bastante registros dele, mas a família destruiu seus originais de poesia, uma barbaridade.

Os episódios com trambiques empresarias – como isso é de hoje. Discípulo de Luiz Sérgio Person (cada vez em que assisto de novo a São Paulo S. A. gosto mais), também soube filmar esta metrópole – o crepúsculo em suas decadentes ferrovias, que cena linda. Isso, embora fosse especialmente fixado nas extensas praias do Litoral Sul de São Paulo. Contrastes o estimulavam: São Paulo e praias, centro e arrabaldes.

Vejam como o cigarro é uma constante em Filme demência. Personagens fumam e se comunicam através de cigarros. Consumidor de três maços por dia, no começo dos anos 2000 Carlão infartou, foi safenado, parou por um tempo, estava abstêmio quando o encontrei em Dois Córregos (cidade-tema de outro filme importante), mas voltou a fumar – resistiu até 2012.

A cena subseqüente àquela comigo, da palestra no auditório menor do MASP, certamente alusão ao “matei meu professor de lógica” de Campos de Carvalho. Devia ter-lhe perguntado.

“Inventário da Rapina” de Aloysio Raulino no Youtube: os poemas citados

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Conforme o que declarou e consta na ficha técnica do filme, um curta de 25’ de 1985, inspirou-se na leitura do meu Jardins da provocação. Leu meu livro e se pôs a filmar. O link é este: https://www.youtube.com/watch?v=S_wmzBC27qs&feature=share

Resolvi transcrever os poemas e trechos de poemas que ele reproduz no filme. A seguir. São de Jardins da Provocação e também estão em Estranhas experiências. Aloysio Raulino (1947-2013) morreu, infarto fulminante, ninguém esperava, durante a gravação de leituras de poesia no lançamento da antologia Poesia.Br, da editora Azougue (na qual estou). Dirigiu um longa muito bonito, Noites Paraguayas, vários curtas e médias, e atuou muito como fotógrafo. Foi um excêntrico muito estimado; pessoa boníssima, querido e respeitado pelos colegas de ofício.

Os poemas e trechos de poemas:

“Pelos 40 anos da morte de García Lorca”:

[….]

porque as pessoas não querem mais lembrar

e desistiram de falar

pois esta é a era do silêncio

silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos

silêncio vigiado e preso

silêncio de poeiras há pouco assentadas

pois todos estão mudos e perplexos

alguns mortos incomodam demais

e ninguém quer saber

ninguém quer ver

ninguém quer saber o que tem a ver

[….]

e acharam tudo muito bonito

gostaram demais dos textos

de fato, era um grande poeta

e ficou por isso mesmo

 

“O dia seguinte”

ajuda-me a desembrulhar esta cidade

e seus pacotes de percepção

guardados pelos dedos murchos do inverno

guardados pelos dedos murchos do inverno

encaminha estas cartas cifradas

e atravessadas na garganta

pronuncia as senhas

e nomeia os afogados

mostra o sentido vertical

e horizontal da vida

revela o que está oculto

por trás da turva sombra:

sinal dos tempos luminoso e precoce

clarão de aproximações

poeira de maremotos

correspondência fatal

de relógios transparentes

e bilhetes de chegada

 

“Viagens 3”

[…]

sinto-me no Brasil

sei que estou na minha terra

não o país amordaçado e sangrado

dos vômitos alaranjados

e bandolins cegos da repressão

não o país das fantasias de poder

(ampola de bismuto escrachada sobre a face do planeta

e gosma paranóica escorrendo de todos os jornais)

não o país torturado                          esmagado e prostituído

suas noites encarceradas em cofres-fortes

e posto à venda a preços de ocasião

não este país fantasmagórico

que se quer presente o tempo todo

e tenta invadir até mesmo nosso sono

porém outro país

redescoberto agora                           mais uma vez

neste encontro dos nossos olhares

outro país

que ainda lateja

sob o tapete trêmulo do Terceiro Mundo

[…]