Posts Tagged ‘Literatura e Drogas’

Alguma contribuição ao debate sobre “drogas”?

Normalmente, deixo passar mais algum tempo antes de postar ensaios já publicados no Academia.edu. Mas não resisti, por causa do retorno do tema– ou do debate sobre o tema, ou tanto faz. A propósito do exame de alguma descriminalização pelo Supremo e das conseqüentes manifestações, mais ou menos interessantes, mais sensatas ou insensatas, pertinentes ou extemporâneas. Este artigo:

https://www.academia.edu/15657655/A_cria%C3%A7%C3%A3o_po%C3%A9tica_e_algumas_drogas

É sobre criação poética e também em artes visuais – acho que consegui ser original – e toca apenas de raspão, tangencialmente, em seu status jurídico.

Pretendo retornar ao assunto. Desde já, como eu aprecio as palavras, gostaria que fossem bem tratadas por quem as usa. Por isso, declaro-me consternado por haver pessoas que defendem a necessidade da manutenção da “proibição” de drogas, ao mesmo tempo em que essas são vendidas em sistema de feira livre, transformando a vida dos moradores do trecho da Rua Peixoto Gomide entre as ruas Augusta e Frei Caneca em um inferno, além de outros lugares de São Paulo. Por exemplo, os calçadões do centro, pontos de encontro de alegres cocainômanos e maconheiros à noite. Assim como em outras metrópoles brasileiras, cidades, cidadezinhas e até povoados.

Uma sugestão: passeios turísticos que incluam a cracolândia. Chegando lá, o guia apontará o amontoado e exclamará: “Vejam! O resultado de algumas décadas de combate às drogas!”

 

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O livro ‘Ásperos perfumes’, com meu ensaio sobre criação poética e algumas drogas

Asperos Perfumes Capa

“A criação poética e algumas drogas”, ensaio em Ásperos perfumes, organizado por Fábio Ferreira de Almeida, Goiânia: Edições Ricochete, 2015. É o texto apresentado em palestra do IX Colóquio de Filosofia e Literatura, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, maio de 2014.

Meu exame mais detalhado do tema. As comparações entre o que aconteceu com Baudelaire e Ginsberg, o paralelo dos Lake Poets, Jeune France e beats, acho que adicionei e desta vez consegui publicar um ensaio bom.

A coletânea toda é substanciosa, informativa e provocativa. Já está disponível pelo site da editora, www.edicoes-ricochete.com e Estante Virtual. Deverá pousar também em livrarias. É o mesmo organizador e mesma editora de Tempo de Lautréamont, onde saiu meu “Lautréamont, leitor de Baudelaire”, ano passado.

Veja o índice de Ásperos perfumes e digam se não dá vontade de ler tudo:

Sumário

 Apresentação

Fábio Ferreira de Almeida

 

A criação poética e algumas drogas

Claudio Willer

 

A flor de Coleridge

O culto romântico do sonho e o ópio

Alípio Correia de Franca Neto

 

Hiperfísica da dor

Ana Chiara

 

O drogado quer gozar?

Devir e corpo-drogado

Daniel Lins

 

Literatura, o álcool, a obra

José Ternes

Palestra “A criação poética e algumas drogas” em Goiânia

Será dia 16 de maio, às 10 da manhã.
Local, o Centro Cultural UFG (Universidade Federal de Goiás) à Praça Universitária, 1533, Setor Universitário (ao lado da Caso do Estudante).
Faz parte do IX Colóquio de Filosofia e Literatura, coordenado por Fábio Ferreira.
Há várias outras palestras de interesse – programação do Colóquio é substanciosa.
Também será lançada Tempo de Lautréamont (Edições Ricochete, 2014), coletânea das conferências proferidas durante o VIII Colóquio de Filosofia e Literatura, dedicado a Lautréamont, inclusive meu “Lautréamont, leitor de Baudelaire”.
Palestra prossegue o que já apresentei aqui:
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/08/20/palestra-drogas-e-literatura-minha-sinopse/
A seguir, programa do evento. Agradeço retransmitirem para interessados em Goiânia e região.
PROGRAMA COLÓQUIO 2014

Jack Kerouac e as políticas públicas de assistência a dependentes de drogas

Tristessa de Kerouac, narrativa breve (100 páginas na edição da L&PM Pocket), representa o melhor da sua prosa poética. Expressa de modo dramático sua visão de mundo. Ou melhor, do submundo: na Cidade do México, apaixona-se pela esquálida viciada em morfina Esperanza Villanueva, a Tristessa do título. Penetra no âmago da miséria – em sua visão, um absoluto: pessoas cuja vida se resume a esperar pela próxima dose alcançaram o nirvana. Budismo e sacralização da miséria na versão mais niilista. Registra tudo em uma escrita polifônica. Em companhia dessa gente, injeta-se com morfina para neutralizar seu alcoolismo. Acometido pela fome, sai pela cidade e vai devorando comidas repugnantes oferecidas em barraquinhas de rua.

Durante essa estada no México, também escreveu a maior parte dos 242 choruses de Mexico City Blues, poesia sublime. O vizinho de Kerouac, morador no mesmo prédio de paredes de adobe, é “Bull”, Bill Garver, parceiro de William Burroughs em roubar bêbados, furtar em restaurantes e traficar. Marginal culto, como descrito por Kerouac: “na cadeia, ele era sempre o bibliotecário, é um grande erudito, de muitas maneiras. Com um interesse maravilhoso por história e antropologia e tudo relacionado com a poesia simbolista francesa, acima de tudo Mallarmé”. Ao final do extenso Anjos da Desolação, há um lamento pela sua morte, tratando-o como mestre.

Citando Garver, Kerouac trata de assistência a drogados:

O problema dos viciados, abençoados os viciados em narcóticos, é conseguir a parada – Vêem recusas por todos os lados, estão permanentemente infelizes – “Se o governo me desse morfina o suficiente todos os dias, eu seria totalmente feliz e teria a maior disposição de trabalhar como enfermeiro em um hospital – Cheguei a mandar minhas idéias sobre o assunto para o governo, em uma carta em 1938 enviada de Lexington, na qual dizia que era possível resolver o problema dos narcóticos botando os viciados para trabalhar, com suas doses diárias, na limpeza do metrô, qualquer coisa, como qualquer outra pessoa doente – Como os alcoólatras, eles precisam de remédio –

Já citei esse trecho de Kerouac em palestras. Com  ressalvas. Colocar essa política pública em prática, acho que só em situação de pleno emprego – em caso contrário, não-dependentes estariam sendo preteridos. Prefiro a abordagem sociologicamente consistente de Ginsberg, já exposta neste blog, denunciando a proibição por originar o tráfico e, por decorrência, o quadro atual – assim antecipando as liberações parciais a exemplo de Colorado e do Uruguai.

Não obstante, quem diria, a proposta de Kerouac / Garver começa a ser executada pela Prefeitura de São Paulo. Hotel para moradores de rua, 4 horas de jornada de trabalho, 2 de requalificação profissional, tratamento para quem quiser. Avaliação seria prematura. Mas esvaziou um trecho da horrenda cracolândia – lugar que sugeri para visitação turística, com o guia dizendo: “Vejam. Este é o resultado das décadas de proibição das drogas”. É preferível às tentativas anteriores, de remoção à força. Investimento que compensa, pela redução da degradação. Acolher é abrir uma porta para a ressocialização. Ser tratado como gente é terapêutico. Que nenhum reaça venha interferir alegando superioridade do tratamento policial, declarando que lugar de usuário de drogas é a cadeia, ou algo assim.

Em tempo: este blog já tem 236 assinantes. Agradeço aos que colaboram para alcançar a meta de 14.736 assinantes ou “seguidores” – também podem ser 14.311 ou algo assim.

Vídeo da palestra sobre Drogas e Literatura

Chegou, enviado por Julio Delmanto do coletivo DAR. Foi a 20 de agosto, no auditório da Faculdade de enfermagem. Achei que ficou bom, audível, gravação de qualidade. São dois segmentos, totalizando mais de uma hora e meia. Abertura do segundo segmento está divertida, eu dizendo com ênfase: O HOTEL PIMODAN…! E fazendo algumas ironias. Identifico-me com aquela turma – e outras. O final, vejam / ouçam, as boas observações de Octavio Paz: drogas contrapostas à moral do trabalho.

http://coletivodar.org/2013/11/drogas-e-literatura-videos-de-palestra-da-claudio-willer/

Próximo passo – transformar em artigo. Ou ampliar e dar curso. Ou ambos, entre outras coisas.

O anúncio da palestra, relatando sua gênese:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/08/12/darei-palestra-sobre-drogas-e-literatura/

A sinopse, com os tópicos que examinei:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/08/20/palestra-drogas-e-literatura-minha-sinopse/

Palestra: Drogas e literatura – minha sinopse

Desta vez, preferi digitar tópicos da palestra, em vez de anotar no caderno. Como está digitado, resolvi postar. Serve como guia para quem assistiu á palestra; e para quem não pôde vir, também, acho.

Nota postada no dia seguinte: consegui cobrir todos esses tópicos – mas, decididamente, dariam assunto para série de três palestras, no mínimo. Gostei do debate ao final, com os comentários sobre Walter Benjamin, que deveria ter examinado, e sociologia de boa qualidade. E psicologia, a questão de onde pega, em qual esfera: afetiva ou cognitiva? A meu ver, principalmente na linguagem, na esfera simbólica, constitutiva das demais. A idéia da consciência como “palimpsesto” em De Quincey e Baudelaire: como foram precursores.

Para Alberto Marsicano, in memoriam

1)      “Hino à beleza” de Baudelaire: antinomias, ambivalência – a experiência da ‘droga’;

2)      O tema:

  1. inventário, quem tomou o que (por exemplo, a droga e os poetas vitorianos)
  2. a droga presente na criação – p. ex. Kubla Khan de Coleridge
  3. os relatos dos efeitos da droga: De Quincey, Gautier
  4. a droga, constitutiva de uma poética ou uma estética: Baudelaire, Ginsberg, Henri Michaux, Octavio Paz

3)      Pistas beat, 1: Ginsberg, na entrevista da Paris Review – poetas do lago, Lake Poets: William Woordsworth, Robert Southey, Samuel Coleridge, Thomas de Quincey; o espantoso dr. Humphry Davy.

4)      Thomas de Quincey, figura colossal – a notícia sobre ele por Breton – informação biográfica. Confissões: os prazeres do ópio, os sofrimentos do ópio – as alucinações, o malaio etc; Piranesi; possível paralelo com Naked Lunch, Almoço nu, de Burroughs.

5)      Pistas beat, 2: The Beat Hotel de Barry Miles: o Impasse Doyenné, os Jeune France, os bouzingots (vem do inglês booze segundo o Hachette): Gérard de Nerval, Théophile Gautier; Pétrus Borel, Xavier Forneret, Charles Nodier; Charles Asselineau (notícia sobre eles por Breton) – originam o grupo do Hotel Pimodan: entra em cena Baudelaire.

6)      Baudelaire: Os paraísos artificiais: significado do título; a descrição das percepções e estados; “nostalgia do infinito”; comentários e transcrições de De Quincey, um texto solidário; a natureza ambivalente do haxixe, a descrição dos efeitos; principalmente, a percepção das correspondências e harmonias, base de sua poética e da sua estética;

7)      ler o poema “Correspondências”; os trechos de Salão de 1846;

8)      La mystique de Baudelaire de Jean Pommier (de 1924… – a inutilidade de Letras e teoria literária….): estabelece a relação de correspondências com: haxixe; esoterismo; filosofia; literatura romântica (comentar que Paul Valéry não entendeu nada, ou entendeu Baudelaire ao contrário?) – corroborado por biógrafos como Pichois;

9)      Geração seguinte: Rimbaud e os “assassinos”. haxixim; “decadentistas”; absinto – tema da droga torna-se demais, sobra;

10)  Artaud vs Aragon e Breton. Sua defesa do ópio.

11)  Geração beat: o tema sobra. ‘Drogas’ passam a ter um novo sentido: a “nova consciência”. (selecionando): Kerouac em Tristessa, solidário com os drogados; Burroughs e seus inventários em Junky: seu relativismo, o além-drogas e os cut-up.

12)  Ginsberg 1: o desregrado, místico e profeta; a politização do tema, a denúncia da proibição como origem do tráfico e do crime organizado em Allen Verbatim; perseguição à assistência médica a viciados e outras barbaridades; seu combate à hipocrisia;

13)  Ginsberg 2: alucinógenos na gênese da sua poética; os petits riens de Cézanne, paralelo com a imagem poética surrealista; como Ginsberg refez a experiência de Baudelaire em Paraísos artificiais.

14)  Henri Michaux: Miserable mirâcle, L’infini turbulent, Conaissance par les gouffres. Michaux já era assim, escrevia desse modo, antes de tomar mescalina.

15)  Os brilhantes comentários de Octavio Paz sobre mescalina, Michaux e o restante, drogas incomodan às sociedades fundadas na moral do trabalho, paralelos com misticismo etc, em Corriente alterna .

Darei palestra sobre Drogas e Literatura

Data: dia 20 de agosto, terça-feira. Horário: Às 19 h.

Local: auditório da Escola de Enfermagem, USP.

Endereço: Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar , n. 419, Metrô Clínicas – sim, é aquela rua dos prédios do Hospital das Clínicas, paralela à Dr. Arnaldo

Organização: Coletivo DAR (Desentorpeça a Razão) e GEDS (Grupo de Estudos Drogas e Sociedade)

Em: http://coletivodar.org/2013/08/terca-208-palestra-drogas-e-literatura-com-claudio-willer/

Ou: https://www.facebook.com/events/199026053592931/?context=create

Cartaz ficou uma beleza, sugestivo. Não cola neste blog, seguirá por e-mail.

A gênese dessa palestra é interessante. Em 2011, pouco depois de abrir este blog, havia-me manifestado sobre a proibição da “marcha da maconha”. Declarei-me à disposição para dar palestra sobre esse tema. Aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2011/05/21/blog-como-tribuna-livre/

Organizadores viram. E me convidaram.

Claro que meu tratamentos será especificamente literário. Poético, melhor dizendo. Do romantismo até contemporâneos. Algo já foi ouvido em meu último curso de Geração Beat, ano passado: o paralelo entre os Paraísos Artificiais de Baudelaire e a gênese de sua crítica de arte, e os relatos de Ginsberg sobre ver quadros de Cézanne e desenvolver uma poética. Acrescentarei – desde os Poetas do Lago até Henri Michaux. Palestra será longa – uma hora e quarenta e três minutos (aproximadamente). Temas uruguaios, tratarei tangencialmente – mesmo porque Ginsberg já havia aberto nessa direção, em 1971. Depoimento, se insistirem, no debate.

Problema não será a falta de assunto.

Venham.

Na véspera, estarei tratando de García Lorca (que mês prolífico – Baudelaire, Kerouac, Lorca, drogas, Buñuel…). Também noticiarei. Tudo.