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Falarei novamente sobre Manoel de Barros

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QUANDO: esta sexta feira, dia 18 de setembro, às 20 h.

ONDE: no Teatro do Incêndio, à Rua 13 de Maio 53

A palestra faz parte do ciclo Pensar o Brasil, já noticiado aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2015/07/27/pensar-o-brasil-poesia-reflexao-e-criacao-palestras-no-teatro-do-incendio/

Preferi mudar a sequência programada, por uma questão de continuidade com palestras anteriores que trataram de índios, um tema forte também na poesia de Manoel de Barros.

Há um ensaio meu sobre ele que é o mais acessado dos que postei no Academia.edu. Este: https://www.academia.edu/4676460/Manoel_de_Barros_novo

Mas não pretendo repeti-lo. Tratarei, principalmente, do pensamento analógico, da idéia que a analogia rege a natureza, examinando especialmente as prosas poéticas em Gramática expositiva do chão.

Venham. Apreciarão.

Manoel de Barros – 1916-2014

Manoel de BarrosManoel de Barros foi, declaradamente, surrealista, conforme suas poucas entrevistas. A meu ver, um grande surrealista brasileiro. Em meu artigo e na palestra que dei sobre ele em Campo Grande, ano passado, procurei mostrar como em sua poesia se encontram o regional e o universal. Um poeta do Pantanal, interlocutor de índios e caboclos, e um leitor de Baudelaire, Rimbaud e o que se seguiu. Por isso, as comparações com Octavio Paz, Herberto Helder e Radovan Ivsic. Este artigo:
https://www.academia.edu/4676460/Manoel_de_Barros_novo
Quantidade de acessos à página no Academia.edu– 455 até a divulgação da sua morte, agora são mais, pois reproduzi o link no Facebook – mostra, evidentemente, interesse por sua poesia; e também que a bibliografia sobre ele ainda é pequena: por isso, leitores que fazem pesquisa pelo Google acabam deparando-se com meu texto.
Um episódio engraçado: de volta de Campo Grande, no dia seguinte, fui, conferencista convidado, a uma celebração do Dia do Livro na Câmara Municipal de uma localidade próxima. Precedeu-me um orador da Sociedade Bíblica, que recitou o “No princípio era o verbo” do apóstolo evangelista. Imediatamente, repiquei com o “No descomeço era o delírio” de Manoel de Barros – este poema, que a seguir li na Casa das Rosas:
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/10/03/manoel-de-barros/
Ótimo haver a edição da poesia completa dele pela Leya. Contudo, sinto falta de uma edição crítica, com notas, inclusive dando variantes e circunstâncias dos poemas, um bom resumo biográfico, apoio crítico. Beneficiará pesquisadores e o número crescente de leitores.
Ainda quero dizer e escrever algo sobre “Gramática expositiva do chão” – para mim, aula de pensamento analógico e um ponto alto da poesia em prosa no Brasil. Aqui, uma espécie de ‘suite’ do meu artigo, alguns tópicos ainda a serem desenvolvidos.
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/10/04/manoel-de-barros-mais/
Naqueles encontros de poesia de 1996-97 da Secretaria Municipal de Cultura, trouxemos Manoel de Barros. Sessão foi na biblioteca de Vila Mariana. Conferencistas foram Berta Waldman e José Geraldo Couto. Graça Berman fez leitura de poemas. Manoel não falava em público, como sabem. Apenas assistiu, impassível. Mas, encerrada a sessão, ficou conversando animadamente com o público, formou-se uma rodinha a seu redor e a sessão se estendeu por mais 40 minutos. Sorte de quem foi. Um perpétuo lamento por, naquela época, não dispormos da tecnologia atual, da facilidade para gravar e divulgar essas ocasiões.
Em tempo: link da entrevista dele a José Geraldo Couto na Folha de São Paulo, em 1993, na qual se declara surrealista: http://acervo.folha.com.br/fsp/1993/11/14/72/4849640

Manoel de Barros, mais

Postagens de poesia neste blog resultarem em várias centenas de acessos, isso aumenta minha confiança nas chances da espécie humana (é um dos meus bordões prediletos, uso também em eventos de poesia com um bom público)

Meu artigo sobre Manoel de Barros: como os anais do encontro literário no qual foi publicado têm circulação restrita, resolvi publicá-lo também no Acadermia.edu. Está em http://www.academia.edu/4676460/Manoel_de_Barros_novo – ou http://independent.academia.edu/ClaudioWiller

Adiciono. No artigo fiz uma comparação de Herberto Helder e Manoel de Barros a propósito de repetições:

Helder, um contemporâneo português, tem uma série de poemas chamada “Lugar Último”, em que desafia todas as regras do bem escrever. Faz o oposto da escrita instrumental, exibe aquilo que seria a escrita mais errada possível, mas ao mesmo tempo fortemente poética. Por exemplo:

        e agora

         o meu amor é puro puro louco louco.

          E o que dorme dorme

          do que é forte.

Ele quebrou a lógica, “o que dorme dorme do que é forte”, e fica repetindo a mesma palavra. Ou então:

         […] e Deus

         fale de em mim no puro alto da carne.

          E uma onda e outra onda e outra e outra

          e outra

          onda e onda”

É estimulante. Vejamos a imaginária resposta de Manoel de Barros, não sei se ele lê Herberto Helder, ou vice versa, mas vejam o que responde Manoel de Barros: “repetir, repetir até ficar diferente; repetir é um dom de estilo” Essa ideia de que poesia é metalinguagem, de que todo poema expressa ou manifesta uma poética, acho que acabei de exemplificar agora ao colar esse trecho de Manoel de Barros sobre Herberto Helder. Um repete e o outro diz: o negócio é repetir. São as escritas do avesso, que restituem à palavra sua identidade.

Pois bem: depois de entregar o artigo, lembrei-me de um trecho de Quatro quartetos de T. S. Eliot: “Tu dirás que estou a repetir / Algo que já disse antes. Di-lo-ei de novo. / Di-lo-ei de novo?”. Em seguida, aquela quase transcrição de San Juan de la Cruz,

     Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás,

            Deves seguir por um caminho onde não há êxtase,

    Para chegares ao que não sabes

            Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.

     Para possuíres o que não possuis

            Deves seguir por um caminho da despossessão.

      Para chegares ao que não és

            Deves seguir por um caminho onde não estás.

        E o que não sabes é a única coisa que sabes

        E o que possuis é o que não possuis

        E onde estás é onde não estás.

Ironia, ao mencionar o repetir-se, para em seguida transcrever outro poeta. Gênio.

Adiciono mais – o trecho sobre Manoel de Barros do meu artigo sobre poetas da natureza que saiu na revista Celuzlose:

Ainda a propósito de surrealistas, ou dos poetas brasileiros com maior afinidade com o surrealismo, o pensamento analógico e a sacralização do natural reaparecem em Manoel de Barros. É um poeta do microcosmo, das pequenas coisas. E, assim como os místicos, herméticos e neo-platônicos, enxerga o universo em cada coisa; o alto no baixo, o maior no menor. Outro poeta com relação ao qual “Correspondências” de Baudelaire serve como paradigma.

Por exemplo, em O Guardador de Águas:

[…]

Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.

Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.

Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a

fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.

Quando a rã de cor palha está para ter – ela espicha os

olhinhos para Deus.

De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem

o rumo das grotas.

Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica – como andar de costas. (idem, p. 253)

E, de modo quase expositivo, didático, também desdobrando ou multiplicando correspondências, em O livro das ignorãças, na parte intitulada “Mundo pequeno”:

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos. (idem, p 315)

Manoel de Barros

Dois autores brasileiros aos quais sinto que devo pesquisas e ensaios: Campos de Carvalho e Manoel de Barros. Sobre Campos de Carvalho, disse algo em um curso sobre poesia e prosa, este ano. Sobre Manoel de Barros, acabou de sair artigo: “O valor literário: Manoel de Barros”, Anais do 1º Encontro Estadual de Literatura em Mato Grosso do Sul, Samuel  Xavier Medeiros, org., Campo Grande: União Brasileira de Escritores.

A seguir, algo de sua poesia. O primeiro dos poemas, li e sugeri como epígrafe das quintas-feiras poéticas de Paulo Sposati Ortiz na Casa das Rosas, em uma sessão sobre “oficineiros willerianos”, em julho deste ano.

 

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio

Respeito as oralidades

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumar das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.”

O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que 

primeiro em água e luz. Depois árvore. Depois 

lagartixas. Apareceu um homem na beira do rio. 

Apareceu uma ave na beira do rio. Apareceu a

concha. E o mar estava na concha. A pedra foi 

descoberta por um índio. O índio fez fósforo da 

pedra e inventou o fogo pra gente fazer bóia. Um 

menino escutava o verme de uma planta, que era 

pardo. Sonhava-se muito com pererecas e com 

mulheres. As moscas davam flor em Março. Depois 

encontramos com a alma da chuva que vinha do lado 

da Bolívia – e demos no pé. 

(Rogaciano era índio guató e me contou essa cosmologia).

Manoel de Barros, assim como muitos outros poetas é um fingidor (como dizia Fernando Pessoa). Finge-se de ingênuo, uma vez ou outra; enorme conhecedor da poesia como é, percebemos que estamos diante de um erudito, um erudito literário que dialoga com Baudelaire, Rimbaud, Homero e os clássicos, ao mesmo tempo em que dialoga com o índio guató a que ele se refere, bem como a todos aqueles marginais, aqueles andarilhos de beira de estrada que ele traz para seus textos e que também são reais.

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrou um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam. (p. 340)

Vejam que belo exemplo de metalinguagem, as antíteses congraçam.