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Enrique Molina, Vicente Huidobro, Dolfi Trost: novidades no Brasil

Por uma editora alternativa, a Sol Negro de Márcio Simões. Edições artesanais, numeradas. Podem ser adquiridos em solnegroeditora.blogspot.com.br

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O surrealista Enrique Molina é um dos meus prediletos. Representa a grande poesia argentina do século 20, junto com a alucinante Alejandra Pizarnik (quando teremos uma boa edição brasileira dela?), Aldo Pellegrini, Julio Llinás, Francisco Madariaga e Oliverio Girondo. Impressiona-me seu fluxo de imagens, do qual transcrevo a seguir um exemplo, “Mercado”, um dos poemas deste Costumes Errantes ou A Redondeza da Terra, traduzido por Floriano Martins, que organizou e prefaciou.

Vicente Huidobro é enorme. Sua obra não se resume a Altazor, paráfrase do hermetismo e um dos grandes livros de poesia do século 20. Tremor do céu é prosa poética “caminhando sobre o fogo das idéias e conceitos”, como observa Floriano Martins, que prefacia e traduz. Abre com um dos manifestos do criacionismo, “A poesia”, sobre a significação mágica da linguagem, “a única que nos interessa.” Huidobro completa o grande trio de vanguardistas hispano-americanos, com o também chileno Pablo Neruda e o peruano Cesar Vallejo (completa? inicia, penso). Há chilenos que não partilham essa opinião: acham-no demasiado europeu (viveu na Europa, escreveu parte de sua obra em francês). Quero ler uma biografia de Huidobro. Que aventureiro paranóico. Comunista roxo, reivindicou títulos de nobreza; esteve nos fronts da guerra civil espanhola e da segunda guerra mundial; foi seqüestrado e espancado; protagonizou um duelo; polemizou com meio mundo, Neruda, Reverdy, surrealistas, disparando acusações de plágio. Poeta-personagem, intenso.

Uma excelente surpresa, o surrealista romeno Dolfi Trost. Não conhecia. Imagens fosforescentes foi preparado por Alcebiades Diniz Miguel, um especialista no assunto achado por Márcio Simões. Traduz, contextualiza, informa sobre o autor desta narrativa onírica, característica de um leitor de Raymond Roussel. Alcebiades também trata do surrealismo romeno de Gherasim Luca, Paulo Paün, Gelli Naum e Virgil Teodorescu. Edição que soma informação à fruição poética.

Macio Simões é um editor que não descansa. Envia também o volumoso e original )poemaIrio( de Eli de Araújo, reunião de cinco de seus livros. A ser comentado.

Antes de mostrar um dos poemas de Enrique Molina, duas palavras sobre o que, eufemisticamente, poderia ser chamado de “mercado editorial” no Brasil, neste momento. Isto, postei no Facebook:

“Soube de livraria – grande rede – ameaçando incinerar livros (bons) se editor não pagasse o custo da remessa de volta da consignação. Aqui, alguns – muitos? – encaram doação como concorrência e não como estímulo e formação de novos leitores. Por essa e outras que alguns editores só operam por venda pelo próprio site.”

E isto, já havia postado aqui, neste blog, junto com a chamada para o lançamento do meu A verdadeira história do século 20:

“ … recentemente, ao dar palestra fora de São Paulo sobre Geração Beat, nenhum dos meus livros a respeito estava disponível em livrarias locais. Isso, pelo simples e raso motivo de que essas livrarias locais deviam acertos de consignações para minha editora, impossibilitando colocar novos exemplares. Então, PARA MIM CHEGA.”

Aos alternativos, portanto. Através dos quais sai o que já recomendei a editores, sem resultado –a importante coletânea de Gregory Corso por Márcio Simões, agora publicada pela Nephelibata, ou Liberdade ou o amor! de Robert Desnos, traduzido por Eclair Antonio Almeida Filho e Odulia Capelo, idem pela Nephelibata, ou nada menos que Connaissance par les gouffres de Henri Michaux, sem que ninguém se tocasse… Etc.

ENRIQUE MOLINA

MERCADO

Música das colinas áridas

Em cujo som o vento permuta

Pedras por resinas de prata

Areia por legumes cálidos

Solidão por grãos ansiosos

Mantas por borboletas de asas ardentes como a cobiça

Tesouros errantes postos ao acaso da festa

Cujos chapéus de fogo protegem da sombra

Nos pátios abertos como a ferida eterna do desconhecido

Oculta por cabeças de leão e espelhos que lampejam

No sangue das estações

 

Oh estes grandes fogaréus sólidos plantados sobre pedras!

Estas caixas de luxúria estas presas de flancos devorados pela folhagem do sol!

Estas escadarias de saque!

Estas fúrias nascidas nos mais altos êxodos do ano!

Estes cueiros e avelórios e serpentes e ferros e cobertores e tinturas e sacos e comidas e cóleras!

Destilando o obscuro veneno da terra

As fórmulas mais puras do desejo

Que tão somente interroga o vagabundo de olhar tristíssimo

Sempre na beira da alma

Sempre molhando com seu sangue instantâneo as fauces do oráculo

O homem do coração às cegas

Sentindo desabar enquanto passa o poder de um país decapitado

Cuja enorme cabeça deslumbrante rola a seus pés

Com o negro estrondo da distância

 

Novidade editorial: Ivan Goll pela Sol Negro

Já havia comentado aqui as refinadas publicações da Sol Negro Edições de Natal, RN, de Márcio Simões, a propósito de III novelas exemplares & 20 poemas intransigentes de Hans Arp e Vicente Huidobro, preparada por Floriano Martins. Também mencionei, da mesma editora, a bela tradução de Visões das filhas de Albion de William Blake por Simões e uma série de poemas em prosa por Viviane de Santana Paulo e Floriano Martins.

São tiragens limitadas de exemplares numerados; podem ser encomendadas à editora através de sua página de internet, solnegroeditora.blogspot.com.br.

Agora, Simões publicou uma coletânea de poemas de Yvan Goll, O fruto de Saturno, também com tradução dele. É bilíngüe: vem com o original em inglês e introdução de Nan Watkins.

Cobre lacunas culturais.

Yvan Goll (1891-1950), franco-alemão (publicou nas duas línguas), judeu que se refugiou nos Estados Unidos, é nota de rodapé em histórias da literatura por haver publico um Manifesto do surrealismo em 1924 (também reproduzido nesta edição). Motivou Breton a fazer o seu, muito mais substancioso. O manifesto de Goll é episódico: comete o erro de reclamar por causa da adoção de Freud por Breton e seus companheiros: justamente uma das suas contribuições importantes, ao ampliar o campo da poética. Ademais, já se declaravam surrealistas desde 1921.

A leitura deste O fruto de Saturno de Goll mostra um poeta original; e, principalmente, um esoterista: mais um para o rico capítulo das relações entre poesia e as disciplinas herméticas. (nesse registro, da convergência de esoterismo e poesia, aposto que um dos próximos editados por Simões será René Daumal)

Selecionei alguns poemas de O fruto de Saturno:

ELEGIA DO ÁTOMO
a Lukas Foss
I

Assim a centelha prometeica retorna
À sua fonte desfeita

Nos pomares de pechblenda nasceu o fruto sagrado
Doce átomo cindido em seu centro fetal
No gêmeo nascer-morrer do destino

A alta voltagem da ira
Fez a pedra correr como óleo
O aço ferver até o vapor
Deidade atômica
Bombardeia meu coração à vontade
Com os nêutrons de tua verdade
Transforma meus olhos em estrelas amarelas de nitrato
Aceito secretamente com a sabedoria da pomba
Minha morte e ressurreição

II

O raio dos raios estilhaça minha alma insana
E me alimenta de energia desumana

Oh nova natividade no berço proteico
Oh festival da morte para as coxas feridas e fatigadas da terra
Libertando o amor concêntrico

A Árvore da Ciência florescendo à Saturno
Acrescenta à trindade real

Rosa espiritual de séculos passados
Roda mestra do mundo das rodas
Era luz essa rosa

Era redonda
Como a rosa do universo
Como meu olho onde todos os olhos se escondem
Redonda como o orvalho
Redonda como minha cabeça
Onde as estrelas de milhões de átomos amadurecem

III

No começo era o verbo
No começo era o número

O verbo: essência primeva da qual
Em sete mil noites de labores
O Cabalista compôs os 70 nomes de Deus

O verbo: Guia dos Perplexos
Vindo do carvão da memória

O elemento dos elementos
Despejado na forja mental

Oh ao som da música de estrelas minguantes
E do delírio de sinos prenhes
Saídos de meus sonhos algébricos
E medos muito mais velhos
Dança: meu átomo amado
Carnotita transfigurada

IV

A Vestimenta Divina cobria minhas coxas acariciadas
Junto às bestas sagradas e aos anjos enlouquecidos

E os 10 números oriundos da testa de Adão
A fruta esférica da Sephiroth
Tornaram-se os emblemas de sua coroa

A cifra: berço da esfinge
Memorial de auroras pré-natais

Depois do tripé de Delfos e do domo das catedrais
Das harmonias rodopiantes de Pitágoras
Depois da pira de Bruno e do tempo de Einstein

Conduzindo a roda
O 10 novamente no doce urânio 235
O raio sete vezes colorido
Surgindo do Si-Mesmo moribundo
O Infinito violentado em Alamogordo

V

Substância e Emanação Única: Ibn Arabi
Deus em Nós Nós em Deus: Santa Teresa
Um em Tudo Tudo em Um: Zósimo
A rocha anciã da contemplação
Extraída agora com a energia de edelvais

Molécula amada
Lançada do passado ao futuro
Pela minha alma

O globo de gás azul sobre meu crânio
Subitamente vazio
Vazio como um átomo-arrebite enferrujado
Carregando o cadáver de Deus

E o homem solitário solitário