Posts Tagged ‘Massao Ohno’

Massao Ohno e o Japão – e outros tópicos, inclusive algo sobre a relação de criação e vida, biografia e obra

livro-os-japoneses-no-brasil-editor-massao-ohno-14599-MLB3237456606_102012-O

Chamavam-no de “Japonês”, “Japa”, “Editor Zen”, “Samurai”. Todas essas designações foram procedentes. Conforme relatou na extensa entrevista à Biblioteca Mário de Andrade, vinha de uma família tradicionalista e passou a expressar-se em português só aos 7 anos de idade. Se língua é cultura, ou vice-versa, o vínculo de Massao com o Japão é inequívoco. Atestado por sua colaboração com o Instituto Brasil-Japão (absurdo terem tirado o corpo fora e não colaborarem com o recente documentário Massao Ohno – poesia presente de Paola Prestes) e publicações de autores e temas japoneses (a ilustração deste post é do livro Os japoneses no Brasil, preparado por ele), além dos que convocou para ilustrar sua produção editorial, como João Suzuki e Manabu Mabe.

Contudo, a família provinha da ilha de Hokkaido, ao norte. Eram de origem ainu, etnia minoritária, caucasiana. E mais: judeu, contou-me certa vez (a propósito do meu pai, a quem conhecia e apreciava), de uma antiga comunidade judaica lá estabelecida há séculos. Exceção da exceção, minoria da minoria.

O adendo é para corrigir a visão do Japão como mundo homogêneo, desconhecendo sua diversidade. Não só geograficamente, mas culturalmente, é um arquipélago. Estereótipos resultam do desconhecimento. Por mais forte que seja a presença Zen – por sua vez uma das ramificações do budismo proveniente da China – a religião popular é o xintoísmo, culto animista, ao que consta com três milhões e oitocentos mil “deuses” ou entidades tutelares. Cristianismos (católicos e denominações protestantes) se expandiram desde a restauração Meiji de 1868, quando deixaram de ser proibidos, como o haviam sido após a unificação com o xogunato Tokugawa, em 1603. Isso, além da quantidade de seitas: algumas recentes, porém legitimamente orientais.

Nos comentários à postagem no Facebook da minha entrevista para o Instituto Hilda Hilst, outro dia, foi favoravelmente comentado eu me referir a mulheres, ausentes de outras fontes sobre Massao – no caso, Roswitha Kempf, sócia e patrocinadora no começo da década de 1980, e a atriz Aurora Duarte, presente em boa parte de sua vida. No artigo sobre a relação com Hilda Hilst, observei que Massao gostava de mulheres – as que publicou, contribuindo para um crescimento da presença feminina na poesia brasileira, e aquelas com quem teve relacionamentos íntimos, profissionais ou ambos.

Nunca vi alguém beber tanto como Massao, sem alterar-se. Mas comentou comigo, após o acidente em que fraturou o crânio em algum momento da década de 2000 – salvou-o Marjorie Sonnenschein, que providenciou tratamento médico –, que sentia mais falta do cigarro que da bebida. E foi o câncer no pulmão que o levou, e não a cirrose. Era notável sua inaptidão financeira e burocrática – quando trabalhei na Secretaria Municipal de Cultura na década de 1990 e o convidei para alguma atividade, contratamos a filha Beatriz no lugar dele: além de não ter conta em banco, sequer tinha documentos de identidade.

Massao Ohno – poesia presente de Paola Prestes, filme recentemente exibido na Mostra de Cinema, merece os elogios que recebeu. Não se propõe a estabelecer a biografia, porém a resgatar a contribuição como editor. Mas espero que não permaneça um registro que, por respeitar a intimidade, seja higienizado além da conta.

Amigos já falecidos e aos quais devo especial gratidão, não só por haverem sido interlocutores, mas por me prestigiarem e divulgarem enormemente, foram excêntricos e desregrados: Roberto Piva, Massao Ohno, Marcos Faerman. Seguiram a máxima de William Blake, percorreram o caminho do excesso para chegar ao palácio da sabedoria. Até que ponto os excessos devem constar? No caso de Faerman, o assunto já foi convertido em dramalhão – mas será retificado, observando que em seus últimos anos a capacidade de escrever e expressar-se se manteve. Quanto a Piva, o mais conspícuo desses personagens, embora em seus últimos anos se mostrasse reticente e, com razão, não quisesse ser folclorizado como doido, foi ele quem trouxe à tona certas peripécias, ao entrevistar-me em 1997 (na Funarte, a entrevista está reproduzida em meu Manifestos e disponível na rede).

Sempre achei o “recorte”, separando obra e vida, uma coisa de formalistas e outros burocratas do saber. Por isso, publiquei comentário neste blog contra a ridícula exclusão de informações sobre a pederastia de Mário de Andrade. Acho pertinente biógrafos de Alfred Jarry incluírem a impressionante conta do fornecedor de vinhos e conhaques do criador da patafísica e sua irmã nos últimos anos, em Laval. Assim como André Breton, na Antologia do humor negro, situar no mesmo plano a contribuição literária e as loucuras e excentricidades de autores que examinou, discorrendo sobre os modos de Baudelaire apresentar-se publicamente, os disparos de revólver de Alfred Jarry ou a morte de Petrus Borel: recusando-se a usar chapéu por ser símbolo burguês, caiu vítima de insolação na Argélia. Exemplos da busca romântica da unidade de arte e vida. Dialeticamente, uma não existe sem a outra.

Qualquer hora, quero escrever umas crônicas memorialísticas. Assunto não faltará, podem crer.

Minha entrevista para a revista do Instituto Hilda Hilst: http://www.hildahilst.com.br/tag/massao-ohno

O que escrevi sobre a relação de Massao Ohno e Hilda Hilst: https://www.academia.edu/14384940/Massao_Ohno_Hilda_Hilst_e_a_busca_da_poesia_total

O extenso depoimento de Massao para a Biblioteca Mário de Andrade: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/memoria_oral/index.php?p=7862

Algo mais extenso contra o “recorte” de obra e vida: https://www.academia.edu/6467785/ANDRE_BRETON_critico_literario

Querem mais sugestões de leitura para o agradável fim de semana plúmbeo, hibernal, intimista?

Hilda-e-Massao-no-lançamento-de

Meu artigo sobre Hilda Hilst e Massao Ohno, que havia saído na Revista da Biblioteca Mário de Andrade (em uma versão algo reduzida) e agora postei no Academia.edu (em uma versão algo ampliada):

https://www.academia.edu/14384940/Massao_Ohno_Hilda_Hilst_e_a_busca_da_poesia_total

No Facebook, já havia postado ontem (sexta feira, 24/07) o artigo de TriploV sobre Roberto Piva e o surrealismo:

http://www.triplov.com/novaserie.revista/numero_53/claudio_willer/index.html

É o mesmo publicado na coletânea Reflexões sobre a modernidade, já noticiado aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/24/publicado-meu-ensaio-roberto-piva-e-o-surrealismo/

Nos dois casos, recomendo leitura da publicação integral: da revista e da coletânea.

Novos artigos e outras matérias

Saiu artigo tratando do que escrevo, de Roberto Piva e Massao Ohno, em Confabulario, suplemento de El Universal da Cidade do México, por Wilson Alves-Bezerra. Comenta Paranóia de Piva e meu Volta. Discute a relação entre poesia e vida: “Por ahora, Willer, Piva y Ohno dan clara muestra de un modo particular de estar en la ciudad, en la literatura y en la vida.” Postado no Facebook, suscitou interesse. Por isso, reproduzo-o aqui:
http://confabulario.eluniversal.com.mx/la-vida-experimental/
Espero que logo tenhamos versão local, em português. Wilson é especialista em literaturas de língua espanhola, professor na Universidade Federal de São Carlos, tradutor de Horacio Quiroga e outros bons autores. Publicou, entre outros, o ensaio Da clínica do desejo a sua escrita. Incidências do pensamento psicanalítico na escrita de alguns autores do Brasil e Caribe (Mercado de Letras) e, mais recentemente, a série de prosas poéticas Histórias Zoófilas e outras atrocidades (Oitava Rima), que terá sessão de autógrafos em outubro, na Casa das Rosas. Na década de 1990, freqüentou os “Encontros órficos”, oficinas de Piva – pena que na época não dispuséssemos dos recursos atuais para gravar.
Adiciono, ainda, uma espécie de portfólio que preparei, com matérias sobre Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico (L&PM), acompanhadas por links de acesso. Haverá mais, em breve:
“Um dos maiores especialistas brasileiros na chamada Geração Beat, […] O trabalho […] enriquece a bibliografia já existente.”
“A terceira via”, por Carlos Herculano Lopes, O Estado de Minas, suplemento Pensar, dia 05 de julho de 2014, em http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/pensar/2014/07/05/noticia_pensar,156989/a-terceira-via.shtml
“… o texto de Willer é de uma clareza exemplar. Trata-se de um ótimo ponto de partida para leituras – e releituras.”
“Os Rebeldes’ trata do elo entre religiosidade e criação literária beat” por Alexandre Lucchese em Zero Hora, Porto Alegre, RS, 09 de julho de 2014, em http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2014/07/os-rebeldes-trata-do-elo-entre-religiosidade-e-criacao-literaria-beat-4545638.html ;
“Poeta e ensaísta, Claudio Willer é sinônimo de beat no Brasil”, Marcio Renato dos Santos
“o maior estudioso local da literatura beatnik”, Luiz Carlos Maciel;
No “Especial Beat”, caderno sobre autores brasileiros relacionados à Geração Beat, “Cândido”, jornal da Biblioteca Pública do Paraná, nº 36 de julho de 2014, disponível em WWW.candido.bpp.pr.gov.br ;
“… o resultado é ainda mais interessante do que o introdutório Geração Beat, escrito por ele em 2009”
Daniel Zanella em Caderno G de Gazeta do povo de Curitiba, a 20/07/2014, em http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1485173&tit=Os-marginais-misticos-
“…Ressalta-se o conhecimento de Willer sobre o assunto, incluindo sua troca de correspondência com Ginsberg, nos anos 1980, quando traduziu para o português o poema “Uivo”.
“Rebeldia e tributo aos beats”, por Celia Musili, jornal Folha de Londrina, PR, Caderno Folha Z, a 20 de julho de 2014, em http://www.folhaweb.com.br/?id_folha=2-1–2079-20140720&tit=rebeldia+e+tributo+aos+beats
“Claudio Willer lança livro sobre Geração Beat e comemora 30 anos do lançamento de Uivo”, por Celia Musili em Carta Campinas, a 20 de julho de 2014, em http://cartacampinas.com.br/2014/07/claudio-willer-lanca-livro-sobre-geracao-beat-e-comemora-30-anos-da-traducao-de-uivo/
“Autoridade planetária no tema, Claudio Willer lança livro sobre o universo Beat” – Claudio Tognolli, em
https://br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/autoridade-planet%C3%A1ria-no-tema-claudio-willer-lan%C3%A7a-livro-014849563.html
“Criatividade e rebeldia à flor da pele”, por Wladyr Nader, Escrita.blog, em http://escritablog.blogspot.com.br/2014/06/criatividade-e-rebeldia-flor-da-pele.html
“Willer é o cara que melhor conhece os beats”, por Inacio Araujo, em http://inacioaraujo.blogfolha.uol.com.br/2014/07/02/o-problema-por-aqui/