Posts Tagged ‘meio ambiente’

Assim era o rio Taquari

 

Tirei esta fotografia em 1967. No rio Taquari, formador do Pantanal de Mato Grosso, próximo ao Coxim. Pescávamos, eu e um amigo. E havia muito peixe. Uns menores, parecidos com sardinhas, era jogar o anzol e puxar.

Agora acabou, é noticiado. Assoreado, arenoso. E isso compromete todo o Pantanal. Levaram décadas para degradar o rio, desde 1970, com um daqueles planos de colonização. Houve um tempo em que financiamento da Caixa saia desde que o empreendedor ocupasse inteiramente o solo com agricultura. Preservar mata ciliar, não podia. Aquela foi a era da ignorância, da irresponsabilidade completa. Dei nisto, conforme estas notícias a seguir. Debatem, apresentam projetos, tentam resolver. Não conseguirão. Como se não bastasse, há essas tentativas de fazer a mesma coisa ou algo parecido na Amazônia.

https://www.campograndenews.com.br/meio-ambiente/degradacao-do-rio-taquari-custa-rs-2-bilhoes-para-a-economia-de-ms

http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,AA1363908-5598,00-EROSAO+E+ASSOREAMENTO+AMEACAM+O+RIO+TAQUARI.html

 

 

Choveu: alagou, desabou, levou, soterrou

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Claro que todos sabem a causa desses horrores como os que acabaram de acontecer em Mairiporã (foto), Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras e outros municípios da Grande São Paulo, com vítimas e muita destruição – em Mairiporã, conforme a notícia, um bairro acabou, foi varrido pela enchente. E com a inundação do antigo hospício do Juqueri, em Franco da Rocha, com internos arrastados pela enxurrada – deve ter sido uma cena espantosa, merecedora de ser filmada.

A recíproca de faltar água, dos reservatórios da região secarem. Faces da mesma moeda. Principal causa, os desmatamentos em encostas de montanhas – no caso, da Serra da Cantareira. Abrindo espaços para os loteamentos clandestinos. Máfias dos loteamentos se beneficiam. Prefeitos, principalmente, e políticos locais ajudam a promover, em troca dos votos desses ocupantes que vão se instalando. Com a omissão cúmplice de órgãos e autoridades municipais e federais. Ao final, os mais pobres levam a pior, vítimas sempiternas. Assim foi e tem sido também em Teresópolis, Petrópolis (onde sumiram com a grana de auxílio às vítimas), Angra dos Reis e tantos outros lugares.

E continuará sendo.

Alguma notícia:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/03/1748860-em-mairipora-familias-buscam-soterrados-em-cenario-de-destruicao.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/03/1748753-chuva-causa-deslizamentos-de-terra-e-morte-na-grande-sao-paulo.shtml

(acho que meus posts sobre temas ambientais deveriam ganhar maior atenção e circulação)

EM TEMPO: Tem um idiota que mandou uns 5 posts me acusando de apoiar “a evangélica”. Foram para a lixeira, pois não admito pseudônimo com e-mails falsos, quem tiver algo a dizer que mostre a cara. Na verdade, nesse caso específico, dos estragos em municípios adjacentes à Serra da Cantareira, reclamação seria dirigida, em primeira instância, aos governos estaduais de São Paulo. Administrações municipais também colaboraram.

Leitura de fim de ano:

A queda do céu – Palavras de um xamã yanomami, por Davi Kopenawa e Bruce Albert. Companhia das Letras, 2015.

(estou reapresentando o que postei no final do ano passado: dei-me ao trabalho de transcrever um dos parágrafos do prefácio de Eduardo Viveiros de Castro sobre o modo como o governo Dilma Rousseff tratou os índios brasileiros. Há mais, inclusive sobre Belo Monte, tratada como traição e já designada antes em artigo do antropólogo como atentado à diversidade – natural e cultural – ao longo do rio Xingu. Significativo um dos atos de despedida de Dilma ser a consumação do atentado, inaugurando a usina – para satisfação dos devastadores e com o silêncio complacente de setores que se têm como progressistas)

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São 730 páginas de depoimento: cosmogonia, biografia, relato da resistência de um povo indígena, através de um de seus líderes, com a colaboração ativa de um antropólogo.

Informe sobre o livro:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12959

Trechos:

http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12959.pdf

“Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa”, clama Kopenawa. Vou seguindo em frente na leitura, e reparando na sincronia de mitos. Quer dizer que a primeira tentativa de criar o mundo por Omama falhou? Mas isso também não está no colossal Popol Vuh dos quiché, a criação por tentativa e erro até dar certo? Dois irmãos antagônicos, Omama e Ioasi, regendo o mundo? Mas não é a história de Ormuz e Ahriman iranianos? Da fraternidade de Satanael e Cristo dos bogomilos? Queda do céu também é mito gnóstico. O mundo fascinante do comparatismo.

O prefácio por Eduardo Viveiros de Castro está disponível on line, no Academia.edu:

https://www.academia.edu/12865947/O_recado_da_mata

Pergunto-me se as observações do autor de Metafísicas canibais sobre a relação entre pesquisadores e seus objetos de pesquisa não poderiam ser transpostas também para o campo dos estudos literários. Situar-se na posição do autor lido / estudado, em vez da “objetividade” cientificista.

E não resisto a transcrever um parágrafo desse prefácio, com observações paralelas àquelas já publicadas neste blog – lembrando que este texto de Viveiros de Castro é de 2015:

O presente governo, e refiro-me aqui ao Executivo, desde sua comandante até seus ordenanças ministeriais, vem-se mostrando o de pior desempenho, desde a nossa tímida redemocratização, no tocante ao respeito a esses direitos, agravando a já péssima administração anterior sob a mesma gerência: procedimentos de demarcação e homologação de terras indígenas praticamente nulos; políticas de saúde mais que omissas, desastrosas para as comunidades indígenas; uma indiferença quase indistinguível da cumplicidade diante do genocídio praticado continuadamente e às escancaras sobre os Guarani-Kaiowá, ou periodicamente e “por descuido” sobre os Yanomami e outros povos nativos, bem como diante do assassinato metódico de lideranças indígenas e ambientalistas pelo país afora – quesito no qual o Brasil é, como se sabe, campeão mundial.

Também diz algo sobre Belo Monte e iniciativas afins. Acredito que Kátia Abreu, se lesse, discordaria, diria que é conspiração.

AINDA A PROPÓSITO DA USINA DE BELO MONTE E OUTRAS BARBARIDADES TÃO BRASILEIRAS

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Havia postado no Facebook notícia sobre novas devastações relacionadas à obra para construção da Usina de Belo Monte. Esta, denunciando que o consórcio construtor promove queimadas não autorizadas, utiliza madeira extraída de modo ilegal e não cumpre o que foi tratado quanto a reflorestamentos:

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2015/11/12/belo-monte-queima-madeira-legal-e-aquece-mercado-ilegal/

Veio comentário perguntando se que estou desistindo de usar celular e adotando tomar banho frio. Obriga-me a relembrar que no Brasil o desperdício de energia elétrica, entre a fonte produtora e o consumo final é da ordem de 40%. Mesmo percentual, aproximadamente, com água e produção de grãos. Tudo, aqui, é jogado fora. Programas de redução do desperdício não interessam, é claro. Não possibilitam rolos com empreiteiras. Pelos mesmos motivos, conservação das grandes obras é relegada e volta e meia algo desmorona ou tem que ser interditado. Fiscalização tampouco é grande coisa, como pode ser visto. Falta saber, ainda, por que nosso percentual de produção de energia eólica e solar é tão baixo, em comparação com alguns países mais avançados.

 

DENDROCLASTAS

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R…, meu amigo há décadas, tipo assustador, quase da minha altura e com o dobro da minha largura, ampliado por halteres, judô e outras práticas. Aparência demoníaca. Aprontava. Um de seus passatempos, aterrorizar pessoas. Há décadas, saindo da adolescência, passava as férias em uma estância no interior. Tarde da noite na pracinha principal, viu um sujeito passar carregando uma árvore. Deu um grito, “Dendroclasta…!” e saiu correndo atrás. Que cena, o sujeito desesperado com sua árvore, e meu amigo atrás, aos aos berros, “Dendroclasta…!” “Dendroclasta…!”, em desabalada carreira pelas ruas da cidadezinha deserta, madrugada afora.

A vez seguinte em que me deparei com o vocábulo foi em 1973. Uma carta no Jornal da Tarde, assinada por Modesto Carvalhosa, denunciando o morador de um palacete na Rua Porto Rico que havia mandado cortar as árvores na calçada em frente (certas ruas convidam à troca de letras – Porco Rico, que tal? a rua Costa Rica também se presta). O morador, o responsável pelo corte? Ninguém menos que Paulo Maluf, então apenas um ex-prefeito. Vejam o que são as coincidências. Carvalhosa acusou-o de “desiderato dendroclasta”. Achamos linda a expressão, eu e colegas de trabalho. Curtimos. Recortamos a carta, mostramos, comentamos com outras pessoas.

Mais tarde, Carvalhosa se associaria a manifestações e iniciativas importantes, usando uma linguagem menos empolada. Recentemente, publicou artigo bem claro, mostrando que projeto anti-corrupção de Dilma é mistificador. Na década de 1980, durante o governo Montoro, presidiu o CONDEPHAAT, órgão de preservação do patrimônio. Colaborou no tombamento da Serra do Japi, da Serra do Mar, na criação do Parque da Juréia. O mundo estaria pior – ainda pior – sem aquelas ações pioneiras.

Devastação no Brasil é tradicional. Grandes dendroclastas continuam no poder – na maioria dos municípios e estados, e no governo federal: sua principal porta voz, a ministra da agricultura Kátia Abreu. O resultado, índices da ordem dos 180% de desmatamento na Amazônia, nos últimos meses. Enquanto isso a água falta, as torneiras secam, o clima piora, espécies são ameaçadas de extinção, povos indígenas também.

Não pode haver contemplação com essa gente. Nada justifica prosseguirem. É impossível multiplicar e transformar em legião aquele meu amigo selvagem. Mas algo precisa ser feito. Chega.

Ocorreu-me mais sobre esse meu amigo assustador. Histórias são inúmeras, passaria uma noite relatando. Certa vez, eu dirigia o automóvel, instalou-se no banco de trás. Baixou o vidro, arriou as calças e cueca. Encaixou a larga bunda na janela aberta, exibindo seu orifício anal para uma cidade perplexa. Em um trajeto pelo centro, Avenida São Luís, Consolação, Xavier de Toledo, os viadutos. Fazíamos muita coisa assim, achávamos legítima manifestação de rebelião contra a burguesia careta. Dendroclastas e seus apoiadores mereceriam ser submetidos a espetáculos como esse.

Vontade de publicar umas crônicas. Às vezes, lembro-me de episódios assim e dou risada sozinho. Quando relato tumultos provocados por surrealistas, como aquele da homenagem a Saint-Pol-Roux, ou confusões beat como aquelas provocadas por Gregory Corso, sei do que estou falando.

(a foto é do Greenpeace)

O espantoso pensamento político da atual ministra da Agricultura

Foi divulgada na rede social esta mensagem de Kátia Abreu: Espero que todos os que se manifestam em favor dos direitos humanos também se manifestem em favor dos brasileiros brancos: https://www.facebook.com/PartidoPirata.BR/photos/a.751680954859416.1073741841.180044272023090/1066118943415614/?type=1&theater Meu comentário imediato no Facebook:

Ela realmente tuitou isso … ? Por que não disse logo, de uma vez por todas, que é a favor dos direitos dos brasileiros de origem ariana? Assim apresentaria continuidade perfeita com os ensinamentos de Ad. Hitler. Neste campeonato de declarações inoportunas e despropositadas no segundo governo Dilma, por enquanto a mais séria candidata ao troféu é Kátia Abreu – apesar do empenho de Joaquim Levy, Cid Gomes, Thomas Traumann, Miguel Rossetto e outros esforçados competidores.

Para eliminar dúvidas de que fosse ‘hoax’, o poeta Ademir Demarchi achou o post original – é de 27/12/2013: https://twitter.com/katiaabreu/status/416702040593948673 E ainda copiou uma seleta de opiniões dela, motivadas pelos mesmos sentimentos cívicos, também divulgadas pelo Twitter no final de 2013. Reproduzo e completo com novo comentário meu:

Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Defender apenas os índios é politicamente correto.Defender produtores rurais ,aqueles que sustentam a economia do país é crime.Não merecem ! Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Este é o Brasil de dois pesos e duas medidas.Queremos tambem um ministério da justiça para não índios em 2014. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Onde estão o Cime,FUNAI ,MPF ,ONGs que defendem os direitos humanos…?Só funcionam pra brasileiros índios .Brasileiros não índios nada! Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Não dá nem pra imaginar o que estaria acontecendo se ao invés de 3 não índios desaparecidos fossem 3 índios .Já teria gente presa. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Min Eduardo Omisso Cardoso as mortes de índios e não índios estão na conta da sua fraqueza. Só o exercito hoje tem condições de pacificar. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 O Sr Min da Justiça está esperando mais mortes e massacres para tomar providencia?O Sr não sabe o que é isto .Tinha esquecido. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 Conflitos iniciaram no MS, a BA vive clima de terror ,depois RS PR SC,agora no AM MA .Pessoas desaparecidas,desintrusão s/planejamento. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 31 de dez de 2013 FUNAI e Cime instigam conflitos entre índios e não índios. Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 27 de dez de 2013 Se estiverem mortos o Sr Ministro da justiça é o responsável .Sua omissão e anuência aos atos da FUNAI são inadmissíveis . Ministra Katia Abreu @KatiaAbreu • 27 de dez de 2013 Humaitá no AM virou praça de gerra.Tem 3 pessoas desaparecidas .A suspeita é que estão em poder dos índios .

Meus comentários adicionais: 1. Kátia Abreu foi escolha pessoal de Dilma Rousseff, e não uma indicação partidária. Pode-se supor, portanto, que Dilma Rousseff endosse esse pensamento, equivalente àquele predominante entre militares que conduziram o país e resultou em massacres como os dos Wamiri-Atroari, parar abrir uma estrada no Amazonas. Hoje só não se repetem tais massacres por causa dos movimentos em favor dos índios, execrados pela ministra. 2. Havia – periferia oportunista com presença minoritária – defensores do retorno dos militares e do fascismo entre os manifestantes anti-Dilma de 15 de março passado. Por isso, a banda sectária, invertendo a relação entre as partes e o todo, qualificou a mobilização toda como fascista e defensora do retorno dos militares. Mas, por esse argumento, não poderia o governo Dilma ser classificado como fascista pela presença de Kátia Abreu no ministério? E de outras figuras – Gilberto Kassab, importante agora na articulação política, era qualificado como fascista, pelo modo como tentou remover os sem teto usuários de crack. 3. A banda sectária. As trolagens na rede social. Vi vários posts com o perfil do novo ministro da educação, sem dúvida qualificado. Nada dos adeptos sobre Kátia Abreu ou Gilberto Kassab ou aquele outro ministro com o sobrenome da marca de cigarros que fumo. Escondem no armário, varrem para baixo do tapete. 4. O índice zero de criação de reservas indígenas nos últimos anos (cf. Kátia “índios têm terras demais”) e os 284% de aumento do desmatamento na Amazônia em fevereiro de 2015 justificam, a meu ver, todos os xingamentos, panelaços e demais exteriorizações. Ela faz por merecer (há outros bons motivos, é claro).

O futuro do petróleo (e do Brasil)

O que já li de José Goldemberg sobre meio ambiente, contrapondo-se energicamente aos ecocéticos, me pareceu lúcido e preciso. Secretário do Meio Ambiente em 1992, apresentou um projeto de reflorestar tudo – pena não haver sido realizado. Seu artigo publicado em O Estado de S. Paulo, ontem, 16/02, merece ser lido. Contrapondo-se às geopolíticas delirantes dos remanescentes do sectarismo, àqueles para quem isso que ocorre com a Petrobrás resulta de conspiração dos Estados Unidos visando a controlar nossa economia, o físico e ex-reitor da USP (em tempos melhores) sustenta que:
a) a queda do preço do petróleo é irreversível, veio para ficar;
b) a tendência é de substituição por combustíveis menos poluentes; e, melhor ainda, pelo abandono de combustíveis fósseis em favor de fontes renováveis.
http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-fim-da-era-do-petroleo-imp-,1635091
Se estiver correto em sua análise, o governo brasileiro cometeu um erro estratégico colossal. Não se trata mais, apenas, do desperdício de recursos da Petrobrás através de roubos e de obras mal planejadas; porém do um projeto de desenvolvimento da economia baseado na receita que iria ser gerada pela exploração do pré sal.
Nos países mais avançados, cresce a utilização da energia da biomassa, eólica e solar. Aqui, como estão aquele parques de geração de energia eólica no Ceará? Continuam à espera das linhas de transmissão, enquanto aumenta o risco de apagões?
A sociedade precisa exigir responsabilidade dos governantes – em todos os níveis, é claro, não só federal, mas estadual e municipal, para reduzir o desperdício generalizado. Faz tempo deveria haver incentivos, isenção de impostos e financiamento para a instalação dos painéis e demais equipamentos. Mas não: essas modalidades de geração de energia são descentralizadas, podem ser até mesmo ser domésticas. E os dirigentes preferem as obras monumentais. Entenda-se: os rolos, as negociatas com empreiteiras e outros grandes fornecedores, em vez de olhar com seriedade para o futuro; em vez de acatar a opinião de quem entende do assunto.

As praias “impróprias para banho”

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Inspirado pela notícia sobre as praias impróprias para banho no Litoral Norte de São Paulo – quase todas, parece, os veranistas vão de lancha até as ilhas para pegar onda – posto mais algumas fotos de quando estive lá em 1963. A vez em que acampei com Piva, que está nas fotos.
A notícia: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/01/30/maresias-e-outras-17-praias-do-litoral-norte-estao-improprias-para-banho.htm
Meus slides, miraculosamente conservados – os em Kodacolor, aqueles em Agfa ou Ektachrome, as cores viraram – foram digitalizados por Pipol Cronópios. Há muito mais e pretendemos publicar álbum.
A série anterior de imagens do Litoral Norte de São Paulo:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/12/27/algumas-viagens-ao-litoral-norte-de-sao-paulo/

Ecologia e memória: de 1985 a 2015

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Foi em 1979, 1980…? O então senador Franco Montoro, enfático, discursava para o pequeno grupo à porta da casa de Ruth Escobar: “Ecologia … ! Defesa do meio ambiente … ! É importante …!” Ele estava de saída, eu chegava para mais uma daquelas reuniões – não lembro se era para tratar de anistia, campanha pró diretas, pró-constituinte, alguma outra manifestação.
Eleito governador em 1982, Montoro cumpriu. Logo no começo do mandato, em março de 1983, o tombamento da Serra do Japi, de Jundiaí até Cabreúva, pelo CONDEPHAAT, presidido pelo geógrafo Azis Ab’Saber. O então secretário da cultura, Pacheco Chaves, um fazendeiro (não se usava a expressão ‘ruralista’), reclamou: disse que não aceitava tombamento sem desapropriação e deixou o cargo.
Em seguida, iniciativas ainda maiores. Em junho de 1985, o tombamento, também pelo CONDEPHAAT, da Serra do Mar. Presidente do órgão já era Modesto Carvalhosa. A medida foi seguida por outros estados e pelo governo federal. Salvou-se alguma mata atlântica.
Em 1986, a ampliação da reserva ecológica da Juréia, de Peruíbe até Iguape, abrangendo a majestosa Serra dos Itatins. Havia um plano federal, dos militares, de construir uma nova usina atômica lá. E, se dependesse de Maluf e outros prepostos, abririam uma estrada como a Rio-Santos, provocando o mesmo estrago. Preferiria que pudéssemos ter acesso a essas praias maravilhosas, onde já acampei. Mas isso, conciliar ambiente e turismo, ficará para quando nos tornarmos um país mais civilizado.
É claro que tombamentos e criações de reservas não se devem exclusivamente a Montoro. Havia a militância, composta por entidades, movimentos e lideranças que, em seguida, contribuíram para que nossa Constituição tivesse bons dispositivos em defesa do ambiente – coordenação das propostas ambientalistas foi, se não me falha, de Fabio Feldman. Não obstante, uma pena naquele tempo não haver reeleição de governador. Faltou algo mais efetivo pela Serra da Mantiqueira: as nascentes de rios que formam o reservatório da Cantareira estariam menos comprometidas e a seca atual seria menos severa.
Impressão que a defesa do ambiente não estava no repertório dos sucessores, Quércia, Fleury e Covas. Houve um esforço, ao longo de décadas, envolvendo até agências internacionais, para que Cubatão deixasse de ser o lugar com o ar mais poluído do mundo – aquelas nuvens sulfurosas da COSIPA e outros empreendimentos, herança do desenvolvimentismo nos padrões do regime militar. No governo Serra, a retirada das moradias que persistiam, absurdamente, nas encostas da Serra do Mar, na Anchieta, descendo para Santos. Em compensação, vimos a mata da Serra da Cantareira se estreitar, ocupada por loteamentos, principalmente do lado de Mairiporã.
Enfim, faltou continuidade. Acho que não estamos perdendo apenas a biosfera: também está sendo perdida a memória. Hoje, uma militância aparvalhada contempla o modo como a mais obtusa liderança ruralista dá as cartas. Já que essas criaturas federais são inarredáveis, poderíamos ao menos aumenta a pressão sobre o governador (quem é mesmo? esqueci o nome dele) e prefeituras.
Um artigo recente de Modesto Carvalhosa, denunciando a tentativa de arquivar o tombamento da Serra da Mantiqueira no CONDEPHAAT. Uma virada de 180 graus, com relação a três décadas atrás:
http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/01/1395567-modesto-carvalhosa-retrocesso-a-vista.shtml

Algumas viagens ao Litoral Sul de São Paulo

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Amiga muito querida tinha onde ficar em Cananéia em 1964. A luminosidade na travessia da balsa ainda é a mesma? Conhecia o prefeito, também dono de um pioneiro criadouro de ostras. Mandava buscar ostras e palmitos naqueles recortes litorâneos. Quis ir, conhecer. Foi um fim de semana inteiro naquele barquinho? Alimentação, ostras que fritavam sobre a chapa quente do motor. Dormia no convés da barca mesmo. Costeamos a Ilha do Cardoso, seguimos pelos canais, até a entrada da baía de Paranaguá, repentino mar aberto, vista de tirar o fôlego.
Tenho umas fotos inexplicáveis. São de 1960. Não me lembrava delas, achei durante arrumação. Estranho terem resistido por 55 anos. Nem tinha máquina fotográfica, a Pentax só comprei em 1963. Levei a Leica do meu pai? Chegava-se de trem a Peruíbe, seguíamos a pé até o Guaraú pela estradinha – atravessávamos de canoa, em seguida mais três praias e três subidas de morro até um lugar paradisíaco, península com três praias completamente diferentes uma da outra e aquela portentosa Serra dos Itatins ao fundo. Acampei várias vezes. Ia com colegas – Rodolfo Geiser, o paisagista, era um deles. Em 1960, quando conheci Roberto Piva, convidei-o. Demétrio Ribeiro nos acompanhou. Sim, a foto é de Piva lendo Novalis em um costão da Praia Brava, em francês na edição da Séghers, coleção Poètes d’aujourd’hui. Sempre se fazia acompanhar por leituras. Ler poesia de óculos escuros, que idéia. O cobertor, pois em Peruíbe, conforme a época, esfria. Uma frase que se incorporou ao folclore através de Irco e Roberto Bicelli, “acho que há ovivíparos por aqui”, por causa de uns guinchos estranhos à noite saindo de uma árvore, não fui eu quem disse, foi Demétrio. Acho mais provável que fossem morcegos, não serpentes. No dia seguinte, levantamos acampamento.
Uma ocasião anterior, um dia muito ensolarado, peguei emprestada de uns caiçaras que moravam lá a peneira de palha trançada e a vara de pescar. O riachinho na praia do Juqueí formava uma lagoa de água salobra, era pegar os camarões com a peneira, depois pescar robalinhos, um atrás do outro, bastava jogar o anzol e puxar. Almoço foi preparar arroz, limpar os peixes e fritar junto com o que sobrara dos camarões. Água, na bica a 100 metros. Tive uma percepção de como seria o paraíso: um lugar em que não era preciso mais nada para estar bem. Hoje essa região é tombada, felizmente – escapou do destino das praias ao longo da Rio – Santos.
Iguape e Ilha Comprida, muitas vezes. Escaparam de se tornar lugares ‘badalados’. Houve um acampamento louquíssimo, psicodélico, com Décio Bar e Roberto Rugiero, em 1963. Teve até fantasma à noite. Essa foi uma viagem beat, um dia contarei histórias de Iguape. Mostrarei mais das imagens que Pipol Cronópios gentilmente digitalizou. Citarei poemas.
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