Posts Tagged ‘Monteiro Lobato’

Rejeitada a censura a Monteiro Lobato: uma vitória da literatura

Lembram-se da polêmica de 2012, sobre racismo na obra de Monteiro Lobato? A propósito de Caçadas de Pedrinho. Tratei dela aqui, em meu blog. Reclamei da judicialização, da transferência de questões literárias e pedagógicas para a esfera jurídica, querendo que magistrados exercessem funções de educadores e críticos literários.
Pois bem: ministro Luiz Fux, do Supremo, acaba de rejeitar a ação, acatando parecer do Procurador Geral. Aqui, a boa notícia:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/12/1566213-stf-rejeita-inclusao-de-nota-em-livro-de-monteiro-lobato.shtml
Meus comentários a respeito haviam resultado em centenas de acessos e dezenas de comentários. Vejam:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/11/monteiro-lobato-censura-e-analfabetismo-funcional/
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/12/ainda-monteiro-lobato/
Havia, também, as retiradas de obras de Dalton Trevisan e a espantosa ação contra palavras em dicionários. Na mesma época, a orientação daquela secretaria social para que o Ministério da Cultura não subvencionasse obras relacionadas á pornografia, drogas, tráfico etc.
Que o desfecho desse caso contribua para jogar a pá de cal ou assentar a pedra tumular sobre as imposições ditatoriais do politicamente correto, tentando restringir a ci9rculação de informações e a liberdade de expressão.

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Censura a Monteiro Lobato (em 1948)

A Dra. Dirce Lorimier, historiadora, crítica literária e diretora da UBE, pesquisa a história da entidade. Vejam o que ela me mandou, das atas da ABDE, entidade antecessora da UBE, então presidida por Sérgio Buarque de Holanda:

“1948

7 de janeiro: Sergio Milliet solicita à ABDE manifestar-se contra o empastelamento de jornais paulistas, tendo como resultado a decisão de endereçar um telegrama ao Sindicato de Jornalistas e outro ao Sindicato de Diretores e Proprietários de Jornais solidarizando-se com todas as medidas tomadas por esses sindicatos sobre a questão.

Em 12 de fevereiro, Sérgio Buarque de Holanda sugeriu como tema de discussão a apreensão de um livro do escritor Monteiro Lobato pela Polícia do Estado e que a ABDE deveria protestar. Arnaldo Pedroso D´Horta discordou, acrescentado que o protesto fosse feito contra a apreensão de obras literárias em geral. Foi, então, redigido o seguinte texto:

 “A Associação Brasileira de Escritores, Seção São Paulo, fiel a sua própria razão de existência, vem lançar o mais veemente protesto contra as apreensões de livros ultimamente praticadas pela polícia do Estado e que representam um grosseiro atentado à livre expressão de pensamento. Esses atos que contribuem retorno (sic) lamentável das práticas da ditadura derrubada pelo movimento democrático de 29 de outubro de 1945 merecem a mais formal repulsa de todos os escritores.” Era a última reunião dessa gestão que foi encerrada com agradecimentos a Mário Neme.”

1948… Anagrama de 1984… Justifica denunciar retrocesso, diante das mais recentes ocorrências de censura ou das tentativas de reativá-la, através de ações de entidades ou na rede social. Mudaram seus agentes. Mudaram? Ou ampliaram-se suas agências?  Enfim, o documento corrobora o que havia observado nestas postagens sobre o anacronismo desses acontecimentos:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/11/monteiro-lobato-censura-e-analfabetismo-funcional/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/12/ainda-monteiro-lobato/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/22/censura-no-facebook-um-dossie/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/17/caso-gravissimo-censura-em-edital-da-funarte-e-biblioteca-nacional/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/16/a-censura-na-abl-e-em-outros-lugares/

ETC

Ainda Monteiro Lobato

Claro que gostei de ter centenas de acessos (630 até agora) a minha postagem sobre a discussão de racismo em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato, mais a torrente de comentários no Facebook.

Mas não sei se fui bem entendido. Por exemplo, na questão do valor e da ideologia de Monteiro Lobato.

“Jeca Tatu”, sua estréia em livro e principal obra em prosa ‘adulta’, é preconceituosa. Faz uma defesa obscurantista do progresso. Misturou positivismo e idéias adaptadas do evolucionismo, eugenistas, que tiveram conseqüências perversas. É possível, sim, recortar trechos racistas em sua atuação como polemista. Sua intervenção sobre modernismo foi um desastre. Como crítico musical, como bem mostra a biografia por Edgar Cavalheiro, foi confuso e idiossincrático.

Por outro lado, na literatura infantil foi um antes e depois, marco divisor ainda não ultrapassado sob certos aspectos. Criou um mundo mágico, liberou um imaginário brasileiro. Humanizou a criança – é difícil adultos fazerem isso. Retratou e ao mesmo tempo mitificou um ambiente rural, tornando-o paradisíaco. Trouxe a língua falada para o texto escrito – seus personagens falam, transmitem espontaneidade e por isso credibilidade – sem rebaixar o idioma. Ele sabia ouvir, e por isso sabia escrever. Além disso, soube transformar mitos em fábulas de modo magistral.

Foi corajoso. Encarou a repressão getulista. Como empreendedor no campo editorial, foi magnífico, um visionário lúcido. Íntegro e ao mesmo tempo duplo, um progressista e um conservador, ambos extremados, ambos movidos pela paixão.

Escritores são assim: ambivalentes, por vezes paradoxais. Não têm obrigação de se enquadrar na ideologia e escala de valores de todos os seus leitores.

Mostrar ideologia em criações literárias é tarefa para professores, pedagogos, críticos literários. Assim como o é, principalmente, mostrar onde está o valor, qual é a contribuição especificamente literária, quais os motivos para considerar relevante uma obra.

O que não admito, assim como no caso dos ciganos do dicionário, é atravessarem. Transferirem o que, em uma sociedade aberta, naturalmente é tema de debate, para o judiciário. É um modo do autoritarismo. Idem em outros casos – por exemplo, em Vilma Guimarães Rosa versus Alaor Barbosa: as objeções dela à biografia de Guimarães Rosa por Alaor são tipicamente do campo da crítica literária, e não do Direito (li trechos da ação).

O que faz ou deve fazer o juiz? Chamar peritos. Especialistas. Como neste caso, de Monteiro Lobato, opinarão, darão parecer, dirão coisas semelhantes às que estou dizendo aqui e que já estão sendo ditas. Em conseqüência, o processo todo acaba dando uma volta, chegando ao lugar de onde nunca precisaria ter saído, ao campo da crítica literária e disciplinas afins.

Qual a conseqüência da judicialização do debate literário? Alugar, emperrar, tomar tempo do Judiciário e de todo mundo envolvido no caso. Atrasar outras ações, coisas realmente sérias, julgamentos de indenizações, crimes etc. Essa tentativa de burocratizar (mais ainda) o saber devia receber condenações por litigância abusiva.

Há pior – como no caso de algumas biografias: os editores que se intimidaram, retiraram obras, fugiram dos processos.

A reação da sociedade, ou da parcela culta da sociedade, nesse caso de Monteiro Lobato, ajudará a corrigir esses abusos. Contribuirá para restaurar a livre circulação de informações. Extinguirá focos de obscurantismo, mesmo agindo em favor de idéias aparentemente progressistas, politicamente corretas. Algo da herança do Iluminismo, que privilegiava a liberdade de expressão e os avanços no saber, precisa ser preservado.

(alô alô – convites para palestras, estou disponível sobre beats, surrealistas, Piva & friends, Lautréamont & Rimbaud etc – sobre Monteiro Lobato, não – tem gente que entende mais que eu, isso que foi exposto acima é Lobato básico -mas ainda assim não alcançado pela turma do politicamente correto, por nossos analfabetos funcionais)

Monteiro Lobato, censura e analfabetismo funcional

Perto de 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais, mostram pesquisas. Travam diante de textos mais complexos.

Censura é um modo de analfabetismo funcional. Leitura linear, em uma só direção, com antolhos.

Censores sempre consagram o analfabetismo funcional.

Discussão da vez, de hoje, conforme noticiado: no Supremo, a ação contra o ‘racismo’ em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato. Está em:

http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI6145038-EI8266,00-STF+vai+discutir+polemica+em+obra+de+Monteiro+Lobato.html

Concordo com Alcir, Noemi e demais especialistas consultados na matéria da Folha: se submeterem obras literárias a esse crivo, não sobrará quase nada. Aplicar desse modo a correção política é passar um trator sobre conteúdos.

Ah, sim! E houve aquele outro caso, de Dalton Trevisan retirado dos vestibulares da Federal de Viçosa. Ponto a favor de Dalton. logo será a vez de Rubem Fonseca, de João Antonio, de….

Parecem aquele outro episódio, dos dicionários obrigados a retirar acepções da palavra ‘cigano’, que já comentei aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/28/as-palavras-proibidas/

Tal judicialização de questões do campo da linguagem e da literatura é um retrocesso bestial. Ao baterem desse jeito à porta dos tribunais, vão atropelando o conhecimento, desprezando quem estudou. Donos da verdade, querem impor-se na marra a especialistas sérios, instrumentalizando o judiciário e fazendo todo mundo perder tempo. Isso das expressões usadas para referir-se à Tia Nastácia: qualquer pedagogo minimamente preparado tira isso de letra, resolve – ajudará a compreender a questão, em vez de ampliá-la através de imposições autoritárias. Como se algum esbirro racista precisasse ler Monteiro Lobato. Querem combater racismo? Então mostrem a verdade, é tão simples (mas tão difícil de entender, para alguns) Como fez Umberto Eco, ao provar que os Protocolos dos Sábios do Sião eram cópia de um trecho de Balsamo, a biografia ficcionalizada de Cagliostro por Alexandre Dumas, apenas trocando os maçons (igualmente difamados, no caso) por judeus.

Praga da judicialização de questões literárias é prima-irmã da outra, a interferência em biografias e pesquisas. Ou são a mesma? Estão se tornando tipicamente brasileiras. Por causa de nossos 70% de analfabetos funcionais.