Posts Tagged ‘Octavio Paz’

A política como religião (ou vice-versa)

Em publicações no meio digital e na imprensa observo sectarismos de sinal oposto, porém equivalentes. Modos da sobreposição de política e religião, quer seja pela adoção de uma doutrina religiosa como paradigma político, ou por sua recíproca, uma adesão acrítica a alguma doutrina, partido ou, ultimamente, candidatura. Em 1972, Octavio Paz, em Os filhos do barro, que acaba de ganhar nova edição pela Cosac Naify, valia-se da expressão “catecismos leigos”. Aplicou-a àqueles que prometem “paraísos geométricos” para o futuro, ao postularem uma racionalidade e conseqüente previsibilidade do devir histórico. Nesse ensaio – e em um sem-número de ocasiões – Paz insistiu na crítica às “…religiões envergonhadas, sem deuses, mas com sacerdotes, livros santos, concílios, beatos, hereges e réprobos. […] A crítica da religião desalojou o cristianismo, e em seu lugar os homens se apressaram em entronizar uma nova deidade: a política. […] O tema mítico do tempo original converte-se no tema revolucionário da futura sociedade”. Algo semelhante foi dito, mais recentemente, pelo ensaísta Roberto Calasso, em um ensaio brilhante, A literatura e os deuses (publicado pela Companhia das Letras). Em vez de “catecismos leigos”, fala em “teologia social”. A observação sobre “liturgias em estádios” é de uma contemporaneidade chocante. Sobre “massacres”, mais ainda, é claro. Por isso transcrevo o trecho na íntegra:

Num século como o XIX, sacudido por agitações de todo tipo, o evento que resume todas as suas transformações teria passado despercebido: a pseudomorfose entre religioso e social. Tudo convergia não tanto para a frase de Dürkheim: “O religioso é o social”, quanto para o fato de que tal frase, de repente, soava natural. No curso do século, com certeza, não tinha sido a religião a conquistadora de novos territórios – para além das liturgias e dos cultos, como0 pretendiam Hugo e tantos outros, na sua esteira – , mas sim o social, que, progressivamente, invadira e anexara vastas plagas do religioso, primeiro sobrepondo-se a ele, depois infiltrando-se numa insana mescla e, por fim, englobando-o em si. O que, no final, permanecia era a sociedade nua, mas carregada com todos os poderes herdados, por via de efração, do religioso. E o século XX será o século do seu triunfo. A teologia social se desvincula cada vez mais de toda a dependência e ostenta a sua peculiaridade: que é tautológica, publicitária. A força de choque das formas políticas totalitárias só é explicável admitindo-se que a própria noção de sociedade absorveu, em si, um poder inaudito, que inicialmente, estava conservado no religioso. Seguir-se-ão as liturgias nos estádios, os heróis positivos, as mulheres fecundas e os massacres. Ser anti-social vai se tornar equivalente de pecar contra o Espírito Santo. Quer o pretexto seja racial ou classista, para exterminar o inimigo o motivo apresentado é sempre o mesmo: a capacidade de prejudicar a sociedade. A sociedade é o sujeito acima de todos os sujeitos, em benefício do qual tudo se justifica. Numa primeira fase, recorrendo a uma ênfase emprestada, brutalmente, do religioso (o sacrifício pela pátria); a seguir, em nome do funcionamento da própria sociedade, que impõe a eliminação de qualquer distúrbio.”

Ah, sim – soube que apreenderam, entre outros utensílios, um sacarrolhas e um frasco de iogurte nas mochilas de manifestantes presos recentemente. A polícia também esteve à procura de Bakunin. Claro que isso não isenta esses ativistas da suspeita de confundirem política e religião – apenas permite situá-los em uma tendência mais herética.

Mais sobre manifestações e debates

Reproduzo um trecho famoso do Manifesto Comunista de Marx. Acho que muitos marxistas não o entenderam, ou não se dão conta de seu sentido:

A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário. […] A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. A conservação inalterada do antigo modo de produção constituía, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. Essa subversão continua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.

Comparo com trechos de um autor nem um pouco marxista – e extraordinariamente lúcido, Octavio Paz, que, em Os Filhos do Barro, vê a “idade moderna como uma idade da crítica, nascida da negação”,[1] e, conseqüentemente, a crítica como fundamento da modernidade. Como resume em Solo a Dos Voces, “Na Idade Média, a religião funda a sociedade. Porém, desde que a burguesia fez a crítica do mundo sagrado, o fundamento da sociedade é a crítica. O mundo do passado estava assentado em verdades imutáveis, invulneráveis à crítica. Agora, o fundamento do mundo é a crítica”.[2] E mais:

A modernidade é uma tradição polêmica, e que desaloja a tradição imperante, qualquer que esta seja: porém desaloja-a para, um instante após, ceder lugar a outra tradição que, por sua vez, é outra manifestação momentânea da atualidade. A modernidade nunca é ela mesma: é sempre outra. […] Tradição heterogênea ou do heterogêneo, a modernidade está condenada à pluralidade: a antiga tradição era sempre a mesma, a moderna é sempre diferente.[3]

Manifestações em curso são modernas. Fazem parte de um devir burguês – mas que vai devorando, me parece, a própria burguesia. Ou a consolida? Ou ambos? Veremos.

A propósito de algumas observações – de que essas manifestações são “da classe média”, assim como o anarquismo, e de que mobilizações pelo meio digital, inclusive Facebook, seriam uma trivialidade, penso em dedicar uma futura postagem a Flaubert; a seu Bouvard e Pécuchet, os criadores de uma enciclopédia da sabedoria universal, das “idéias recebidas” (que Flaubert odiava); ou seja, dos chavões, lugares comuns. Serei irônico.


[1] Octavio Paz, Os Filhos do Barro, tradução de Olga Savary, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984, pg. 52.

[2] Octavio Paz, Solo a Dos Voces, em parceria com Juliás Rios, Editorial Lumen, Barcelona, 1973.

[3] Paz, O Arco e a Lira, pg. 18.

Hitchcock e Vertigo; poesia e cinema

Tenho colaborado com a revista de cinema Reserva Cultural, dirigida por Miguel de Almeida (à venda no espaço homônimo e em revistarias da elite cultural), desde 2008. Com números antigos esgotados, resolvi postar aqui alguns dos meus artigos, ampliando acesso – são curtos, na medida para blogs. Começo por aquele de que mais gosto. Próxima publicação aqui, um poema do meu livro a sair este ano, também sobre o cineasta.  Há dois filmes em cartaz sobre Hitchcock – um, vi trechos na TV – outro, não fui ver. Dá para perceber, pela leitura a seguir, porque não gostei de nenhum dos dois, mesmo sem vê-los.

ALFRED HITCHCOCK, POETA

Claudio Willer

Em 1997, coordenei uma oficina de criação literária na qual, entre outros assuntos, fomos discutindo, capítulo a capítulo, O Arco e a Lira de Octavio Paz – leitura indispensável para quem quiser entender algo de poesia. A oficina coincidiu com o relançamento de Vertigo (Um corpo que cai) de Hitchcock em cópia restaurada. Pedi que fossem ver ou rever Vertigo, para discutirmos como se projetaria o que havíamos visto em Octavio Paz. Tratei o filme como alta poesia.

Meus oficineiros não tiveram dificuldade em fazer a conexão entre cenas e imagens de Vertigo e trechos de O Arco de a Lira, como este: “o poema tende a repetir e recriar um instante, um fato ou conjunto de fatos que, de alguma maneira, se tornaram arquetípicos. O tempo do poema é distinto do tempo cronométrico. […] Para o poeta, o que passou voltará a ser, voltará a se encarnar”. Por isso, diz Paz, “O poema é tempo arquetípico.” Scottie (James Stewart), o detetive que sofre de acrofobia e se apaixona por Carlotta, a morta revivida por Madeleine (Kim Novak) e que, depois da queda fatal do alto da torre de uma igreja, vai buscá-la, é Orfeu, patrono dos poetas.

De modo evidente, em Vertigo confrontam-se dois tempos. Um deles, o tempo da prosa e do prosaico, linear, irreversível; outro, o tempo da poesia, circular. Uma das cenas que mostram a separação de dois mundos e dois tempos, logo no início, é quando Scottie segue Madeleine em um beco cinzento. Ela cruza uma porta, entrada dos fundos de uma deslumbrante loja de flores. É outro mundo, luminoso, colorido, belo – nele, Madeleine passa a ser Carlotta, a antepassada, a morta. Nesta e nas demais cenas em que Madeleine encarna Carlotta, a iluminação muda. O mundo se transfigura.

Outra cena decisiva é aquela do parque das sequóias. Scottie e Madeleine conversam sobre o tempo: é uma sucessão de círculos concêntricos gravados no tronco da árvore secular caída, e não uma série linear. Saem do parque para dirigir-se à antiga igreja, a Missão San Juan Bautista. Partem ao encontro da queda, do instante fatal.

Nos desenhos de abertura, por Saul Bass, também há círculos concêntricos: no meio deles, com expressão de horror, a cara de James Stewart. A música de Bernard Herrmann, reparem, também é circular: no final, quando Scottie beija Judy, que é Carlotta reencontrada, o tema se repete, de um modo agônico que lembra o final de Tristão e Isolda de Wagner.

Comparei com a narrativa de Boileau e Narcejac, Sueurs froides – D’entre les morts, da qual Vertigo é adaptação. Entre outras diferenças relevantes, a queda de Madeleine é do alto da igreja, e não, como em Boileau e Narcejac, de um castelo. Hitchcok adicionou uma teofania: o sagrado como vertigem.

Se aquela oficina fosse hoje, acrescentaria algo de Baudelaire. De O Abismo, “Ai tudo é abismo! – sonho, ação, desejo intenso,/ Palavra!” Poetizaria a acrofobia de Scottie, que via o mundo como abismo. E ainda citaria este trecho do mesmo poema de Baudelaire: “Do infinito, à janela, eu gozo os cruéis prazeres” – e o projetaria em outro dos meus Hitchcock prediletos, Janela Indiscreta (Rear Window). Daria um peso metafísico ao voyeurismo do protagonista.

Hitchcok tinha consciência de toda essa riqueza simbólica? Sabe-se que as tintas psicanalíticas e o sonho por Salvador Dali em Spellbound (Quando fala o coração) foram por conta de David O. Selznick, o produtor. E o resultado, medíocre, não fez justiça nem a Dali, nem a Hitchcock. Mais tarde, em Marnie, a revelação do trauma da protagonista é, penso, psicanálise de almanaque.

Inspiração? O que houve com Hitchcock em seu período de esplendor criativo, de Janela Indiscreta até Os Pássaros? Mistérios do maior dos cineastas de narrativas de mistério.

Defender as sociedades tradicionais é defender a vida

Inspirado em dois episódios recentes, das últimas 24 horas – a supressão ou proibição dos acréscimos de nomes de índios, do tipo Guarani-Caiová, por usuários do Facebook (ver minha postagem anterior) e o cerco ao Museu do Índio no Rio de Janeiro – transcrevo um trecho de Octavio Paz. É de uma de suas entrevistas, “Simetrias iníquas: diálogo sobre o marxismo”, publicada, entre outros lugares, em Convergências: Ensaios sobre arte e literatura, Rocco, 1991. Também pretendo citar / comentar em minha palestra sobre Piva, na próxima quarta-feira:

“ […] é preciso defender as sociedades tradicionais se quisermos defender a diversidade. Todos vemos que isso é dificílimo, mas a outra possibilidade é sombria: uma derrocada geral da civilização, diante da qual o fim do mundo antigo, entre os séculos V e VII, teria sido apenas um modesto “ensaio geral” do desastre. Dessa perspectiva, a preservação da pluralidade e das diferenças dos grupos e indivíduos é uma defesa preventiva. A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro. A história havia sido, até agora, plural: diversas visões do homem, cada qual com uma visão distinta de seu passado e de seu futuro. Preservar essa diversidade é preservar a pluralidade de futuros, isto é, a vida mesma.”

Portanto, Paz vê a diversidade cultural de um modo semelhante àquela que os ecologistas vêem o que chamam de “bancos genéticos”: não se trata apenas de formas de vida atuais, porém de possibilidades; chances de transformações, de continuidade da própria vida. Sabemos que as línguas constituem ou configuram culturas: essa ordem de observações confere, portanto, valor adicional ao trabalho dos antropólogos e lingüistas pela recuperação ou preservação de línguas ameaçadas de extinção, de índios e outras sociedades tradicionais.