Posts Tagged ‘Poesia’

A demissão de Claudio Daniel da curadoria de literatura do Centro Cultural São Paulo: uma petição

Claudio Daniel relata a demissão da curadoria de literatura do Centro Cultural São Paulo em seu blog:
http://cantarapeledelontra.blogspot.com.br/2014/04/relatorio-de-gestao.html
Um abaixo-assinado, dirigido ao Secretário Municipal de Cultura, expressa o que pensamos a respeito:
http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR71380
Achei ofensivo. Ele trabalhou um bocado. Com recursos muito escassos, além de suportar a pesada burocracia, tirou leite de pedra. Demitir desse jeito é falta de consideração com relação a ele e para quem freqüentou ou se apresentou. Por causa de algum ‘desentendimento administrativo’, interromperem uma programação de qualidade. Ninguém está nem aí para o que nós, participantes e freqüentadores, queremos ou esperamos.
Havia aberto essa programação, em fevereiro de 2011, lendo meus poemas para um público, segundo o Centro Cultural, de 130 pessoas. Retornei como espectador, leitor de poemas, participante em mesas ou conferencista. De modo evidente, havia-se consolidado um espaço para a poesia. Descontinuá-lo é retrocesso. Por isso, peço que assinem e divulguem.
Sobre paradoxos da política, farei alguns comentários outro dia. Ou não – talvez não haja paradoxos, apenas uma consistente e crescente mediocridade.

Aldo Pellegrini, o grande poeta surrealista argentino, é publicado no Brasil

Em comum a usuários de drogas e leitores de poesia de qualidade: para achar bons produtos, é preciso ter conexões, bons contatos. A observação, em uma entrevista recente, foi a propósito das editoras à margem do mercado como a Sol Negro de Márcio Simões, de Natal, RN, – com o luminoso III novelas exemplares & 20 poemas intransigentes de Hans Arp e Vicente Huidobro, entre outros, noticiado aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/01/06/arp-e-huidobro-parceria-luminosa/ Da Nephelibata de São Pedro de Alcântara, SC. A Lumme, de Bauru, SP, com o provável melhor lançamento de 2013, Poesia reunida de Radovan Ivsic, também aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/29/mais-poesia-mais-radovan-ivsic/ Os novos poetas brasileiros pela Patuá, Dobra, Kazuá. O ensaio A arqueologia do resíduo: os ossos do mundo sob o olhar selvagem de Marcus Rogério Salgado, Antiqua, São Paulo: Flávio de Carvalho tratado como merece (voltarei a comentar).

Abulia da crítica e mercado: lançamentos como esses e, agora, dois livros de Aldo Pellegrini – Construção da destruição, poemas, tradução de Rodrigo Barbosa, e Sobre surrealismo, organização, tradução e prefácio de Floriano Martins, ambos pela Sol Negro, mais uma vez em edições visualmente sedutoras – terem como principal divulgação este blog (sorte de meus assinantes).

Com Aldo Pellegrini (1903–1973), chega a nós a grande poesia argentina do século 20. Inclui, além de Pellegrini, Enrique Molina, Alejandra Pizarnik, Francisco Madariaga, Oliverio Girondo (único com livro publicado aqui, Masmédula pela Iluminuras). Todos com imagens, tocados ou inspirados pelo surrealismo. Pioneiro, Pellegrini descobriu o surrealismo em primeira mão, em 1924. Em 1926, já lançava a revista Qué e liderava o primeiro grupo surrealista em língua espanhola. Além de outras publicações, fez com Molina e Madariaga a revista A partir de cero em 1952. Traduziu Lautréamont. Preparou antologias e publicou outros poetas, como Girondo. Muito apropriado o paralelo, por Floriano Martins, do pensamento de Pellegrini sobre poesia em Sobre surrealismo e aquele de Octavio Paz em O arco e a lira.

A seguir, dois excertos de Construção da destruição. Quem desejar mais, acesse http://solnegroeditora.blogspot.com.br/ .

 O LIMITE DO DIÁLOGO

Rua de duendes de primavera que atrai os homens sedentos e sacode sua poeira à direita das respirações, por um caminho de olhares furtivos, oh brancos seios, em que esquecimento de horas de perigo os encontrei?

Ardendo até que nos detém uma frágil muralha de calma, um despertar de ruídos e perfumes.

Já não quero retroceder nos caminhos, acossado pelas migrações das medusas.

Para o oriente as mãos apontam a partida do sol da gravidade.

Já não quero envelhecer nos hotéis carcomidos pelas proibições, onde os transeuntes se imobilizam envoltos em seu sonho enquanto os cipós crescem ávidos até a vertente dos pássaros.

Um mar distante e o próximo sangue travam o diálogo da frieza e do ardor. Os teatros estão desertos.

Os passos se afastam na solidão que tu respiras e os rostos balançam.

Os desconhecidos se saúdam profundamente até o limite da petrificação.

Aspirando a um retorno de outros climas em que a vegetação se acende e o desejo faz ferver sua surda potência até consumir-se a si mesmo sem chamas, sem cinzas.

Voracidade do hálito ao atravessar impávido o fosso que a tudo separa.

Estamos no limite do diálogo refugiados nos portais onde um sol sem esperança renuncia a iluminar a amarga quietude. Moendeiros da moleza suportando incrédulos a consagração da inocência.

Estamos no limite do diálogo, ali onde se alcança o coração do conhecimento. Assim se logra arrebatar sua mercadoria dos traficantes do mistério e da solidão, assim se afugenta os mercadores do silêncio.

OS PERIGOS DA DANÇA

 […]

Uma chuva de formas nascentes
restabelece o mundo dos objetos
tuas mãos chamam em vão para o coração das coisas
tuas mãos ávidas do dinheiro que compra a pureza

Tuas mãos ávidas do dinheiro que compra a beleza
hoje recolhem apenas o martírio do ar, a névoa das respirações
conserva no oco das mãos
o tempo de teu cansaço

Quando os olhares se consomem
quando se recolhem as coisas familiares em seu vazio e sua sombra
neste limite da terra onde as horas não passam
a espera
como um grande vento gelado te despoja.

Inéditos de Piva: o ultimo da série

O poema a seguir foi lido por ele no lançamento de Antes que eu me esqueça de Roberto Bicelli, em 1977. No documentário de Jairo Ferreira, disponível aqui e no youtube, aparece lendo-o: https://claudiowiller.wordpress.com/2011/09/27/%e2%80%9cantes-que-eu-me-esqueca%e2%80%9d-no-youtube/ . No ano seguinte, publiquei-o no jornal Versus, em uma corajosa edição com documentos e testemunhos sobre tortura de presos políticos. O título, “O hino do futuro é paradisíaco”, é um verso de André Breton. Ao final, observações sobre ele não haver incluído este e outros belos inéditos nas Obras reunidas, pela Globo.

Roberto Piva

O HINO DO FUTURO É PARADISÍACO

Este poema ê dedicado aos presos políticos do Brasil-

Contra a tortura, pelas liberdades democráticas

                                                                                                         “un cor feroce.

                                                                                                          una virtute armata…”

                                                                                                          Machiavelli

I

Todas estas embalagens mortas

todas estas estatísticas tolas

todos estes desabamentos dos miolos da Terra

todas estas moscas vaporizadas nos olhos dos dementes

todas estas hérnias jogadas no lixo

todas as autópsias surrupiadas no escuro

todas as mãos decepadas eletrocutadas esmagadas

todas as bocas urrando sob o mesmo focinho incerto

toda a voracidade da TV & suas sucuris metálicas da desolação

todos estes brinquedos tristes carregados de bala de goma

todos os enforcados de cabeça para baixo

toda esta merda de marchas cívicas

todo o soluço do país soluço mais fundo que o coração rubro da aurora

todas as academias & seus poetas empalhados

todas as pupilas do crime

todos os gorilas da guerra-fria & sua pop music

todos os garotos de 15 anos com cérebros de catarro esperando a sepultura

todos os hippies de butique brincando de profetas enquanto costuram os olhos do estudante

há uma porta trancada na cara do país

há um anúncio classificado que escapou da Idade Média

há uma paisagem dilacerada escamoteada em símbolos mais castrados que um cantor de rock

II

Neste momento uma ave desova o poente no calor de novembro entre duas rochas onde a primeira é toda de cactus selvagens relutando como um segredo relutando como o degredo da tua mais simples ilusão os ovos rolam nas trevas onde rondam tigres para passar o tempo o tempo o tempo o tempo

III

Crianças deste mundo

Mares deste mundo

Flores deste mundo

homens, mulheres corações da noite

no fundo do olho do furacão

na ponta da faca do espaço

na franja vermelha das cidades

tua febre é o último adeus à resignação à moléstia cardíaca do tédio

tua febre é a saída apertada entre dois goles de vida

IV

para aqueles que vomitaram sangue

para aqueles que ofertaram o último suspiro

para aqueles que o raio X é o espectro de um  crocodilo acendendo um cigarro

para aqueles sozinhos

para aqueles que se calam diante dos regulamentos

para aqueles cujas almas se transformaram em geléias de pura transcendência

para aqueles que não têm a Bahia como válvula de escape curtição do grande embalo refrigerado tudo bem bicho legal tamos aí

para aqueles para os quais tudo é ilegal & que vivem como bichos contra a vontade & fedem nas prisões estando aí à disposição da bússola dolicocêfala da repressão

para aqueles que são procurados infernizados enquanto tudo bem tudo bem canta a televisão na sua primavera animal

para aqueles cujos estômagos viraram papa & seus cérebros cartuchos de dinamite

para aqueles que não têm mais filhos

para aqueles que perderam seus amores no último trem blindado do Esquadrão da Morte

para aqueles que acordam sempre no mesmo lugar na mesma manhã no mesmo arco-íris quebrado.

 

Observei em outras ocasiões que o Piva que se declarava marxista e se apresentava em público declarando “eu sou comunista” na década de 1970 e o monarquista ou anarco-monarquista a partir dos anos de 1980 foram o mesmo. De modo consistente, o mesmo rebelde, situando-se à margem, afrontando a ordem estabelecida: as circunstâncias é que mudaram. Vale para ele algo que Breton afirmou no terceiro de seus manifestos surrealistas, de 1942: “É preciso, a todo transe, convencer as pessoas de que, uma vez adquirido o consenso geral sobre determinado assunto, a resistência individual passa a ser a única chave da prisão. […] Por isso, contrariarei o voto unânime de qualquer assembléia que não se propuser, de moto próprio, a contrariar o voto de uma assembléia mais numerosa […]”.

A chave para não haver incorporado aos volumes publicados pela Globo vários poemas excelentes talvez esteja neste trecho, com que encerra 20 poemas com Brócoli, de 1981: “eu abandonei o passado a esperança / a memória o vazio da década de 70 / sou um navio lançado ao / alto-mar das futuras / combinações”. Por isso, correu o apagador sobre sua produção da época, exceto o que saiu em livro. Dos textos que publicou em Versus, não recuperou nenhum. Dos de Singular & Plural, apenas dois: “Quem tem medo de Campos de Carvalho” e “Relatório para ninguém fingir que esqueceu”. Já as contribuições para Chiclete com Banana de Toninho Mendes e Angeli, de 1990, a série Sindicato da natureza, foram integralmente adicionadas ao volume 3, Estranhos sinais de Saturno.

O motivo de recuperar agora esses inéditos não é apenas por sua evidente qualidade – “O hino do futuro é paradisíaco” é impecável, mostra como tratar do tema de modo contundente, mas sem ceder à grandiloqüência. Piva, hoje, não é apenas um poeta lido, mas estudado. Os inéditos ampliam sua compreensão, enriquecem a leitura do restante da sua obra.

Outro inédito de Piva (o penúltimo): aquele poema

Integra Corações de Hot-Dog. Foi lido por Roberto Bicelli na homenagem da terça-feira passada, 24/09, e por mim nas duas sessões de ontem, 26/09, sempre recebendo aclamação entusiástica. Estava entre os textos no Instituto Moreira Salles descobertos por Ibriela Berlanda. Agradeço a Gustavo Benini, detentor dos direitos, pela autorização de publicação; e a Sergio Cohn, pela transferência de jpeg para word.

O movimento gay nunca atraiu Piva – demasiado institucional para seu anarco-individualismo. Não obstante, acho apropriado dedicar esta publicação a Vladimir Putin e demais integrantes da cavernosa legião dos homofóbicos.

Dentre as qualidades de Piva como poeta, além do intenso lirismo e da capacidade de criar imagens, deve ser destacada a ironia, presente desde Paranóia e exuberante neste poema. É paródia satírica, inclusive pelo formato de ode, poema em homenagem. Em oficinas, tenho insistido que a qualidade poética está no detalhe – inclusive, neste caso, no título, em vez do chavão Ode ao cu.

Ainda publicarei mais um inédito do Piva neste blog; ou melhor, semi-inédito, “O hino do futuro é paradisíaco”. Depois, chega – outros belos poemas, como o espantoso relato do trombadinha, do marinheiro canadense e do camelô, ficarão por conta de um próximo livro.

Roberto Piva.

                  POEMA ELÉTRICO DO CU

músculo de veludo na boca de todos os feirantes
            torpedeiros    meninas de internato
            negociantes   padeiros    farofeiros
            torcidas    exércitos de humanocultura
            onde você habita alucinante como
            promessa derradeira
cu boquiaberta entrada franca dos demônios
            pesadelo dos adolescentes    fogueira da
            solteirona em férias    árvore genealógica
            da Cloca Mater onde foi chocado
            o ovo humano numa temperatura
            de 300 sóis
cu   fonte de energia kundalini    hóstia dos
            grandes libertinos    fornalha dos
            cocainômanos    boca azulada da
            verdade corpórea diagramada no
            infinito do desejo      cu grande iniciador
           de tempestades amorosas      vertigem verdadeira
           onde os amantes deslizam
cu   vaporizador da Idade Média do corpo
           onda bioenergética de metais coloridos
           omoplatas carregadas de hidrogênio
           leopardos alucinados de tanto veludo 
cu de cabelos   negros     loiros   ruivos   castanhos
           cipoal de intrigas   onde o caralho
           se perde     se desnorteia    desmaia de gozo
           na contração do espasmo da alegria erótica
cu selvagem assaltante noturno     diurno     trombadinha
           espadachim das estradas   que levam
           ao Grande Precipício anunciador de Paixões
cu das penugens suaves & sumarentas    flor carnívora
           labareda policiada pela civilização
            ave louca    solitária    perdida   bêbada 
           amorosa 
cu proletário  do  corpo      grande escorpião revoltado
            teu vôo de liberdade começa  a acontecer

Palestra em Diadema: Poetas malditos e Piva

Darei palestra sobre este tema: “Poetas malditos, de Baudelaire a Roberto Piva”.

No Seminário Literatura e Interfaces, em Diadema.

Será na próxima sexta feira, dia 28 de junho, às 15 h. Haverá debate em seguida.

O seminário dura o dia todo e terá outras atividades: palestras, apresentações, debates.

Endereço: Av Sete de Setembro, 468 Diadema-Centro – Biblioteca Olíria de Campos Barros

Também preparei ensaio sobre o tema, já encaminhado para publicação. Em um evento recente, em uma universidade, foram lançadas dúvidas sobre a existência, hoje, de poetas malditos. Acho que minha abordagem contribuirá para esclarecer – inclusive pelo que observo sobre a relação com Dante Alighieri, Baudelaire, Nerval e Rimbaud. São os prazeres do comparatismo literário.

O lugar é apropriado. Na década passada, Piva se apresentou em Diadema, com seus “Encontros órficos”. Eu também. No final de 2007, tivemos uma mesa composta por Piva, Afonso Henriques Neto e por mim. Observei, na ocasião, ser um escândalo essa mesa nunca ter sido promovida na USP.

SEMINÁRIO LITERATURA E INTERFACES
Neste I Seminário, o ponto de cultura Mídias Literárias propõe o debate sobre os usos da literatura em outros suportes, como o caso dos trabalhos com formação de mediadores de leitura e o uso para a saúde. Teremos a presente de convidados de notório saber que irão provocar um diálogo entre as diversas áreas. Consulte programação específica.
28/06, sexta, das 9h às 17h

Mais poemas: agora, o meu

Completando a série que pretendia publicar aqui, neste blog (haverá mais, é claro), segue a prosa poética, originariamente publicada em Jardins da provocação e depois em Estranhas experiências, que Carmem Silvia Presotto havia postado no Facebook.

Escrevo de modo espontâneo – muitas vezes, é escrita automática. Este não – criação foi deliberada, consciente, “trabalhada”, queria fixar no papel uma determinada impressão, de como era a luz no quarto com a persiana baixada. Tentei algumas vezes, parei, refiz, copidesquei até ficar como queria.

Misteriosos caminhos da criação literária. Acabo de mandar para uma antologia um poema – também sairá no meu próximo livro – intitulado “Trópico de sagitário”. A imagem me veio à mente, apareceu em um flash – achei bonita, anotei, e esse título me sugeriu mais algumas frases. 100% espontâneo, sem parar para pensar. Só a epígrafe, adicionei ao preparar para publicação. Depois, detive-me nos sentidos: não existe trópico de sagitário; eu é que sou desse signo – e “trópico” lembra, é claro, Henry Miller, autor da minha predileção, inclusive pela prosa poética. O poema é, portanto, sobre autobiográfico. Pensando bem – como é poema curto, também vou publicá-lo, acrescentá-lo a esta postagem.

Boa leitura.

VIAGENS 5

OS POETAS APENAS TRANSCREVEM O QUE OUTROS POETAS JÁ DISSERAM

Aos amantes uma outra vida é concedida

Hölderlin

Despertamos neste domingo de tentáculos solares que ameaçam tomar conta do resto da semana; com a persiana baixa, o quarto é penumbra dourada, entardecer constante seja qual for a hora do dia. Viajantes imóveis, olhamos o filete de fumaça do cigarro plantado no centro do quarto, seu movimento vagaroso aparentando a vida dos sargaços, aguapés, labirintos e demais símbolos da memória. Como plantas aquáticas à deriva, viemos parar aqui, fugitivos do excessivo mundo, prisioneiros voluntários deste mínimo espaço. A cada nova carícia, cada perda de mãos nos meandros do corpo do outro, transformamo-nos em personagens do mesmo sonho: o mundo finalmente reduzido à dimensão da colcha jogada sobre a cama, à geometria harmoniosa dos lençóis amassados e travesseiros náufragos. Nossa nudez é um desafio ao tempo: todas as horas formas do sempre, multiplicadas pelo mesmo gesto de acariciar-se. Possuídos pela mesma calma dos rios que deságuam em seu pântano e vão reconhecendo aos poucos suas novas margens de contornos imprecisos, suas raízes e troncos submersos, falamos pouco, pois tudo tem significado, até mesmo os gestos mais simples, acender um cigarro, tomar café. O despertar é reconhecimento e retomada dos mesmos gestos rituais, mãos construindo novos labirintos de sensação do macio e do áspero da pele, navegação de um para o outro para depois voltarmos a nos afundar nos lençóis mornos. Não fazemos questão de ser muito mais que isso, um arquipélago de superfícies do corpo e sensações da pele. E esta umidade que só o amor consegue criar, impregnando o ar e recobrindo a parede. E os cheiros do corpo, o que dizer deles, desta aura de suor, esperma, perfume, hálito, secreção e mistério, que carregamos conosco e que nos dá a certeza de existir e estarmos vivos. Identidade com o mar, conhecimento das vozes do entardecer, memória dos passos sendo acolhidos pela areia da praia. Somos signos da terra, nos acompanha algo de chão apenas revolvido, pequenos lagos com suas plantas, florestas que ainda existem. Como tudo isso é diferente do resto, e nos torna irreversíveis. Todos os poemas o mesmo poema. Libertamo-nos, deixamos de ser prisioneiros do horóscopo. Recolocamos o mundo em seu devido lugar, após tomar uma poção mágica. Cumplicidade de samurais que se preparam para a luta em uma prontidão de espadas, sabedoria daqueles que sabem mover-se na escuridão. A percepção desentravada nesta planície de penumbra dourada de entardecer que se reflete na pele. Não importa onde você esteja agora, e quão distante. Não existem saudades, porém sóis circulando em nossas veias. Nenhuma sensação de perda ou de vazio, porém de acréscimo, alguma coisa que ganhamos nessa complicada errância pelo planeta em busca da nossa identidade. E também esta névoa familiar que pousa ao meu lado na semilucidez da vigília, feita de sensações de corpo, presenças, toques da pele, pulsações, tesão, este confuso novelo de memórias, de vozes e de cheiros que aos poucos vai se desatando e se transformando em poema.

 

TRÓPICO DE SAGITÁRIO

Empenhara-me, efetivamente, com toda a sinceridade d’alma, em revertê-lo ao seu estado primitivo de filho do sol

Rimbaud

fragmentos celestes

                                            suspensos a uma nuvem

                         podemos observar o lento giro dos portões do mar

                         e sentir que a vida toda se condensa em um momento

 

                         as palavras respiram

                                               no livro invisível

                                                                                feito de água

                         novas sensações

                                                      escondidas por trás do vento

Agora, um trecho de Allen Ginsberg

Foi lido e examinado na recente oficina, em Ribeirão Preto, semana passada, a propósito de anáforas e imagens. É o final de “Kaddish”, o extenso poema sobre sua mãe, louca, que tinha surtos e passou boa parte da vida internada. Comparei com o poema precedente, de Breton, É como se um fosse o negativo do outro.

A comparação é sugerida por Barry Miles, em seu excelente The Beat Hotel – das minhas recomendações a editores interessados em publicar mais sobre geração beat. Miles acha, inclusive, que Ginsberg havia lido “L’Union Libre” de Breton na época em que começou a escrever “Kaddish”, em 1958, em Paris.

Faz sentido – não só pela estrutura do poema, mas pelo episódio da fracassada tentativa de encontro de Ginsberg e Breton na época, já comentada aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/17/beat-e-surrealismo-encontros-e-desencontros/ . Mas são poéticas distintas – Ginsberg foi um objetivista, e todas as imagens resumem episódios biográficos, realmente acontecidos – embora em outros poemas fosse surreal, como também já observei aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/24/ciclo-grotowski-e-ginsberg-surrealista/

Outro comentário de Miles: de que Ginsberg chorava ao escrever poesia, e chorou muito ao escrever “Kaddish”, por isso tinha certeza de que o poema seria bom – o oposto de “a emoção não cria” de Cabral. O recente Negócios de família (editora Peixoto Neto), correspondência de Allen Ginsberg com seu pai, o também poeta Louis Ginsberg, inclui comentários desse sobre o poema do filho: admirou, mas não suportou a “longa barba negra ao redor da vagina”, pediu que retirasse. Diferenças de gerações e de poéticas.

“Kaddish” é um poema portentoso, obra prima – leiam-no na íntegra, em minha tradução de Ginsberg, bem acessível em pocket.

Allen Ginsberg

Kaddish

IV

Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey[1] morrendo numa ambulância
com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs [2]
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores

V

Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island
Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra
có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes
Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol[3]
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có Senhor

 NY, 1959


[1] Ma Rainey – a grande cantora de jazz da primeira metade do século.

[2] Checoslováquia atacada por robôs – imagem por associação livre, pois a palavra robô foi inventada por um escritor checoeslovaco, Karel Kapek, precursor da ficção científica.

[3] Sheol – território da morte, equivalente hebraico do Hades grego.

“A união livre” de André Breton

Suzanne Muzard and Andr Breton 1929

Incrível, o que a tecnologia nos está possibilitando: uma gravação de ‘L’union libre’ pelo próprio Breton:

 

Havia dito que publicaria. Virão outros.

Este poema é de 1930 – uma das portas de entrada do surrealismo, junto com Nadja e O amor louco, também de Breton. Tenho levado (trazido?) a oficinas literárias, para mostrar imagens poéticas e pensamento analógico. Extenso, ao mesmo tempo há condensação, síntese – como se unisse os extremos de uma analogia ou uma história. Saiu na coletânea Clair de terre (Clareira). A mulher a que se dirige é provavelmente Suzanne Muzard, com quem teve um relacionamento desastroso. Período difícil na vida de Breton, separando-se de Simone Kahn, sem dinheiro, polemizando pesadamente no âmbito do movimento surrealista, principalmente por causa da adesão ao marxismo – que resultou na saída, entre outros, de Antonin Artaud e Robert Desnos – e ao mesmo tempo do impossível relacionamento com a militância comunista de orientação soviética. Foi quando escreveu o controvertido e contraditório Segundo manifesto do surrealismo, e um ensaio, a meu ver simultaneamente brilhante e paranóico, Les vases communicants, no qual formulou o “acaso objetivo”. Ao mesmo tempo, criou um poema sublime como este.

(Acrescentado em 30/05/2015): A tradução de “l’Union libre” é o post mais acessado deste blog. Decidi ilustrar com fotos de Suzanne Muzard e Breton, de 1929. Contudo, Henri Béhar, em André Breton, Le grand indésirable, observa que o poema pode ou não ter sido para Suzanne. Ela acreditava que sim, que fora a musa. Mas o exemplar da plaquette na qual o poema foi publicado em 1931, disponível na Bibliothéque nationale, é para Marcelle, com quem Breton também chegou a relacionar-se. E pode ter sido para Valentine Hugo ou outra das musas bretonianas. No extenso Dictionnaire André Breton, ao tratar de Le révolver à cheveux blancs, coletânea da qual “l’Union libre” faz parte (que por sua vez tenho na edição de bolso de Clair de terre da Gallimard), Béhar adverte contra reducionismos. Interpreta o conjunto como resposta poética, na chave do sublime, a todas as dificuldades que Breton enfrentava e às ásperas polêmicas nas quais estava envolvido. Concordo. O título da introdução de Le révolver à cheveux blancs é Il y aura une fois: “haverá uma vez”, no lugar do “era uma vez”, afirmação da sua convicção de que a utopia se realizaria, de que o mundo encantado retornaria. Alô, alô editores: quando todos esses poemas bretonianos estarão acessíveis ao leitor brasileiro?

André Breton

A união livre

Minha mulher com a cabeleira de fogo de lenha
Com pensamentos de relâmpagos de calor
Com a cintura de ampulheta
Minha mulher com a cintura de lontra entre os dentes de tigre
Minha mulher com a boca de emblema e de buquê de estrelas de primeira grandeza
Com dentes de rastros de rato branco sobre a terra branca
Com a língua de âmbar e vidro friccionado
Minha mulher com a língua de hóstia apunhalada
Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de pedra inacreditável
Minha mulher com cílios de lápis de cor para crianças
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E de vapor nos vidros
Minha mulher com ombros de champanhe
E de fonte com cabeças de golfinhos sob o gelo
Minha mulher com pulsos de palitos de fósforo
Minha mulher com dedos de acaso e ás de copas
Com dedos de feno ceifado
Minha mulher com as axilas de marta e faia
De noite de São João
De ligustro e de ninho de carás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E mistura do trigo e do moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e desespero
Minha mulher com panturrilhas de polpa de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de molhos de chaves com pés de calafates que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta do Vale do Ouro
De encontro no próprio leito da correnteza
Com os seios de noite
Minha mulher com os seios de toupeira marinha
Minha mulher com os seios de crisol de rubis
Com os seios de espectro da rosa sob o orvalho
Minha mulher com o ventre a desdobrar-se no leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com o dorso de pássaro que voa vertical
Com dorso de mercúrio
Com dorso de luz
Com a nuca de pedra rolada e giz molhado
E queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com os quadris de escaler
Com os quadris de lustre e penas de flecha
E de caule de plumas de pavão branco
De balança insensível
Minha mulher com nádegas de arenito e amianto
Minha mulher com nádegas de dorso de cisne
Minha mulher com nádegas de primavera
Com sexo de lírio roxo
Minha mulher com o sexo de jazida de ouro e de ornitorrinco
Minha mulher com o sexo de algas e bombons antigos
Minha mulher com o sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e agulha imantada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de lenha sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar de terra e de fogo.

Hilda Hilst: palestra em São Carlos

Na próxima quarta-feira, dia 22 de agosto, às 20 h, darei palestra em São Carlos, intitulada: A poesia de Hilda Hilst.

Local: o Espaço de Convivência Interna do SESC dessa cidade.

Assim inauguro uma programação, intitulada Clube de Leitura “À viva voz”. É anunciada como “Novo espaço de leitura e compartilhamento de experiências literárias, que tem na leitura em voz alta de textos seu ponto de partida.”  É gratuita.

O endereço: Avenida Comendador Alfredo Maffei, 700, Jardim Gibertoni, São Carlos – SP.

Venham. Avisem interessados. Juntem-se a esse clube. Leremos e compartilharemos.

A natureza e alguns poetas: novo curso

Com satisfação, divulgo meu próximo curso: A natureza e alguns poetas

Local: Museu da Língua Portuguesa

Datas e horário: Às terças-feiras, dias 03,10,17 e 24 de abril, das 14h00 as 17h00: quatro aulas

Local: Sala de aula ( acesso no portão 03 do Museu)

Vagas: 50

Inscrições: Gratuitas, pelo tel: (11) 3227.0402

 Museu da Língua Portuguesa

Estação da Luz

Praça da Luz, s/nº

Centro – São Paulo – SP

(11) 3326-0775

museu@museulp.org.br

 PROGRAMA

A NATUREZA E ALGUNS POETAS

  1. Românticos e a celebração da natureza como lugar da manifestação do sagrado, em oposição à industrialização: de William Blake a Gérard de Nerval.
  2. Baudelaire e a ambivalência: o desprezo pelo natural e a proclamação do caráter sagrado do mundo. Simbolistas e decadentistas; o artificial e a natureza transformada, cenário de um encontro de imaginação e realidade, em Huysmans e Laforgue; Lautréamont e  a natureza absolutamente selvagem;
  3. A poesia surrealista e a síntese do imaginário e do real: Aragon e O      camponês de Paris.
  4. Simbolistas brasileiros: as visões luxuriantes da natureza de Cruz e Souza. O modernismo brasileiro: Jorge de Lima, poeta telúrico; no pós-modernismo, Manoel de Barros e sua visão      particular do microcosmo.
  5. Poetas da natureza e ambientalistas na Geração Beat: trechos comentados de Jack Kerouac, Gary Snyder; e principalmente Michael McClure e a identidade com o animal.
  6. Dois contemporâneos que tratam a natureza de modo pessoal: o português Herberto Helder e o brasileiro Roberto Piva.

Venham