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“A união livre” de André Breton

Suzanne Muzard and Andr Breton 1929

Incrível, o que a tecnologia nos está possibilitando: uma gravação de ‘L’union libre’ pelo próprio Breton:

(Acrescentado em 30/05/2015): A tradução de “l’Union libre” é o post mais acessado deste blog. Decidi ilustrar com fotos de Suzanne Muzard e Breton, de 1929. Contudo, Henri Béhar, em André Breton, Le grand indésirable, observa que o poema pode ou não ter sido para Suzanne. Ela acreditava que sim, que fora a musa. Mas o exemplar da plaquette na qual o poema foi publicado em 1931, disponível na Bibliothéque nationale, é para Marcelle, com quem Breton também chegou a relacionar-se. E pode ter sido para Valentine Hugo ou outra das musas bretonianas. No extenso Dictionnaire André Breton, ao tratar de Le révolver à cheveux blancs, coletânea da qual “l’Union libre” faz parte (que por sua vez tenho na edição de bolso de Clair de terre da Gallimard), Béhar adverte contra reducionismos. Interpreta o conjunto como resposta poética, na chave do sublime, a todas as dificuldades que Breton enfrentava e às ásperas polêmicas nas quais estava envolvido. Concordo. O título da introdução de Le révolver à cheveux blancs é Il y aura une fois: “haverá uma vez”, no lugar do “era uma vez”, afirmação da sua convicção de que a utopia se realizaria, de que o mundo encantado retornaria. Alô, alô editores: quando todos esses poemas bretonianos estarão acessíveis ao leitor brasileiro?

Havia dito que publicaria. Virão outros.

Este poema é de 1930 – uma das portas de entrada do surrealismo, junto com Nadja e O amor louco, também de Breton. Tenho levado (trazido?) a oficinas literárias, para mostrar imagens poéticas e pensamento analógico. Extenso, ao mesmo tempo há condensação, síntese – como se unisse os extremos de uma analogia ou uma história. Saiu na coletânea Clair de terre (Clareira). A mulher a que se dirige é provavelmente Suzanne Muzard, com quem teve um relacionamento desastroso. Período difícil na vida de Breton, separando-se de Simone Kahn, sem dinheiro, polemizando pesadamente no âmbito do movimento surrealista, principalmente por causa da adesão ao marxismo – que resultou na saída, entre outros, de Antonin Artaud e Robert Desnos – e ao mesmo tempo do impossível relacionamento com a militância comunista de orientação soviética. Foi quando escreveu o controvertido e contraditório Segundo manifesto do surrealismo, e um ensaio, a meu ver simultaneamente brilhante e paranóico, Les vases communicants, no qual formulou o “acaso objetivo”. Ao mesmo tempo, criou um poema sublime como este.

André Breton

A união livre

Minha mulher com a cabeleira de fogo de lenha
Com pensamentos de relâmpagos de calor
Com a cintura de ampulheta
Minha mulher com a cintura de lontra entre os dentes de tigre
Minha mulher com a boca de emblema e de buquê de estrelas de primeira grandeza
Com dentes de rastros de rato branco sobre a terra branca
Com a língua de âmbar e vidro friccionado
Minha mulher com a língua de hóstia apunhalada
Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de pedra inacreditável
Minha mulher com cílios de lápis de cor para crianças
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E de vapor nos vidros
Minha mulher com ombros de champanhe
E de fonte com cabeças de golfinhos sob o gelo
Minha mulher com pulsos de palitos de fósforo
Minha mulher com dedos de acaso e ás de copas
Com dedos de feno ceifado
Minha mulher com as axilas de marta e faia
De noite de São João
De ligustro e de ninho de carás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E mistura do trigo e do moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e desespero
Minha mulher com panturrilhas de polpa de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de molhos de chaves com pés de calafates que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta do Vale do Ouro
De encontro no próprio leito da correnteza
Com os seios de noite
Minha mulher com os seios de toupeira marinha
Minha mulher com os seios de crisol de rubis
Com os seios de espectro da rosa sob o orvalho
Minha mulher com o ventre a desdobrar-se no leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com o dorso de pássaro que voa vertical
Com dorso de mercúrio
Com dorso de luz
Com a nuca de pedra rolada e giz molhado
E queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com os quadris de escaler
Com os quadris de lustre e penas de flecha
E de caule de plumas de pavão branco
De balança insensível
Minha mulher com nádegas de arenito e amianto
Minha mulher com nádegas de dorso de cisne
Minha mulher com nádegas de primavera
Com sexo de lírio roxo
Minha mulher com o sexo de jazida de ouro e de ornitorrinco
Minha mulher com o sexo de algas e bombons antigos
Minha mulher com o sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e agulha imantada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de lenha sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar de terra e de fogo.

Hilda Hilst: palestra em São Carlos

Na próxima quarta-feira, dia 22 de agosto, às 20 h, darei palestra em São Carlos, intitulada: A poesia de Hilda Hilst.

Local: o Espaço de Convivência Interna do SESC dessa cidade.

Assim inauguro uma programação, intitulada Clube de Leitura “À viva voz”. É anunciada como “Novo espaço de leitura e compartilhamento de experiências literárias, que tem na leitura em voz alta de textos seu ponto de partida.”  É gratuita.

O endereço: Avenida Comendador Alfredo Maffei, 700, Jardim Gibertoni, São Carlos – SP.

Venham. Avisem interessados. Juntem-se a esse clube. Leremos e compartilharemos.

A natureza e alguns poetas: novo curso

Com satisfação, divulgo meu próximo curso: A natureza e alguns poetas

Local: Museu da Língua Portuguesa

Datas e horário: Às terças-feiras, dias 03,10,17 e 24 de abril, das 14h00 as 17h00: quatro aulas

Local: Sala de aula ( acesso no portão 03 do Museu)

Vagas: 50

Inscrições: Gratuitas, pelo tel: (11) 3227.0402

 Museu da Língua Portuguesa

Estação da Luz

Praça da Luz, s/nº

Centro – São Paulo – SP

(11) 3326-0775

museu@museulp.org.br

 PROGRAMA

A NATUREZA E ALGUNS POETAS

  1. Românticos e a celebração da natureza como lugar da manifestação do sagrado, em oposição à industrialização: de William Blake a Gérard de Nerval.
  2. Baudelaire e a ambivalência: o desprezo pelo natural e a proclamação do caráter sagrado do mundo. Simbolistas e decadentistas; o artificial e a natureza transformada, cenário de um encontro de imaginação e realidade, em Huysmans e Laforgue; Lautréamont e  a natureza absolutamente selvagem;
  3. A poesia surrealista e a síntese do imaginário e do real: Aragon e O      camponês de Paris.
  4. Simbolistas brasileiros: as visões luxuriantes da natureza de Cruz e Souza. O modernismo brasileiro: Jorge de Lima, poeta telúrico; no pós-modernismo, Manoel de Barros e sua visão      particular do microcosmo.
  5. Poetas da natureza e ambientalistas na Geração Beat: trechos comentados de Jack Kerouac, Gary Snyder; e principalmente Michael McClure e a identidade com o animal.
  6. Dois contemporâneos que tratam a natureza de modo pessoal: o português Herberto Helder e o brasileiro Roberto Piva.

Venham