Posts Tagged ‘Política cultural’

CALOTEIROS RETICENTES, TARDÍGRADOS ENSIMESMADOS

Em tempo: adiciono ilustração – foto de um tardígrado, enviada por Estela Guedes, bióloga além de poeta e outras qualificações. Não creio que seja o exemplar que trabalha no setor financeiro da prefeitura de São Luís do Maranhão:

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O que aborrece não é apenas prometerem e não cumprirem – é sequer responderem a e-mails para dizer que vão resolver, que demorará mas sairá, que dificuldades serão superadas, que a crise brasileira pegou de surpresa, que …

Feira do Livro de São Luis, Maranhão, promovida pela prefeitura local em outubro, já foi tema de reclamações que circularam no Facebook. Acrescento que, como estou fazendo uma enorme tradução e recebo por lauda, coisa dessas equivale a prejuízo duplo, ao que deixei de produzir – além do que se gasta com táxi para Guarulhos e tal.

Nem faço questão fechada de receber sempre cachês ou ajudas de custo, posso ir por simpatia, amizade, para apoiar alguma manifestação cultural. Mas já refuguei convites de municipalidades que cobririam viagem e estada, mas não me pagariam nada. Por uma razão singela: se as prefeituras de Indaiatuba, Bragança Paulista ou Ribeirão Preto, por exemplo, podem, por que não poderiam as de R* ou C**, do mesmo porte, economicamente equivalentes? Duvidosos espetáculos musicais, caipiras eletrônicos e tal, eles contratam, pois é disso que o povo gosta. Literatura, transmissão de conhecimento não interessam, não são prioridade em vários lugares.

Onde tudo funciona é nos SESC. Mas pode acabar, caso se concretize o plano governamental de ficar com recursos do “Sistema S” para tapar buracos. Seria, é noticiado, para pagar o Pronatec. Então retirariam dinheiro de instituições que oferecem ensino técnico para cobrir os custos do programa federal de ensino técnico? Ah, sim, se for 100% estatal é melhor, preferir que seja gerido pela iniciativa privada é neoliberalismo …

Acompanhando o que acontece na saúde pública, no ensino público, 2016 deverá ser o ano do desmonte de instituições culturais. Está sendo – há poucos dias, reproduzi um post sobre a situação da escola de artes visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Na próxima, perguntarei aos autores da denúncia se ao menos retiraram o apoio que deram na eleição passada aos responsáveis pela situação. Ah, mas isso é resultado de tramas da CIA, das multinacionais do petróleo, dos tumultos provocados pela oposição, dirão os da banda sectária. Em breve, postarei mais sobre pensamento totalitário.

 

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Do tempo em que havia boas políticas culturais públicas e municípios culturalmente ativos

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Digitalizei fotos de quando presidia a UBE, União Brasileira de Escritores. Esta, de um encontro de escritores realizado em Rio Claro, no ano de 2000; sessão com Lygia Fagundes Telles, no Centro Cultural dessa cidade – auditório grande, comporta centenas de pessoas. O encontro durou um fim de semana e teve várias sessões: Antonio Carlos Fester falou sobre literatura e direitos humanos, Beatriz Azevedo sobre poesia falada, entre outros. Prefeitura de Rio Claro, através de João Baptista Pimentel que dirigia o Centro Cultural, bancou tudo. Profissionalismo: pagaram cachê para todos, R$ 500,00, que corresponderiam a uns R$ 1.200,00 atuais. Como presidia a entidade, dei palestra mas declinei do meu. Fizemos outro encontro semelhante em 2004, em Dois Córregos; prefeitura local também compareceu, nos mesmos termos.
Hoje, temos festas literárias e outros eventos do mesmo teor. Adquiriram prestígio e atraíram patrocinadores particulares. Por outro lado, observo municipalidades que me informam que gostariam de receber escritores, promover palestras, mas não têm condições de pagar um cachê. É retrocesso. Algumas dessas municipalidades promovem shows e pagam cachês elevados: populismo, em alguns casos, corrupção.
Por isso, é bom guardar fotos. Tenho mais.

As boas políticas culturais públicas em São Paulo, em 1994

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A propósito da homenagem a Rodolfo Konder dia 19 de agosto, organizada por Beatriz Helena Ramos Amaral, recuperei fotos do período em que foi secretário municipal de cultura e eu atuei como assessor e coordenador da formação cultural. Esta mostra uma sessão do ciclo de palestras e debates sobre Contracultura na Biblioteca Mário de Andrade, no segundo semestre de 1994. Estou entre os conferencistas Zuenir Ventura e Arthur José Poerner. Konder está na primeira fila, à direita no quadro. Reparem que o mezanino também está lotado, assim ocupando os 210 lugares do auditório. Em outras sessões, instalamos monitores de TV no saguão. Isso, regulamente, três vezes por semana. E em outras instalações: vieram 200 pessoas para ouvir Orides Fontela e outros poetas na Casa de Cultura do Butantã, por exemplo. Hoje, o que acontece lá? E em outras bibliotecas e casas de cultura, então ativas, oferecendo programação regular para a cidade? Volto a sustentar que algum ostracismo, alguma maledicência, foi pelas qualidades da gestão de Konder, e não por seus defeitos. Entre outras dessas qualidades, a cooperação e diálogo. Apesar de já ser especialista no assunto, a série sobre contracultura foi uma sugestão da diretora da biblioteca, Lúcia Neiza. Acolhemos e realizamos outros projetos que nos foram apresentados. Fizemos parcerias com a USP, Mackenzie, SESC, UBE e outras instituições. Como disse na sessão do dia 19, uma das nossas qualidades foi o respeito pelo trabalho alheio. Atingimos o grau zero de aparelhamento e sectarismo. Ao contrário dos que se acham o marco inicial da administração cultural e começam por paralisar tudo o que vinha sendo feito, Konder deu prosseguimento a projetos recebidos da gestão anterior, de Marilena Chauí: as casas de cultura (que passaram de 8 para 12), Lei Mendonça (hoje desativada) e Conselho Municipal de Cultura – entrei na Secretaria para cuidar de sua instalação, e só depois fui cuidar de cursos, oficinas, ciclos de palestras, encontros de escritores e apresentações de poetas: atividades importantes por complementarem o ensino formal. Além dos números, da quantidade de público e atividades, há uma dimensão qualitativa a ser lembrada. Pessoas já me disseram que comparecer a alguma dessas programações as fez perceberem que seu campo seria a literatura, assim modificando suas vidas. Por exemplo, autores a quem conheço, que freqüentaram os Encontros Órficos de Roberto Piva.
É um chavão notório dizer que uma imagem vale mais que mil palavras. Ainda mostrarei outras imagens.
(cliquem na imagem, amplia)
A manifestação sobre Konder:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/08/17/mesa-sobre-rodolfo-konder-na-casa-das-rosas/

Mesa sobre Rodolfo Konder na Casa das Rosas

Será esta terça feira, dia 19 de agosto. À Avenida Paulista, 37, São Paulo, a partir das 19h30. Organizada pela poeta Beatriz Helena Ramos Amaral. Falarei, precedido por Anna Maria Martins, Fabio Lucas e Luís Avelima.
Ocasião para dizer algo sobre política cultural. Tratar de literatura na administração cultural pública, entre outros temas. Insistirei que houve algum ostracismo pelas qualidades da gestão de Konder, não por seus erros. Talvez, o secretário de cultura certo nas administrações municipais erradas. Lembrarei a quantidade (e, evidentemente, a qualidade) de atividades ligadas á literatura e ao debate de idéias no período: palestras, ciclos de debates, apresentações de poetas, encontros de escritores com o público em bibliotecas e outros equipamentos. Nesse campo, o retrocesso é evidente. Na área municipal, não há mais nada relacionado á poesia, após a defenestração de Claudio Daniel do Centro Cultural – e mesmo aquilo foi uma ínfima fração, em recursos e quantidade de eventos, do que fizemos. Hoje, Casa das Rosas, vinculada á administração estadual, é quase um reduto isolado – e também sofre com a carência de recursos, seus gestores estão tirando leite de pedra. Hora de reivindicar retomada, recuperação de espaços e recursos para a produção simbólica, capaz de formar consciências e constituir uma realidade melhor.
Lembrando, Konder faleceu a 1º de maio deste ano. Conheci-o pessoalmente em 1979, quando retornou do exílio, através de Marcos Faerman, um agregador. Colaborávamos em Versus, criado por Faerman. Participamos, com ele, de Singular e Plural. A meu convite, filiou-se à UBE, União Brasileira de Escritores, em 1981. Fomos diretores (acabei presidindo). Trabalhei com ele na Secretaria Municipal de Cultura, de 1993 a 2000.
Venham.
Mais sobre a sessão:
https://catracalivre.com.br/sp/agenda/gratis/casa-das-rosas-realiza-debate-em-homenagem-a-rodolfo-konder/
Sobre Konder:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/01/rodolfo-konder-5-de-abril-de-1938-1o-de-maio-de-2014/

O Sistema Nacional de Participação Social: muito barulho por nada?

Li o decreto que institui a Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social. Este:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Decreto/D8243.htm
É evidentemente oportunista e extemporâneo, assim em final de mandato. O certo teria sido apresentá-lo para debate em 2011. Requer atenção neste momento a reforma eleitoral: voto em lista fechada seria um horror, submeteria de vez a sociedade à burocracia partidária.
Por outro lado, críticas denunciando sovietização (Veja, Pondé etc) são paranóicas e disseminam ignorância. Centralização na extinta URSS foi através da subordinação dos soviets ao partido, e não da sua criação. Além disso, o novo decreto prevê representação patronal e os conselhos serão consultivos e não deliberativos. E sem jeton – moralizaria se enquadrassem alguns conselhões de notáveis já existentes nesse modelo.
“Descentralização e participação” foi lema da campanha Montoro em 1982, posto em prática apenas parcialmente. Social-democratas gostavam, algumas tendências anarquistas também. Na Alemanha, na época, conselhos multiplicavam-se e até sindicatos e igrejas tinham representação. Aqui, os conselhos da Secretaria Estadual de Cultura, a partir de 1982, passaram a ser de representantes de entidades, e não mais de notáveis. Gradativamente, foram esvaziados. Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) foi aberta para representação de algumas entidades em 1985, por lei votada na Assembléia. Em 1992 conseguimos, também em São Paulo, finalzinho da gestão Erundina / Marilena, a criação do Conselho Municipal de Cultura e da Lei Mendonça – Rodolfo Konder os implantou, cuidei disso. Em Brasília, a formação do conselho da Lei Rouanet, a CNIC, mediante indicações de entidades – burocratas do ministério não queriam, eu era presidente da UBE, estive em todas, tratei com simpáticos Genoino e Serra, líderes das respectivas bancadas – oposição a Collor somava, então. Antes, finalzinho de governo Sarney, Conselho Federal de Cultura e Conselho Nacional de Direitos Autorais passaram a ser de representantes. Collor imediatamente os extinguiu, sempre defendi sua reabertura.
Corrigir os retrocessos mais recentes seria bom, acho. E debater com seriedade o que deu errado, tratar da viabilidade e alcance desse modelo. Mas não desse jeito: parece cartorial. O mais importante, discutir com base em algum conhecimento do assunto, com argumentos razoáveis, e não no modo delirante.
E nunca deixar de apontar os traidores das boas causas. Estão por todo lado. Que mutações provoca o poder…

A demissão de Claudio Daniel da curadoria de literatura do Centro Cultural São Paulo: uma petição

Claudio Daniel relata a demissão da curadoria de literatura do Centro Cultural São Paulo em seu blog:
http://cantarapeledelontra.blogspot.com.br/2014/04/relatorio-de-gestao.html
Um abaixo-assinado, dirigido ao Secretário Municipal de Cultura, expressa o que pensamos a respeito:
http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR71380
Achei ofensivo. Ele trabalhou um bocado. Com recursos muito escassos, além de suportar a pesada burocracia, tirou leite de pedra. Demitir desse jeito é falta de consideração com relação a ele e para quem freqüentou ou se apresentou. Por causa de algum ‘desentendimento administrativo’, interromperem uma programação de qualidade. Ninguém está nem aí para o que nós, participantes e freqüentadores, queremos ou esperamos.
Havia aberto essa programação, em fevereiro de 2011, lendo meus poemas para um público, segundo o Centro Cultural, de 130 pessoas. Retornei como espectador, leitor de poemas, participante em mesas ou conferencista. De modo evidente, havia-se consolidado um espaço para a poesia. Descontinuá-lo é retrocesso. Por isso, peço que assinem e divulguem.
Sobre paradoxos da política, farei alguns comentários outro dia. Ou não – talvez não haja paradoxos, apenas uma consistente e crescente mediocridade.

Shows e malandragem

Nos últimos três meses, estive com três secretários municipais de cultura. Serviu para constatar que secretários municipais de cultura são diferentes uns dos outros, inclusive fisicamente.

Comentei os shows promovidos por municipalidades. Por aquelas que não visito, é claro. Também por estados e órgãos federais, mas é nos municípios que prolifera o baixo populismo. Em lugares à míngua de recursos para outras programações e bons serviços públicos em geral. Pagando uma nota alta, oferecendo espetáculos cuja qualidade, na maioria, não discrepa do que sai do automóvel com o som a todo volume ou da insistente balada clandestina aqui perto.

A malandragem é notória. Cachês artísticos não são subordinados à lei das licitações. Alguns pagam alto e recebem o troco. Do tipo contratar por R$ 120.000,00, pagar R$ 40.000,00 e ficar com R$ 60.000,00. Sei de casos, de boas fontes. Todo mundo sabe. Está na cara. Uma vez ou outra dá escândalo, como o caso de Ivete Sangalo em Sobral, os R$ 600.000,00 que ela garante nunca ter recebido. Mas são exceções. Parâmetro dessas contratações seria o “valor de mercado”. Ora, mas se o mercado está inflacionado por esses rolos, então o resultado do levantamento de preços também virá inflacionado.

Bom exemplo foi dado, este ano, por São Paulo, nos espetáculos da virada do ano. Não gastaram nada com cachês. Claro – se junta público, interessa a patrocinadores; esses se incumbem.

A disparidade dos cachês, nesta matéria de hoje (03/01) na Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/146163-quanto-vale-o-show.shtml

Como sempre, estouro de valores foi cearense, em Fortaleza. Quem é “Gusttavo Lima”, que vale R$ 600.000,00?

Proibir shows com dinheiro público? Nem precisa. Bastava algum TCU ou CGU pedir prestação de contas igual àquelas de Lei Rouanet, PROAC etc. Quem for receber, produtor ou empresário, que abra conta bancária separada e mostre os recibos de cada item das despesas. Não implantam porque não querem. Outras saídas de dinheiro público são sujeitas a burocracias espantosas, redundantes, já comentei aqui. Mas nessa modalidade ninguém mexe.

Faz tempo que eu estava para comentar isso.

A BUROCRACIA

Alastra-se. Exemplos, de uma lista que poderia ser bem mais extensa:

  1. Outro dia assinei contrato com editora, pediram-me que mandasse de volta com firma reconhecida. Estranhei, esclareceram que agora é exigência do MEC e outros órgãos públicos. Quando compram livros, o editor tem que mostrar o contrato com as assinaturas autenticadas. E o reconhecimento de firma, banido em uma das tentativas de desburocratização, vai retornando. Cartórios – instituição brasileira – agradecem.
  2. Algo que simplifica, nas autorizações mais simples de publicação, em contratos para dar palestras etc, é colar assinatura digitalizada ao arquivo e enviá-lo anexado ao e-mail. Não na Biblioteca Nacional: autorização de publicação – pela qual, nesse caso, não recebo nada –, vale se assinatura for de próprio punho. Se coincidir com greve dos correios, complica. Nada de dar tréguas ao desperdício brasileiro de papel.
  3. Em um município do Grande São Paulo, reformaram administração. Contratações foram centralizadas no departamento de suprimentos. Resultado: Secretaria de Cultura não consegue contratar ninguém, enfrenta toda espécie de dificuldades, chegarão ao fim do ano com verbas para exercício findo, como se não tivessem feito nada.
  4. Em outro município próximo a São Paulo, centralizam comunicações em uma Secretaria de Comunicações. Nem aí para a cultura, têm coisas mais importantes para tratar. Resultado: organizador do evento literário dardejando mensagens pelo Facebook, na tentativa de divulgar. Tive um terço do público que poderia ter vindo, calculo. Desperdício, inclusive do meu cachê.
  5. Outro dia, em uma cidade importante, com vida cultural ativa: organizadora da festa literária, parcialmente subvencionada pela prefeitura local, comentou que atender às exigências para que a subvenção saísse lhe deu mais trabalho que a organização do evento em si.
  6. Universidades e seus órgãos de fomento também têm procedimentos lindinhos. Quando você é transportado, tem que guardar o ticket de embarque e mandar de volta. Como se, comprovadamente, não houvesse estado lá. Outros órgãos públicos também pedem.
  7. Florianópolis, 2011: convidado, com outros autores, para dar palestra. Lá é assim: quem receber, for remunerado, tem que se cadastrar para recolher tributo local. Uma repartição, pomposamente denominada de centro da cidadania, assistência ao cidadão ou algo assim, cheia de gente, pode-se perder a manhã. É receber senha, aguardar chamada, entrar em uma sala cheia de funcionários, cada qual na frente de um monitor e um teclado. Examinam seus documentos e digitam seus dados, CPF, RG e tal. Fazem que computadores desempenhem mesmo serviço de máquinas de escrever. Aí, você vai ao guichê do banco instalado na repartição, paga o tributo e volta, mostra o comprovante; só então o liberam. Formulário on line, nem pensar, não acreditam que você exista se não comparecer pessoalmente. Menos ainda, quem te contratou cuidar disso e recolher o tributo. Modernizaram: dei palestra lá em 2005, não era assim. Soube que outras municipalidades vêm adotando o mesmo procedimento. Muito lógico: se não fosse assim, o que fazer com todos aqueles funcionários? Como ocupá-los?
  8. Alguns agentes públicos têm lances de gênio. Um deles – em um dos eventos recentes do qual participei – perguntou à coordenadora o motivo de trazerem conferencistas de fora, de outro país. Pediu justificativa por escrito da contratação de estrangeiros no lugar de brasileiros. O famoso excesso de zelo. Também faz parte da lógica da burocracia. Funcionários se preocupam em salvar o pescoço ou a cauda. Melhor errar por excesso, que no máximo resulta em reclamação verbal, do que por omissão, que pode render processo administrativo, prejudicando-lhe a carreira.
  9. Prefeitura de São Paulo, e muitas outras: se você propõe contratação de alguém, tem que justificar – não basta mostrar currículo (que exigem assinado, e se deixassem, pediam para reconhecer firma…). É claro que qualquer coisa escrita serve, não vão entender mesmo, é só para constar.

É circular: um complexo sistema de fiscalização da arrecadação de tributos cuja receita servirá para cobrir o custo desse complexo sistema de fiscalização da arrecadação de tributos. Ineficaz, por ser formal, fiscalização incidir sobre atividades-meio e não sobre a atividade-fim. Há pior, é claro. As pesquisas que atrasam ou são interrompidas à espera de guias de importação. A dificuldade de montar exposição com obras vindas de fora. A demora para abrir e fechar empresa. As transmissões e sucessões, o trabalho que dá para morrer, e não só para viver. Que a ensaísta Susan Sontag me desculpe por usar doença como metáfora – ela escreveu livro a respeito – mas a comparação é mesmo com metástases, bactérias resistentes ou vírus que proliferam. Todos estão cansados de saber que isso atrasa o país, que gera desperdício de recursos, o qual, por sua vez, resulta em sobrecarga tributária. Incomoda-me uma quantidade de pessoas conferirem estatuto de realidade ao absurdo, achando isso normal e que a vida é assim mesmo. De vez em quando, simplificam algum procedimento – mas, imediatamente, outro administrador iluminado inventa um novo modo de complicar.

As ameaças à Escola Livre de Teatro de Santo André

Havia recebido pelo Facebook a denúncia do estado de coisas em Santo André. Reproduzi:

ATENÇÃO, ATENÇÃO, ATENÇÃO!!!!C O M P A R T I L H E !!! Mantenha atualizado no FB e Twitter…!Hoje a Prefeitura PT de Sto André fechou a Escola Livre de Teatro ELT, um caldeirão importantíssimo de investigação teatral, que nas duas últimas décadas tornou-se ícone dentro e fora do Brasil. Quem a fundou agora quer afundá-la.A comunidade de aprendizes e ex-aprendizes está mobilizada. Vamos fazer a notícia “bombar” nas redes sociais! Se você conhece pessoas influentes e tem os contatos, cite, avise, compartilhe…!!! #eltlivre

Veio este outro link, com detalhes:

http://escolalivredeteatro.blogspot.com.br/2013/09/um-esclarecimento-mais-detalhado-sobre.html

Em tempo: acrescento o video, expressivo – inclui convocatória para manifstação amanhã, domingo dia 29

http://www.youtube.com/watch?v=lReiirRdVwk

Estarrecedor. Um absurdo. Barbárie instaurada. O que deu nessa gente? Administrador público que faz coisas assim, inclusive atrasar pagamento de colaboradores, merece cadeia – para começo de conversa. Destruir equipamentos culturais é crime. Fizeram outras, teve o caso da escultura de Sacilotto, removida.

São (eram?) três equipamentos culturais importantes em Santo André: Casa da Palavra, Casa do Olhar, Escola Livre de Teatro – criados na gestão de Celso Daniel. Casa da Palavra, inaugurei – a convite de Marcos Azevedo, leitura de Uivo de Ginsberg, acompanhado por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, casa cheia, Celso Daniel presente e acompanhando atentamente. Foi bonito e memorável. Dei oficinas literárias lá até 2004 com Marcos Azevedo, com excelentes resultados, e curso e oficina em 2006, com Beth Brait. Piva deu palestras. Muitos outros também estiveram. Houve excelentes resultados. Talentos se desenvolveram. Em seguida tudo foi refluindo, com as mudanças de administração e de partido.

Como é que pode: administração do PT destruir seu próprio legado, em vez de recuperá-lo. A imbecilidade é suprapartidária. É preciso mobilizar, antes que comprovem, mais uma vez, a tese de que sempre é possível piorar. Manifestações recentes mostraram que incompetentes e inescrupulosos são covardes, cedem. Se fosse no Rio de Janeiro, já teria mascarados chutando a porta da Prefeitura e intervindo na Câmara – e é exatamente isso o que deve ser feito em Santo André. Municipalidades e munícipes que não prezam a cultura não merecem consideração alguma.

 

Em tempo (postado no dia seguinte): dois comentários no Facebook, de Marcelo Marcus Fonseca e Elizabeth Lorenzotti:

Marcelo:

O Fechamento da Escola Livre de Santo André, o remanejamento de dinheiro de Cultura pra Saúde em São José do Rio Preto, prefeito de São Carlos fechando ponto de cultura e o cidadão não percebendo que isso é mais importante que o pré-sal, o transporte coletivo, os leitos de hospital, porque tudo, problemas sociais se resolvem através de cultura, não de educação. Quando não se pede por cultura numa manifestação é o próprio reflexo de falta de cultura que leva o país a esse estado. Todo é cultura. Tudo, saúde, educação, economia, justiça, Pib, tudo se resolve por meio de cultura. É simples e falta coragem para dizer isso pra quem não tem cultura por culpa de atitudes predatórias como essa de Santo André. Ignorar a cultura é pior que corrupção. Por isso não dá julgamento também?

Elizabeth:

“A imbecilidade é suprapartidária”, bem disse o Claudio Willer a respeito do fechamento da Escola Livre de Teatro em Santo André. Infelizmente, vários partidos no poder empenhados em destruir o florescimento da cultura e sua democratização. Enquanto isso batem, jogam gás, dão tiros em professores no Rio de Janeiro. Não sei de quadro mais triste neste domingo.

Multipliquem. Hoje é em Santo André. Amanhã… Façam com que a cultura seja respeitada.

Cultura e Lei Rouanet: mais

Apenas para complementar o que eu havia observado sobre distorções na utilização da Lei Rouanet, vejam isto:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/09/1335213-lei-rouanet-banca-igreja-ponte-oktoberfest-e-festa-da-mancha-verde.shtml

Cabem as seguintes observações:

  1. Finalmente, alguém resolveu fazer jornalismo como se deve: pesquisar, levantar informações, examinar relatórios.
  2. Episódio da intervenção da ministra em favor de empresários da moda, examinado nos posts precedentes, é caso particular de uma distorção geral.
  3. R$ 1,2 bilhões podiam muito bem subvencionar projetos culturais de qualidade.
  4. Cadê o projeto de mudança da lei, em um Plano Nacional da Cultura?
  5. Participei dos grupos que discutiram a Lei Rouanet e foram ao Congresso para garantir a participação de representantes da sociedade na CNIC, a comissão que examina os projetos. Isso que está acontecendo foge inteiramente aos propósitos do que se pretendia implantar.