Posts Tagged ‘Política cultural’

CALOTEIROS RETICENTES, TARDÍGRADOS ENSIMESMADOS

Em tempo: adiciono ilustração – foto de um tardígrado, enviada por Estela Guedes, bióloga além de poeta e outras qualificações. Não creio que seja o exemplar que trabalha no setor financeiro da prefeitura de São Luís do Maranhão:

12417858_1294254760600658_3144717016087659451_n

O que aborrece não é apenas prometerem e não cumprirem – é sequer responderem a e-mails para dizer que vão resolver, que demorará mas sairá, que dificuldades serão superadas, que a crise brasileira pegou de surpresa, que …

Feira do Livro de São Luis, Maranhão, promovida pela prefeitura local em outubro, já foi tema de reclamações que circularam no Facebook. Acrescento que, como estou fazendo uma enorme tradução e recebo por lauda, coisa dessas equivale a prejuízo duplo, ao que deixei de produzir – além do que se gasta com táxi para Guarulhos e tal.

Nem faço questão fechada de receber sempre cachês ou ajudas de custo, posso ir por simpatia, amizade, para apoiar alguma manifestação cultural. Mas já refuguei convites de municipalidades que cobririam viagem e estada, mas não me pagariam nada. Por uma razão singela: se as prefeituras de Indaiatuba, Bragança Paulista ou Ribeirão Preto, por exemplo, podem, por que não poderiam as de R* ou C**, do mesmo porte, economicamente equivalentes? Duvidosos espetáculos musicais, caipiras eletrônicos e tal, eles contratam, pois é disso que o povo gosta. Literatura, transmissão de conhecimento não interessam, não são prioridade em vários lugares.

Onde tudo funciona é nos SESC. Mas pode acabar, caso se concretize o plano governamental de ficar com recursos do “Sistema S” para tapar buracos. Seria, é noticiado, para pagar o Pronatec. Então retirariam dinheiro de instituições que oferecem ensino técnico para cobrir os custos do programa federal de ensino técnico? Ah, sim, se for 100% estatal é melhor, preferir que seja gerido pela iniciativa privada é neoliberalismo …

Acompanhando o que acontece na saúde pública, no ensino público, 2016 deverá ser o ano do desmonte de instituições culturais. Está sendo – há poucos dias, reproduzi um post sobre a situação da escola de artes visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Na próxima, perguntarei aos autores da denúncia se ao menos retiraram o apoio que deram na eleição passada aos responsáveis pela situação. Ah, mas isso é resultado de tramas da CIA, das multinacionais do petróleo, dos tumultos provocados pela oposição, dirão os da banda sectária. Em breve, postarei mais sobre pensamento totalitário.

 

M

Anúncios

Do tempo em que havia boas políticas culturais públicas e municípios culturalmente ativos

2foto4
Digitalizei fotos de quando presidia a UBE, União Brasileira de Escritores. Esta, de um encontro de escritores realizado em Rio Claro, no ano de 2000; sessão com Lygia Fagundes Telles, no Centro Cultural dessa cidade – auditório grande, comporta centenas de pessoas. O encontro durou um fim de semana e teve várias sessões: Antonio Carlos Fester falou sobre literatura e direitos humanos, Beatriz Azevedo sobre poesia falada, entre outros. Prefeitura de Rio Claro, através de João Baptista Pimentel que dirigia o Centro Cultural, bancou tudo. Profissionalismo: pagaram cachê para todos, R$ 500,00, que corresponderiam a uns R$ 1.200,00 atuais. Como presidia a entidade, dei palestra mas declinei do meu. Fizemos outro encontro semelhante em 2004, em Dois Córregos; prefeitura local também compareceu, nos mesmos termos.
Hoje, temos festas literárias e outros eventos do mesmo teor. Adquiriram prestígio e atraíram patrocinadores particulares. Por outro lado, observo municipalidades que me informam que gostariam de receber escritores, promover palestras, mas não têm condições de pagar um cachê. É retrocesso. Algumas dessas municipalidades promovem shows e pagam cachês elevados: populismo, em alguns casos, corrupção.
Por isso, é bom guardar fotos. Tenho mais.

As boas políticas culturais públicas em São Paulo, em 1994

1foto6
A propósito da homenagem a Rodolfo Konder dia 19 de agosto, organizada por Beatriz Helena Ramos Amaral, recuperei fotos do período em que foi secretário municipal de cultura e eu atuei como assessor e coordenador da formação cultural. Esta mostra uma sessão do ciclo de palestras e debates sobre Contracultura na Biblioteca Mário de Andrade, no segundo semestre de 1994. Estou entre os conferencistas Zuenir Ventura e Arthur José Poerner. Konder está na primeira fila, à direita no quadro. Reparem que o mezanino também está lotado, assim ocupando os 210 lugares do auditório. Em outras sessões, instalamos monitores de TV no saguão. Isso, regulamente, três vezes por semana. E em outras instalações: vieram 200 pessoas para ouvir Orides Fontela e outros poetas na Casa de Cultura do Butantã, por exemplo. Hoje, o que acontece lá? E em outras bibliotecas e casas de cultura, então ativas, oferecendo programação regular para a cidade? Volto a sustentar que algum ostracismo, alguma maledicência, foi pelas qualidades da gestão de Konder, e não por seus defeitos. Entre outras dessas qualidades, a cooperação e diálogo. Apesar de já ser especialista no assunto, a série sobre contracultura foi uma sugestão da diretora da biblioteca, Lúcia Neiza. Acolhemos e realizamos outros projetos que nos foram apresentados. Fizemos parcerias com a USP, Mackenzie, SESC, UBE e outras instituições. Como disse na sessão do dia 19, uma das nossas qualidades foi o respeito pelo trabalho alheio. Atingimos o grau zero de aparelhamento e sectarismo. Ao contrário dos que se acham o marco inicial da administração cultural e começam por paralisar tudo o que vinha sendo feito, Konder deu prosseguimento a projetos recebidos da gestão anterior, de Marilena Chauí: as casas de cultura (que passaram de 8 para 12), Lei Mendonça (hoje desativada) e Conselho Municipal de Cultura – entrei na Secretaria para cuidar de sua instalação, e só depois fui cuidar de cursos, oficinas, ciclos de palestras, encontros de escritores e apresentações de poetas: atividades importantes por complementarem o ensino formal. Além dos números, da quantidade de público e atividades, há uma dimensão qualitativa a ser lembrada. Pessoas já me disseram que comparecer a alguma dessas programações as fez perceberem que seu campo seria a literatura, assim modificando suas vidas. Por exemplo, autores a quem conheço, que freqüentaram os Encontros Órficos de Roberto Piva.
É um chavão notório dizer que uma imagem vale mais que mil palavras. Ainda mostrarei outras imagens.
(cliquem na imagem, amplia)
A manifestação sobre Konder:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/08/17/mesa-sobre-rodolfo-konder-na-casa-das-rosas/

Mesa sobre Rodolfo Konder na Casa das Rosas

Será esta terça feira, dia 19 de agosto. À Avenida Paulista, 37, São Paulo, a partir das 19h30. Organizada pela poeta Beatriz Helena Ramos Amaral. Falarei, precedido por Anna Maria Martins, Fabio Lucas e Luís Avelima.
Ocasião para dizer algo sobre política cultural. Tratar de literatura na administração cultural pública, entre outros temas. Insistirei que houve algum ostracismo pelas qualidades da gestão de Konder, não por seus erros. Talvez, o secretário de cultura certo nas administrações municipais erradas. Lembrarei a quantidade (e, evidentemente, a qualidade) de atividades ligadas á literatura e ao debate de idéias no período: palestras, ciclos de debates, apresentações de poetas, encontros de escritores com o público em bibliotecas e outros equipamentos. Nesse campo, o retrocesso é evidente. Na área municipal, não há mais nada relacionado á poesia, após a defenestração de Claudio Daniel do Centro Cultural – e mesmo aquilo foi uma ínfima fração, em recursos e quantidade de eventos, do que fizemos. Hoje, Casa das Rosas, vinculada á administração estadual, é quase um reduto isolado – e também sofre com a carência de recursos, seus gestores estão tirando leite de pedra. Hora de reivindicar retomada, recuperação de espaços e recursos para a produção simbólica, capaz de formar consciências e constituir uma realidade melhor.
Lembrando, Konder faleceu a 1º de maio deste ano. Conheci-o pessoalmente em 1979, quando retornou do exílio, através de Marcos Faerman, um agregador. Colaborávamos em Versus, criado por Faerman. Participamos, com ele, de Singular e Plural. A meu convite, filiou-se à UBE, União Brasileira de Escritores, em 1981. Fomos diretores (acabei presidindo). Trabalhei com ele na Secretaria Municipal de Cultura, de 1993 a 2000.
Venham.
Mais sobre a sessão:
https://catracalivre.com.br/sp/agenda/gratis/casa-das-rosas-realiza-debate-em-homenagem-a-rodolfo-konder/
Sobre Konder:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/01/rodolfo-konder-5-de-abril-de-1938-1o-de-maio-de-2014/

O Sistema Nacional de Participação Social: muito barulho por nada?

Li o decreto que institui a Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social. Este:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Decreto/D8243.htm
É evidentemente oportunista e extemporâneo, assim em final de mandato. O certo teria sido apresentá-lo para debate em 2011. Requer atenção neste momento a reforma eleitoral: voto em lista fechada seria um horror, submeteria de vez a sociedade à burocracia partidária.
Por outro lado, críticas denunciando sovietização (Veja, Pondé etc) são paranóicas e disseminam ignorância. Centralização na extinta URSS foi através da subordinação dos soviets ao partido, e não da sua criação. Além disso, o novo decreto prevê representação patronal e os conselhos serão consultivos e não deliberativos. E sem jeton – moralizaria se enquadrassem alguns conselhões de notáveis já existentes nesse modelo.
“Descentralização e participação” foi lema da campanha Montoro em 1982, posto em prática apenas parcialmente. Social-democratas gostavam, algumas tendências anarquistas também. Na Alemanha, na época, conselhos multiplicavam-se e até sindicatos e igrejas tinham representação. Aqui, os conselhos da Secretaria Estadual de Cultura, a partir de 1982, passaram a ser de representantes de entidades, e não mais de notáveis. Gradativamente, foram esvaziados. Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) foi aberta para representação de algumas entidades em 1985, por lei votada na Assembléia. Em 1992 conseguimos, também em São Paulo, finalzinho da gestão Erundina / Marilena, a criação do Conselho Municipal de Cultura e da Lei Mendonça – Rodolfo Konder os implantou, cuidei disso. Em Brasília, a formação do conselho da Lei Rouanet, a CNIC, mediante indicações de entidades – burocratas do ministério não queriam, eu era presidente da UBE, estive em todas, tratei com simpáticos Genoino e Serra, líderes das respectivas bancadas – oposição a Collor somava, então. Antes, finalzinho de governo Sarney, Conselho Federal de Cultura e Conselho Nacional de Direitos Autorais passaram a ser de representantes. Collor imediatamente os extinguiu, sempre defendi sua reabertura.
Corrigir os retrocessos mais recentes seria bom, acho. E debater com seriedade o que deu errado, tratar da viabilidade e alcance desse modelo. Mas não desse jeito: parece cartorial. O mais importante, discutir com base em algum conhecimento do assunto, com argumentos razoáveis, e não no modo delirante.
E nunca deixar de apontar os traidores das boas causas. Estão por todo lado. Que mutações provoca o poder…

A demissão de Claudio Daniel da curadoria de literatura do Centro Cultural São Paulo: uma petição

Claudio Daniel relata a demissão da curadoria de literatura do Centro Cultural São Paulo em seu blog:
http://cantarapeledelontra.blogspot.com.br/2014/04/relatorio-de-gestao.html
Um abaixo-assinado, dirigido ao Secretário Municipal de Cultura, expressa o que pensamos a respeito:
http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR71380
Achei ofensivo. Ele trabalhou um bocado. Com recursos muito escassos, além de suportar a pesada burocracia, tirou leite de pedra. Demitir desse jeito é falta de consideração com relação a ele e para quem freqüentou ou se apresentou. Por causa de algum ‘desentendimento administrativo’, interromperem uma programação de qualidade. Ninguém está nem aí para o que nós, participantes e freqüentadores, queremos ou esperamos.
Havia aberto essa programação, em fevereiro de 2011, lendo meus poemas para um público, segundo o Centro Cultural, de 130 pessoas. Retornei como espectador, leitor de poemas, participante em mesas ou conferencista. De modo evidente, havia-se consolidado um espaço para a poesia. Descontinuá-lo é retrocesso. Por isso, peço que assinem e divulguem.
Sobre paradoxos da política, farei alguns comentários outro dia. Ou não – talvez não haja paradoxos, apenas uma consistente e crescente mediocridade.

Shows e malandragem

Nos últimos três meses, estive com três secretários municipais de cultura. Serviu para constatar que secretários municipais de cultura são diferentes uns dos outros, inclusive fisicamente.

Comentei os shows promovidos por municipalidades. Por aquelas que não visito, é claro. Também por estados e órgãos federais, mas é nos municípios que prolifera o baixo populismo. Em lugares à míngua de recursos para outras programações e bons serviços públicos em geral. Pagando uma nota alta, oferecendo espetáculos cuja qualidade, na maioria, não discrepa do que sai do automóvel com o som a todo volume ou da insistente balada clandestina aqui perto.

A malandragem é notória. Cachês artísticos não são subordinados à lei das licitações. Alguns pagam alto e recebem o troco. Do tipo contratar por R$ 120.000,00, pagar R$ 40.000,00 e ficar com R$ 60.000,00. Sei de casos, de boas fontes. Todo mundo sabe. Está na cara. Uma vez ou outra dá escândalo, como o caso de Ivete Sangalo em Sobral, os R$ 600.000,00 que ela garante nunca ter recebido. Mas são exceções. Parâmetro dessas contratações seria o “valor de mercado”. Ora, mas se o mercado está inflacionado por esses rolos, então o resultado do levantamento de preços também virá inflacionado.

Bom exemplo foi dado, este ano, por São Paulo, nos espetáculos da virada do ano. Não gastaram nada com cachês. Claro – se junta público, interessa a patrocinadores; esses se incumbem.

A disparidade dos cachês, nesta matéria de hoje (03/01) na Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/146163-quanto-vale-o-show.shtml

Como sempre, estouro de valores foi cearense, em Fortaleza. Quem é “Gusttavo Lima”, que vale R$ 600.000,00?

Proibir shows com dinheiro público? Nem precisa. Bastava algum TCU ou CGU pedir prestação de contas igual àquelas de Lei Rouanet, PROAC etc. Quem for receber, produtor ou empresário, que abra conta bancária separada e mostre os recibos de cada item das despesas. Não implantam porque não querem. Outras saídas de dinheiro público são sujeitas a burocracias espantosas, redundantes, já comentei aqui. Mas nessa modalidade ninguém mexe.

Faz tempo que eu estava para comentar isso.