Posts Tagged ‘racismo’

O caso do Padre Wilson de Adamantina e o Facebook

EM TEMPO: adiciono ao post a manifestação dos fiéis de Adamantina. BEM FEITO!
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/12/08/em-sp-populacao-ve-racismo-contra-padre-e-protesta-bispo-deixa-igreja-escoltado.htm
Estranhíssimo
Amigo meu, Carlos Figueiredo, mandou-me petição em favor do Padre Wilson. Conforme o noticiário, está para ser transferido de Adamantina, SP, para a cidade vizinha de Dracena. Motivo: reclamações de freqüentadores da igreja, por ele ser negro. Nada mais nem menos. Em pleno 2014. Conforme noticiado aqui:
http://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2014/12/com-nova-igreja-definida-padre-vitima-de-racismo-so-espera-ser-acolhido.html
Reproduzi o link da petição no Facebook. Simplesmente, o Facebook recusou-se a publicar, sob alegação de que o link é inseguro. Este link: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR77736
Da mesma família e da mesma origem de inumeráveis outros links de petições que já retransmiti.
O que estará havendo? Algum bloqueio sectário? Tudo bem – então segue através deste blog, de maior alcance que minha página de Facebook. Retransmitam.
Não me envolvo em assuntos católicos, a não ser para observar bobagens ditas por prelados e pelo papa anterior, e para volta e meia publicar a Carta ao Papa de Artaud. Mas não dá para deixar passar, não só o racismo, mas a inesperada trava da rede social.
EM TEMPO:
Para termos certeza de que não é ‘hoax’, além da notícia do Globo.com, esta, de um jornal, que por sua vez reproduz Folhapress:
http://www.otempo.com.br/capa/brasil/sa%C3%ADda-de-padre-v%C3%ADtima-de-ofensas-racistas-divide-cidade-no-interior-1.957686
O iluminado prelado que resolveu transferir o padre é o bispo da Diocese de Marília, dom Luiz Antonio Cipolini.
Inevitáveis mais alguns comentários:
Adamantina + Diocese de Marília em 2014 = Alabama nos anos de 1950
Em 1973, precisei de datilógrafa, atendente da empresa de mão de obra temporária perguntou se tinha problema a funcionária ser “de cor”. Na época, anúncios de oferta de emprego especificavam: “de boa aparência”, subentendendo ser branca, ou, se fosse afrodescendente, que estava fora. Em prédios residenciais, era comum visitantes negros serem automaticamente encaminhados ao elevador de serviço.
Programação de cinema para Adamantina + Diocese de Marília: ‘Django livre’ de Tarantino. ‘Mississipi em chamas’ de Alan Parker
Programação de shows para Adamantina + Diocese de Marília: Gil, Preta Gil, Jorge Benjor, Olodum, Mart´nália?
Programação literária: vou lá e dou palestra sobre Cruz e Souza ou sobre Aimé Cesaire e outros poetas da negritude.
Lembram de dom Geraldo Proença Sigaud? Bispo de Campos, RJ, líder da TFP, Tradição, Família e Propriedade, reacionário da pesada. Esse dom Cipolini, terá sido discípulo dele?
Alguém teria como informar ao papa Francisco? Fulminaria. Imaginem, racismo em Adamantina enquanto o líder prega tolerância no Oriente Médio. Serve também comissão de direitos humanos, órgãos do governo que tratam disso, aquela secretaria, clero progressista, Ministério Público e até delegacia local – afinal, racismo é crime, nem beatos nem autoridades religiosas estão acima da lei. Se vale para torcedor de clube de futebol, então tem que valer do mesmo jeito para devoto de igreja.
PARA COMPLETAR (postado no dia seguinte, 09/12): a boa matéria em O Estado de S. Paulo: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,bispo-e-acuado-em-igreja-e-so-sai-escoltado-no-interior-de-sp,1603885

Monteiro Lobato, censura e analfabetismo funcional

Perto de 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais, mostram pesquisas. Travam diante de textos mais complexos.

Censura é um modo de analfabetismo funcional. Leitura linear, em uma só direção, com antolhos.

Censores sempre consagram o analfabetismo funcional.

Discussão da vez, de hoje, conforme noticiado: no Supremo, a ação contra o ‘racismo’ em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato. Está em:

http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI6145038-EI8266,00-STF+vai+discutir+polemica+em+obra+de+Monteiro+Lobato.html

Concordo com Alcir, Noemi e demais especialistas consultados na matéria da Folha: se submeterem obras literárias a esse crivo, não sobrará quase nada. Aplicar desse modo a correção política é passar um trator sobre conteúdos.

Ah, sim! E houve aquele outro caso, de Dalton Trevisan retirado dos vestibulares da Federal de Viçosa. Ponto a favor de Dalton. logo será a vez de Rubem Fonseca, de João Antonio, de….

Parecem aquele outro episódio, dos dicionários obrigados a retirar acepções da palavra ‘cigano’, que já comentei aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/28/as-palavras-proibidas/

Tal judicialização de questões do campo da linguagem e da literatura é um retrocesso bestial. Ao baterem desse jeito à porta dos tribunais, vão atropelando o conhecimento, desprezando quem estudou. Donos da verdade, querem impor-se na marra a especialistas sérios, instrumentalizando o judiciário e fazendo todo mundo perder tempo. Isso das expressões usadas para referir-se à Tia Nastácia: qualquer pedagogo minimamente preparado tira isso de letra, resolve – ajudará a compreender a questão, em vez de ampliá-la através de imposições autoritárias. Como se algum esbirro racista precisasse ler Monteiro Lobato. Querem combater racismo? Então mostrem a verdade, é tão simples (mas tão difícil de entender, para alguns) Como fez Umberto Eco, ao provar que os Protocolos dos Sábios do Sião eram cópia de um trecho de Balsamo, a biografia ficcionalizada de Cagliostro por Alexandre Dumas, apenas trocando os maçons (igualmente difamados, no caso) por judeus.

Praga da judicialização de questões literárias é prima-irmã da outra, a interferência em biografias e pesquisas. Ou são a mesma? Estão se tornando tipicamente brasileiras. Por causa de nossos 70% de analfabetos funcionais.