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Saiu no Brasil o maravilhoso Liberdade ou Amor! de Robert Desnos

Na tradução de Eclair Antonio Almeida Filho e Odúlia Capelo.
Pela Nephelibata, em uma bela edição.
Com décadas de atraso. Li pela primeira vez em 1963 – quem achou? Roberto Piva, é claro. Já levei a cursos de surrealismo e de poesia e cidades.
Encomendas em http://edicoesnephelibata.blogspot.com.br/
O livro: http://editoranephelibata.blogspot.com.br/p/robert-desnos.html
Prefaciei.
Reproduzo aqui meu prefácio.
Calcado em uma série de homenagens a Desnos, o mais surrealista dos surrealistas, que publiquei neste blog, oferecendo uma panorâmica do notável visionário, médium, sonhador. Começam aqui:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/01/10/homenagens-a-robert-desnos-1/
O prefácio:
Robert Desnos, o sonhador
Claudio Willer
Entre 1924 e 1932, o surrealismo reuniu jovens que viriam ser reconhecidos como os melhores poetas franceses do século 20. Além da impactante presença de Antonin Artaud, formou-se uma verdadeira plêiade – ou plêiades, posto que alguns se distanciaram e outros se agregaram. Fizeram parte Paul Éluard, René Char e Jacques Prévert, os poetas de maior circulação e prestígio na segunda metade do século, bem como Louis Aragon, Benjamin Péret, Raymond Queneau, Francis Ponge, Michel Leiris; mais tarde viriam Aimé Césaire, Malcolm de Chazal, Radovan Ivsic e Joyce Mansour – isso, dentre os de língua francesa, além daqueles de outras literaturas.
Gradativamente, Robert Desnos vai sendo reconhecido como destacado integrante destacado dessa linha de frente. E, mesmo tendo rompido com Breton, junto com Artaud, Leiris e Soupault, em 1927 – para reconciliarem-se em 1936 – como o mais surrealista dentre os surrealistas. Foi o que observou Breton, por exemplo em Nadja, reportando-se às sessões de sono hipnótico de 1921, declarando-o vidente ou profeta: “De tantos encontros que Desnos, de olhos fechados, me marcou para mais tarde, com ele ou com outra pessoa, não há nenhum ao qual eu tivesse coragem de faltar, nem um só, nos lugares e horas mais inverossímeis, e em que eu não estivesse certo de encontrar quem ele me disse.” E o que sustenta Sarane Alexandrian no excelente Le Surréalisme et le Rêve; principalmente, por encarnar o “sonhador combativo” e superar, como ninguém, o “deprimente divórcio entre sonho e realidade” a que se referiu Breton no Manifesto do Surrealismo.
Desnos realizou a fusão de poesia e vida em episódios que o tornam personagem biográfico e não apenas autor. Merece destaque o programa de rádio que criou, interpretando sonhos, em 1937, assim como, em 1940, seu “correio de sonhos” na revista feminina Pour elle. Assinava Hormidas Belloeil – nome, dizia, de um personagem que o visitava durante o sonho. Transcrevo, de Alexandrian: “Decifrava-os referindo-se ao tratado dos sonhos de Artemidoro de Efeso, traduzido em 1921 por Henri Vidal. Adaptava esse livro às realidades modernas; ou seja, aplicava por exemplo aos automóveis o que Artemidoro dizia dos carros. Acreditava, com uma candura autêntica, que os sonhos tinham um sentido augural […] Submetiam-lhe as mais absurdas aventuras: havia o sonho da ouvinte que tinha feito uma viagem em um camelo com bigodes, antes de encontrar-se sentada no interior de uma abóbora; aquele de um homem que se servia de um piano automóvel, permitindo-lhe ao mesmo tempo tocar música e percorrer as estradas etc. […]”. Assim realizava a defesa do sonho profético, feita pore Breton em Les Vases Comunicants. Uma experiência limite: em 1944, no campo de concentração onde morreria após ser capturado por pertencer à resistência antinazista, pôs-se a ler as mãos de outros prisioneiros que iam sendo levados às câmaras de gás, profetizando que não morreriam. Relata Suzanne Griffin: “Desnos foi tão eficiente em criar uma nova realidade que os guardas foram incapazes de prosseguir com as execuções. Mandaram que os prisioneiros voltassem ao caminhão e os levaram de volta a suas barracas. Desnos nunca foi executado. Através do poder da imaginação, salvou sua vida e aquelas dos outros.”
Examinando Oeuvres (Gallimard) encontra-se bastante daquela lírica do surrealismo, feita de imagens visuais, aproximações de realidades diferentes, da qual Éluard e Char foram os expoentes. Outros poemas replicam metros e formas clássicas. Especialmente importantes, por avançarem em novos territórios da criação, as séries de jogos com os significantes de Rrose Sélavy; “cabala fonética”, como a designou Breton, fazendo que vocábulos e frases se multiplicassem em novos sentidos.
E, principalmente, este Liberdade ou Amor! É a grande narrativa onírica da primeira metade do século 20. A prosa surrealista produziu obras extraordinárias, a começar por Nadja, entre outras que romperam a barreira dos gêneros literários. Nenhuma comparável a esta, pelo modo como realiza o que Gérard de Nerval havia chamado de “efusão do sonho na vida real.” A sequência logo no início, da lírica chuva de luvas enquanto o narrador segue Luisa Lâmina, um ponto alto da prosa poética. O relato da visita do Corsário Soluço ao Clube dos bebedores de esperma, em páginas combinando literatura libertina e sua sátira. Principalmente, Liberdade ou Amor! consagra a metrópole como ambiente onírico. Alucinógena, psicodélica por antecipação, fará que seu leitor, ao flanar, perambular pela metrópole, sempre veja mais, possuído pela sensação de fazer parte de um sonho; no entanto, um sonho radicalmente real.

Desnos encore

Henrik Aeshna da Tsunami books enviou um comentário tão substancioso referente à minha série sobre Robert Desnos que eu resolvi copiá-lo e transferi-lo para cá – em breve, voupostar também pequena série de homenagens a Alfred Jarry:

“desajustados iluminados que somos, sempre estaremos em boa companhia enquanto andarmos com as màs companhias, bebendo no gargalo da mesma garrafa genital transbordando de baco & nitroglicerina, seiva & saliva floral, tal qual um cocktail molotov pronto para ser arremessado contra as vidraças do Tédio liberando assim a sinfonia-vagido de suas camisas-de-força burguesas, pois é assim que brindamos, com tal gesto, logo que nos reconhecemos, como dois-três-quatro estranhos numa estaçao qualquer do infinito ordinàrio, yorubàs inconsequentes com sotaque cockney-tupinambà que nos tomam como reféns, pois eles carregam consigo ‘les clés des situations’, a maravilhosa conexao alquimica interligando todos os desejos à esfera do Impossivel, copulando poesia & vida, de maneira perigosa & totêmica, a chave daquele ‘amour fou’ do qual nenhum poeta saiu ileso, daquele sonho louco & febril que nao deverà jamais sair de seu elétrico esplendor ( como um lagarto em sua crisàlida onirica ) para tornar-se significado & explicaçao ou abominaçao partidària, pois ele jà é a propria Realidade, ou melhor, a sua apoteose…. sigamos esses ‘loucos’ por onde quer que eles nos levem, & que eles nos seqüestrem para sempre de todas as nossas moradas-catacumbas burguesas, pois au-délà de nossos futuros pré-fabricados, com sua propaganda sadomaso l’oreal dantesca, hà um santuàrio elétrico paralelo borbulhando de outros significados, onde adolescentes embriagados & lucidos se esfregam em cima dos tapetes de calendàrios mortos, cometendo todos os adultérios, pecados tao horriveis & inimaginàveis que acabam revelando-se virtudes, anjos-bomba em palàcios de cristal, onde um velho sàbio de olhar sereno atravessa o sonho assobiando the Song of the Open Road – seus olhos me traziam hortênsias de longinquos jardins – & velhas lavadeiras lamuriam à beira do rio, Seine-Mississippi-Guaiba-Nilo-Amazonas, uma ilha flutuante talvez, uma zona sim, clandestina sempre, oculta, plantada bem no meio daquilo que foi arbitrària & criminosamente instituido como Ordem, onde os unicos panfletos nao sao nada mais que folhas de outono espalhadas no Parque Monceau, ou os destroços do ultimo poema rasgado caindo no meio da avenida central como chuva de confetti….

*

C Willer, acabo de jorrar essas palavras como uma espécie de exorcismo apos a leitura da sua série dedicada a Robert Desnos – você sabe realmente fazer uma obra Vibrar, se iluminar – e com uma classe tremenda! O que mostra que todo o terreno està preparado & fértil para uma poderosa ediçao, que espero que vocês façam aparecer em breve, – esse é o momento! — A obra do Sarane Alexandrian com a qual você dialoga é também fascinante, mas claro, o mérito de revelar o brilho apaixonante da obra do Desnos é todo seu, como bem enfatizo mais acima; tenho até aqui um curioso ensaio da Anne-Marie Amiot, entitulado “Robert Desnos, poète de la tradition”, Mélusine ( cahiers du centre de recherche sur le surréalisme ), N° XVI – cultures – contre-cultures’, 1997, & escrito à luz dos arcanos maiores do tarot…. Interessante o fato de que a ultima vez que o Desnos desabou na minha vida foi durante o meu aniversàrio no Mediterrâneo, quando uma jovem cantora de opera que acabara de conhecer começou a recità-lo junto com outra amiga atriz & cantora enquanto rasgàvamos a terceira garrafa de vinho tinto & dançàvamos feito loucos na cozinha do apartamento…. ( obs pessoal: jamais conheci uma cantora de opera que nao fosse louca, muito menos um pianista de musica clàssica ou jazz que nao tenha colocado fogo na casa ao menos duas, três vezes na vida!! )

Vive les high-chats des chateaux….

Em breve, mais Willer & mais Piva em outras linguas, se bem que vcs deveriam soar melhor em Tupi ou nas linguas em brasa daqueles possessos que entoam furiosas glossolalias às três da manhâ em meio a uma cachoeira de pianos quebrados, uivos luxuriosos de lobos no cio & queixas de vizinhos incapazes de dormir!!!!

afeto

hnrk
paris paralèlle
year of the dragon

Mural Desnos

Para tornar mais fácil o acesso à série ‘Homenagens a Robert Desnos’, aqui publicada, Pipol e eu criamos um mural, a ‘Parede Robert Desnos’, postada em Notícias de Cronópios, com acréscimo de fotos, em

http://www.cronopios.com.br/site/noticias.asp?id=5276

Boa leitura. Aguardem mais.

Homenagens a Robert Desnos, 6

Desnos e YoukiDesnos e Youki

Último capítulo das homenagens a Robert Desnos: o trecho, já conhecido por participantes de cursos e oficinas comigo, de La liberté ou l’amour! na tradução de Eclair Antonio Almeida Filho. Comparem com o outro trecho, o que traduzi e que abriu esta série (aliás, que me estimulou a fazer a série – gostei tanto que me deu vontade de fazer mais) – a comparação dá a medida da amplidão ou do alcance da criação de Desnos. Esse capítulo, desta postagem, é narrativo, onírico, com bastante fetichismo: os sapatos, as luvas, as peles, os pés. Foi um lírico da perversão.

Quem descobriu La liberté ou l’amour! foi Roberto Piva, por volta de 1963, com aquele faro inigualável para descobrir leituras que interessavam. Telefonou-me, leu trechos, comentou o Bebé Cadum, a visão onírica da cidade. Bastou para que adquirisse meu exemplar na Livraria Francesa, mais o Poètes d’aujour’d’hui sobre Desnos.

Os autores mais importantes para me mostrar novas possibilidades da escrita foram, é claro, Rimbaud e Lautréamont. Mas há marcas evidentes da leitura de Desnos nas prosas poéticas de Anotações para um apocalipse e Dias circulares. Desnos, por sua vez, foi alguém que, visivelmente, entendeu Lautréamont (e muito mais).

1963. Como éramos ligados e atualizados. Íamos comprando, já relatei outras vezes, os exemplares da obra completa de Artaud, à medida que saíam (e muito mais…).

Em 2000, estava em Paris e havia um ‘revival’ Desnos, com a publicação das obras completas, novas edições de bolso e números especiais de revistas. Aqui, continuamos à espera de editores que se habilitem (e de críticos capazes de entender essas coisas, é claro).

Há mais Desnos na revista eletrônica Zunai, de Claudio Daniel: traduções de Eclair – inclusive poemas que já postei, e – isso é importante – transcrições de sonhos; e de Jorge Lúcio de Campos. E fotos dele.

Os links:

http://www.revistazunai.com/traducoes/robert_desnos1.htm

http://www.revistazunai.com/traducoes/robert_desnos2.htm

Robert Desnos

La liberté ou l’amour! (A liberdade ou o amor!) – tradução de Eclair Antonio de Almeida Filho

Cap. II As profundezas da noite

Quando eu chegava na rua, as folhas das árvores caiam. A escadaria por trás de mim não era mais que um firmamento semeado de estrelas entre as quais eu distinguia nitidamente a impressão dos passos de tal mulher cujos saltos Louis XV haviam, durante muito tempo, martelado o macadame das áleas onde corriam os camaleões do deserto, frágeis animais domesticados por mim, depois recolhidos aos meus aposentos onde eles entraram em causa comum com meu sono. Os saltos Louis XV os seguiram. Foi, eu o asseguro, um período surpreendente minha vida, aquele em que cada minuto noturno marcava com uma impressão nova a alcatifa de meu aposento: marca estranha e que às vezes me dava arrepios. Quantas vezes, em tempos de trovões ou de lua cheia, levantei-me para contemplá-los à luz fraca de um fogo de madeira, à luz fraca de um fósforo ou à luz fraca de um vaga-lume, essas lembranças de mulheres que vinham até à minha cama, totalmente nuas à exceção das meias e dos sapatos de saltos altos conservados em respeito ao meu desejo, e mais insólitas que uma sombrinha encontrada em pleno Pacífico por um paquete. Saltos maravilhosos contra os quais eu arranhava meus pés, saltos! sobre qual estrada vocês ressoam e nunca mais voltarei a vê-los? Minha porta, então, estava escancarada sobre o mistério, mas este aqui entrou fechando-a por trás dele e de agora em diante escuto, sem dizer uma palavra, uma bateção de pés imensa, a de uma multidão de mulheres nuas sitiando cercando o buraco de minha fechadura. A multitude de seus saltos Louis XV faz um barulho comparável ao fogo de madeira na fornalha, aos campos de trigos maduros, aos relógios nos quartos desertos à noite, a uma respiração estranha ao lado do rosto sobre o mesmo travesseiro.

Entretanto, embrenhei-me na rua das Pirâmides. O vento trazia folhas arrancadas das árvores das Tuileries e estas folhas caíam com um ruído macio. Eram luvas; luvas de todos os tipos, luvas de pele, luvas da Suécia, luvas de fios longos. Diante do joalheiro está uma mulher que tira sua luvas para experimentar um anel e para ter a mão beijada pelo Corsário Soluço, é uma cantora, no fundo de uma teatro agitado, vindo com eflúvios de guilhotina e gritos de Revolução, é o pouco de uma mão que podemos ver no nível dos botões. De vez em quando, mais pesadamente que um meteoro em fim de curso, caía uma luva de boxe. A multidão pisava nesses mementos de beijos e de abraços sem lhes prestar a deferente atenção que elas solicitavam. Só eu evitava matá-los. Às vezes até mesmo recolhia um deles. Com um forte abraço doce, ele me agradecia. Eu o sentia tremer no bolso da minha calça. Assim sua senhora deve ter tido que tremer no instante fugitivo do amor. Eu caminhava.

Recuando em meus passos e margeando as arcadas da rua de Rivoli vi enfim Louise Lâmina caminhar diante de mim.

O vento soprava sobre a cidade. Os cartazes do Bebê Cadum chamavam os emissários da tempestade e sob sua guarda a cidade inteira tinha convulsões.

Foram de início duas luvas que se abraçaram em um aperto de invisíveis mãos e cuja sombra por muito tempo dançou diante de mim.

Diante de mim? Não, era Louise Lâmina que caminhava na direção da Estrela.  Singular giro. Outrora, os reis caminharam na direção de uma estrela nem mais nem menos concreta que você, praça da Estrela com teu arco, órbita onde o sol se aloja como o olho do céu, giro aventuroso e cujo objetivo era talvez você que eu solicito, amor fatal, exclusivo, e assassino. Se eu tivesse sido um dos reis, Jesus, você seria morto no berço, estrangulado, por ter interrompido tão logo minha viagem magnífica e quebrado minha liberdade, depois, sem dúvida, um amor místico acorrentou-me e arrastou-me como prisioneiro nas estradas do globo que eu sonhara percorrer livre.

Comprazia-me à contemplação do jogo de seu manto de pele contra seu pescoço, dos choques da bordadura contra as meias de seda, ao roçar adivinhado da dobra sedosa contra as ancas. Bruscamente, constatei a presença de uma bordadura branca em torno das franjas. Esta aumenta rapidamente, deslizou até à terra, e quando alcancei este lugar, recolhi a calça de fina batista. Ela cabia inteiro em minha mão. Desdobrei-a, mergulhei nela a cabeça com delícias. O odor mais íntimo de Louise Lâmina a impregnava. Que fabulosa baleia, qual prodigioso cachalote distila um âmbar mais odorante. O pescadores perdidos nos fragmentos da banquisa e que vocês deixariam perecer de emoção para cair nas vagas glaciais quando, o monstro esquartejado, a gordura e o óleo e as bárbulas para fazer espartilhos e guarda-chuvas cuidadosamente recolhidos, vocês  descobrem no ventre escancarado o cilindro de matéria  preciosa. A calça de Louise Lâmina ! que universo ! Quando voltei à noção dos cenários, ela tinha ganhado distância. Cambaleante entre as luvas que agora se abraçavam, a cabeça pesada de embriaguez, eu a persegui, guiado por seu manto de leopardo.

Na Porta Maillot, levantei o vestido de seda negra do qual ela havia se desvencilhado. Nua, ela estava nua agora por baixo do seu manto de pele selvagem. O vento da noite carregado do odor rugoso dos véus de linho recolhido ao longo das costas, carregado do odor do sargaço encalhado nas praias e em parte dissecado, carregado da fumaça das locomotivas a caminho de Paris, carregado de odor do calor dos trilhos após a passagem dos grandes expressos, carregado do perfume frágil e penetrante dos gramados das relvas diante dos castelos adormecidos, carregado do odor de cimento das igrejas em construção, o vento denso da noite devia se engolfar por baixo do seu manto e acariciar suas ancas e a face inferior de seus seios. O roçar do tecido sobre suas ancas despertava sem dúvida nela desejos eróticos enquanto ela caminhava pela álea das Acácias até um destino desconhecido. Automóveis se cruzavam, a luz fraca dos faróis varria as árvores, o solo se eriçava de montículos, Louise Lâmina se apressava.

Eu distinguia muito nitidamente a pele do leopardo.

Tinha sido um furioso animal.

Durante anos tinha aterrorizado uma região. Via-se às vezes sua silhueta flexível se perfilar sobre o galho baixo de uma árvore ou sobre um rochedo, depois, na aurora seguinte, caravanas de girafas e de antílopes, no caminho dos bebedouros, testemunhavam junto a indígenas uma epopéia sangrenta que tinha profundamente inscrito suas garras sobre os troncos da floresta. Isso durou vários anos. Os cadáveres, se os cadáveres pudessem falar, poderiam ter dito que suas presas eram brancas e sua calda robusta mais perigosa que a cobra, mas os mortos não falam, ainda menos os esqueletos, ainda menos os esqueletos de girafas, pois esses graciosos animais eram a caça favorita do leopardo.

Um dia de outubro, quando o céu se esverdeava, os montes erguidos sobre o horizonte viram o leopardo, desdenhoso por uma vez dos antílopes, dos mustangues e das belas, altivas e rápidas girafas, rastejar até uma moita de espinhos. Toda a noite e todo o dia  seguinte ele se revirou rugindo. Ao nascer da lua ele mesmo se esfolou completamente e sua pele, intacta, jazia na terra. O leopardo não havia parado de crescer durante esse tempo. Ao nascer da lua ele atingia o cume das árvores mais elevadas, à meia-noite il despregava de sua sombra as estrelas.

Foi um extraordinário espetáculo a marcha do leopardo esfolado sobre o campo cujas trevas se adensavam com sua sombra gigantesca. Ele arrastava sua pele tal como os imperadores romanos jamais vestiram mais bela, nem eles nem o legionário escolhido entre os mais belos e que eles amavam.

Procissões de insígnias e de lictores, procissões de lucíolas, ascensões miraculosas ! nada iguala jamais em surpresa a marcha do animal sangrando sobre o corpo do qual as veias esguichavam em azul. Quando ele alcançou a casa de Louise Lâmina, a porta se abriu por si mesma e, antes de morrer, teve apenas a força de depositar sobre a escadaria exterior, aos pés da fatal e adorável jovem, a suprema homenagem de sua pele.

Suas ossadas obstruem ainda numerosas estradas do globo. O eco de seu grito de cólera, repercutido por muito tempo pelas geleiras e pelas encruzilhadas, está morto como o marulho e Louise Lâmina caminha diante de mim, nua por baixo do seu manto.

Mais alguns passos e eis que ela desabotoa essa última veste. Ele sucumbe. Corro mais rápido. Louise Lâmina está nua de agora em diante, totalmente nua no bosque de Boulogne. Os automóveis fogem urrando; seus faróis ora iluminam uma bétula, ora a coxa de Louise Lâmina sem atingir entretanto a pelagem sexual. Uma tempestade de rumores angustiantes passa sobre as localidades vizinhas: Puteaux, Saint-Cloud, Billancourt.

A mulher nua caminha cercada de crepitamentos de invisíveis tecidos; Paris fecha portas e janelas, apaga seus lampadários. Um assassino num bairro distante dá para si mesmo muito mal para matar um impassível caminhante. Ossadas obstruem a calçada. A mulher nua bate a cada porta, levanta toda pálpebra fechada.

Do alto de um imóvel, Bebê Cadum magnificamente iluminado, anuncia tempos novos. Um homem espia em sua janela. Ele espera. O que ele espera ?

Uma repique de sinos desperta todo um corredor. Uma porta cocheira se fecha.

Um carro passa.

Bebê Cadum magnificamente iluminado permanece só, testemunha atenta dos acontecimentos dos quais a rua, esperemo-lo, será o teatro.

Homenagens a Robert Desnos, 5

em Terezienstad desnos2

Alguma biografia: o personagem

Robert Desnos nasceu em Paris em 1900. Estreou em revistas literárias aos 17 anos. Em 1919, passou a fazer parte do grupo da revista Littérature, dirigida por Breton e Aragon. Publicou poesia, prosa e relatos de sonhos. Prolífico, em 1922 lançava a série Rrose Sélavy (já comentada nestas postagens), seguida no mesmo ano por Les nouvelles Hébrides, reproduzindo as histórias que narrava para si mesmo ao adormecer: aventuras, entremeadas de toda sorte de perversões, envolvendo seus amigos Breton, Péret (que o havia apresentado aos surrealistas), Aragon e Vitrac; passavam-se, diz Alexandrian, “em um mundo ao avesso”. De 1924 é Deuil pour deuil (luto por luto), escrita automática. Segue La liberté ou l’amour! de 1927 e a coletânea Corps et biens, de 1930.

Durante um período inicial do surrealismo, Desnos teve um papel central por seu talento e pela capacidade de sonhar e entrar em estados hipnagógicos, intermediários entre sonho e realidade. No elogio que lhe fez Breton em Nadja, declarou que, de todos os encontros previstos por ele, “não há um ao qual eu sinta ainda a coragem de faltar”.

Foi ao mesmo tempo um libertino (como se evidencia em suas narrativas) e um lírico romântico. No começo dos anos 1920, Desnos e o jornalista e roteirista Henri Jeanson partilhavam a mesma amante; dividiam-na. Em 1925, apaixonou-se pela cantora de cabaré Yvonne George, e, mesmo sem ser correspondido, a elegeu como musa e protagonista de sonhos. Ganhou dela uma garrafa com um barco dentro: sentia que esse barco vibrava toda vez que fosse lhe acontecer algo importante. Em 1930, conheceu Youki, com quem viveria até o fim – o barco vibrou quando a conheceu.

Rompeu com Breton e o grupo surrealista em 1927, junto com Artaud, Leiris e Soupault, por discordarem da adesão ao comunismo soviético. Desnos e Breton insultaram-se, respectivamente no panfleto Un cadavre e no Segundo manifesto do surrealismo. Ambos se retrataram dos insultos e reataram relações em 1936. E Breton manifestaria várias vezes o reconhecimento pela contribuição de Desnos.

A propósito, um dos vícios de determinada crítica é examinar autores que romperam com Breton em contraposição ao surrealismo, deixando de lado as relações de continuidade. Um dos exemplos (há muitos) é o livro de Silviano Santiago sobre a viagem de Artaud ao México, pretexto para um libelo contra o surrealismo. Mas, na época, Artaud e Breton se correspondiam. Artaud se apresentou como surrealista e deu a palestra “Surrealismo e revolução” no México (traduzi e a publiquei em Escritos de Antonin Artaud). Escreveu cartas a Breton da Irlanda, relatando os episódios que culminaram em seu internamento em hospícios. Quanto a Leiris, reconheceu o surrealismo como quadro de referências em A idade viril e colaborou em Minotaure, a revista dirigida por Breton.

De tudo o que Desnos fez nos anos de 1930 (muita coisa), destaco o programa de rádio que criou, interpretando sonhos. Transcrevo alguns parágrafos de Alexandrian em Le surréalisme et le rêve:

“Em 1937, Robert Desnos criou no Poste-Parisien uma emissão hebdomadária intitulada A chave dos sonhos, na qual convidava os ouvintes a lhe enviar seus sonhos, propondo-se a explicá-los e transmiti-los. O sucesso foi imediato e lhe demonstrou o interesse apaixonado que o público tinha por esse gênero de problema. A cada semana, recebia um fluxo de cartas de homens e mulheres contando-lhe o que haviam sonhado; um de seus correspondentes lhe enviou até mesmo um caderno no qual anotava noite após noite suas impressões de sono. Desnos escolhia os dois sonhos que lhe parecessem mais radiofônicos e os reconstituía com atores e um fundo sonoro; resultavam cenas bizarras, destinadas a mergulhar o espírito em uma ambientação onírica. Em seguida, dando a réplica a dois assistentes, Colette Paule e Jerôme Arnaud, Desnos se ocupava doutamente com os outros envios que lhe haviam sido feitos; classificava-os em duas grandes categorias: os sonhos portadores de presságios e os sonhos sem significação para o futuro.

“Decifrava-os referindo-se ao tratado dos sonhos de Artemidoro de Efeso, traduzido em 1921 por Henri Vidal. Adaptava esse livro às realidades modernas; ou seja, aplicava por exemplo aos automóveis o que Artemidoro dizia dos carros. Embora destacasse que Freud tinha grande consideração pelo autor grego, não os lia em um espírito freudiano. Ao contrário, autorizava-se a determinar os signos fastos e nefastos pertencentes à vida onírica. Acreditava, com uma candura autêntica, que os sonhos tinham um sentido augural […] Submetiam-lhe as mais absurdas aventuras: havia o sonho da ouvinte que tinha feito uma viagem em um camelo com bigodes, antes de encontrar-se sentada no interior de uma abóbora; aquele de um homem que se servia de um piano automóvel, permitindo-lhe ao mesmo tempo tocar música e percorrer as estradas etc. […]

Alexandrian dedica mais algumas páginas a esse programa radiofônico. Transcreve sessões. Reproduz o argumento de Desnos sobre a possibilidade de mistificação, de pessoas inventarem sonhos – tanto faz, dizia, pois “a imaginação é a mesma na vigília e durante o sono. Não se inventa seja o que for, e um sonho inventado libera os mesmos segredos, traz os mesmos presságios que um sonho autêntico”.

Em 1940, assumiu um “correio de sonhos” na revista feminina Pour elle, assinando como Hormidas Belloeil – nome, dizia, de um personagem que o visitava durante o sonho – Alexandrian transcreve trechos dessa sessão.

Durante a guerra, com a França ocupada, passou a militar na Resistência. Sua tarefa: preparar documentos falsos de identidade para outros militantes clandestinos. Ainda teve tempo de criar um jornal satírico, La voix des Taons (a voz das mutucas) e de atuar para que Artaud fosse transferido de um hospício na França ocupada para outro, melhor, na República de Vichy.

Preso em abril de 1944 pela Gestapo, foi enviado a uma horrenda série de campos de concentração: Flossemburg, Buchenvald, Teresienstadt. Quando Teresienstadt foi tomado pelos aliados em 1945, acharam Desnos – tarde demais: com tifo, agonizante, não resistiu. Suas últimas palavras, ao ser reconhecido por um estudante tcheco no hospital: “Esta é minha manhã mais matinal”.

Havia conquistado a admiração dos demais prisioneiros ao jogar sua gamela de sopa na cara de um dos guardas do campo de concentração, suportando impassível os duros castigos a que o submeteram, relata Alexandrian.

Transcrevo da Wikipedia em inglês, que cita Susan Griffin, outro episódio (Alexandrian também o menciona, mas com menos detalhes):

“Um dia, Desnos e outros prisioneiros foram levados a um caminhão; sabiam que este os levaria à câmara de gás. Ninguém falava. Logo chegaram e os guardas ordenaram que saíssem do caminhão. Quando começaram a andar em direção à câmara de gás, Desnos repentinamente saltou para fora da fila e agarrou a mão da mulher a sua frente. Estava animado e começou a ler a palma da mão. A previsão era boa: uma vida longa, muitos netos, abundantes alegrias. Uma pessoa ao lado ofereceu sua palma a Desnos. Novamente, Desnos antecipou uma vida longa, cheia de felicidade e sucesso. Os demais prisioneiros animaram-se, estendendo as palmas de suas mãos para Desnos e, em cada caso, ele predisse vidas longas e felizes. Os guardas ficaram desorientados. Minutos antes, estavam em uma missão de rotina cujo desfecho parecia inevitável, mas agora hesitavam. Desnos foi tão eficiente em criar uma nova realidade que os guardas foram incapazes de prosseguir com as execuções. Mandaram que os prisioneiros voltassem ao caminhão e os levaram de volta a suas barracas. Desnos nunca foi executado. Através do poder da imaginação, salvou sua vida e aquelas dos outros.”

EM TEMPO (estou acrescentando no dia seguinte): a história das leituras de mão, e, principalmente, demover guardas nazistas, pode parecer não só improvável, mas fictícia.  Alexandrian é rigoroso, fonte muito confiável: em seu História da filosofia oculta, por exemplo, sustenta que Nicolas Flamel nunca foi alquimista (nisso contradizendo Breton), porém apenas um homem muito rico a quem foi atribuída a capacidade de fazer ouro, e que os escritos que lhe foram atribuídos são apócrifos; e que o tarô não é egípcio antigo, porém criação de Eteilla no sec. XVIII, embora derive de jogos de cartas criados na Renascença. Enfim, a informação é precisa nos livros dele que já li. A autora citada na Wikipédia, Susan Griffin, é uma jornalista e dramaturga, prêmio Pulitzer – existe. Chequei no Google, de fato ela relata esse espantoso episódio.

Homenagens a Robert Desnos, 4

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Mais sobre sono hipnótico

A seguir, transcrição de dois textos sobre Desnos e o sono hipnótico. O primeiro, de meu ensaio “Magia, poesia e realidade: o acaso objetivo em André Breton”, publicado na coletânea O Surrealismo da Perspectiva. O segundo, de Le surréalisme et le rêve de Alexandrian, do qual eu já havia transcrito, sobre sono hipnótico e Desnos, o trecho sobre a gênese da “cabala fonética”.

Antes, algumas observações sobre o valor poético dessas incursões por territórios desconhecidos. Chocam-se com um arraigado cartesianismo evidente, entre outros lugares, no que Haroldo de Campos havia escrito, nos Manifestos da poesia concreta, sobre o “irracionalismo surrealista, automatismo psíquico, caos poético individualista e indisciplinado”, gestado “nos limbos amorfos do inconsciente”, produzindo “essa patinação descontrolada por pistas oníricas de palavras ligadas ao subjetivismo arbitrário e inconseqüente”, pois, para ele, “O poema concreto é submetido a uma consciência rigorosamente organizadora, que o vigia em suas partes e no todo, controlando minuciosamente o campo de possibilidades aberto ao leitor”. Ferreira Gullar, contendor da poesia concreta, dizia-me a mesma coisa, por volta de 1980; não aceitava escrita automática “porque não sou eu quem está escrevendo”. Em João Cabral’ encontramos afirmações categóricas sobre o indispensável controle racional da criação poética (“A emoção não cria” etc).

Concretistas atenuaram posições (mas, como observei recentemente a Augusto de Campos, faltou avisarem a epígonos e adeptos). Gullar também. Cabral mostrou-se, até o fim, cada vez mais dogmático e intransigente. Matrizes do que tenho chamado de “poetas inteligentes”. Não percebem que alucinações, transes, escrita automática, sonhos, inspiração e possessão são ampliações, e não reduções. Que há um ganho e não uma perda; liberação e não restrição pela expressão do “eu” profundo; pelo retorno do recalcado; em última instância (ou primeira, não sei), do desejo. O legado de surrealistas em geral e Desnos em especial é a demonstração do valor poético dessas luzes que saem da profundidade. Alexandrian chama capítulos de seu livro de “La nuit des éclairs”, a noite dos clarões ou relâmpagos, e “Le mystère dans la lumière”, o mistério na luz. Faz observações como esta: “O desejo é uma língua viva”. Diz que “o simbolismo poético e o simbolismo onírico são interdependentes”.

O trecho do meu ensaio – sobre acaso objetivo, por isso focaliza o valor profético dessas e de outras manifestações:

Na busca do além-fronteiras durante a fase heróica ou intuitiva do surrealismo, período da formação que precede o primeiro manifesto, também foram feitas experiências com o “sono hipnótico”. São comentadas em um capítulo da coletânea Les pas perdus de Breton intitulado Entrée des Médiuns (antes haviam sido publicadas na revista Littérature e também pode ser encontrada na biografia de Breton por Henry Béhar, Le grand indésirable, ou em Oeuvres de Robert Desnos, Gallimard), sobre o desencadear-se deuma conspiração de forças absurdas”. A idéia de imitar sessões espíritas, mas rejeitando a hipótese da comunicação com os mortos, foi de René Crevel. É transcrito um diálogo entre Breton e Desnos, em transe, respondendo por escrito, a 27 de setembro de 1922:

Desnos, é Breton quem está aí. Diga-lhe o que você vê.

O equador (desenha um círculo e um diâmetro horizontal).

É uma viagem que Breton deve fazer?

Sim.

Será uma viagem de negócios?

– (Faz sinal de não com a mão. Escreve:) Nazimova.

Sua mulher o acompanhará nessa viagem?

– ???

Irá ele reencontrar Nazimova?

Não (sublinhado).

Ele estará com Nazimova?

– ?

O que mais você sabe sobre Breton? Fale.

O barco e a neve – há também a bela torre de telégrafo – sobre a bela torre há um jovem (ilegível).

Béhar sugere uma interpretação: “O leitor que conhece o triste destino de Nadja é tentado a assimilar esses dois nomes russos, ainda que Nazimova seja aquele de uma atriz de cinema célebre na época” (Alla Nazimova, atriz russa admirada por Desnos e que atuava no cinema americano, protagonista de Salomé). Em Oeuvres de Desnos foram incluídos comentários sobre cinema, nos quais a atriz Nazimova é mencionada. (a observar que a sessão foi em 1922; o encontro de Breton e Nadja, em 1926) Mas há outra interpretação possível, que não consta na bibliografia examinada: Nazimova podia ser uma recepção distorcida de nazismo. Isso dá ao episódio um alcance efetivamente profético, pois não havia como antever, em l922, a ascensão do nazismo na década seguinte e as conseqüências de mais uma guerra mundial. Entre outras, a viagem transoceânica de Breton em maio de 1941, como refugiado, primeiro à Martinica e depois aos Estados Unidos. Detalhes do diálogo reforçam essa interpretação: seria impossível “encontrar” Nazimova, e obter resposta sobre a mulher de Breton (não estaria mais com Simone Kahn, porém separando-se de Jacqueline Lamba). Dos presentes à sessão, quem acabou como vítima do nazismo foi o próprio Desnos. Militante da resistência francesa, morreria em um campo de concentração ao final da guerra.

As experiências com o sono hipnótico foram interrompidas depois de situações constrangedoras e chocantes, como a insistência de Crevel no suicídio coletivo (viria a suicidar-se em l935). Desnos as continuou por conta própria. Não consta, nos estudos sobre o assunto, a seguinte pergunta: por quê, do material disponível sobre sono hipnótico e estados de aparente mediunidade, resultado de várias reuniões, Breton escolheu esse trecho para a publicação em Les pas perdus? Qual critério o levou à seleção do diálogo sobre Nazimova, profecia impossível de avaliar ou considerar mais que devaneio? Pode-se falar em dupla premonição. Primeiro de Desnos adormecido, antevendo tragédias que aconteceriam daí a décadas. Depois de Breton, selecionando o trecho para figurar em L’entrée des mediums.

Breton e seus companheiros não foram os únicos a iniciar experiências através de simulacros de sessões mediúnicas, interrogando as profundezas do inconsciente ou a amplidão de outros mundos. A idéia da criação poética associada a uma voz externa, dizendo algo ao poeta, é antiga (está inclusive em Platão) e muito presente no primeiro romantismo alemão, em Gérard de Nerval, na bouche d’ombre de Victor Hugo e em episódios intrigantes como a “escrita automática” de Yeats, o procedimento através do qual sua mulher, Georgina Hide-Lees, escreveu A Vision; e ainda o modo como Fernando Pessoa, em 1914, criou O Guardador de Rebanhos de uma enfiada só, como se Alberto Caeiro houvesse “baixado”.

Agora, um dos trechos de Alexandrian (são vários):

Freqüentemente Desnos evoca, dormindo, personagens da Revolução Francesa (criança, identificava-se já a Robespierre, cujo nome evocava seus dois prenomes, Robert-Pierre), mas será visto pelo trecho a seguir como seu tom difere das pseudo-mensagens espíritas atribuídas a um Convencional:

Sábado, 30 de setembro. – Espontâneo – Ah! (depois, palavra ilegível)

P. – Onde você está?

R. – Robespierre.

P. – Aqui há mais pessoas?

R. – A multidão.

Robespierre (com uma letra bem grande) Robespierre.

Aqui Desnos se põe, pela primeira vez, a falar. Voz surda, triste, ligeiramente ameaçadora. Ouve-se:

Eles se tornarão mais brancos que o estandarte horrendo da monarquia…. Covardes, covardes… E esses colarinho branco que vós me reprovais como paramento inútil…. vós tendes ciúme do pescoço elegante que sai dele…. Vós sois forjadores escapadosde vossas forjas noturnas…. noturnas… noturnas…. A guilhotina…. a guilhotina. Estou só. Vós sois a multidão e vós tremeis diante do meu olhar verde.

P. – Atrás de Robespierre, o que há?

R. – Uma ave.

P. – Que ave?

R. – A ave do paraíso.

P. – E atrás da multidão?

R. – (desenho representando a guilhotina. Escreve: ) o belo sangue canapé.

P. – E quando Robespierre e a multidão não estiverem mais em contato, o que acontecerá?

R. – A bela canção de amor da minha vida inominada.

P. – O que acontecerá com a multidão?

R. – Que me importa?

P. – O que acontecerá com Robespierre?

R. – O céu.

Espontâneo – Boy of my soul as a sky so white do is my boy my boy my boy where is the blue sky – the boat of my hair a beautiful steamer star boat.

[…]

(o trecho vai mais longe – e há outro, no qual novamente Nazimova é evocada – mas este post está longo demais, transcreverei em outra ocasião)

Homenagens a Robert Desnos, 3

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col Poètes d''aujourd'hui 113354155

Desnos: mais poemas

Que beleza, conteúdo gerar acessos. Como aumentou a visitação a meu blog desde que iniciei esta série sobre Desnos.

A seguir, três de seus poemas, O primeiro, de Le langage cuit, é bem conhecido por freqüentadores de meus cursos e oficinas: mostro sempre. É obra prima no emprego dos oximoros e antinomias. Conecta-se, por isso, com uma tradição, incluindo cantos tribais, de civilizações antigas, hinos órficos, gnósticos, expressões de místicos e poesia moderna. Já escrevi sobre isso – oximoros e antinomias no misticismo e poesia – no cap. 4 de meu Um obscuro encanto, e tenho algo mais extenso a respeito em preparação. Os demais, de Les tenèbres, de 1927.

Todos na tradução de Eclair Antonio Almeida Filho (que traduziu a série toda, de 27 poemas, de Les tenèbres, e muito mais).

Está clara, para mim, a seqüência desta série sobre Desnos em meu blog. No próximo, vou postar mais sobre o sono hipnótico, comentando. A seguir, algo de sua biografia. Completarei com outro trecho de La liberte ou l’amour! Ficam fora, por intraduzíveis, mais de sua ‘cabala fonética ‘ e as séries de alexandrinos clássicos e outras formas fixas que ele produzia espontaneamente, por vezes em transe ou sono hipnótico.

UM DIA EM QUE ERA NOITE

Ele voou para o fundo do rio.

As pedras de madeira de ébano, os fios de ferro em ouro e a cruz sem braço.

Tudo nada.

Eu a odeio com amor como todo um cada um.

A morte respirava grandes correntes de vazio.

O compasso traçava quadrados

E triângulos de cinco lados.

Após isso desceu ao sótão.

As estrelas do meio-dia resplandeciam.

O caçador voltava, o bornal cheio de peixes

Sobre a margem no meio do Sena.

Uma minhoca marca o centro de um círculo

Sobre a circunferência.

Em silêncio meus olhos pronunciaram um estridente discurso.

Então avançávamos numa aléia deserta onde se apressava a multidão.

Quando a marcha nos trouxe repouso

Tivemos a coragem de nos sentar

Depois ao despertar nossos olhos se fecharam

E a aurora verteu sobre nós os reservatórios da noite.

A chuva nos secou

I – A voz de Robert Desnos

Tão semelhante à flor e à corrente de ar

Ao curso d’água às sombras passageiras

Ao sorriso entrevisto essa famosa noite à meia-noite

Tão semelhante a tudo à felicidade à tristeza

É a meia-noite passada que levanta seu dorso nu acima das

Torres e dos álamos

Chamo até a mim aqueles perdidos nos campos

Os velhos cadáveres os jovens carvalhos cortados

Os retalhos de tecido que apodrecem sobre a terra e o linho

Que seca nos arredores das fazendas

Chamo até a mim os tornados e os furacões

As tempestades os tufões os ciclones

As ressacas do mar

Os tremores de terra

Chamo até a mim a fumaça dos vulcões e a dos cigarros

Os círculos de fumaça dos cigarros de luxo

Chamo até a mim os amores e os amantes

Chamo até a mim os  vivos e os mortos

Chamo os coveiros chamo os assassinos

Chamo os carrascos  chamo os pilotos os pedreiros e

os arquitetos

os assassinos

chamo a carne

chamo aquela que amo

chamo aquela que amo

chamo aquela que amo

a meia-noite triunfante abre suas asas de cetim e se põe

Sobre minha cama

As torres e os álamos se dobram ao meu desejo

Aquelas desabam aqueles se envergam

Os perdidos no campo se reencontram ao me achar

Os velhos cadáveres ressuscitam por minha voz

Os jovens carvalhos cortados se cobrem de verdor

Os retalhos de tecido que apodrecem na terra e sobre a terra estalam à

minha voz como o estandarte da revolta

o linho que seca nos arredores das fazendas veste adoráveis mulheres que

eu não adoro que vêm a mim obedecem à minha voz e me adoram

os tornados giram em minha boca

os furacões enrubescem se é possível meus lábios

as tempestades murmuram aos meus pés

os tufões se é possível me pintam

recebo os beijos de embriaguez dos ciclones

as ressacas do mar vêm morrer aos meus pés

os tremores de terra não me abalam mas fazem tudo desabar à

minha ordem

a fumaça dos vulcões me veste com seus vapores

e a dos cigarros me perfuma

e os círculos de fumaça dos cigarros me coroam

os amores e o amor há  tanto perseguidos se refugiam em mim

os amantes escutam  minha voz

os vivos e os mortos se submetem e me saúdam os primeiros

friamente os segundos familiarmente

os coveiros abandonam os túmulos arduamente cavados e declaram que

apenas eu posso comandar seus noturnos trabalhos

os assassinos me saúdam

os carrascos invocam a revolução

invocam  minha voz

invocam meu nome

os pilotos se guiam sobre meus olhos

os pedreiros sentem vertigem ao me escutar

os arquitetos partem para o deserto

os assassinos me benzem

a carne palpita a meu apelo

aquela que amo não me escuta

aquela que amo não me ouve

aquela que amo não me responde

(14-12-1926)

III- A sexta-feira do crime

Um incrível desejo se apossa das mulheres adormecidas

Uma pedra preciosa adormece no cofre azul de rei

E eis que sobre o caminho se agitam as pedras exauridas

Nunca mais os passos das comovidas pela noite

Passem cascatas

As muralhas se levantam ao som do alaúde de Orfeu

E desmoronam ao som das trombetas de Jericó

Sua voz atravessa as muralhas

E meu olhar as suprime sem ruínas

Assim passam as cascatas com a lamentação das estrelas

Sem pedras no caminho

Sem mulheres adormecidas

Sem mulheres na obscuridade

Assim passem cascatas.