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Uma apresentação de Piazzas de Roberto Piva e do meu Anotações para um Apocalipse

Escrita por José Paulo Vieira da Cunha, grande amigo nosso, extraordinário erudito (como podem ver pelo texto a seguir) e parceiro em vários episódios. Distribuído em folha solta para o lançamento dos dois livros – no Barroquinho na Galeria Metrópole, também teve uma banda musical, barril de 100 litros de vinho e uma quantidade de gente que me surpreendeu. Final de outubro de 1964. Transcrito agora por Guilherme Ziggy, como parte dos trabalhos de organização da Biblioteca Roberto Piva:

EM PROL DA NOVA METAMORFOSE

“Sob o sol ardente fundem-se as neves do Himalaia” (1964)

Tempos novos exigem obras novas. Mas o que querem os novos? Povoar naacàlicamente os céus de Inquanok? Ou derrubar as almênares do Qalaat-ul-Hamrâ? Ou ainda provar que o governador do Estado de São Paulo é pederasta? Talvez tudo isto e mais a deglutição da hidra do farisaísmo e filistinismo para vomitar o esplendor novo de sóis azuis e amarelos e mais os frágeis planetas dos tempos longínquos e imemoriais. É o que fazem, como novos, Roberto Piva e Claudio Jorge Willer, nos livros ora apresentados, de uma maneira belíssima, nos seus contatos com uma realidade superior mística e aceitável e uma realidade vizinha e cotidiana que não aceitam e que desejariam ver destruída ou relegada à categoria de ruína. Opondo-se categoricamente a uma realidade inaceitável, constroem, talvez num movimento compensatório, uma estratificação especial onde predominam os valores do por-vir. Isto, entretanto, não significa uma fuga ou uma evasão fundada em motivos psíquicos. É uma reação natural e a única válida na época natural. A literatura, digamos assim, do romantismo para cá, inserida no âmbito de uma sociedade industrial, onde prevalecem o útil, o eficiente, o técnico, o científico, vem passando por transformações tão desmesuradas que só as suas captações constituem, de per sí, uma introdução geral à essência da nossa época. Frente ao espectro do niilismo, porque verdadeiramente o niilismo é o grande devorador da nossa época, a literatura reage de maneiras as mais variadas. Não cabe enumerá-las “hic et nunc”, mas fica o registro do fato. Dentro deste contexto, que dizer de Roberto Piva e Claudio Jorge Willer? Suas obras enquadram-se na situação apenas esboçada acima? Sem dúvida alguma, o que não quer dizer que suas obras sejam de transição, mas sim construções acabadas e destinadas a placentar a nova geração. Pedagógicas ou não, éticas ou não, são obras definitivas e válidas no contexto sempre mutável do momento que passa. Pelas suas obras perpassam o hálito de Nietzsche, Rimbaud, Desnos, Böehme, Lautréamont, Freud, Bosh, dos alquimistas, dos poetas loucos, enfim da imensa sucessão dos eternos ressuscitadores. Além do mais, como obras profundamente geracionais, os seus traços marcantes são um constante esforço de lucidez e conscientização da problemática da época atual, aliada a tomadas de contato com forças estranhíssimas, as quais, hoje sabemos, dirigem verdadeiramente os destinos da Arte. Há, ainda, nestas obras, conexões sutilíssimas para as quais chamamos a atenção. A tarefa de vislumbrar e captar tais conexões pertence por inteiro aos leitores realmente integrados na problemática da nossa época. Para resumir, nada melhor que citar uma frase de Heidegger, o pensador inquietante: “na comunicação e na luta, a força do destino comum liberta-se” (“Ser e Tempo”, pg. 397).

Roberto Piva, verdadeiro “cavaleiro do mundo delirante”, quer e exige a Metamorfose. Daí o seu grito, tanto mais lancinante quanto mais próximo está do núcleo de fogo das forças terríveis. Poeta de segundo livro, com seu “Paranóia” vivenciou o dito de Jean-Paul Richter: “os reinos terrificantes dos mundos em formação”, agora, com “Piazzas”, lança-se segundo suas próprias palavras, “numa contemplação além do bem e do mal” (“Post-fácio”). Claudio Jorge Willer, “entrepreneur et entreteneur des choses terribles”, clarividente de todas as horas, com seu “Anotações para um Apocalipse” arroja-se numa aventura irreversível: a de desafiar as potências demoníacas de que nos fala Blake, para que saiam a campo conduzindo o Himalaia, e o Hindu-Kush, e num supremo transporte de prazer, destruam o potencial larvar-impecilho ainda subsistente em nossas relações e possibilidades de comunicação. Ambos constituem uma ameaça terrível para a continuação dos tempos. Tomem nota. A sucessão endiabrada das insignificâncias do todo-o-dia tem neles os seus mais ferozes inimigos. Que se precavenha a Lei, porque em suas mãos transformar-se-á em Canto. A magia das coisas não ditas transforma-se no teoremas da incompatibilidades totais. Daí, ambos correm para o país das alucinações, e convidam-nos, com insistentes gestos de amizade, para a aventura histórica de abrirmos um significado maior no âmbito da existência plena. Acho que devemos aceitar o convite e o conteúdo das suas mensagens. Aqui estão eles, pois. Degluta-os os leitores. Amém.

JOSÉ PAULO VIEIRA DA CUNHA

Esta esplêndida edição de inéditos de Roberto Piva, ‘Antropofagias e outros escritos’

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Pela editora Córrego de Gabriel Kolyniak. Ilustrada, com fotos de originais por Sendi Moraes. Distribuída como recompensa aos que contribuíram para a Biblioteca de Roberto Piva. Ou, pelo valor equivalente, em http://www.editoracorrego.com.br/departamento/67263/06/gavie3o2dde2dpenacho Minha ilustração aproveita uma foto postada na rede social por Demetrios Galvão.

Suponhamos alguém que desconhecesse a poesia de Piva. Que não houvesse lido as Obras reunidas (Globo, três volumes), ou Paranóia, ou alguma das edições avulsas. Descobriria, através de Antropofagias e outros escritos e do recente Roberto Piva, da Coleção Postal / Azougue editorial / Cozinha experimental, também fora de comércio (só para assinantes da coleção), um poeta com voz própria: vigoroso, contundente, inovador. Um neo-pagão radical com uma imagética riquíssima. Alguém que abusou do direito de contradizer-se reivindicado por Baudelaire: reparem na prosa poética sobre os lugares mágicos de São Paulo, seguida, poucas páginas após, pelo desejo de, transformado em Nero, incendiar um bairro da cidade. E principalmente um poeta culto: onde achou, entre outras raridades, a epígrafe de Germain Nouveau, Qui prend l’encens de l’âme et les roses du corps,/ Qui simbolise um lys et que l’enfant enseigne.? Suas citações e transcrições mostram como leu bem os autores que mencionava – sem nunca parecer erudito chato, porém sempre no modo vital, exuberante e irreverente.

A questão, examinada por mim no posfácio do livro e por Roberto Bicelli na orelha é a seguinte: o que deu em Piva para deixar tanta poesia de qualidade fora das Obras reunidas? Fica claro que os 20 poemas com Brócoli poderiam ter sido, pelo menos, 22. Que poderia ter havido mais em Quizumba, Ciclones, etc. Como diriam os antigos: para gáudio dos leitores. Felizmente, tudo isso está sendo recuperado, bem como os desaparecidos Corações de Hot-Dog e Outdoors.

Algumas hipóteses e interpretações, apresentei-as em uma palestra recente. Esta: https://www.youtube.com/watch?v=72Oz6PjHKmw&feature=player_embedded A sinopse está aqui: https://www.academia.edu/28631158/A_sinopse_de_uma_nova_palestra_sobre_Roberto_Piva

Quero voltar ao assunto. Assim como também pretendo voltar a tratar de Paranóia, mostrando como Wesley Duke Lee incluiu em suas fotografias para esse livro uma escrita cifrada, de alusões, expondo e endossando a poética e visão de mundo de Piva.

Enquanto isso, reproduzo o poema final de Antropofagias e outros escritos, “O que importa é a porta”. Alusão ao poema de Herberto Helder, “joelho, salsa, lábios, mapa”? Observem como Piva investe contra os formalistas, os “cancerosos estudantes de semiótica”, e ao mesmo tempo brinca com eles, mostrando que poderia seguir por esse caminho, jogando com a relação do som e sentido, o quanto quisesse. Mas não quis – não lhe interessava tornar-se letra de música, acho.

 As teorias passam. A rã fica.

Jean Rostand, Carnets d’un Biologiste

O que importa e a porta

cancerosos estudantes de semiótica

não o buraco negro da fechadura

na rigidez apolínea dos esquifes

importa é vento além da porta que ainda ulula no hori-

zonte

gravatas de maconha enlaçadas na aurora

centauros trotando no porre das avenidas

cometas nas praias silenciosas

Eu quero tocar o tambor nesta orgia de claridades

circular na roda-gigante do coração do garoto punk

onde a tribo do futuro cochila

esperando o sinal do Ataque

EM TEMPO: Continua valendo o post precedente, sobre a venda promocional de meus livros de poesia. https://claudiowiller.wordpress.com/2016/12/09/venda-promocional-de-estranhas-experiencias/ E o próximo post será sobre o festival de cinema beat no CNBB, a partir de 06 de janeiro, no qual darei palestra. Aguardem.

“Paranóia” de Roberto Piva e Wesley Duke Lee: a metrópole revisitada

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No evento programado para este sábado à noite, dia 26 – a mesa que faz parte da Balada Literária e ocorrerá no Estudio Lâmina – voltarei a tratar de Paranóia. Direi algo sobre a poesia de Piva e a contribuição desse artista enorme, Wesley. Relatarei episódios que ninguém conhece – por exemplo, a gênese da foto que escolhi para ilustrar este post, uma das que estão no revolucionário poema de Piva. Estarei em companhia de ótimos interlocutores.

O evento: Vanderley Mendonça e Gabriel Kolyniak  conversam com Claudio Willer , Gustavo Benini e Roberto Bicelli, numa homenagem ao poeta Roberto Piva

Onde: Estúdio Lâmina. Avenida São João, 108 – 4o andar. Quando: Dia 26 de novembro, sábado, a partir das 20h

Em tempo: Haverá publicações de Piva e outras boas surpresas. A manifestação faz parte das atividades pela criação da Biblioteca de Roberto Piva. E o ativo Gabriel Kolyniak da editora Córrego confirma que também haverá livros de poesia meus – A verdadeira história do século 20 e Estranhas experiências – em oferta e a preços promocionais.

A programação completa da Balada Literária está aqui: http://baladaliteraria.com.br/programacao/

A sinopse da palestra mais recente sobre Piva

Gravei em Academia.edu, para facilitar o acompanhamento do vídeo.

É esta sinopse:

https://www.academia.edu/28631158/A_sinopse_de_uma_nova_palestra_sobre_Roberto_Piva

O vídeo da palestra na livraria Tapera Taperá, já divulgado, é este:

Boa leitura e audição. Pretendo escrever mais.

 

Boa notícia: minha palestra sobre a colaboração de Roberto Piva e Wesley Duke Lee em Paranóia disponível no meio digital

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Está em https://vimeo.com/111753715

Foi em maio de 2014, no MIS, na mesa “Livros proibidos” do III Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia no MIS, organizado por Iatã Cannabrava / Estudio Madalena.

Gravação de qualidade, nítida. Falei durante 43 minutos: acho que enriquecerá a leitura de Paranóia, além da oportunidade de dizer algo sobre Wesley. Revelei uns segredos adicionais, ao final. Sou seguido por Thiago de Mello, que tratou de outra obra seminal, o livro sobre os Yanomami de Claudia Andujar. Quem me avisou do vídeo estar on line foi Mariana Outeiro, que prepara dissertação sobre essa parceria Wesley – Piva.

Curtam.

(meu próximo post será sobre o festival de cinema beat em Brasilia, no qual darei palestra)

ENSAIOS SOBRE ROBERTO PIVA

My beautiful picture

My beautiful picture

Resolvi juntar ensaios sobre Piva em um tríptico, de 2010 até recentemente, valendo-me dessa facilidade proporcionada pelo modo como ficam à disposição no Academia.edu.

Estão na sequência cronológica. Talvez possibilite observarem algumas reiterações e também acréscimos. No último, há atualização bibliográfica: andaram escrevendo bastante – e bem – ultimamente sobre o autor de Paranóia.

Ainda sobre esse terceiro ensaio: poderia ir mais longe, avançar mais – acho que contornei o corpo e me fixei mais no particularíssimo pensamento utópico dele. Retomarei, futuramente.

O primeiro, “Roberto Piva e a poesia”, de 2010: https://www.academia.edu/20566138/ROBERTO_PIVA_E_A_POESIA

O segundo, “Roberto Piva e o surrealismo”, de 2011: https://www.academia.edu/20798539/ROBERTO_PIVA_E_O_SURREALISMO

O terceiro, “Roberto Piva, poeta do corpo”, de 2015: https://www.academia.edu/21072084/ROBERTO_PIVA_POETA_DO_CORPO

Como observo, dariam um livreto. Mas este modo de divulgação é funcional, alcança uma boa quantidade de interessados.

Ilustrando, a foto dele que fiz em 1960. Lendo Hölderlin no costão da Praia Brava, ao sul de Peruíbe.

Hans Bellmer, Roberto Piva e a metralhadora em estado de graça

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Ao preparar aula recente de surrealismo, pesquisando Hans Bellmer, o das bonecas e corpos metamorfoseados, achei a montagem “A metralhadora em estado de graça”, que ilustra esta postagem. Lembrei-me da mesma imagem no “Poema vertigem” de Piva, publicado em Ciclones e que transcrevi em meu artigo sobre sua relação com surrealismo, publicado em Etomia. Coincidência ou apropriação? Citação proposital ou inconsciente funcionando? Não saberemos. De todo modo, a alusão a Bellmer adiciona sentidos – ou reitera, pois, afinal, o assunto de ambos parece ser sexo polimorfo. Certamente, inúmeras de suas imagens classificadas como “delírio” e jogo gratuito escondem alusões e referências Leitores e críticos devem sempre desconfiar, além do que já sabemos e foi tema de ensaios e artigos – os mais recentes na série Roberto Piva vida poética de Ricardo Mendes Matos, leitor dos mais desconfiados e aguçados, que prefaciei: http://robertopivavidapoetica.blogspot.com.br/

“Poema vertigem”:

Eu sou a viagem de ácido

nos barcos da noite

Eu sou o garoto que se masturba

na montanha

Eu sou tecno pagão

Eu sou Reich, Ferenczi & Jung

Eu sou o Eterno Retorno

Eu sou o espaço cibernético

Eu sou a floresta virgem

das garotas convulsivas

Eu sou o disco voador tatuado

Eu sou o garoto e a garota

Casa Grande & Senzala

Eu sou a orgia com o

garoto loiro e sua namorada

de vagina colorida

(ele vestia a calcinha dela

& dançava feito Shiva

no meu corpo)

Eu sou o nômade do Orgônio

Eu sou a Ilha de Veludo

Eu sou a Invenção de Orfeu

Eu sou os olhos pescadores

Eu sou o Tambor do Xamã

(& o Xamã coberto

de peles e andrógino)

Eu sou o beijo de Urânio

de Al Capone

Eu sou uma metralhadora em

estado de graça

Eu sou a pomba-gira do Absoluto