Posts Tagged ‘Rodolfo Konder’

As boas políticas culturais públicas em São Paulo, em 1994

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A propósito da homenagem a Rodolfo Konder dia 19 de agosto, organizada por Beatriz Helena Ramos Amaral, recuperei fotos do período em que foi secretário municipal de cultura e eu atuei como assessor e coordenador da formação cultural. Esta mostra uma sessão do ciclo de palestras e debates sobre Contracultura na Biblioteca Mário de Andrade, no segundo semestre de 1994. Estou entre os conferencistas Zuenir Ventura e Arthur José Poerner. Konder está na primeira fila, à direita no quadro. Reparem que o mezanino também está lotado, assim ocupando os 210 lugares do auditório. Em outras sessões, instalamos monitores de TV no saguão. Isso, regulamente, três vezes por semana. E em outras instalações: vieram 200 pessoas para ouvir Orides Fontela e outros poetas na Casa de Cultura do Butantã, por exemplo. Hoje, o que acontece lá? E em outras bibliotecas e casas de cultura, então ativas, oferecendo programação regular para a cidade? Volto a sustentar que algum ostracismo, alguma maledicência, foi pelas qualidades da gestão de Konder, e não por seus defeitos. Entre outras dessas qualidades, a cooperação e diálogo. Apesar de já ser especialista no assunto, a série sobre contracultura foi uma sugestão da diretora da biblioteca, Lúcia Neiza. Acolhemos e realizamos outros projetos que nos foram apresentados. Fizemos parcerias com a USP, Mackenzie, SESC, UBE e outras instituições. Como disse na sessão do dia 19, uma das nossas qualidades foi o respeito pelo trabalho alheio. Atingimos o grau zero de aparelhamento e sectarismo. Ao contrário dos que se acham o marco inicial da administração cultural e começam por paralisar tudo o que vinha sendo feito, Konder deu prosseguimento a projetos recebidos da gestão anterior, de Marilena Chauí: as casas de cultura (que passaram de 8 para 12), Lei Mendonça (hoje desativada) e Conselho Municipal de Cultura – entrei na Secretaria para cuidar de sua instalação, e só depois fui cuidar de cursos, oficinas, ciclos de palestras, encontros de escritores e apresentações de poetas: atividades importantes por complementarem o ensino formal. Além dos números, da quantidade de público e atividades, há uma dimensão qualitativa a ser lembrada. Pessoas já me disseram que comparecer a alguma dessas programações as fez perceberem que seu campo seria a literatura, assim modificando suas vidas. Por exemplo, autores a quem conheço, que freqüentaram os Encontros Órficos de Roberto Piva.
É um chavão notório dizer que uma imagem vale mais que mil palavras. Ainda mostrarei outras imagens.
(cliquem na imagem, amplia)
A manifestação sobre Konder:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/08/17/mesa-sobre-rodolfo-konder-na-casa-das-rosas/

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Mesa sobre Rodolfo Konder na Casa das Rosas

Será esta terça feira, dia 19 de agosto. À Avenida Paulista, 37, São Paulo, a partir das 19h30. Organizada pela poeta Beatriz Helena Ramos Amaral. Falarei, precedido por Anna Maria Martins, Fabio Lucas e Luís Avelima.
Ocasião para dizer algo sobre política cultural. Tratar de literatura na administração cultural pública, entre outros temas. Insistirei que houve algum ostracismo pelas qualidades da gestão de Konder, não por seus erros. Talvez, o secretário de cultura certo nas administrações municipais erradas. Lembrarei a quantidade (e, evidentemente, a qualidade) de atividades ligadas á literatura e ao debate de idéias no período: palestras, ciclos de debates, apresentações de poetas, encontros de escritores com o público em bibliotecas e outros equipamentos. Nesse campo, o retrocesso é evidente. Na área municipal, não há mais nada relacionado á poesia, após a defenestração de Claudio Daniel do Centro Cultural – e mesmo aquilo foi uma ínfima fração, em recursos e quantidade de eventos, do que fizemos. Hoje, Casa das Rosas, vinculada á administração estadual, é quase um reduto isolado – e também sofre com a carência de recursos, seus gestores estão tirando leite de pedra. Hora de reivindicar retomada, recuperação de espaços e recursos para a produção simbólica, capaz de formar consciências e constituir uma realidade melhor.
Lembrando, Konder faleceu a 1º de maio deste ano. Conheci-o pessoalmente em 1979, quando retornou do exílio, através de Marcos Faerman, um agregador. Colaborávamos em Versus, criado por Faerman. Participamos, com ele, de Singular e Plural. A meu convite, filiou-se à UBE, União Brasileira de Escritores, em 1981. Fomos diretores (acabei presidindo). Trabalhei com ele na Secretaria Municipal de Cultura, de 1993 a 2000.
Venham.
Mais sobre a sessão:
https://catracalivre.com.br/sp/agenda/gratis/casa-das-rosas-realiza-debate-em-homenagem-a-rodolfo-konder/
Sobre Konder:
https://claudiowiller.wordpress.com/2014/05/01/rodolfo-konder-5-de-abril-de-1938-1o-de-maio-de-2014/

Rodolfo Konder, 5 de abril de 1938 – 1º de maio de 2014

É horrível ter que converter blog em necrológio. Inevitável, porém.
Conheci-o pessoalmente assim que retornou do exílio em 1978, através de Marcos Faerman. Colaborávamos em Versus, o jornal criado por Faerman, logo seguido por sua revista Singular e Plural – nela, Konder foi editor de Internacional junto com Claudio Abramo. Quando resolvi participar de uma renovação da UBE, União Brasileira de Escritores, pedi a ambos, Faerman e Konder, que entrassem como sócios – Konder, militante disciplinado, por sua vez inscreveu outros dez escritores, todos intelectuais qualificados, assim contribuindo para formar quorum para nossa eleição. Foi meu colega em duas diretorias da entidade, entre 1982 e 86, com Fábio Lucas como presidente. Secretário de Cultura do município, convidou-me para trabalhar lá; aliás, por sugestão de Faerman, que integrava sua equipe. Fui seu assessor de 1994 a 2000, minha estada mais prolongada em administração cultural – durei esse tempo todo por ter nele, mais que um chefe, um interlocutor e amigo. Fizemos muita coisa boa: encontros de escritores com o público, apresentações de poetas, ciclos de palestras. Penso que um certo ostracismo subseqüente se deve às qualidades de sua gestão, e não a eventuais falhas. Já ouvi afirmações equivocadas sobre o período e oportunamente voltarei ao assunto.
Sendo um jornalista completo, Konder também foi escritor. Deixou crônicas e narrativas de qualidade, das quais também tratarei. A poeta Beatriz Helena Ramos do Amaral havia programado uma sessão com ele na Casa das Rosas, da qual eu participaria. Deveria ocorrer no final do ano passado, mas foi adiada por suas más condições de saúde.
A seguir, links com alguma biografia e duas entrevistas. Uma delas, a do Observatório de Imprensa, com o relato de sua prisão no DOI-Codi em 1975, junto com Vladimir Herzog e outros colegas – lembrando que ele foi o primeiro a denunciar que Vlado havia sido assassinado pelos torturadores.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rodolfo_Konder
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/showNews/fd290820011.htm
http://www.rodolfo.konder.nom.br/
http://www.ube.org.br/biografias-detalhe.asp?ID=842