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T. S. Eliot e San Juan de la Cruz

Citei, na postagem anterior, uma frase de Quatro Quartetos de T. S. Eliot: “Dirás que estou repetindo / Alguma coisa que já dissera antes. Tornarei a dizê-lo”. Faz parte deste trecho:

Tu dirás que estou a repetir
Algo que já disse antes. Di-lo-ei de novo.
Di-lo-ei de novo? Para chegares aí,
Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás,
            Deves seguir por um caminho onde não há êxtase,
Para chegares ao que não sabes
            Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.
Para possuíres o que não possuis
            Deves seguir por um caminho da despossessão.
Para chegares ao que não és
            Deves seguir por um caminho onde não estás.
E o que não sabes é a única coisa que sabes
E o que possuis é o que não possuis
E onde estás é onde não estás.

É adaptação, quase transcrição de San Juan de la Cruz:

            Para vir a gostar de tudo
     não queiras ter gosto em nada.
            Para vir a saber tudo
não queiras saber algo em nada.
            Para vir a possuir de tudo
não queiras possuir coisa alguma em nada.
            Para vir a ser tudo
não queiras ser algo em nada.
            Para vir ao que não gostas
hás de ir por onde não gostas.
            Para vir ao que não sabes
hás de ir por onde não sabes.
            Para vir a possuir o que não possuis
hás de ir por onde não possuis.
            Para vir ao que não és
hás de ir por onde não és.

De Eliot, usei desta vez a tradução de Maria Amélia Neto em Quatro Quartetos, Ática, Lisboa, 1970. De San Juan de la Cruz, traduzi de Cántico espiritual, Olympia Ediciones, 1995.

Chegou-se a falar em plágio de San Juan (santo católico, sim… mas reabilitado, escreveu o Cántico espiritual  na prisão, por ordem da Inquisição) por Eliot. Outros considerariam a relação entre Quatro Quartetos e “Canciones entre el alma y el esposo” como alusão, intertextualidade, diálogo. Observo que o trecho aqui transcrito é o final de um poema sobre a escuridão:

Ó escuridão escuridão escuridão. Todos entram na escuridão,
 Os espaços vazios interestelares, o vazio dentro do vazio […]
e negros o Sol e a Lua e o Almanaque de Gotha […]
Eu disse à minha alma, está tranqüila e deixa cair sobre ti a escuridão
Que será a escuridão de Deus.

Eliot mostra, portanto, que a escuridão em Quatro Quartetos é a “noite escura da alma” do místico espanhol. Remete a outro poeta para adicionar sentido ao que escreve – mesmo procedimento, ao citar Baudelaire, comentando a metrópole fantasmagórica, no portentoso poema-colagem The Waste Land (“Terra sem vida”, “Terra desolada”, conforme a tradução – é a terra devastada da história do Graal e de Percival).

San Juan de la Cruz ou Juan de Yepes, poeta e místico espanhol do século XVI, continuou uma tradição: sua “noite escura da alma” é a “escuridão luminosa” do pseudo-Dionísio Areopagita, iniciador de uma literatura mística medieval (cf. de Marco Lucchesi, A Paixão do Infinito, Niterói, Clube de Literatura Cromos, 1994). Apresenta, ainda, afinidade com Rumi, o poeta do sufismo, na mística erótica das “Canciones entre el alma y el esposo”, nas quais êxtase místico e sexual também são identificados, e o encontro com Cristo é realização de um matrimônio. Todos expressaram-se através de antinomias, como essas aqui citadas. A conexão islâmica de San Juan também foi observada por Dora Ferreira da Silva, que organizou e traduziu A poesia mística de San Juan de la Cruz, Cultrix, 1986. Estranhamente, nessa coletânea de Dora não figura o poema que citei aqui; o paralelo com T. S. Eliot é feito, porém citando o começo de Os quatro quartetos. Mais, em meu próximo curso sobre poesia e misticismo ou quando publicar novo ensaio a respeito.

Eliot foi qualificado como maior poeta do século 20 em enquetes junto a críticos literários. Mas Fernando Pessoa, por exemplo, também foi do século 20. Acho Quatro quartetos e The Waste Land soberbos. Outros de seus poemas são demasiada porta de sacristia para meu gosto. Sua idealização da Idade Média como sociedade harmônica foi um equívoco. Há um julgamento crítico de Jack Kerouac (outro místico), em carta ao editor Barney Rosset sobre a “velha-nova poesia Zen lunática, no lugar dos cinzentos sofismas da Academia”, com o qual concordo: “É diametralmente oposta à ordem de Eliot, que de modo tão sombrio proclama suas leis tristonhas e negativas como o correlato objetivo, etc. que são apenas um monte de constipação e total emasculação do puro impulso masculino para cantar livremente. Apesar das secas regras que ele propôs, sua poesia é, ela mesma, sublime.”.

Manoel de Barros, mais

Postagens de poesia neste blog resultarem em várias centenas de acessos, isso aumenta minha confiança nas chances da espécie humana (é um dos meus bordões prediletos, uso também em eventos de poesia com um bom público)

Meu artigo sobre Manoel de Barros: como os anais do encontro literário no qual foi publicado têm circulação restrita, resolvi publicá-lo também no Acadermia.edu. Está em http://www.academia.edu/4676460/Manoel_de_Barros_novo – ou http://independent.academia.edu/ClaudioWiller

Adiciono. No artigo fiz uma comparação de Herberto Helder e Manoel de Barros a propósito de repetições:

Helder, um contemporâneo português, tem uma série de poemas chamada “Lugar Último”, em que desafia todas as regras do bem escrever. Faz o oposto da escrita instrumental, exibe aquilo que seria a escrita mais errada possível, mas ao mesmo tempo fortemente poética. Por exemplo:

        e agora

         o meu amor é puro puro louco louco.

          E o que dorme dorme

          do que é forte.

Ele quebrou a lógica, “o que dorme dorme do que é forte”, e fica repetindo a mesma palavra. Ou então:

         […] e Deus

         fale de em mim no puro alto da carne.

          E uma onda e outra onda e outra e outra

          e outra

          onda e onda”

É estimulante. Vejamos a imaginária resposta de Manoel de Barros, não sei se ele lê Herberto Helder, ou vice versa, mas vejam o que responde Manoel de Barros: “repetir, repetir até ficar diferente; repetir é um dom de estilo” Essa ideia de que poesia é metalinguagem, de que todo poema expressa ou manifesta uma poética, acho que acabei de exemplificar agora ao colar esse trecho de Manoel de Barros sobre Herberto Helder. Um repete e o outro diz: o negócio é repetir. São as escritas do avesso, que restituem à palavra sua identidade.

Pois bem: depois de entregar o artigo, lembrei-me de um trecho de Quatro quartetos de T. S. Eliot: “Tu dirás que estou a repetir / Algo que já disse antes. Di-lo-ei de novo. / Di-lo-ei de novo?”. Em seguida, aquela quase transcrição de San Juan de la Cruz,

     Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás,

            Deves seguir por um caminho onde não há êxtase,

    Para chegares ao que não sabes

            Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.

     Para possuíres o que não possuis

            Deves seguir por um caminho da despossessão.

      Para chegares ao que não és

            Deves seguir por um caminho onde não estás.

        E o que não sabes é a única coisa que sabes

        E o que possuis é o que não possuis

        E onde estás é onde não estás.

Ironia, ao mencionar o repetir-se, para em seguida transcrever outro poeta. Gênio.

Adiciono mais – o trecho sobre Manoel de Barros do meu artigo sobre poetas da natureza que saiu na revista Celuzlose:

Ainda a propósito de surrealistas, ou dos poetas brasileiros com maior afinidade com o surrealismo, o pensamento analógico e a sacralização do natural reaparecem em Manoel de Barros. É um poeta do microcosmo, das pequenas coisas. E, assim como os místicos, herméticos e neo-platônicos, enxerga o universo em cada coisa; o alto no baixo, o maior no menor. Outro poeta com relação ao qual “Correspondências” de Baudelaire serve como paradigma.

Por exemplo, em O Guardador de Águas:

[…]

Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.

Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.

Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a

fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.

Quando a rã de cor palha está para ter – ela espicha os

olhinhos para Deus.

De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem

o rumo das grotas.

Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica – como andar de costas. (idem, p. 253)

E, de modo quase expositivo, didático, também desdobrando ou multiplicando correspondências, em O livro das ignorãças, na parte intitulada “Mundo pequeno”:

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos. (idem, p 315)

Poesia e misticismo

Provoquei, no Facebook – ao compartilhar uma postagem de trechos de Quatro Quartetos de T. S. Eliot, perguntei se alguém saberia dizer de qual grande místico ele se apropriou, muito liberalmente.

Ninguém respondeu.

Aí vai (trecho de um enorme ensaio meu sobre poesia e misticismo, é claro que pretendo terminá-lo e publicá-lo).

 San Juan de La Cruz, em “Canciones entre el alma y el esposo”:

            Para vir a gostar de tudo

não queiras ter gosto em nada.

            Para vir a saber tudo

não queiras saber algo em nada.

            Para vir a possuir de tudo

não queiras possuir coisa alguma em nada.

            Para vir a ser tudo

não queiras ser algo em nada.

            Para vir ao que não gostas

hás de ir por onde não gostas.

            Para vir ao que não sabes

hás de ir por onde não sabes.

            Para vir a possuir o que não possuis

hás de ir por onde não possuis.

            Para vir ao que não és

hás de ir por onde não és.

T. S. Eliot em Quatro Quartetos:

Tu dirás que estou a repetir

Algo que já disse antes. Di-lo-ei de novo.

Di-lo-ei de novo? Para chegares aí,

Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás,

            Deves seguir por um caminho onde não há extase,

Para chegares ao que não sabes

            Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.

Para possuíres o que não possuis

            Deves seguir por um caminho da despossessão.

Para chegares ao que não és

            Deves seguir por um caminho onde não estás.

E o que não sabes é a única coisa que sabes

E o que possuis é o que não possuis

E onde estás é onde não estás.

O trecho é adaptação, quase transcrição do poema de San Juan de la Cruz. Mais ainda, por ser o final de um poema sobre a escuridão: “Ó escuridão escuridão escuridão. Todos entram na escuridão, / Os espaços vazios interestelares, o vazio dentro do vazio […] e negros o Sol e a Lua e o Almanaque de Gotha […] Eu disse à minha alma, está tranqüila e deixa cair sobre ti a escuridão / Que será a escuridão de Deus.” A escuridão em Quatro Quartetos de Eliot corresponde à “noite escura da alma” do místico espanhol. Chegou-se a falar em plágio. Outros considerariam a relação entre Quatro Quartetos e “Canciones entre el alma y el esposo” como intertextualidade, diálogo entre poetas. Importa ou interessa, é claro, que tudo isso é belíssimo. Eliot tornou-se, a meu ver, um reacionário carola – mas escrevia magistralmente.