Posts Tagged ‘teorias conspiratórias’

Os acontecimentos de fevereiro

Dia 12, publiquei no Facebook um comentário sobre o modo como a tragédia, o assassinato do cinegrafista Santiago Andrade, estava sendo utilizada para incriminar adversários, faturar politicamente e propor leis repressivas. Inclusive essa espantosa criminalização das “desordens” com prisão até 12 anos (isso, nem durante o regime militar) e autorização prévia para qualquer manifestação pública. Teve, por enquanto, 75 retransmissões e um extenso cordão de comentários e aprovações. Em seguida, veiculei outros comentários. Reproduzo a série toda. Pretendo também postar algo (um trecho de Marcuse) sobre uso ritualístico da linguagem. Sobre teorias conspiratórias, que retornam com força, já me havia manifestado neste blog:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/08/22/macons-conspiracoes-illuminati/

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Soou o alarme. Comoção pelo assassinato do cinegrafista Santiago Andrade está servindo para tentarem passar uma espécie de AI 5 branco, instaurando estado policial pela via parlamentar, a pretexto de coibir violência. Denúncias do advogado dos rapazes sobre movimento organizado e financiado são da mesma ordem dos argumentos de Hitler em face do incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, em 1933, provocado pelos próprios nazistas mas utilizado para tomar o poder de vez. Há gente que parece não perceber essa armação, óbvia para quem minimamente conhece história.

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Reproduzo o editorial de O Globo postado por Célia Musili. Esses aí estão preparando uma grande comemoração, festa de arromba, dos 50 anos do 31 de março.
http://oglobo.globo.com/opiniao/os-inimigos-da-democracia-11575241

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1914 em Sarajevo (atentado contra o arquiduque Ferdinand Joseph, que dencadeou aquela guerra), 2014 no Rio de Janeiro? Espero que não; que história tenha ensinado algo. Mas que tem gente ansiosa para por seus times, milícias, exércitos em campo, isso tem.

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Reticências em poesia, algo muito utilizado pelos poetas crepusculares, são um mau recurso literário. Sempre observei isso em oficnas literárias. Só deixo em Mário de Andrade e em Quintana. Agora, em discurso político, reticências são desastrosas. Falta de clareza de autoridades não pode ser admitida – a quantidade de pontos, de espaços em branco e afirmações vagas nos discursos recentes do chefe de polícia do Rio de Janeiro, do secretário de segurança do Rio de Janeiro, do prefeito do Rio de Janeiro e do governador do Rio de Janeiro, dizendo e não dizendo, sugerindo sem afirmar, são um convite a preenchimentos paranóicos, a que cada um adote a teoria conspiratória que preferir. Consequências podem ser desastrosas.

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Autoridades do Rio de Janeiro que vêm a público para declarar que manfestações são organizadas, que é preciso investigar quem as organiza: desde junho do ano passado e uma sucessão de eventos extremamente violentos, onde estavam ? Ocupadíssimos com outros assuntos? Estagiando em Atacama, na península de Kamtchaka, em outro lugar remoto e sem conexão de internet, em um doutorado em Harvard, tão pesado que não dá para tomar conhecimento do mundo exterior? Declarações do rapaz, Caio, que disparou morteiro no cinegrafista, são vagas e contraditórias. Declarações de autoridades são vagas e contraditórias. Nível intelectual de uns e outros me parece equivalente. Boa fé, compromisso com a verdade, também.

Ruralistas, índios e teorias conspiratórias

Já publiquei bastante aqui sobre teorias conspiratórias; a atribuição das causas de acontecimentos aos maçons, illuminati, comunistas, judeus, plutocratas capitalistas, o que for.

Um exemplo expressivo dessa argumentação é dado pelo artigo de Kátia Abreu, senadora e líder ruralista, na Folha de S. Paulo de hoje, 07/09:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/katiaabreu/2013/09/1338470-causa-inconfessavel.shtml

Índios têm terra sobrando, afirma. Reintegrações, devoluções dos territórios de onde foram desalojados, são para prejudicar a agricultura brasileira. Trata-se, expõe, de ação dos “países que cobiçam nossas riquezas”. Como em toda teoria conspiratória, há uma disparidade de agentes, em uma aliança implausível: Igreja Católica, ONGs, antropólogos que “aparelharam” a FUNAI. Todos servem à “guerra comercial” movida por “países que competem com a agricultura brasileira e que cobiçam nossas riquezas minerais e vegetais”. Xenofobia é uma constante nessa modalidade de argumentação; desta vez, contra os “benfeitores de índios, regiamente financiados”. Evidentemente, ambientalistas integram a mesma conspiração. É igual à posição dos integrantes da linha dura durante o regime militar: criar reservas indígenas implicava ameaça à soberania, como mostram relatórios que já comentados aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/06/16/os-relatorios-sobre-ocupacao-de-terras-de-indios/

É nisso que acredita, ou finge acreditar a forte bancada liderada pela senadora. Diante disso, é necessária a mobilização, não só em defesa dos índios e do meio ambiente, mas da inteligência, pesadamente atacada pela líder ruralista.

Ontem, deu na TV o incêndio na reserva recentemente recuperada pelos xavantes em Mato Grosso. Proposital, segundo o noticiário – retaliação dos posseiros, invasores que, finalmente, haviam sido retirados. Notícias como essa são, para Kátia Abreu, disseminadas pelos que conspiram contra as riquezas do nosso Brasil.

Illuminati, Adam Weishaupt, maçons, conspirações

Transcrevo um comentário de Ludenbergue Góes à divulgação do meu post anterior, através do Facebook. É trecho de seu livro ABC do Código da Vinci (editora Conex). Por que o faço? Pelo seguinte: publicado aqui, também aparece para quem pesquisar esses tópicos no Google. O consulente achará mais informação factual, clara e sintética, compensando em alguma medida a quantidade de páginas fantasiosas sobre o tema: relatos de supostas conspirações (pirações, melhor dizendo), argumentos de que seitas secretas controlam a política e a economia, e outros absurdos.

Voltarei ao assunto, para tratar da fascinante convergência de iluministas e iluminados no século 18.

Diz Góes:
Illuminati era uma ordem secreta fundada em Ingolstadt, na Baviera, em 1o de maio de 1776, por Adam Weishaupt, um maçom.
Weishaupt nasceu em 6 de fevereiro de 1748, e depois da morte do pai, em 1753, foi mandado a uma escola jesuíta por seu padrinho, o diretor da Universidade de Ickstatt. Por influência do padrinho, foi nomeado professor na Universidade de Ingolstadt, por volta de 1772.
Suas idéias racionalistas e a influência que exercia sobre os estudantes provocaram reações da Igreja e das autoridades do governo. Para discutir livremente, disseminar suas convicções e contestar a autoridade da Igreja Católica, em 1775, Weishaupt começou a planejar a criação de um grupo que no ano seguinte deu origem aos Illuminati. Seu objetivo era disseminar as doutrinas do Iluminismo do século XVIII, de igualdade humana e racionalidade.
Cinco anos depois, a ordem já tinha adeptos e seguidores na Suécia, Rússia, Polônia, Dinamarca, Hungria, Áustria e França.
Os Illuminati seriam uma extensão da Maçonaria livre, existindo como uma ordem especial ligada à loja maçônica Grande Oriente da França.
O objetivo original dos Illuminati seria educar e “iluminar”. Tinham um programa político que incluía o republicanismo e a abolição das monarquias, que eles tentaram instituir através de “subterfúgios, segredo e conspiração”, incluindo a infiltração em outras organizações.
A Cabala seria a pedra fundamental de todo o pensamento e da prática ocultista do Ocidente, e a pedra angular da crença de todos os iluminados.
Os Illuminati foram proscritos em 1785, depois de quatro decretos do governo, o último deles ameaçando com pena de morte quem recrutasse seguidores para a sociedade. Weishaupt foi demitido da universidade e exilado em Gotha, onde morreu em 1830.
Os Illuminati, porém, teriam passado à clandestinidade, e os líderes da Revolução Francesa seriam seus agentes ou seguidores, com o propósito de derrubar as monarquias européias e o cristianismo.
Ainda atualmente, os Teóricos Conspiradores Paranóicos (TCPs) acreditam que a filosofia dos Illuminati sobrevive e “que grandes famílias de banqueiros judeus têm orquestrado várias revoluções e maquinações políticas por toda a Europa e América desde o fim do século XVIII, com o objetivo final de criar uma Nova Ordem Mundial”.
De acordo com os TCPs, os Illuminati realmente governam o mundo, embora não apareçam. A antiga sociedade teria ressurgido disposta a levar a cabo a lendária vingança contra a Igreja Católica, seu inimigo mais odiado.
E há ainda, de fato, seguidores da sociedade secreta. Segundo eles:

“A Ordem Illuminati é uma associação animada por dois princípios: igualdade e justiça. A Ordem se propõe a levar o mundo a uma Nova Ordem Mundial. e para isso conta com as forças motrizes da sociedade como um todo, independentemente de ideologias e religiões. Nossa união é baseada nos mais puros princípios morais, sem esquecer os ensinamentos dos grandes mestres de todos os tempos. Todo iluminado é formado de modo a oferecer o máximo de si para todos.”

Maçons, conspirações, Illuminati

Volto a insistir:

  1. Desde sua organização como ordem esotérica em meados do século 17, por iniciativa, principalmente, de Elias Ashmole (bela figura, um sábio, representativo do período), maçons tiveram atuação progressista. Contra o absolutismo monárquico e o poder temporal da igreja, foram republicanos.
  2. Encontro de Benjamin Franklin e Voltaire em loja maçônica, para conversar sobre independência dos Estados Unidos, é bom exemplo daquele ambiente político, da convergência de iluministas e iluminados: partilhavam a valorização do conhecimento.
  3. Carbonários de Mazzini, republicanos, precursores da unificação italiana, influentes nas insurreições européias de 1848, pertenceram a um ramo da maçonaria, a do carvão – daí, até hoje “carbonário” ser sinônimo de agitador.
  4. Por isso, maçons foram e são execrados por toda espécie de reacionários: fascistas e nazistas; integristas católicos na linha da TFP e Opus Dei. Regimes de Salazar e Franco davam o mesmo tratamento aos maçons que aos comunistas: cadeia (ao final, links remetendo a textos de Maria Estela Guedes a respeito).
  5. Conspiração de Illuminati da Baviera liderados por Weisshaupt, no final do século 18, foi, ao que tudo indica, armação polícial. Não tem ordem alguma de Illuminati exercendo influência. Por que sei? Porque li textos denunciando essa influência dos Illuminati, uma sucessão de absurdos, com erros históricos grosseiros. E porque se assemelham a outras armações, comprovadas, para incriminar maçons.
  6. Mark Zuckerberg aparecer em público com jaqueta ostentando símbolos dos Illuminati não significa nada. Aliás, esoterista de verdade não faz isso, usar símbolos como enfeite ou estampa.
  7. Também houve – e há – seitas do outro lado. Teosofia de Blavastski abre para o antissemitismo, ao ver a história da humanidade como sucessão de raças. Nazistas como Himmler foram adeptos das ordens do Vril e de Thule, crentes em mundos subterrâneos. Mas não foram Vril e Thule que fizeram o nazismo, porém a opinião pública, reflexo das condições em que se encontrava a Alemanha.
  8. Maçonaria se fez presente, politicamente, por ser enorme – e vice-versa, idéias progressistas e projeto humanitário atraíram adesões. A outros grupos e sociedades secretas carecem dimensão e programa.
  9. Vários magos e adeptos, por serem tradicionalistas, também foram reacionários. Julius Evola, estudioso de magia sexual e tantrismo, aderiu ao Duce – e decepcionou-se. Mas homens de negócios seguem a lógica do capitalismo, tal como exposta por aqueles dois estudiosos alemães e outros especialistas em dialética, e não os desígnios de alguma sociedade secreta.
  10. Teorias conspiratórias foram exemplarmente examinadas por Umberto Eco em O cemitério de Praga. É conclusivo: uma passagem de Balsamo de Alexandre Dumas, biografia romanceada de Cagliostro (farsante, porém mártir, morreu em uma masmorra da Inquisição), relatando suposto programa de conspiradores, foi copiada e apresentada como prova de conspiração maçônica, inicialmente; ocasionalmente de jesuítas (seguidores dessa versão devem estar inquietos); e, finalmente, judaica, resultando em Os protocolos dos sábios do Sião. O protagonista de O cemitério de Praga, romance histórico, é fictício – mas os demais personagens e fatos, todo o desfile de loucuras do século 19 e belle époque, os Coronel Pike, Abade Boullan etc, são reais. O livro de Eco ter estado em listas de mais vendidos depõe a favor da espécie humana, assim como a circulação de O inferno de Dan Brown depõe contra (outra hora, comentarei).

Enfim, teorias conspiratórias são patologia política. Desviam do que interessa: a realidade, o que se passa, a infra-estrutura. Sempre foram e continuam sendo tática para desacreditar autores de críticas e inovadores.

LEITURAS: Além da já citada narrativa de Eco e também de Seis passeios pelos bosques da leitura, principalmente:

Yates, Frances A., El Iluminismo Rosacruz, Fondo de Cultura Económica, México, 2001; (por que não fazem edição brasileira? outros livros dessa extraordinária historiadora já foram editados aqui)

Também:

Béresniak, Daniel, Franc-Maçonnerie et Romantisme, Éditions Chiron, Paris, 1987 (tem na biblioteca da USP);

McCalman, Iain, O último Alquimista – Conde de Cagliostro, mestre da magia na Era da Razão, Rocco, Rio de Janeiro, 2004;

Os perfis de Cagliostro e Saint-Germain, seu oponente, em O oculto de Colin Wilson. História da filosofia oculta de Alexandrian.

De Maria Estela Guedes, entre outros: http://novaserie.revista.triplov.com/numero_33/maria_estela_guedes/index.html e http://www.incomunidade.com/v3/art.php?art=8 .

Minhas páginas a respeito, relacionando ao gnosticismo, em Um obscuro encanto.