Posts Tagged ‘Viva Piva’

O VIVA PIVA de 2010 e o poema “Relatório para ninguém fingir que esqueceu”

Viva Piva de 2010 4888_n

O evento, este registrado aqui, há exatos oito anos desta postagem: 06/03/2010. Piva já internado no Hospital das Clínicas, onde morreria. O movimento “Viva Piva” foi por iniciativa dos poetas Celso de Alencar e Admir Assunção, acompanhado, é claro, por inúmeros amigos. Houve doações, outros eventos, inclusive sessão de palestras que coordenei no SESC – Vila Mariana, sempre com venda de livros generosamente cedidos pela Globo Livros. Serviu para cobrir um rombo bancário dele – morreu com as contas em dia. Arrecadação foi promovida através de blogs e e-mails. Pena, na época, não haver a rede social com este alcance. Teria ampliado. Como tenho sido objeto de um movimento semelhante desde o começo do ano, voltarei ao assunto, para agradecer, comentar e transcrever manifestações.

Adiciono o link da boa matéria no Estadão, por Jotabê Medeiros,  dando conta daquela sessão: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,a-sociedade-dos-poetas-solidarios,521050

Foi a última vez em que encontrei Massao Ohno. Alquebrado – partiria em junho – fez questão de comparecer. Mal falava – mas sentamo-nos em um canto e repetiu, pela última vez: “Willer, quero te publicar…!”. Dos participantes, também perdemos nesse entretempo meus amigos Alberto Marsicano e Toninho Mendes, figuras admiráveis.

A seguir, o poema dele que li na ocasião. Está no volume 3 de suas Obras reunidas. Foi escrito em 1978, apresentado em um evento na Bienal do Livro alusivo a García Lorca, publicado logo a seguir por mim na revista Singular e Plural de Marcos Faerman.

Relatório para ninguém fingir que esqueceu

Roberto Piva.

(de Estranhos sinais de Saturno)

Contra tudo que não for loucura ou poesia

Jorge de Lima

 

Acordar para mastigar este pastel fúnebre recheado de gritos irados & pic-nics de seriedade frente à morte de Garcia Lorca quem em vida teve o bom gosto de dormir com adolescentes & toureiros

acordar para mastigar este pastel fúnebre liquidificador antropófago estrelas do futuro carnificina espiritual de impotentes bostas & lágrimas de crocodilo

o poeta só é celebrado nessas procissões blasfemas enterrado seu coração de carne grávido de vermes vivo poderia cantar vossos filhos & isto a moral que desintegrou Hiroshima condena

10 de maio de 1922

O poeta russo Essenine & sua esposa Isadora Duncan são festejados pelos meios literários russos de Berlim, mas ele provoca uma série de escândalos & toma porres todas as noites.

Março de 1925

O poeta Essenine em Moscou sofre crise de melancolia, invade um recital de poesias, bêbado, urra injúrias & sarcasmos, provoca escândalos & orgias se sucedem.

Setembro de 1925

O poeta Essenine está em Moscou para preparar a edição de suas obras completas pelas edições do Estado. Ele obtém pagamento antecipado & não pára mais de beber. O julgamento severo da crítica fez com que ele sofra cruelmente.

Brasil-Bahia século XVII

Nasce o poeta Gregório de Mattos que a uma certa altura de sua vida abandona casa, cargos & encargos & sai pelo Recôncavo povoado de pessoas generosas como contador itinerante, convivendo com todas as camadas da população, metendo-se no meio das festas populares, banqueteando-se sempre que convidado. A violência da sátira do “Boca do Inferno” lhe valeu a deportação para Angola. Gregório de Mattos assim é descrito pelo cronista da época: uma cabeleira postiça, um colete de pelica, uma vontade de ficar nu, um escritório adornado com bananas.

Paris 1947

O poeta surrealista Antonin Artaud morre num hospício na mais completa solidão abraçado a um sapato. Depois de 10 anos de eletrochoques, Artaud o Momo tem sua vida confiscada. A França & sua arte lógica estão salvas.

França 1935

O poeta René Crevel põe fim a seus dias tendo antes tido o cuidado surrealista de espetar um papel com alfinete na lapela escrito: Enojado.

Nestes dias em que meus únicos companheiros foram a música de Jorge Mautner & algum garoto triste conquistado de madrugada em alguma esquina da solidão eu sei que foram vocês que exilaram Gregório de Mattos, enforcaram Essenine, apontaram o revolver musical de René Crevel, internaram Artaud o Momo no manicômio.

Hoje os olhos do poeta Garcia Lorca erram nessas planícies assassinadas & gritam com Maiakovski: Abandonem finalmente a veneração por meio dos jubileus centenários, a homenagem por meio das edições póstumas! Artigos sobre os vivos! Pão para os vivos! Papel para os vivos!