Posts Tagged ‘William Blake’

O tigre de William Blake

Já havia tratado dele a propósito de The Everlasting Gospel, um manifesto contra a intolerância:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/20/jesus-cristo-por-william-blake/

E de seu anarquismo místico:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/21/mais-william-blake/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/09/06/whitman-e-blake-para-fanaticos-religiosos/

Descartado como louco em seu tempo, hoje suas gravuras / iluminuras valem fortunas e provocam filas em museus. Um dos poema mais reproduzidos em antologias da poesia de língua inglesa é aquele do tigre, de Canções da Experiência, pièce de résistence de tradutores – no Brasil, uns dez, além de fornecer o título do ensaio de Northrop Frye, com a imagem da temível simetria. No embalo do Seminário de Estudos Blakeanos da UFSM em Santa Maria, RS (gostei muito), reproduzo-o. Escolhi a tradução, muito audível, por Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves em Canções da Inocência e da Experiência (Crisálida, Belo Horizonte, 2005) – a mesma que utilizei em Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna. Segue-se algo de meus comentários, também em Um obscuro encanto, e o original.

Tygre, Tygre, fogo ativo,
Nas florestas da noite vivo;
Que olho imortal tramaria
Tua temível simetria?

Que profundezas, que céus
Acendem os olhos teus?
Aspirar quais asas ousa?
Qual mão em tuas chamas pousa?

Porque braço & que arte é feito
Cada nervo do teu peito?
E teu peito ao palpitar,
Que horríveis mãos? & pés sem par?

Que martelo? Que elo? Tua mente
Vem de qual fornalha ardente?
Qual bigorna? Que mão forte
Prende o teu terror de morte?

Quando em lanças as estrelas
Choraram ao céu, ao vê-las:
Ele sorriu da obra que fez?
Quem fez o cordeiro te fez?

Tygre, Tygre, fogo ativo,
Nas florestas da noite, vivo,
Que mão imortal armaria
Tua terrível simetria?[1]

Bataille o transcreve em A Literatura e o Mal para ilustrar o compromisso do poeta com o mal. Smith o cita para reforçar seus argumentos sobre o gnosticismo em Blake: “O criador maligno pintado por Blake em seus últimos poemas ajuda a remover algo da ambigüidade da questão que ele formulou em “The Tyger”: “Que imortal mão ou olho,/ ousou configurar tua temível simetria?” […] Como os gnósticos, ele separa o verdadeiro Deus da natureza, e encara o criador do universo natural como maligno.[2]

Harold Bloom, em uma interpretação assemelhada, o equipara às abominações bíblicas: Os precursores do “Tigre” de Blake foram o Leviatã e o Behemoth de Jô, duas bestas horrendas que representam a tirania, ordenada por Deus, da Natureza sobre o homem; duas feras cujo nome definitivo é a morte humana, porque para Blake a natureza é a morte humana.[3]

É possível, contudo, lançar dúvidas sobre interpretações dualistas de O Tygre, propostas por Bloom, Bataille e Smith. Blake retratou um tigre romântico: sua ferocidade é temível, mas fascinante pela beleza. Pode-se entender The Tyger como percepção não propriamente do mal, mas do belo e da liberdade, análoga àquela de outros poetas diante de animais selvagens. Semelhante leitura é possível através do paralelo com as passagens de O Casamento do Céu e do Inferno sobre a luxúria do bode, a altivez do pavão, a fúria do leão, a beleza da nudez da mulher. A ferocidade do tigre completa a série, se lembrados seus tigres da ira, associados à vitalidade: manifestações da presença de Deus que ultrapassam a polaridade entre bem e mal.

A interpretação pode ser reforçada pela atenção a qualidades do poema. Uma delas, o recurso às antinomias, pares de opostos: o tigre e o cordeiro; as profundezas e os céus; a temível simetria, tão enigmática; as estrelas do céu junto à bigorna e o martelo. Na literatura místico-religiosa, antinomias são para referir-se ao Princípio Primeiro; mas não ao demiurgo. Imagens do poema sugerem, portanto, o caráter sublime do tigre; seu valor como síntese, e não separação e queda. Se fosse para enquadrar Blake em alguma doutrina filosófico-religiosa dualista ou monista, o poema levariam a vê-lo como monista e vitalista, sacralizando a hylé e associando-a ao pneuma, a energia. E não, como quer Bloom, identificando a natureza à morte: a expressão mundo vegetal, em Blake, tem antes o sentido da vida vegetativa, pautada pelo conformismo no mundo em que vivemos, aquele do sono de Ulro. Para tornar aceitável a equivalência de natureza e morte, seria preciso excluir da obra de Blake O Casamento do Céu e do Inferno e Canções da Inocência e da Experiência. Nessas, o mal não é natural, porém social.

THE TYGER (from Songs Of Experience)

By William Blake

Tyger! Tyger! burning bright 
In the forests of the night, 
What immortal hand or eye 
Could frame thy fearful symmetry? 

In what distant deeps or skies 
Burnt the fire of thine eyes? 
On what wings dare he aspire? 
What the hand dare sieze the fire? 

And what shoulder, & what art. 
Could twist the sinews of thy heart? 
And when thy heart began to beat, 
What dread hand? & what dread feet? 

What the hammer? what the chain? 
In what furnace was thy brain? 
What the anvil? what dread grasp 
Dare its deadly terrors clasp? 

When the stars threw down their spears, 
And watered heaven with their tears, 
Did he smile his work to see? 
Did he who made the Lamb make thee? 

Tyger! Tyger! burning bright 
In the forests of the night, 
What immortal hand or eye 
Dare frame thy fearful symmetry? 

1794


[1] Blake, Canções da Inocência e da Experiência, pg 101. Há várias outras traduções importantes de The Tyger, como as de José Paulo Paes, Augusto de Campos, Paulo Vizioli e mais recentemente de Alberto Marsicano.

[2] Smith, The Modern Relevance of Gnosticism, em Robinson, The Nag Hammadi Library, pg. 535.

[3] Bloom, Poesia e Repressão – O Revisionismo de Blake a Stevens, pg. 54.

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William Blake em Santa Maria, RS

Participo do 2º Seminário Brasileiro de Estudos Blakeanos em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Iniciativa da Universidade Federal de Santa Maria. Coordenado por Enéias Tavares. Todo o apoio à iniciativa: que seja divulgada e imitada. Dou palestra às 10 da manhã do dia 25, no Teatro Caixa Preta. Meu problema não é falta de assunto. Estou tentando transformar dezenas de laudas de anotações em algo com dimensões adequadas para uma palestra.

A seguir, programação. Será ocasião para aprender mais sobre Blake e temas correlatos:

UFSM – CAL 50 Anos 
2º Seminário Brasileiro de Estudos Blakeanos

24 de Outubro – Teatro Treze de Maio
20h30 “O Matrimônio de Céu e Inferno”, baseado na obra de William Blake 

25 de Outubro – Teatro Caixa Preta – Centro de Artes e Letras/UFSM

09h30 Abertura

10h00 Conferência: William Blake e o anarquismo místico. Prof. Dr. Claudio Willer
Sinopse: A Idade Média foi marcada por rebeliões religiosas, algumas ainda insuficientemente estudadas. Uma delas é a dos Irmãos do Espírito Livre, designada por Norman Cohn, em The Pursuit of the Millenium, como “anarquismo místico”, por adotarem o amor livre e desprezarem bens materiais. Teve, como mostra Cohn, entre seus continuadores os Ranters do século XVII, dissidentes ativos durante as insurreições inglesas daquele período. É possível traçar uma linha, na diacronia, ligando Irmãos do Espírito Livre, Ranters, William Blake, Walt Whitman e poetas da Geração Beat. Em William Blake, encontramos a expressão mais substanciosa, de maior densidade, dessa rebelião trans-histórica.

15h00: Apresentações de iniciação científica

16h00:

Os Livros Iluminados de Blake e Artes da Cena – Prof.ª Dr.ª Renata de Felippe (UFSM)

Os casamentos de Blake – uma leitura derridiana da Placa 1 de O Casamento do Céu e do Inferno  – Prof. Dr. Alcides Cardoso dos Santos (UNESP)

Reescrevendo Visões da Eternidade – Prof.ª Dr.ª Juliana Steil (UFPEL)

17h00 Como Interpretar os Livros Iluminados de Blake? – Prof. Dr. Enéias Tavares (UFSM)

Alberto Marsicano – 31 de janeiro de 1952, 18 de agosto de 2013

Mais um que se foi. Soube há pouco, mas estava no hospital desde segunda-feira, desmaiado, com crise de asma.

Verbete dele na Wikipedia, já atualizado pela morte, dá bibliografia e discografia.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Marsicano

Levar uma vida livre – ‘experimental’, teria dito Roberto Piva – não o impediu de produzir copiosamente. Rimbaud por ele mesmo, em parceria com Daniel Fresnot, livro certo na editora errada. Preciso e informativo. Que seja reeditado. Usei em palestras e ensaios.

Traduções preciosas – sobre William Blake, recorria preferencialmente a seu O Casamento do Céu e do Inferno & outros escritos, L&PM Pocket. Os Keats (Iluminuras), Wordsworth e Shelley (Ateliê), em parceria com John Milton, dificílimas, precisas. O que fez sobre Bashô e haicais, luminoso. Reli recentemente, complementando traduzir os haicais de Kerouac.

Crônicas marsicanas (L&PM) mostra a verve como narrador. Combinou – fazia isso ao vivo – mirabolantes histórias reais, e invenções, frutos de sua imaginação fervilhante. Por exemplo, no episódio de São Luiz do Paraitinga, do qual participo, fundiu duas histórias: aconteceu tudo aquilo e mais, completado por um belíssimo fim de tarde com ele tocando cítara no alto de um morro; mas a leitura de Piva, também real, foi em outra ocasião, no SESC-Interlagos, com ele também tocando. Livro ainda tem belas passagens de prosa poética e reflexão filosófica.

Místico desregrado, adepto n’yngma, a loucura sagrada tibetana; e do candomblé / umbanda – espírito sincrético. Às vezes o via na Avenida Paulista, fones de ouvido, olhos fechados por trás dos óculos escuros, imerso em êxtase, inteiramente alheio ao que se passava ao redor – feliz.

Generoso. Comparecia, prestigiava amigos. Tocar cítara no Viva Piva, a foto circula na internet, foi uma das inumeráveis ocasiões. Quando fiz Artaud para a L&PM, presenteou-me com a edição norte-americana preparada por Susan Sontag, ajudou-me enormemente. Enquanto escrevia Um obscuro encanto, deu-me o livro sobre alquimia em Rimbaud de David Guerdon, Rimbaud, la clef alchimique; e me passou os arquivos em word da sua nova edição de Blake -pela L&PM, ainda no prelo. Sou-lhe devedor.

Trechos de Crônicas marsicanas que Elizabeth Lorenzotti postou em minha pg de Facebook:

“Num transatlântico espanhol, sob o olhar pasmo dos passageiros, arranquei as folhas de Paranoia (obra prima de Piva), coloquei cada uma delas numa garrafa (que arrumei na cozinha) e arrojei-as ao alto mar, proferindo a conjuração poética: ‘O pensamento profético de Piva singrará os Sete Mares’.”

“Estava numa gélida madrugada esperando o primeiro metro perto do Tamisa em Londres. Numa cena vitoriana, um vulto emerge entre o fog cambaleante me entrega um livro e esvai-se na névoa. Eram os ‘Selected Poems’ de Blake que posteriormente verteria ao português”

Entrevista:

http://klaxonsbc.com/2011/04/14/entrevista-alberto-marsicano/

Concerto registrado:

http://www.youtube.com/watch?v=E4mZZr0OsfE

Ele e a cítara – a sitar:

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.cronopios.com.br/site/images/iex/Junho%25202008/bloom16.jpg&imgrefurl=http://www.cronopios.com.br/site/printversion.asp?id%3D3339&h=319&w=425&sz=35&tbnid=xOLny1MNOzFKFM:&tbnh=98&tbnw=131&prev=/search%3Fq%3Dalberto%2Bmarsicano%26tbm%3Disch%26tbo%3Du&zoom=1&q=alberto+marsicano&usg=__sAgkZ8zpyc-mtvVBIkFxRFlDnSo=&docid=ss0k8EpI4Kk93M&sa=X&ei=HBwRUt_8EtSyygHV5IBA&sqi=2&ved=0CEEQ9QEwBA&dur=89

Religiões, igrejas e o sagrado

Disse que interromperia a série sobre poesia e ocultismo (retomarei) e publicaria aqui a Carta ao Papa de Antonin Artaud (publicarei).

Antes, o que outros poetas disseram sobre o tema.

William Blake:

Os poetas da Antigüidade animaram todos os objetos sensíveis com Deuses ou Gênios, nomeando-os e adornando-os com as propriedades dos bosques, lagos. cidades, nações e tudo o que seus dilatados sentidos podiam perceber.

Particularmente, estudaram o Gênio de cada cidade & país, colocando-o sob a égide de sua deidade mental.

Até que se formou um sistema, do qual alguns se aproveitaram e escravizaram o vulgo, interpretando e abstraindo as deidades mentais de seus respectivos objetos. Então surgiu o Clero;

Elegendo formas de culto dos mitos poéticos.

E proclamando, por fim, que assim haviam ordenado os Deuses.

Os homens então esqueceram que Todas as deidades residem em seus corações. (William Blake,  O Casamento do Céu e do Inferno e outros escritos, tradução e notas de Alberto Marsicano, L&PM)

Walt Whitman:

Em breve não existirão mais sacerdotes. O trabalho deles está feito. Eles podem esperar um pouco … talvez uma ou duas gerações … sumindo gradualmente. Uma raça superior deverá tomar o seu lugar … as gangues do kosmos e os profetas da massa tomarão seus lugares. Uma nova ordem deve surgir e eles devem ser os sacerdotes do homem e cada homem será seu próprio sacerdote. As igrejas erigidas sob suas sombras devem ser as igrejas dos homens e das mulheres. Através da sua própria divindade o kosmos e a nova raça de poetas devem ser os intérpretes dos homens e das mulheres e de todos os acontecimentos e coisas. (Walt Whitman, Folhas de relva, tradução e posfácio de Rodrigo Garcia Lopes, Iluminuras)

“A nova raça de poetas”: Whitman antecipou os beats? Ou eles fundamentaram suas tomadas de posição nas mensagens do bardo norte-americano? Não foram os únicos: Whitman maravilhou autores tão diversos quanto T. S. Eliot, Fernando Pessoa, García Lorca, Jorge Luis Borges.

O qie importa: para Blake, Whitman e outros cultores de religiões pessoais, as igrejas organizadas não possibilitam o acesso ao sagrado, porém o seqüestram ao institucionalizá-lo e monopolizá-lo, impondo dogmas e a obediência à hierarquia clerical.

Deu nisso que estamos presenciando.

Folhas de relva me dá a impressão de ser uma original hipérbole do “Tudo o que vive é sagrado” de Blake. Teria Whitman lido Blake? Ginsberg achava que sim – o grupo dos transcendentalistas, Emerson, Thoreau, Alcott, interlocutores de Whitman, conhecia Blake, diz ele. Mais importante, penso, foi conhecerem textos dos místicos neo-platônicos que inspiraram Blake e Whitman.

Para completar, de um filósofo do Romantismo, Friedrich Schegel: “Apenas aquele que tem uma religião de si mesmo e uma concepção original do infinito pode ser um artista.”.

Aproveitei trechos do meu Os rebeldes: Geração beat e anarquismo místico, ainda inédito, que deve sair este ano (tenho a impressão de finalmente haver conseguido escrever um ensaio bom…).

Mais William Blake

Dando seqüência à postagem anterior, pincei esta citação de meu Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna:

Não sei de nenhuma outra Cristandade e de nenhum outro Evangelho a não ser a liberdade de ambos, corpo & mente, para exercer as Divinas Artes da Imaginação, Imaginação, o Mundo real & eterno do qual este Universo Vegetal não passa de uma sombra fugidia, & no qual viveremos em nossos Corpos Eternos ou Imaginativos quando estes Corpos Mortais Vegetais não mais existirem. Os Apóstolos não conheciam nenhum outro Evangelho.

Bonito, não é? Transpira sinceridade. É de Jerusalém, dos últimos livros de Blake, de 1820 (ele morreria em 1827, aos 70 anos), publicado postumamente. Está no Blake completo, a edição Keynes, à pg. 716.

Mais uma citação – esta é de de Novalis, contemporâneo de Blake, também muito romântico, muito místico, muito religioso:

Mas o verdadeiro poeta sempre permaneceu um sacerdote, assim como o verdadeiro sacerdote sempre permaneceu um poeta – e não deveria o futuro nos trazer de volta esse antigo estado de coisas? […] No mundo antigo, religião já era até um certo ponto o que se tornará para nós – poesia prática.

É dos escritos filosóficos, os fragmentos de Novalis.

Não adiantaria panfletar, distribuir cópias às portas dos templos nos quais candidatos tentam contabilizar apoios – este tem a Universal, aquele a Mundial, aquele outro a Renascer e alguns padres…  –  para mostrar que a relação deles com religião é a mesma da subliteratura com a literatura. Mas seria uma boa intervenção anarquista.

Para enriquecer as entradas (tags) ‘rebelião religiosa’ e ‘anarquismo místico’, o poema de Ginsberg, “Kral Mahales”, cuja tradução já havia postado aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Voltarei a falar – e a escrever – sobre tudo isso.

Whitman e Blake para fanáticos religiosos

(a exemplo de alguns que circulam no Facebook e tentam nos pressionar) (ah, sim – e daqueles que estão em plena campanha eleitoral, a todo vapor…)

Walt Whitman:

Em breve não existirão mais sacerdotes. O trabalho deles está feito. Eles podem esperar um pouco … talvez uma ou duas gerações … sumindo gradualmente. Uma raça superior deverá tomar o seu lugar … as gangues do kosmos e os profetas da massa tomarão seus lugares. Uma nova ordem deve surgir e eles devem ser os sacerdotes do homem e cada homem será seu próprio sacerdote. As igrejas erigidas sob suas sombras devem ser as igrejas dos homens e das mulheres. Através da sua própria divindade o kosmos e a nova raça de poetas devem ser os intérpretes dos homens e das mulheres e de todos os acontecimentos e coisas. (de Folhas de relva, tradução de Rodrigo Garcia Lopes, ed. Iluminuras)

William Blake:

Os poetas da Antigüidade animaram todos os objetos sensíveis com Deuses ou Gênios, nomeando-os e adornando-os com as propriedades dos bosques, lagos. cidades, nações e tudo o que seus dilatados sentidos podiam perceber.

Particularmente, estudaram o Gênio de cada cidade & país, colocando-o sob a égide de sua deidade mental.

Até que se formou um sistema, do qual alguns se aproveitaram e escravizaram o vulgo, interpretando e abstraindo as deidades mentais de seus respectivos objetos. Então surgiu o Clero;

Elegendo formas de culto dos mitos poéticos.

E proclamando, por fim, que assim haviam ordenado os Deuses.

Os homens então esqueceram que Todas as deidades residem em seus corações. (de O casamento do Céu e do Inferno, ed. L&PM, tradução de Alberto Marsicano, )

Houve continuidade de Blake a Whitman? O bardo norte-americano leu o profeta inglês? Sim. E há continuidade das rebeliões religiosas medievais, os “anarquismos míticos” (o termo é de Norman Cohn) a Blake, e, é claro, de Blake e Whitman aos beats.