Em tempo – postado a 27/05: pedi a participantes de oficinas e cursos que enviassem relatos de acaso objetivo – estão nos comentários. Quero mais.
Da entrevista que o poeta e estudioso Chiu Yi Chih está fazendo comigo para a revista eletrônica Zunaí, resolvi destacar este trecho (vai dar uma entrevista especialmente substanciosa, Chiu me leu bem e há perguntas que são ensaios):
14) Você conta experiências de “acaso objetivo” reportando-se às suas vivências e leituras no seu maravilhoso livro Volta, e de fato aconteceu comigo quando estava fazendo sua oficina em 2008. Você nos indicava várias leituras, dentre as quais, Nadja de André Breton, e logo depois eu vi três vezes esse nome Nadja em intervalos muito próximos: o primeiro num pára-brisa de caminhão quando estava numa estrada indo da minha casa para o centro de Embu das Artes, o segundo numa placa de sinalização na periferia do Embu e o terceiro numa loja de roupa aqui em São Paulo. São esses acontecimentos de sincronicidade onde as fronteiras do sonho e da realidade se comunicam que despertavam a imaginação dos poetas surrealistas como André Breton. Quando estamos em processo de criação, é como se abrisse uma brecha na realidade. Gostaria que falasse sobre essa ruptura dos limites no seu processo de escrita.
(falarei….)
(em tempo - acrescentei depois) – aquele episódio matricial de acaso objetivo, já relatado em várias entrevistas, a mais recente em Os dentes da memória – transcrevo do meu ensaio sobre acaso objetivo em O Surrealismo, ed. Perspectiva:
“O episódio é relatado por Roberto Piva no vídeo Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti: a 26 de setembro de 1966, por volta das 16 h, Piva e Roberto Bicelli caminhavam pela Avenida Rio Branco no trecho final, próximo ao viaduto sobre os trilhos, em São Paulo. Viram passar a toda velocidade um caminhão carregado de móveis e utensílios, encimados por um armário cuja porta, impelida pelo sacolejar do veículo, abria e fechava, batendo com força. Do móvel saía, esvoaçando, conduzido pelo vento, um longo lençol branco. Apontando para o conjunto insólito, Bicelli exclamou: É o fantasma de André Breton! Nem Bicelli, ao identificar desse modo a sacolejante mudança ao surrealismo, nem Piva, lembraram-se, na hora, desta frase meio solta no primeiro Manifesto do Surrealismo, em um parágrafo intitulado “Contra a morte”: “Não vos esqueçais de formular adequadamente vossas disposições testamentárias: eu, por exemplo, peço que me transportem ao cemitério num caminhão de mudança”.[ No dia seguinte, leram nos jornais a notícia do falecimento de Breton naquela data e hora, às 16 h. de 26 de setembro de 1966. O acaso objetivo assim prestava uma oblíqua homenagem ao seu formulador.
[1] Produção da SP Filmes disponível em vídeo, exibido na TV Cultura de São Paulo e TV Educativa.
[2] André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Jorge Forbes, prefácio de Claudio Willer, Editora Brasiliense, 1985; ou André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Sérgio Pachá, Nau editora, Rio de Janeiro, 2001; esta, mais completa, segue André Breton – Manifestes du Surréalisme, Jean Jacques Pauvert éditeur, Paris, 1962, incluindo a Lettre aux Voyantes e Poisson Soluble, ausentes das edições Gallimard e Brasiliense.