Acaso objetivo

Em tempo – postado a 27/05: pedi a participantes de oficinas e cursos que enviassem relatos de acaso objetivo – estão nos comentários. Quero mais.

Da entrevista que o poeta e estudioso Chiu Yi Chih está fazendo comigo para a revista eletrônica Zunaí, resolvi destacar este trecho (vai dar uma entrevista especialmente substanciosa, Chiu me leu bem e há perguntas que são ensaios):

14) Você conta experiências de “acaso objetivo” reportando-se às suas vivências e leituras no seu maravilhoso livro Volta, e de fato aconteceu comigo quando estava fazendo sua oficina em 2008. Você nos indicava várias leituras, dentre as quais, Nadja de André Breton, e logo depois eu vi três vezes esse nome Nadja em intervalos muito próximos: o primeiro num pára-brisa de caminhão quando estava numa estrada indo da minha casa para o centro de Embu das Artes, o segundo numa placa de sinalização na periferia do Embu e o terceiro numa loja de roupa aqui em São Paulo. São esses acontecimentos de sincronicidade onde as fronteiras do sonho e da realidade se comunicam que despertavam a imaginação dos poetas surrealistas como André Breton. Quando estamos em processo de criação, é como se abrisse uma brecha na realidade. Gostaria que falasse sobre essa ruptura dos limites no seu processo de escrita.

(falarei….)

(em tempo - acrescentei depois) – aquele episódio matricial de acaso objetivo, já relatado em várias entrevistas, a mais recente em Os dentes da memória – transcrevo do meu ensaio sobre acaso objetivo em O Surrealismo, ed. Perspectiva:

“O episódio é relatado por Roberto Piva no vídeo Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti: a 26 de setembro de 1966, por volta das 16 h, Piva e Roberto Bicelli caminhavam pela Avenida Rio Branco no trecho final, próximo ao viaduto sobre os trilhos, em São Paulo. Viram passar a toda velocidade um caminhão carregado de móveis e utensílios, encimados por um armário cuja porta, impelida pelo sacolejar do veículo, abria e fechava, batendo com força. Do móvel saía, esvoaçando, conduzido pelo vento, um longo lençol branco. Apontando para o conjunto insólito, Bicelli exclamou: É o fantasma de André Breton! Nem Bicelli, ao identificar desse modo a sacolejante mudança ao surrealismo, nem Piva, lembraram-se, na hora, desta frase meio solta no primeiro Manifesto do Surrealismo, em um parágrafo intitulado “Contra a morte”: “Não vos esqueçais de formular adequadamente vossas disposições testamentárias: eu, por exemplo, peço que me transportem ao cemitério num caminhão de mudança”.[ No dia seguinte, leram nos jornais a notícia do falecimento de Breton naquela data e hora, às 16 h. de 26 de setembro de 1966. O acaso objetivo assim prestava uma oblíqua homenagem ao seu formulador.


[1] Produção da SP Filmes disponível em vídeo, exibido na TV Cultura de São Paulo e TV Educativa.

[2] André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Jorge Forbes, prefácio de Claudio Willer, Editora Brasiliense, 1985; ou André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Sérgio Pachá, Nau editora, Rio de Janeiro, 2001; esta, mais completa, segue André Breton – Manifestes du Surréalisme, Jean Jacques Pauvert éditeur, Paris, 1962, incluindo a Lettre aux Voyantes e Poisson Soluble, ausentes das edições Gallimard e Brasiliense.

Ainda o código florestal

A presidenta Dilma vetará, espera-se, vários artigos do que a Câmara aprovou. Sairão anistia a desmatadores e redução de proteção em margens de rios.

A mobilização em favor do veto é positiva. Dos tópicos que reproduzi em postagem anterior, merece especial interesse a lista dos deputados e seus votos: que sejam indigitados, permanentemente lembrados. Talvez venham a entender que não podem votar desse jeito, desrespeitando a opinião pública e, principalmente, os interesses da nação.

Espantosos os argumentos em favor da versão do Código aprovada na Câmara: em um fórum de debates, um líder ruralista afirmou que flexibilidade da legislação ambiental permitia que houvesse comida barata no Brasil. Cara de pau. Em primeiro lugar, comida no Brasil é cara. Preços atuais equivalem aos de países europeus e dos Estados Unidos. E a devastação gera um custo, uma conta que todos nós pagamos – inclusive pela redução de colheitas, encarecendo produtos. Querem baratear comida? Então, promovam a redução de desperdícios – aqui, por exemplo, 40% do volume de grãos se perde entre a colheita e o destino final.

Acabamos, porém, mesmo com essa mobilização toda, nos contentando com o menos ruim, menos desastroso. A presidenta deveria vetar tudo e reabrir o debate. Convém reler pareceres de especialistas, ainda relativos ao que havia sido aprovado no Senado, expostos em http://www.ecodebate.com.br/2012/02/29/codigo-florestal-projeto-reduz-protecao-ao-meio-ambiente-dizem-pesquisadores/. Em especial, a questão da proteção aos mangues e áreas alagadas. Proteção à vida marinha em geral deveria ser ampliada. Décadas atrás, comer lagosta no Recife ou em Fortaleza era lanche, mesmo preço de carne – hoje, não tem mais – e logo acabarão com o beijupirá e os outros bons peixes regionais.

Política de geração de energia também é anacrônica. Hipócrita, a propaganda das construtoras de usinas veiculada na televisão. Programa de redução do desperdício, somado a algum investimento em fontes renováveis, bastaria.

Enfim, falta muito para que viajar pelo Brasil deixe de ser deprimente para quem viu como era. Norte de Mato Grosso, Norte de Goiás, Sul do Pará – antes, voar até Belém era apreciar aquela extensão verde, hoje não tem mais nada, tudo foi derrubado. Esse não é o preço do progresso, porém da irresponsabilidade. Herança do regime militar, que os governos civis não souberam ou não quiseram reverter.

Voltarei ao assunto.

Veta Dilma, 2

Transcrevo trecho de manifesto de todos os ex-ministros do Meio Ambiente, publicado no jornal Folha de São Paulo de hoje, 22 de maio. Íntegra disponível também em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509724-apelo-publico-dos-ex-ministros e outras páginas de internet. Assim dou continuidade ao que havia postado aqui, em http://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/28/veta-dilma-veta/ .

Dos abaixo-assinados pelo veto, o mais efetivo me parece ser o da AVAAZ – http://www.avaaz.org/po/brasil_veta_dilma/?vl – deve ser o que atingiu 2 milhões de assinaturas. Essa organização já havia contribuído para aprovação da Ficha Limpa. Outros canais de manifestação – Greepeace, WWF, etc – também na minha postagem anterior.

Declaram os ex-ministros:

[...]

“Em nome do fórum de ex-ministros, solicitamos que a presidente, em coerência com o seu compromisso e com os anseios da sociedade, vete integralmente toda e qualquer norma de caráter permanente ou transitório que:

- Sinalize ao país a possibilidade presente e futura de anistia;

- Permita a impunidade em relação ao desmatamento;

- Descaracterize a definição de florestas, que está consagrada na legislação vigente;

- Reduza direta ou indiretamente a proteção do capital natural associado às florestas;

- Fragilize os serviços prestados por elas;

- Dificulte, esvazie ou desestimule mecanismos para a restauração;

- Ou, ainda, fragilize a governança socioambiental.

Ao mesmo tempo, nós entendemos que continua necessário construir um quadro de referência normativo estratégico, alinhado com os desafios contemporâneos, de modo a valorizar o conjunto de nossas florestas.

O manifesto vem assinado por: CARLOS MINC, 60, ministro entre 2008 e 2010 (governo Lula); MARINA SILVA, 54, ministra entre 2003 e 2008 (Lula); JOSÉ CARLOS CARVALHO, 59, ministro em 2002 (FHC); JOSÉ SARNEY FILHO, 54, ministro de 1999 a 2002 (FHC); GUSTAVO KRAUSE, 65, ministro de 1995 a 1998 (FHC); HENRIQUE BRANDÃO CAVALCANTI, 83, ministro em 1994 (governo Itamar Franco); RUBENS RICUPERO, 75, ministro entre 1993 e 1994 (governo Itamar); FERNANDO COUTINHO JORGE, 72, ministro entre 1992 e 1993 (governo Itamar); JOSÉ GOLDEMBERG, 83, secretário do Meio Ambiente em 1992 (governo Collor); PAULO NOGUEIRA NETO, 90, foi secretário especial do Meio Ambiente entre 1973 e 1985 (governos Médici, Geisel e Figueiredo).

Homenagem a Roberto Piva em Santa Cecília

Dia 26 de Maio de 2012 às 17 h, para celebrar o encerramento do projeto Coletiva Santa Cecília, Santa Insone, haverá homenagem a Roberto Piva. Será a pré inauguração de uma rua na Santa Cecília com seu nome, localizada na Saída do Terminal Amaral Gurgel, entre as ruas Helvétia e Ana Cintra.

Proposta pela Associação Santa Cecília Viva, decretada em 2011, essa rua ainda não possui a placa com seu nome. Celebrantes anunciam um cortejo de maracatu do Grupo Coro de Carcarás e intervenções com artistas do bairro.

Local: A concentração ocorrerá as 17hs em frente a Igreja Santa Cecília e o cortejo caminhará pela Rua Roberto Piva, e outras ruas do bairro.

Organizadora Mariana Bonarde esclarece, em msg no Facebook: “Oi Willer, nossa ocupação artística na Rua Roberto Piva vem a ser uma homenagem ao poeta que faz uma contribuição póstuma a nossa exposição coletiva, por isso a proposta é fazer uma Pré-Inauguração!”

Irei.

Mais informações em http://santaceciliasantainsone.blogspot.com.br/2012/05/poeta-roberto-piva.html

Crises

Em A jangada de pedra, narrativa de 1986, José Saramago relatava a separação da Península Ibérica do restante da Europa. Convertida em nau, saia Oceano Atlântico afora.

O livro ilustrava suas críticas ao ingresso de Portugal na União Europeia. Quem diria, duas décadas atrás, que tinha razão? Que antecipava o desastre agora em curso? Até há pouco, Portugal parecia florescer, como resultado da entrada na zona do euro.

Saramago não chega a ser santo da minha devoção. De Memorial do convento até Ensaio sobre a cegueira, traduziu em um estilo refinado, com um texto impecável, parábolas óbvias, expressando uma visão tradicionalista da política. Na dualidade Saramago – Lobo Antunes, minha preferência sempre foi para o autor de Os cus de Judas, criador em uma transgressiva prosa poética. Isso, apesar das tomadas de posição equivocadas em suas invariáveis polêmicas com Saramago – por exemplo, na questão da lusofonia: enquanto Saramago defendia a aproximação dos povos de língua portuguesa, Lobo Antunes foi contra e chegou a sustentar o absurdo argumento de que isso era recaída no colonialismo português.

Pobre mundo esse, que se ajusta às evidentes metáforas de Saramago. Ainda bem que, salvando minha inclinação anarquista, em 1970 Allen Ginsberg já advertia sobre as consequências da economia ser conduzida pela especulação financeira – isso, entre outras antecipações de temas contemporâneos, como já observei aqui, em http://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/

Completo com algumas teses de economia política willeriana:

  1. Se houver união comercial, alfandegária, monetária, de nações, algumas com a economia mais forte, outras mais fracas, em um primeiro momento as  economias mais fracas se expandirão e haverá euforia; mas, em um segundo   momento, enfrentarão uma crise. Foi o que aconteceu com o México no âmbito da NAFTA; é o que está havendo com Grécia, Portugal e Espanha dentro da União Europeia.
  2. Aumento da desigualdade destrói nações. Decadência do Império Romano, mostram historiadores, foi acompanhada pelo aumento da desigualdade social. A presente crise econômica norte-americana é marcada pela piora na   distribuição da renda. Penso que a má distribuição, com a transferência de      recursos de uns para outros através da legislação fiscal e da especulação      financeira, é causa, e não consequência do que está acontecendo na Europa. Brasil salvou-se (por enquanto) da crise da vez por haver bancado programas sociais e aumentado o salário mínimo acima da inflação.
  3. Burocracia mata. Decadência do Império Romano foi provocada, entre outros fatores, pela burocratização. O historiador Hans Jonas observou que a vitória dos gregos diante dos persas, nas guerras do século V a.C. e, depois, com Alexandre, foram facilitadas pela burocratização do império persa. Burocratização, notoriamente,  provocou o fim da União Soviética e regimes da esfera do “socialismo  real”. Deverá prejudicar crescimento brasileiro. Corporações privadas não são inocentes, é claro, mas burocracia e corrupção caminham de mãos dadas. A propósito, ótima iniciativa essa nova lei de acesso á informação – agora, é preciso que a sociedade passe a utilizá-la; e que alguém entre com ação no Supremo para o Senado explicar porque entende que essa lei não se aplica lá.

Haverá mais. A realidade continuará a nos oferecer ensinamentos.

São Paulo Surrealista prossegue em cartaz

Que beleza. São Paulo Surrealista, o espetáculo encabeçado por Marcelo Marcus Fonseca e Liz Reis, e que tem minha colaboração, foi prorrogado e fica em cartaz por mais um mês, até o dia 23 de junho. E às sextas-feiras passou de 21:30 a 21 h – achei bom. Tem tido sessões lotadas, antecipadamente vendidas. Surrealismo e inventividade despertam interesse. Quem ainda não viu, vá ver. A seguir, reproduzo ficha técnica e release.

Espetáculo: São Paulo Surrealista

Com: Cia. Teatro do Incêndio

Roteiro e direção geral: Marcelo Marcus Fonseca

Consultoria teórica e voz em off: Claudio Willer

Co-direção e figurinos: Liz Reis

Elenco: Liz Reis, Marcelo Marcus Fonseca, João Sant’Ana, Wanderley Martins, Sérgio Ricardo, David Guimarães, Giulia Lancellotti, Talita Righini, Sonia Molfi e outros.

Direção musical: Wanderley Martins

Iluminação: Rodrigo Alves

Fotografia: Bob Sousa

Composições originais: Marcelo Marcus Fonseca e Wanderley Martins

Produção e realização: Cia. Teatro do Incêndio

Apoio: Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo

Serviço

Local: Madame (antiga Madame Satã) – www.madameclub.com.br Endereço: Rua Conselheiro Ramalho, 873 – Bela Vista/SP – Tel: (11) 2592-4474 Temporada: sexta e sábado às 21 horas – Até 23/06/12 Ingressos: R$ 30,00 (meia: R$ 15,00), o ingresso dá direito à balada após apresentação. Bilheteria: 1h antes da sessão – Aceita cartões de crédito/débito (V, MC e AE). Reservas: 2347 1055  e  9628 1772 – Gênero: Surrealismo – Duração: 70 min – Classificação etária: 18 anos – Capacidade: 200 lugares – Ar condicionado Acesso universal – Estacionamento c/ manobrista (R. Cons. Ramaalho, 853): R$ 20,00.

A Cia. Teatro do Incêndio apresenta seu novo espetáculo São Paulo Surrealista, ritual teatral dirigido por Marcelo Marcus Fonseca. Com dia 2 de março (sexta-feira, às 21h30), a montagem inaugura a programação teatral da casa noturna Madame (antiga Madame Satã que reabriu suas portas totalmente reformada e sob nova direção).

Este novo projeto da companhia, contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, é uma ode à cidade e seus personagens, confrontando – em um jogo de imagens sobrepostas – as contradições e fantasias da metrópole. Em São Paulo Surrealista o público confere o resultado da primeira fase desta pesquisa do Teatro do Incêndio.

Claudio Willer – escritor e poeta, cujos vínculos literários são com a criação mais rebelde e transgressiva, como aquela representada pelo surrealismo e geração beat – foi consultor da companhia para esse projeto. Willer também fará participação especial na estreia do espetáculo.

O espetáculo não conta, necessariamente, uma história. Para revelar a cidade real, nada é realista. Os textos são colagens emolduradas por imagens e figuras da metrópole, sejam elas reais ou distorcidas, tendo na música ao vivo um elemento essencial para traduzir sua pulsação. “Esta montagem propõe também que o público perceba a cidade pelos olhos de André Breton, um dos criadores do surrealismo, em um jogo que ressalta pontos turísticos, monumentos, terreiros, restaurantes e bordeis paulistanos”, explica o diretor Marcelo Marcus Fonseca. Mário de Andrade, Roberto Piva, Pagu, nativos, cidadãos comuns, ninfas e animais recebem o surrealista André Breton, observado por Antonin Artaud (dramaturgo francês, surrealista), para um mergulho na capital paulista, percorrendo Os Nove Círculos do Inferno de Dante Alighieri. Em cena, 25 atores em uma celebração musical da cidade com alusões ao cinema de Pier Paolo Pasolini e Frederico Fellini e textos escritos durante o processo pelo próprio grupo, com base na escrita automática característica do Surrealismo. Todas as canções foram compostas por Marcelo Fonseca e Wanderley Martins especialmente para o espetáculo, algumas delas “em parceria” com Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire. São Paulo Surrealista é um espetáculo que interage com o público, questionando a existência pela natureza histórica, política, sensual e caleidoscópica de uma cidade anárquica num delicado equilíbrio de contrários. O público é recebido com uma taça de vinho (quem quiser beber outras terá que comprá-las) e também pode degustar o absinto, mas oferecido pelos atores em conta gotas. O espetáculo ainda propicia a experiência surreal de ver uma escola de samba tocando peça de Heitor Villa-Lobos.

Minha poesia por Martin Palacio Gamboa

Foi postado no Facebook um trecho de Martin Palacio Gamboa, crítico uruguaio, pesquisador, estudioso de poesia brasileira, sobre minha poesia. Faz parte de Los trazos de Pandora, série sobre poetas contemproâneos brasileiros publicada em http://www.jornaldepoesia.jor.br/BHCAlivro08.pdf .

Copiei e reproduzo-o na íntegra. Nem preciso dizer sobre o que acho de ser lido desse modo.

Aí vai:

Algo que se destaca a primera vista en la poética de Claudio Willer es esa virginización de lo mirado -fuertemente deudora del surrealismo y el creacionismo- que nos retrotrae a una especie de estadio antes del asombro. Podríamos ser más precisos y decir que en este autor hay una gramática que busca acceder al verbo primero en cuanto lleva implícita una trayectoria y una voluntad axial que es la de ser la recuperación del paraíso y, en su manifestación alfabetaria, interrumpir la caída del hombre, restituyéndolo a su condición de ser elegido. Evidentemente, estamos frente a una dimensión mesiánica -a la vez que dionisíaca- de la escritura. Recordemos la apuesta de Huidobro cuando el mismo afirma que “el poeta conoce el eco de los llamados de las cosas a las palabras, ve los lazos sutiles que se tienden las cosas entre sí, oye las voces secretas que se lanzan unas a otras palabras separadas por distancias inconmensurables [...] Toda poesía válida tiende al último límite de la imaginación. Y no sólo de la imaginación, sino del espíritu mismo porque la poesía no es otra cosa que el último horizonte, que es a su vez la arista en donde los extremos se tocan, en donde se confunden los llamados contrarios. Al llegar a ese lindero final, el encadenamiento habitual de los fenómenos rompe su lógica y al otro lado, en donde empiezan las tierras del poeta, la cadena se rehace en una lógica nueva”. Huidobro sugiere que el poeta -ese mago o pequeño dios- comparte una forma extrema de subjetividad para quien no puede existir un lugar preestablecido en donde colocar su epifanía. Le queda entonces definir, circunscribir en un conjunto de categorías propias del lenguaje, una delineación de ciertos puntos de fuga a partir de la inmanencia: palabras y fenómenos hacen parte de una misma esfera óntica. Claudio Willer lo sabe y lo comparte, y por eso nos revela que, a través del verbo, el texto encarna -noción sacramental- la presencia real de un ser significativo. Esta presencia real, como en un icono, como en la metáfora representada por el pan y el vino, es una singularidad en la cual el concepto y la forma constituyen un exceso de significación situada por sobre todos los elementos discretos del código. El pan y el vino de la misa son la carne y la sangre de Cristo y no son meros representantes, y esto quiere decir que en dicho acto la metáfora y la capacidad de representación tienen un punto de alcance y al mismo tiempo un exceso: contienen una presencia real, una esencia, algo que va más allá de la significación y que es operativo por sí mismo. Así, del mismo modo, somos habitados por la presencia real que subyace al escrito. De allí que, en el ritual de la palabra, el verso se convierta en acto. Pero en lo ritual la acción no es el punto más activo; lo activo es el sentido. Es una acción que no se presenta directamente sino que se presenta de forma hipostática: se re-presenta. Si el ritual es el espacio sagrado de la retórica, la acción convierte al sentido en acto, lo actualiza. Podemos parafrasear a Heidegger diciendo que la “poesía” o la “lengua”, es decir, la “palabra” entendida como “nombre”, cumple esa función delótica, a saber, “hacer patente” el ente, y esto entendido en el sentido estricto de que “el ente sea”, lo cual es perfectamente coherente, puesto que en términos fenomenológicos la “presencia” de algo, significa exactamente que ese algo es, significa su “ser”: el ente está presente o es apenas en cuanto es nombrado. Tal vez por eso mismo, en Claudio Willer la escritura no sólo se transforma en imagética de lo posible; también se transforma en gozo. Desde el momento mismo que lo poético radica en (y logra) ese punto de indiferenciación entre lo ideal y lo sensible, la consecución de esa especie de numinosidad estética es -para el autor- no tanto una realidad empírica, cuanto una exigencia de trascendencia realizada por la razón. Sin embargo, esta instancia propia de una percepción marcada por lo analógico, no es solamente propio de la poesía sino también de la magia. En Los hijos del limo, Octavio Paz indica que “lo específico de la magia consiste en concebir al universo como un todo en el que las partes están unidas por una corriente de secreta simpatía. El todo está animado y cada parte está en comunicación viviente con ese todo [...] De ahí que el objeto mágico sea siempre doble o triple y que alternativamente se cubra o desnude ante nuestros ojos, ofreciéndose como lo nunca visto y lo ya visto. Todo tiene afán de salir de sí mismo y transformarse en su próximo o en su contrario: esta silla puede convertirse en árbol, el árbol en pájaro, el pájaro en muchacha, la muchacha en grano de granada que picotea otro pájaro en el patio de un palacio persa”. Además, “el objeto mágico”, dice Paz, “abre ante nosotros su abismo relampagueante: nos invita a cambiar y a ser otros sin dejar de ser nosotros mismos”. De este modo, pues, magia y poesía, imagen poética y analogía se confunden, aspecto que el surrealismo consideró pertinente insistir y que, de manera consecuente, Claudio Willer no cesa de explorar en todas sus direcciones: lo que de por sí confiere un aspecto esotérico y gnóstico a la cosmovisión que la arquitextura de su trazo corporaliza y eclosiona, apología de la heterodoxia frente a las discursividades más ortodoxas de la tradición occidental. A medida que esa fulguración apalabrada define una transfiguración azarosa de lo inmediato, buscando por la introspectiva visionaria el encuentro con lo maravilloso, la existencia de sus puntos críticos en los que se contaminan mutua y celebratoriamente el caos y la transición nos muestra las múltiples posibilidades que encierra el negativo de este mundo nuestro de coordenadas terrestres/con su sordo murmullo de fuentes infinitas.

Tabagismo: sete argumentos

Apareceram no Facebook e adicionei à minha página estes versos de Fernando Pessoa / Álvaro de Campos:

“E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações”.

Bom pretexto para algumas observações sobre o tema:

  1. Proibir fumo em lugar fechado, banir a indecente propaganda de cigarros, mais recentemente banir os cigarros aromatizados, tudo isso está correto.
  2. Há, contudo, um limite entre a proteção do não fumante e a segregação ou discriminação do fumante. Por exemplo: por algum tempo, no aeroporto de Congonhas havia não só indicações de não fumar, mas de onde podia fumar – um lugar ao relento, é claro, para todo mundo ver os fumantes. Isso é segregação, e não mais proteção. Em outros lugares – públicos, principalmente – também há administradores mais realistas que o rei, mais antitabagistas que o antitabagismo.
  3. Proibir fumo em quartos de hotel é besteira – basta abrir a janela e jogar os tocos no lixo.
  4. Alguém precisa avisar a quem abana a mão diante do rosto quando passo por ele fumando que isso é falta de educação. Imaginem – às 7 da noite na Heitor Penteado na saída do metrô – o que ele está respirando já é muito pior, muito mais prejudicial que qualquer fumaça produzida por mim.
  5.  Poderia ser criado um personagem, o paranoico antitabagista. Seu modelo, Michael Bloomberg, o prefeito de Nova York, que pretende proibir fumar em calçadas e até nos domicílios. Proibir – já não deu certo com álcool, não está dando certo com ‘drogas’, querem repetir o erro com tabaco.
  6. Há um argumento de saúde pública, de que fumar acarreta custos pagos pela sociedade, defendida por gente qualificada, como o dr. Dráuzio, que se tornou falacioso, repousa em um erro lógico. Há inúmeros não fumantes, gente plenamente saudável, que teve câncer do pulmão e demais doenças atribuídas ao tabaco – e vice-versa, idosos saudáveis que fumam. E casos em que abstinência apenas adia algo mais custoso e doloroso. Tabagismo hoje é minoritário, da ordem de 15% – nessa faixa, probabilidade deixa de ser causalidade.
  7. Meu ideal olímpico de qualidade de vida: o fumante não dependente – conheço alguns. Queria ter com cigarro a mesma relação que com o chope de fim de semana – daqui a pouco vou tomar alguns. Pesquisem e chegaremos lá.

AVANÇOS TÊM QUE PERMANECER

Para registro mais amplo, publico meu artigo no último número do jornal O Escritor, da UBE. Mas recomendando a leitura do jornal todo – a página dupla de fotos de novos sócios com aparência feliz está ótima, entre outros conteúdos. E observando que, desde quando entreguei o artigo (há um mês), houve novidades. Uma, positiva: censura no Facebook parece ter refluído, diante da ameaça de um escândalo e um protesto mais vigoroso. Outra, grotesca: a suspensão da circulação da biografia de Lampião, sustentando que o cangaceiro era gay, sob alegação de ofensa à sua reputação. Sobre isso, ainda publicarei as devidas ironias.

Há 50 anos, aproximadamente, foi liberada a circulação nos Estados Unidos de Henry Miller, D. H. Lawrence e James Joyce, até então barrados por obscenidade.

Há pouco mais de 23 anos, no final de 1988, foi aprovada nossa Constituição, pela qual “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (art. 5º), sendo “vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (art. 220).

50 anos, 23 anos: isso é muito ou pouco tempo? Uma enormidade, uma considerável extensão no plano da biografia e da memória individual. Uma fração, mínimo lapso, nada, para os que reincidem e persistem em praticar a censura. Tais recaídas já foram comentadas por mim neste O Escritor, a propósito da censura judicial, impedindo a circulação de biografias, em uma prática energicamente repudiada em nosso recente Congresso de Escritores.

Por isso, venho repetindo que censores podem estar quietos, mas não dormem; que sempre há alguém tentando fazer que a censura retorne pela porta dos fundos.

Dois episódios recentes, já examinados em meu blog, http://claudiowiller.wordpress.com , corroboram e justificam minha preocupação. Um deles, a ação movida contra acepções do vocábulo “cigano” em dicionários. Conforme amplamente noticiado, o Ministério Público Federal entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia (MG) para tirar de circulação o dicionário Houaiss: segundo seus autores, conteria expressões “pejorativas e preconceituosas”, praticaria racismo contra os ciganos e não atendeu às recomendações de alterar o texto, como fizeram outras duas editoras com seus dicionários.

O policiamento do vocabulário tem um nome: expurgo. A grotesca censura a dicionários recebeu críticas de todo o lado. Ainda assim, não posso deixar de lamentar que as outras duas editoras, cujos dicionários também foram objeto desse patrulhamento, tivessem cedido e retirado as acepções tidas como pejorativas. Covardes. Cúmplices da censura. Deveriam ter resistido. Assim, em alguma instância, um juiz ou tribunal bafejado pelo bom senso poria cobro ao absurdo, estabelecendo jurisprudência e inibindo a repetição dessa loucura.

Outro sintoma de recaída vem acontecendo na rede social, o Facebook, que emprega “moderadores de conteúdo” para retirar imagens e textos supostamente ofensivos. Como se não bastasse, ainda são enviadas advertências de violação dos “padrões da comunidade” do Facebook, além de bloqueios temporários das páginas de infratores.

Tais padrões supostamente comunitários da rede social não podem, é evidente, sobrepor-se à legislação brasileira. Impedir disseminação da violência, preconceito, ódio, é perfeitamente admissível. Mas, confirmando a regra de que toda censura é obtusa, houve interferência em páginas de usuários resultando na supressão de reproduções de obras dos surrealistas Paul Delvaux e Salvador Dali, entre outras: todas livremente expostas em museus e acessíveis através do Google e outras ferramentas de busca.

Por enquanto, usuários decidiram protestar, multiplicando a exibição e circulação de tais imagens, assim desorientando censores, inviabilizando seu trabalho. Outras medidas, inclusive judiciais, além de protestos públicos, serão tomadas. Nem que seja para mostrar que em nossa cultura o tempo é progressivo e irreversível; que avanços não retroagem – desde que estejamos dispostos a defendê-los.

Provincianismo e baixo populismo

Sobre esse recente cancelamento do polo de produção de cinema e do festival de Paulínia: provincianismo, demagogia e baixo populismo são males que afetam nossas administrações municipais. Normalmente, em estreita parceria com a corrupção, a ladroeira pura e simples. Por exemplo, esses shows em que, invariavelmente, há acerto entre administradores, que ficam com bastante troco, e empresários ou produtores do espetáculo.

A propósito, repito: Carpinejar fez muito bem em reclamar e dar escândalo no caso de Bento Gonçalves, devidamente apoiado pela Associação Gaúcha de Escritores. Onde já se viu, R$ 1.000,00 para cada escritor convidado, alegando pouca verba, e aquela nota alta, R$ 170.000,00, para um espetáculo musical..! (show de Gabriel o Pensador)

Temos discutido – e devemos discutir mais ainda – a gestão cultural federal (vou retornar a esse assunto), algumas estaduais e de algumas capitais. mas é preciso olhar os milhares de municípios que compõem o Brasil – boa parte, com administrações jogando dinheiro fora e uma consciência cultural nula, quando não negativa, como se vê em Paulínia. Principalmente, municípios beneficiados por royalties e outras fontes de arrecadação alta, e que desperdiçam dinheiro público em bobagens.

A propósito: quem quiser saber mais sobre Bento Gonçalves, em http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/04/23/cache-de-gabriel-pensador-em-evento-literario-gera-polemica-441654.asp

E quem quiser mais sobre Paulínia: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/04/23/cache-de-gabriel-pensador-em-evento-literario-gera-polemica-441654.asp

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