Archive for the ‘Artigos, Opniões e Provocações’ Category

Os índios brasileiros e as declarações do novo Ministro da Justiça

(índios Kalapalo fotografados por mim em 1967 no Parque do Xingu)

Estas declarações, de que “terra não enche barriga”, etc:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml?cmpid=compfb

Há um equívoco no modo como a questão vem sendo abordada por representantes do agronegócio e de toda sorte de invasores. Não se trata apenas de defender “terras”, porém os direitos de índios serem índios. Há um inestimável patrimônio simbólico, imaterial, em jogo. Já havia citado esta passagem de Octavio Paz, aqui, neste blog:

[…] é preciso defender as sociedades tradicionais se quisermos defender a diversidade. Todos vemos que isso é dificílimo, mas a outra possibilidade é sombria: uma derrocada geral da civilização, diante da qual o fim do mundo antigo, entre os séculos V e VII, teria sido apenas um modesto “ensaio geral” do desastre. Dessa perspectiva, a preservação da pluralidade e das diferenças dos grupos e indivíduos é uma defesa preventiva. A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro. A história havia sido, até agora, plural: diversas visões do homem, cada qual com uma visão distinta de seu passado e de seu futuro. Preservar essa diversidade é preservar a pluralidade de futuros, isto é, a vida mesma.

É claro que observações dessa ordem não sensibilizam aqueles que buscam revanche depois de haverem sido obrigados a devolver aos Pataxós as terras no entorno do monte Pascoal que haviam invadido em 1979; as dos Xavantes, da antiga Fazenda Liquigás ao lado do Parque do Xingu, também na década de 1970; que tiveram que desistir de acabar com os Yanomami (nota de rodapé: até onde sei, esse conspícuo Romero Jucá teve participação importante em um grande massacre desses índios por garimpeiros, em 1993); que, mais recentemente, viram o STF sancionar a criação da terra indígena Raposa Serra do Sol. Quem tem uma visão da sociedade como algo análogo à uniformidade de suas plantações de soja e pastagens continuará incapaz de associar diversidade ambiental e humana à riqueza, ou, ao menos, a um futuro menos desolador.

Uma apresentação de Piazzas de Roberto Piva e do meu Anotações para um Apocalipse

Escrita por José Paulo Vieira da Cunha, grande amigo nosso, extraordinário erudito (como podem ver pelo texto a seguir) e parceiro em vários episódios. Distribuído em folha solta para o lançamento dos dois livros – no Barroquinho na Galeria Metrópole, também teve uma banda musical, barril de 100 litros de vinho e uma quantidade de gente que me surpreendeu. Final de outubro de 1964. Transcrito agora por Guilherme Ziggy, como parte dos trabalhos de organização da Biblioteca Roberto Piva:

EM PROL DA NOVA METAMORFOSE

“Sob o sol ardente fundem-se as neves do Himalaia” (1964)

Tempos novos exigem obras novas. Mas o que querem os novos? Povoar naacàlicamente os céus de Inquanok? Ou derrubar as almênares do Qalaat-ul-Hamrâ? Ou ainda provar que o governador do Estado de São Paulo é pederasta? Talvez tudo isto e mais a deglutição da hidra do farisaísmo e filistinismo para vomitar o esplendor novo de sóis azuis e amarelos e mais os frágeis planetas dos tempos longínquos e imemoriais. É o que fazem, como novos, Roberto Piva e Claudio Jorge Willer, nos livros ora apresentados, de uma maneira belíssima, nos seus contatos com uma realidade superior mística e aceitável e uma realidade vizinha e cotidiana que não aceitam e que desejariam ver destruída ou relegada à categoria de ruína. Opondo-se categoricamente a uma realidade inaceitável, constroem, talvez num movimento compensatório, uma estratificação especial onde predominam os valores do por-vir. Isto, entretanto, não significa uma fuga ou uma evasão fundada em motivos psíquicos. É uma reação natural e a única válida na época natural. A literatura, digamos assim, do romantismo para cá, inserida no âmbito de uma sociedade industrial, onde prevalecem o útil, o eficiente, o técnico, o científico, vem passando por transformações tão desmesuradas que só as suas captações constituem, de per sí, uma introdução geral à essência da nossa época. Frente ao espectro do niilismo, porque verdadeiramente o niilismo é o grande devorador da nossa época, a literatura reage de maneiras as mais variadas. Não cabe enumerá-las “hic et nunc”, mas fica o registro do fato. Dentro deste contexto, que dizer de Roberto Piva e Claudio Jorge Willer? Suas obras enquadram-se na situação apenas esboçada acima? Sem dúvida alguma, o que não quer dizer que suas obras sejam de transição, mas sim construções acabadas e destinadas a placentar a nova geração. Pedagógicas ou não, éticas ou não, são obras definitivas e válidas no contexto sempre mutável do momento que passa. Pelas suas obras perpassam o hálito de Nietzsche, Rimbaud, Desnos, Böehme, Lautréamont, Freud, Bosh, dos alquimistas, dos poetas loucos, enfim da imensa sucessão dos eternos ressuscitadores. Além do mais, como obras profundamente geracionais, os seus traços marcantes são um constante esforço de lucidez e conscientização da problemática da época atual, aliada a tomadas de contato com forças estranhíssimas, as quais, hoje sabemos, dirigem verdadeiramente os destinos da Arte. Há, ainda, nestas obras, conexões sutilíssimas para as quais chamamos a atenção. A tarefa de vislumbrar e captar tais conexões pertence por inteiro aos leitores realmente integrados na problemática da nossa época. Para resumir, nada melhor que citar uma frase de Heidegger, o pensador inquietante: “na comunicação e na luta, a força do destino comum liberta-se” (“Ser e Tempo”, pg. 397).

Roberto Piva, verdadeiro “cavaleiro do mundo delirante”, quer e exige a Metamorfose. Daí o seu grito, tanto mais lancinante quanto mais próximo está do núcleo de fogo das forças terríveis. Poeta de segundo livro, com seu “Paranóia” vivenciou o dito de Jean-Paul Richter: “os reinos terrificantes dos mundos em formação”, agora, com “Piazzas”, lança-se segundo suas próprias palavras, “numa contemplação além do bem e do mal” (“Post-fácio”). Claudio Jorge Willer, “entrepreneur et entreteneur des choses terribles”, clarividente de todas as horas, com seu “Anotações para um Apocalipse” arroja-se numa aventura irreversível: a de desafiar as potências demoníacas de que nos fala Blake, para que saiam a campo conduzindo o Himalaia, e o Hindu-Kush, e num supremo transporte de prazer, destruam o potencial larvar-impecilho ainda subsistente em nossas relações e possibilidades de comunicação. Ambos constituem uma ameaça terrível para a continuação dos tempos. Tomem nota. A sucessão endiabrada das insignificâncias do todo-o-dia tem neles os seus mais ferozes inimigos. Que se precavenha a Lei, porque em suas mãos transformar-se-á em Canto. A magia das coisas não ditas transforma-se no teoremas da incompatibilidades totais. Daí, ambos correm para o país das alucinações, e convidam-nos, com insistentes gestos de amizade, para a aventura histórica de abrirmos um significado maior no âmbito da existência plena. Acho que devemos aceitar o convite e o conteúdo das suas mensagens. Aqui estão eles, pois. Degluta-os os leitores. Amém.

JOSÉ PAULO VIEIRA DA CUNHA

O CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS E OUTROS TIPOS

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Após centenas de apresentações e participações, enxerguei uma tipologia:

  1. CONFERENCIATA DE COPO D’ÁGUA: Formal, protocolar (“sinto-me honrado” etc), fala pausadamente, mostra que sabe expressar-se, faz breve pausa para tomar três golinhos de água e prossegue – ainda hoje, em academias de letras e cenáculos afins.
  2. CONFERENCISTA POLÊMICO: Destrói o tema proposto em vez de expô-lo. Cognato do entrevistado polêmico, que vai questionando as perguntas que lhe são feitas em vez de respondê-las. Já encarnei. A última vez, setembro do ano passado, mesa sobre dadaísmo em Goiânia. Seria sobre “pós-história”, “pós-histórico”, algo assim, e minha simpatia por essa categoria é tão nula quanto pelo “pós-moderno” e “pós-modernidade”. Fui argumentando que dadá não é pós-histórico coisa nenhuma porque Tristan Tzara aderiu ao comunismo soviético, um determinismo histórico, relacionou dadá à Primeira Guerra Mundial e afirmou que surrealismo estava encerrado com o fim da Segunda Guerra Mundial (Breton foi à palestra dele de 1947 e deu um escândalo), etc. Na verdade, o tema era do meu companheiro de mesa, que o sustentou de modo adequado, e terminamos todos bem entendidos.
  3. CONFERENCISTA BALBUCIANTE, normalmente professor/a universitário/a ou aspirante a, hipnotizado pela tela do laptop, monocórdico, vai murmurando o que está na tela, entende-se com esforço. Variante do conferencista com a cara enfiada nas folhas do “paper”. Comum nos grandes eventos universitários em que apresentar qualquer coisa vale pontos no CAPES, prestigiados pela clientela dos certificados.
  4. CONFERENCISTA SALVADOR: nos mesmos eventos, brilhante, capaz de conferir credibilidade ao transmitir informação nessas ocasiões e através das subseqüentes publicações coletivas. Auditórios lotam e todos saem achando que compensou a viagem e o calor.
  5. CONFERENCISTA DERROTADO PELA TECNOLOGIA: aconteceu comigo no Festival Beat em São Paulo, em janeiro. Equipamento de data show do CCBB queimou. Palestra atrasou uma hora, improvisei sem as imagens selecionadas, ao final até que deu certo. Variante, o conferencista que esquece o pen drive em casa ou o perde na viagem – também já me aconteceu.
  6. CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS – encarnei no Festival Beat do Rio de Janeiro no CCBB, palestra sobre Jack Kerouac (dia 11 de fevereiro – a boa foto é de Thereza Christina Rocque da Motta). Calor e platéia muito informal (houve quem viesse sem camisa e quem esmurrasse a porta por não haver mais lugar no auditório). O dramaturgo Plinio Marcos fazia esse tipo, em eventos menos informais. Entre outros , por volta de 1985 na Biblioteca Mário de Andrade, em uma sessão promovida pela UBE sobre mercado editorial ou algo assim. Enquanto o outro participante da mesa, um presidente da Câmara Brasileira do Livro, expunha, cruzou as pernas e ficou mexendo no dedão do pé direito, tirando cutícula, acho. Ninguém reparou no que o presidente da CBL dizia, todos olhavam Plinio Marcos a ocupar-se com seu dedão. Antes, em sua fala, havia insultado o presidente da CBL – injuriado por não permitirem que vendesse seus livros, feito um camelô, na Bienal do Livro. Coordenei a sessão (outro tipo, o coordenador impassível). Inesquecível (tanto é que me lembro).

TONINHO MENDES, ANTONIO DE SOUZA MENDES, 1954-2017

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Não fazia idéia do que fosse colaborar em uma publicação que tirava 100.000 exemplares, com distribuição nacional, dirigida preferencialmente aos jovens. Percebi mais tarde, pelas pessoas que me disseram que seu interesse por Geração Beat e contracultura havia sido despertado por minhas matérias em Chiclete com Banana: Joca Reiners Terrón, que a comprava ainda em Cuiabá, o também criador de quadrinhos João Pinheiro, entre outros.

O restante daquela revista é uma efusão única de criatividade e anarquia. Celebração frenética da liberdade em um Brasil recém-redemocratizado, finalmente livre da censura. Uma farra. Além do parceiro e amigo de infância Angeli com todos os Bob Cuspe, Mara Tara, Skrotinhos e Rebordosa, de Laerte, Glauco, Luis Gê e outros renovadores do humor brasileiro, havia Roberto Piva e as crônicas incendiárias (estão no Volume 3 de Obras Reunidas), Glauco Mattoso e seus elogios da perversão, Cacá Rosset com umas invenções incríveis, a musa Cristiane Tricerri, Guto Lacaz e mais invenções, integrantes da côterie de Toninho como Furio Lonza e Souzalopes. Ponto alto da sua contribuição como editor e artista gráfico, Chiclete com Banana durou pouco. Sem anunciantes, sem patrocinador, não era auto-sustentável, apesar da circulação extensa e dos leitores.

Como não havia dinheiro, Toninho propôs que cada colaboração minha valesse um convite para jantar. Nas duas primeiras, escolhi o Cantábrico, à rua Homem de Melo nas Perdizes. Encantou-se com as ostras, mandou vir bandejas. Na terceira, o Vikings do Maksoud Plaza: não se entusiasmou com os acepipes escandinavos, provou todos aqueles defumados com indiferença. Mas comer, para ele, era algo muito sério, desde as pirâmides de tudo sobre o prato no Chá Moon, quando trabalhava na Isto É ao lado, até, recentemente, no Caçador da Heitor Penteado, próximo de onde moro e ele morava, na Rua Bica de Pedra, fundão da Vila Pompéia ou começo da Lapa – sempre preferiu a Zona Oeste, visitei-o muito na casa-ateliê na Barão de Bananal.

Seu descomedimento – bebeu um bocado, entre outras fruições – parecia um índice de vitalidade, que nunca baixou nem baixaria: nada fazia prever o infarto fulminante que o levou. Nas ocasiões recentes em que o encontrei, enfrentava a crise brasileira com firmeza, encarando toda sorte de trampos, de frilas – algumas vezes, passou correndo para pegar o ônibus na Heitor, sem me ver – enquanto preparava novos projetos. No meu aniversário, queria-o em um jantar, mas não foi possível, pois ficou até tarde cuidando de um estande na Comic.Com. Conversamos na véspera do Natal, sentados no banco diante da frutaria da Rua Paulistânia – como sempre, rememorando e rindo. Comentou como se sentia bem aos 62 anos. Jogamos no bicho, prática na qual, filho de um bicheiro, era exímio – chegou a livrar-se de uma enrascada apostando o número de um prontuário policial e assim arrecadando a quantia de que precisava. Falou-me dos projetos: reedição e exposição da Confissão sobre o Tietê, novas mostras e coletâneas de suas realizações pela Circo Editorial, Peixe Grande e outras iniciativas. Consta-me que seu acervo está organizado. Se estivesse em órgão público ou instituição cultural forte, providenciava já uma mostra do que deixou. Tanta coisa, a série do Visconde da Casa Verde pela L&PM, as edições recentes recuperando o pornô e obsceno brasileiro.

Conheci-o através de Roberto Piva (de quem mais poderia ser?) em 1977 – apresentou-o em uma das leituras de poesia no calçadão da Itapetininga. Piva também o incentivou a ler e criar poesia, e prefaciou a Confissão sobre o Tietê. Poderia tê-lo conhecido na mesma época através de outro grande amigo, Marcos Faerman. Não obstante a forma como se desligou do jornal Versus, mais uma de suas criações gráficas – tirou a roupa, subiu peladão na mesa da reuniões para discursar contra a vinculação daquele jornal a uma corrente política –, continuaram amigos próximos, encontrando-se regularmente (acontecimentos subsequentes lhe dariam razão). Impressionava em Toninho esse modo de expressar opiniões e avaliações, de aprovação ou desaprovação, com absoluta clareza, sem meias medidas.

Provinha da Casa Verde. Fazia questão de apresentar-se como alguém da periferia. Da sua turma juvenil fizeram parte Angeli, outros cartunistas se não me falha (Glauco? Laerte?) e amigos que o acompanharam por toda a vida. Foi capaz de dialogar e relacionar-se igualmente com a marginalidade, o mundo alternativo e figuras da alta cultura e do empresariado. Convencia a todos pela honestidade.

Foi meu hóspede por alguns meses em 1980. Diagramava na Isto É, após o expediente ainda passava por outros lugares, mas conseguia chegar à Peixoto Gomide. Nós dois naquela revista, recortando e colando uma a uma as tiras de papel couchê – era assim que se fazia – dos poemas de Jardins da Provocação, para que ficassem na disposição gráfica do original. Adaptou-se bem, contudo, às mediações digitais. Sempre esteve à disposição, fez todos os panfletos e jornais de campanha de que precisei. Fiel aos amigos – como se empenhou pela recuperação do projeto gráfico original de Paranóia de Piva e Wesley Duke Lee, resultando na edição do Instituto Moreira Salles em 2000, por iniciativa de outro amigo, Antonio Fernando de Franceschi.

De todos os velórios a que compareci, este de hoje foi quando fiquei com a voz mais embargada, ao dizer algo para a filha e amigos. A expectativa de novas alegrias substituída pela sensação de um irreparável nunca mais.

 

Michele Morgan, Jean Grémillon, Jacques Prévert, surrealismo e cinema

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Aqui, Michèle Morgan, que acaba de falecer aos 96 anos, junto com Jean Gabin em ‘Remorques’ de Jean Grémillon, de 1941. Quando me chamarem para dar palestra sobre surrealismo e cinema, tratarei deste belo filme. Roteiro de Jacques Prévert. Assim como no anterior ‘Quai des brumes’ de Marcel Carné, de 1939, Prévert carrega nas tintas bretonianas, inspira-se em ‘L’amour fou’. Basta observar que o protagonista interpretado por Gabin – capitão de um rebocador, ‘remorque’, que resgata navios em perigo – se chama André e o filme se passa em Brest, na Bretanha. E isso foi criado por Prévert: ele refez um roteiro anterior, que não havia agradado a Grémillon.

Aliás, Carné foi realmente grande quando contou com Prévert, poeta extraordinário, como roteirista – também em ‘Les visiteurs du soir’ e no celebrado ‘Les enfants du paradis’. Tratarei disso quando etc.

As circunstâncias da realização de ‘Remorques’ – filmagens interrompidas pela guerra, em 1941 rodaram mais algumas cenas, foram montando o que era possível, do jeito como dava, meio clandestinamente – tornam o filme ainda mais surrealista, com seu desfecho abrupto. Grémillon, realizador de um filme sobre a Comuna de Paris, foi boicotado, parece-me, e deixou poucas obras. A recuperar.

O filme completo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UC7rKVRLuyc

(esta foto, em especial, me dá a impressão de situar-se em alguma praia em que estive ou constituir-se em cena que vivi)

“Linha M” de Patti Smith

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Quem, dentre meus amigos, presenteou-me com Linha M de Patti Smith? É excelente! De cara, na abertura, um relato de sonho em prosa poética. O restante segue assim, sendo autobiográfico também é onírico, de ponta a ponta. Viagens a lugares impossíveis, cercanias da Ilha do Diabo na Guiana Francesa, pegar umas pedrinhas para enviar a Jean Genet, assim homenageando-o. Ou à Islândia, a um simpósio para saber mais sobre o fim de um personagem impossível, Wegener (aquele da deriva continental). Ao interior do México, por servirem um café de qualidade especial (fissurada em café, dá roteiro de lugares). Ou à esquina de onde mora. Culto da “flânerie”, disponibilidade surrealista, é com ela mesma – e o texto retrata ou expressa isso. A obsessão por seguir passos de outros escritores; no livro anterior, Rimbaud na África, neste, Silvia Plath. Ao encontro de espectros beat em Tanger (deu tempo de entrevistar Paul Bowles, achá-lo ainda vivo). Capaz de encantar-se com Sebald e Murakami (faz tour de escritores japoneses suicidas e seus túmulos) e ao mesmo tempo acompanhar atentamente séries de TV como CSI: Miami – isso é típico de cultura pop.

Só garotos, autobiografia mais linear, mais focada na relação com Robert Mapplethorpe, já me havia agradado. Tenho livro de poesias dela e alguma gravação. Na palestra deste ano sobre poesia e xamanismo, apresentei trechos de sua interpretação da Ghost Dance. Trarei mais na próxima.

Ao ser entrevistado pelo Globonews Literatura sobre o Nobel para Bob Dylan, aprovei, mas declarei que melhor ainda teria sido darem-no para Patti Smith. E nem havia lido ainda Linha M.

A PROPÓSITO DO CENTENÁRIO DE CAMPOS DE CARVALHO

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Dei entrevista para uma revista semanal, mas a matéria “caiu” por causa do volume de tragédias da semana. Reaproveito-a aqui. Já dei palestra sobre Campos de Carvalho, este ano – mas continuo devendo um ensaio extenso sobre um dos melhores prosadores brasileiros. Aí vai (com pequenos acréscimos):

  • Na entrevista que concedeu a Antonio Prata e Sergio Cohn, Campos de Carvalho lembrou que seu editor dizia que ele escrevia para o futuro, que só seria lido depois de 30 anos. E o crítico Wilson Martins disse que Campos de Carvalho praticava um surrealismo que já estava datado nos anos 50 e era mais próximo das vanguardas dos anos 20. O senhor concorda com alguma dessas avaliações?

30 anos? Que 30 anos demorados… Tornaram-se mais de meio século. Wilson Martins foi um tradicionalista, bem reacionário. Escreveu bobagens sobre surrealismo, Alfred Jarry e muito mais. Quanto á recepção lenta de Campos de Carvalho, após o impacto inicial, pesou ele isolar-se. Eticamente, isso depõe a seu favor, pois mostra que não estava aí para a política literária e o mundanismo cultural.

  • Como podemos encaixar Campos de Carvalho na literatura brasileira? Ele se aproxima de algum movimento ou escola? Ele escreveu seus quatro romances principais entre 1956 e 1964, o mesmo período em que Guimarães Rosa escreveu seus principais livros e da renovação estética dos concretistas. É possível relacionar Campos de Carvalho com essa efervescência literária dos anos 1950?

Vejo uma vertente marginal na prosa brasileira, que se choca com o realismo, composta por Rosario Fusco, pelo rigorosamente contemporâneo Murilo Rubião, por José J. Veiga, e como precursores deles, Dyonélio Machado e Aníbal Machado. Em certa medida, também José Agripino de Paula. Prosa onírica, em alguns mais próxima à literatura do absurdo, em outros do surrealismo. Já foi observado – a propósito de Murilo Rubião – que “realismo mágico” começou aqui, mas ninguém reparou. Não o relacionaria ao concretismo – demasiado cerebral, racional.

  • Em vida, Campos de Carvalho se afastou da literatura. E a última vez que suas obras foram editadas foi em 1995. Ele parece ocupar um lugar de “célebre desconhecido”, sempre esquecido e sempre pronto a ser redescoberto. Na sua opinião, o que contribuiu para que ele ocupasse esse lugar: seu afastamento do mundo literário e abandono da literatura ou as características de sua obra?

Viés positivista da crítica brasileira. Rigor ético dele, como já disse: não estava aí para oba-oba, badalações, mundanismo literário. Ficou na dele, nunca foi perseguidor de glórias. Além disso, “A Lua vem da Ásia” é, digamos assim, mais leve. Os dois livros seguintes, “Vaca de nariz sutil” e “Chuva imóvel”, são mais pesados, violentos, transgressivos. Dão a impressão de que humor negro chegou até ele e parou. A aparente amenidade de “O púcaro búlgaro”, com seu tom de brincadeira, fez que recuperasse leitores: acabou sendo seu livro mais reeditado, além de ser adaptado para teatro.

  • Campos de Carvalho também foi contemporâneo dos beatniks, objeto de estudo do senhor, e que também eram influenciados pelo surrealismo. O senhor enxerga algum parentesco entre eles?

Dificilmente. Surrealismo, ele conhecia muito bem. Beats, não sei se chegou a tomar conhecimento, nunca lhe perguntaram nem tocou no assunto.

  • O senhor concorda com a classificação de Carvalho de Campos como um surrealista?

Se concordo? O próprio Campos de Carvalho declarou, em entrevista, que o surrealismo era seu modo de expressão .

  • Campos de Carvalho deixou herdeiros na literatura brasileira?

Dificílimo avaliar. Produção literária brasileira cresceu. Há tantos autores interessantes… Mas ele vem sendo estudado e comentado, ultimamente. Merecem atenção Augusto Guimaraens Cavalcanti com “Fui à Bulgária procurar por Campos de Carvalho” e Juva Batella com “Quem tem medo de Campos de Carvalho?”, dentre as publicações recentes.

  • “A lua vem da Ásia” está completando 60 anos. O que esse livro ainda nos diz?

Cresceu, desde então, o movimento antimanicomial, o ceticismo com relação à psiquiatria tradicional e à separação categórica de normalidade e loucura. Nesse sentido, é muito precursor. Curioso: Campos de Carvalho declarava-se contra Machado de Assis. No entanto, Machado já lançava dúvidas sobre a separação de loucura e normalidade – e não só no clássico “O alienista”. Vejo afinidade também na ironia, no uso das perífrases, nas ambivalências, no estilo apuradíssimo. Mas a chave para entender Campos de Carvalho é a frase de Rimbaud, “O EU é um outro”. Seus personagens são sempre esse “outro”, ou, antes, uma multiplicação de outros: “mas são tantos os eus atrás de um simples eu que a medida se impõe”. Em “A lua vem da Ásia” o eu / outro é um louco. Em seguida, será um assassino, um necrófilo, incestuoso, pedófilo, suicida. Também parafraseou bastante o “eu sou um negro” e “vocês são falsos negros” de Rimbaud. Finalmente, um viajante que não sai de onde está. Criaturas do avesso, digamos. Em comum a todos: abominarem a ordem estabelecida, execrarem a sociedade burguesa. Acho que a declaração final do Manifesto Surrealista de André Breton, de “inconformismo absoluto”, foi rigorosamente adotada por ele. A destacar, também, o ataque de Campos de Carvalho não só contra a lógica (“Aos 16 anos matei meu professor de lógica”), mas contra a própria linguagem, a relação de significação. Toda a sua obra é atravessada por uma dúvida sobre a relação entre as palavras e as coisas, gerando obras primas como estas: “Pago a pensão com a pensão que o Estado me paga pelo meu estado”, ou “julgam-me aposentado, pois estes são os meus aposentos”. É o mestre do duplo sentido e do paradoxo: “A verdade é que já nascemos órfãos, todos: mas isso eu não digo” (ao mesmo tempo em que o diz), ou “nunca vi tanta ladeira numa só memória”..