Archive for the ‘Artigos, Opniões e Provocações’ Category

Minha postagem mais acessada no Facebook:

Foi a 13 de outubro de 2016. 685 reações, 242 compartilhamentos e  43 comentários, informa a rede social. Acompanhou-a este texto:

Lembrando que, após ler ‘On the Road’ de Jack Kerouac, o jovem Robert Zimmerman saiu de casa e adotou o nome de Bob Dylan (referência ao poeta galês). Literatura move. Aqui, a foto famosa, Ginsberg e Dylan no túmulo de Kerouac. Estamos em um mundo que dá voltas sobre si mesmo. Polêmicas não faltarão. .

Mais tarde no mesmo dia, declarei (para a Globonews) que poderiam ter dado o prêmio para Patti Smith. Obviamente sem saber disso, Dylan indicaria Patti para o representar na entrega do prêmio. Tarântula de Dylan é prosa poética kerouaquiana de excelente qualidade. Linha M de Patti é memorialística, também em prosa poética, primorosa.

E eu resolvi postar algo ameno, em face da sensação de haverem destampado, neste nosso país, uma enorme cloaca, ou de terem aberto a caixa de Pandora, ou qualquer outra metáfora que se ajuste ao momento presente.

“Filme demência” de Carlos Reichenbach, com minha participação

A foto foi achada e publicada no Facebook pelo internauta Leonardo Chagas.

Aqui, o filme completo, disponível no meio digital. Já havia impressionado na época do lançamento. Ganhou com o tempo.

https://www.youtube.com/watch?v=KASIZoasyjc

A cena comigo é aos 28 minutos. Leio um poema de Jardins da Provocação no Bar Redondo, Avenida Ipiranga. Em 1985/86, época da realização do filme. Digo algo sobre geração beat, de um modo bem antecipatório. O Fausto que ele criou parece não gostar de mim ou do que digo. O Mefistófeles atualizado vem paquerar uma garota na minha mesa. Filmagem foi rápida: preciso, não refazia tomadas.

Carlão apreciava muito a beat. Para um filme subseqüente, Alma Corsária de 1993 (aquele lançamento de livro de poesia em um botequim, tão semelhante a outros em que estive ), pediu-me uma foto de Allen Ginsberg, ampliou-a e transformou em pôster no quarto do protagonista, um poeta.

Um filme anterior, Extremos do prazer, de 1984, passa-se em uma ilha, inspirada na casa de campo de um amigo nosso, o Irco, na Represa Billings – entra um personagem, anuncia: “olha, eu trouxe um livro bom para vocês lerem!”, era o Jardins da provocação.

Reparem que mais à frente, altura de 1h15, comparece um de seus tipos , o poeta-declamador Orlando Parolini – morreu em 1991, felizmente há bastante registros dele, mas a família destruiu seus originais de poesia, uma barbaridade.

Os episódios com trambiques empresarias – como isso é de hoje. Discípulo de Luiz Sérgio Person (cada vez em que assisto de novo a São Paulo S. A. gosto mais), também soube filmar esta metrópole – o crepúsculo em suas decadentes ferrovias, que cena linda. Isso, embora fosse especialmente fixado nas extensas praias do Litoral Sul de São Paulo. Contrastes o estimulavam: São Paulo e praias, centro e arrabaldes.

Vejam como o cigarro é uma constante em Filme demência. Personagens fumam e se comunicam através de cigarros. Consumidor de três maços por dia, no começo dos anos 2000 Carlão infartou, foi safenado, parou por um tempo, estava abstêmio quando o encontrei em Dois Córregos (cidade-tema de outro filme importante), mas voltou a fumar – resistiu até 2012.

A cena subseqüente àquela comigo, da palestra no auditório menor do MASP, certamente alusão ao “matei meu professor de lógica” de Campos de Carvalho. Devia ter-lhe perguntado.

Mais um aniversário de Jorge de Lima (23 de abril de 1893 – 15 de novembro de 1953): imagens e dois poemas

Álbum de fotos de quando dei palestra em União dos Palmares, cidade natal do poeta, convidado por Claufe Rodrigues em outro 23 de abril, de 2014. Entre outros motivos de satisfação, subir à Serra da Barriga (reduto de Zumbi dos Palmares e onde Jorge esteve pela primeira vez aos 5 anos de idade, experiência marcante), visitar a casa dele, trocar idéias com a filha Maria Tereza Jorge de Lima e outros especialistas.

Separei dos poemas dele que aprecio especialmente, de Invenção de Orfeu. Um deles, o XXVII do Canto Primeiro, trazido a esta oficina literária que estou coordenando no EdArt, bem escolhido como exemplo de imagens poéticas; outro, o XXI do Canto Terceiro, que levarei á próxima sessão da oficina, no qual a meu ver, o som toma a frente do sentido.

 

XXVII

Há uns eclipses, há; e há outros casos:

de sementes de coisas serem outras,

rochedos esvoaçados por acasos

e acasos serem tudo, coisas todas.

 

Lãs de faces, madeiras invisíveis,

visões de coitos entre os impossíveis,

folhas brotando de âmagos de bronze,

demônios tristes, choros nas bifrontes.

 

Tudo é veleiro sobre as ondas íris,

condores podem ser os baixos ramos,

montes boiarem, aços se delirem.

 

Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,

lábios sedentos, lírios com ventosas,

ódios gerando flores amorosas.

XXI

As portas finais,

os cantos iguais,

os pontos cardeais

sempre obsidionais.

 

Os tempos anuais,

as faces glaciais,

as culpas filiais,

sempre obsidionais.

 

Os dois iniciais,

as dores tais quais,

os juízos finais

sempre obsidionais.

20 anos sem Allen Ginsberg (3 de junho de 1926 – 5 de abril de 1997)

De um artigo de Mikal Gilmore publicado na Rolling Stone de maio de 1997 e reproduzido no substancioso compêndio The Rolling Stones Book of the Beats: “A uma dada altura em sua última semana de vida, ele [Ginsberg] cantou acompanhando uma gravação de “C. C. Rider” pela vocalista de blues da década de 1920 Ma Rainey – a primeira voz de que Ginsberg se lembrava de ouvir quando criança.” Em seu necrológio para Naomi Ginsberg, sua mãe morta em um hospício, pôs este verso “com teus olhos de Ma Rainey morrendo numa ambulância”. Tratei, em uma palestra recente, do significado dos blues para a poesia de Ginsberg. Seu modo de ler poemas, achava-o parecido com um “kantor” de sinagoga; mas Ginsberg esclareceu, em uma entrevista para Harvey R. Kubernik, também na Rolling Stone: “… eu cresci com os blues, Ma Rainey e Leadbelly. Ouvi-os ao vivo na estação de rádio WNYC, no final dos anos trinta e começo dos quarenta. Há algo de uma relação do canto hebraico com os blues que eu sempre tive.” Em outro trecho, comenta que Frank Sinatra havia aprendido seu modo de expressar-se, de dizer as palavras das músicas, com os negros. Pela mesma razão, suponho, Kerouac estava nas filas de fãs para assistir a shows de Sinatra em 1939, antes de conhecer Ginsberg e os demais beats.

Quero voltar a tratar disso em palestras, mostrando algo da contribuição dos negros americanos, com os quais Ginsberg, Kerouac e outros beats se solidarizavam e se identificavam. Associar aos rumos que a poesia de Ginsberg tomou depois dos poemas de alto impacto como “Uivo”, “América” e “Kaddish”, e suas parcerias com músicos (Bob Dylan, Paul McCartney em Dance of Skeletons, The Clash etc).

Também do artigo de Gilmore: “Mais que qualquer outra coisa, contudo, Ginsberg foi alguém que convocou a bravura para dizer verdades escondidas sobre coisas de que não se falava, e algumas pessoas ganharam consolo e coragem de seu exemplo. Esse exemplo – a insistência em que ele não iria simplesmente calar a boca e de que não se deveriam aceitar valores e experiências delimitadas – talvez seja o maior presente de Ginsberg para nós.”

Fiz uma seleta de posts sobre Ginsberg já publicados aqui:

Minha tradução de “Kral Majales”, seu poema sobre a expulsão da Tchecoslováquia em 1965, com observações sobre sua religiosidade plural, não-institucional: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Um dos meus posts mais visitados é “Allen Ginsberg para homofóbicos”, com a tradução de “Please master”, “Por favor meu amo”, por Paulo Henriques Brito, publicado em A queda da América (L&PM): https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/05/allen-ginsberg-para-homofobicos-um-poema-edificante-e-instrutivo/

Pdf de cartas d Ginsberg, incluindo instruções importantes para minha tradução: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/09/mais-paginas-de-cfartas-de-allen-ginsberg/

A comparação do trecho de “Kaddish” com “Union libre” de Breton, sugerida por Barry Miles: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/03/kaddish-de-allen-ginsberg-1926-1997/

Reproduzo trecho do meu post de 2011, sobre sua lucidez e capacidade de antecipação:

“A exaltação mística e o ímpeto messiânico de Ginsberg coexistiram com um pensamento político articulado e atento aos detalhes. A passagem de algumas décadas confere valor adicional a suas declarações e manifestações. Isso, pelas tomadas de posição que o projetaram como liderança na mobilização contra o militarismo norte-americano e a intervenção no Vietnã, e por críticas como aquela ao regime cubano, então precursoras e atualmente óbvias, em tópicos como a perseguição de homossexuais e repressão à “santeria”. E por precisas análises pontuais. Por exemplo, em sua palestra sobre Ezra Pound, “Poetic Breath, and Pound’s Usura”, de 1971, publicada em Allen Verbatim. Após discorrer sobre prosódia, ritmo e respiração em poemas de Charles Olson e William Carlos Williams, detém-se nos famosos versos sobre a usura do Canto XLV dos Cantos de Pound. Mostrando a musicalidade de um verso como “Azure hath a canker by usura”; comenta o modo como o próprio Pound lia esses versos; observa a escolha de “with usura the line grows thick” em vez de “with usura the line gets thick”, argumentando que em Pound o som tinha sentido e cada vogal tem “substancialidade”. Finalmente, levando em conta esses valores sonoros, caracteriza o Canto XLV como um “grande exorcismo da usura” e contextualiza, denunciando a privatização e controle do dinheiro por bancos, que por sua vez se tornam credores dos governos:

Assim, o que Pound está observando é que todo o sistema monetário, o sistema bancário, é uma alucinação, e ele está explicando a estrutura dessa alucinação e retroagindo historicamente, porque a estrutura muda em cada era da reforma bancária. […] A questão é que a franquia é comprada por um grupo de monopolistas privados; daí em diante eles possuem o negócio bancário, nesse sentido, pois pagaram um milhão ao governo e tem um milhão em seus porões, e subitamente, no papel, possuem dezoito milhões a mais do que o capital inicial.

Nem é preciso insistir na pertinência dessa análise; o quanto se aplica à crise econômica em curso, decorrente da condução de políticas econômicas por bancos e da especulação desenfreada. Poderia constar em artigos escritos de 2008 até hoje.

Outro exemplo da sintonia fina em análises políticas está em Indian Journals, o diário de sua estada na Índia por mais de um ano, de março de 1962 a maio de 1963. No meio de poemas, reflexões sobre criação poética, registros de leituras, relatos de alucinações e efeitos de drogas, descrições do que via no período em que, junto com Peter Orlowski, levou vida de saddhu, monge mendicante, acrescentou um recorte de jornal. É um artigo intitulado “A classe privilegiada”, denunciando que “1% dos lares do país possuem nada menos que 75% dos bens privados”. Assim argumentou que a estatização, a economia fechada e o monopólio bancário geram corrupção e acentuam a concentração de renda – também algo evidente hoje, à luz das melhoras do quadro econômico daquele país.

Ainda sobre os bons insights políticos de Ginsberg, seu exame, também precursor, do tema das drogas, tal como exposto na série de palestras-diálogos de Allen Verbatim intitulada “Political Opium” (ópio político). Nelas, ao caracterizar o tráfico de drogas como flagelo urbano, argumentou tratar-se de resultado da proibição . Focalizou especialmente o Harrison Act de 1920, que baniu o ópio e derivados, e criminalizou seus usuários – invariavelmente, conduzindo à colaboração entre policiais e crime organizado, além de desviar recursos do que realmente interessaria, pesquisas e políticas de saúde pública em favor de viciados, obrigando-os a ter nos traficantes seus únicos interlocutores.

Apontar economias fechadas e burocratização como fonte de corrupção; proclamar que a transferência das decisões de política econômica para os bancos levaria ao desastre; insistir em que a criminalização do uso de drogas fortalece o crime organizado; tomar a defesa da diversidade sexual e cultural como crítica ao ‘socialismo real’: aí estão tópicos de uma agenda que deixou de ser exclusiva de seguidores ou continuadores da Geração Beat. No entanto, Ginsberg formulou esse tipo de crítica em 1962 (relativamente às economias fechadas), 1965 (sobre Cuba), 1970 (contra a criminalização de drogados) e 1971 (sobre os bancos e a especulação financeira). Pode-se, por isso, caracterizá-lo como um lúcido analista político.

Em outras intervenções, Ginsberg foi igualmente precursor, nas manifestações pacifistas, na defesa incondicional da liberdade de expressão, do multiculturalismo, da tolerância e respeito à diferença.

Tudo isso, hoje em dia, é agenda de setores amplos da sociedade e de um diversificado elenco de personalidades públicas; mas eram temas minoritários, alguns vistos como excêntricos, quando apresentados por Ginsberg; e também, em inúmeras ocasiões, por McClure, Ferlinghetti, Snyder, Di Prima, Waldman e outros beats.

O registro dessas manifestações corrige um estereótipo relativo ao místico, como alguém isolado e alheio ao mundo. Passar metade do ano recluso, em meditação (na época em que o traduzi), e a outra metade dedicando-se a uma intensa atuação pública chega a ser uma metáfora da harmonia desses dois campos, misticismo e política.”

Os índios brasileiros e as declarações do novo Ministro da Justiça

(índios Kalapalo fotografados por mim em 1967 no Parque do Xingu)

Estas declarações, de que “terra não enche barriga”, etc:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml?cmpid=compfb

Há um equívoco no modo como a questão vem sendo abordada por representantes do agronegócio e de toda sorte de invasores. Não se trata apenas de defender “terras”, porém os direitos de índios serem índios. Há um inestimável patrimônio simbólico, imaterial, em jogo. Já havia citado esta passagem de Octavio Paz, aqui, neste blog:

[…] é preciso defender as sociedades tradicionais se quisermos defender a diversidade. Todos vemos que isso é dificílimo, mas a outra possibilidade é sombria: uma derrocada geral da civilização, diante da qual o fim do mundo antigo, entre os séculos V e VII, teria sido apenas um modesto “ensaio geral” do desastre. Dessa perspectiva, a preservação da pluralidade e das diferenças dos grupos e indivíduos é uma defesa preventiva. A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro. A história havia sido, até agora, plural: diversas visões do homem, cada qual com uma visão distinta de seu passado e de seu futuro. Preservar essa diversidade é preservar a pluralidade de futuros, isto é, a vida mesma.

É claro que observações dessa ordem não sensibilizam aqueles que buscam revanche depois de haverem sido obrigados a devolver aos Pataxós as terras no entorno do monte Pascoal que haviam invadido em 1979; as dos Xavantes, da antiga Fazenda Liquigás ao lado do Parque do Xingu, também na década de 1970; que tiveram que desistir de acabar com os Yanomami (nota de rodapé: até onde sei, esse conspícuo Romero Jucá teve participação importante em um grande massacre desses índios por garimpeiros, em 1993); que, mais recentemente, viram o STF sancionar a criação da terra indígena Raposa Serra do Sol. Quem tem uma visão da sociedade como algo análogo à uniformidade de suas plantações de soja e pastagens continuará incapaz de associar diversidade ambiental e humana à riqueza, ou, ao menos, a um futuro menos desolador.

Uma apresentação de Piazzas de Roberto Piva e do meu Anotações para um Apocalipse

Escrita por José Paulo Vieira da Cunha, grande amigo nosso, extraordinário erudito (como podem ver pelo texto a seguir) e parceiro em vários episódios. Distribuído em folha solta para o lançamento dos dois livros – no Barroquinho na Galeria Metrópole, também teve uma banda musical, barril de 100 litros de vinho e uma quantidade de gente que me surpreendeu. Final de outubro de 1964. Transcrito agora por Guilherme Ziggy, como parte dos trabalhos de organização da Biblioteca Roberto Piva:

EM PROL DA NOVA METAMORFOSE

“Sob o sol ardente fundem-se as neves do Himalaia” (1964)

Tempos novos exigem obras novas. Mas o que querem os novos? Povoar naacàlicamente os céus de Inquanok? Ou derrubar as almênares do Qalaat-ul-Hamrâ? Ou ainda provar que o governador do Estado de São Paulo é pederasta? Talvez tudo isto e mais a deglutição da hidra do farisaísmo e filistinismo para vomitar o esplendor novo de sóis azuis e amarelos e mais os frágeis planetas dos tempos longínquos e imemoriais. É o que fazem, como novos, Roberto Piva e Claudio Jorge Willer, nos livros ora apresentados, de uma maneira belíssima, nos seus contatos com uma realidade superior mística e aceitável e uma realidade vizinha e cotidiana que não aceitam e que desejariam ver destruída ou relegada à categoria de ruína. Opondo-se categoricamente a uma realidade inaceitável, constroem, talvez num movimento compensatório, uma estratificação especial onde predominam os valores do por-vir. Isto, entretanto, não significa uma fuga ou uma evasão fundada em motivos psíquicos. É uma reação natural e a única válida na época natural. A literatura, digamos assim, do romantismo para cá, inserida no âmbito de uma sociedade industrial, onde prevalecem o útil, o eficiente, o técnico, o científico, vem passando por transformações tão desmesuradas que só as suas captações constituem, de per sí, uma introdução geral à essência da nossa época. Frente ao espectro do niilismo, porque verdadeiramente o niilismo é o grande devorador da nossa época, a literatura reage de maneiras as mais variadas. Não cabe enumerá-las “hic et nunc”, mas fica o registro do fato. Dentro deste contexto, que dizer de Roberto Piva e Claudio Jorge Willer? Suas obras enquadram-se na situação apenas esboçada acima? Sem dúvida alguma, o que não quer dizer que suas obras sejam de transição, mas sim construções acabadas e destinadas a placentar a nova geração. Pedagógicas ou não, éticas ou não, são obras definitivas e válidas no contexto sempre mutável do momento que passa. Pelas suas obras perpassam o hálito de Nietzsche, Rimbaud, Desnos, Böehme, Lautréamont, Freud, Bosh, dos alquimistas, dos poetas loucos, enfim da imensa sucessão dos eternos ressuscitadores. Além do mais, como obras profundamente geracionais, os seus traços marcantes são um constante esforço de lucidez e conscientização da problemática da época atual, aliada a tomadas de contato com forças estranhíssimas, as quais, hoje sabemos, dirigem verdadeiramente os destinos da Arte. Há, ainda, nestas obras, conexões sutilíssimas para as quais chamamos a atenção. A tarefa de vislumbrar e captar tais conexões pertence por inteiro aos leitores realmente integrados na problemática da nossa época. Para resumir, nada melhor que citar uma frase de Heidegger, o pensador inquietante: “na comunicação e na luta, a força do destino comum liberta-se” (“Ser e Tempo”, pg. 397).

Roberto Piva, verdadeiro “cavaleiro do mundo delirante”, quer e exige a Metamorfose. Daí o seu grito, tanto mais lancinante quanto mais próximo está do núcleo de fogo das forças terríveis. Poeta de segundo livro, com seu “Paranóia” vivenciou o dito de Jean-Paul Richter: “os reinos terrificantes dos mundos em formação”, agora, com “Piazzas”, lança-se segundo suas próprias palavras, “numa contemplação além do bem e do mal” (“Post-fácio”). Claudio Jorge Willer, “entrepreneur et entreteneur des choses terribles”, clarividente de todas as horas, com seu “Anotações para um Apocalipse” arroja-se numa aventura irreversível: a de desafiar as potências demoníacas de que nos fala Blake, para que saiam a campo conduzindo o Himalaia, e o Hindu-Kush, e num supremo transporte de prazer, destruam o potencial larvar-impecilho ainda subsistente em nossas relações e possibilidades de comunicação. Ambos constituem uma ameaça terrível para a continuação dos tempos. Tomem nota. A sucessão endiabrada das insignificâncias do todo-o-dia tem neles os seus mais ferozes inimigos. Que se precavenha a Lei, porque em suas mãos transformar-se-á em Canto. A magia das coisas não ditas transforma-se no teoremas da incompatibilidades totais. Daí, ambos correm para o país das alucinações, e convidam-nos, com insistentes gestos de amizade, para a aventura histórica de abrirmos um significado maior no âmbito da existência plena. Acho que devemos aceitar o convite e o conteúdo das suas mensagens. Aqui estão eles, pois. Degluta-os os leitores. Amém.

JOSÉ PAULO VIEIRA DA CUNHA

O CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS E OUTROS TIPOS

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Após centenas de apresentações e participações, enxerguei uma tipologia:

  1. CONFERENCIATA DE COPO D’ÁGUA: Formal, protocolar (“sinto-me honrado” etc), fala pausadamente, mostra que sabe expressar-se, faz breve pausa para tomar três golinhos de água e prossegue – ainda hoje, em academias de letras e cenáculos afins.
  2. CONFERENCISTA POLÊMICO: Destrói o tema proposto em vez de expô-lo. Cognato do entrevistado polêmico, que vai questionando as perguntas que lhe são feitas em vez de respondê-las. Já encarnei. A última vez, setembro do ano passado, mesa sobre dadaísmo em Goiânia. Seria sobre “pós-história”, “pós-histórico”, algo assim, e minha simpatia por essa categoria é tão nula quanto pelo “pós-moderno” e “pós-modernidade”. Fui argumentando que dadá não é pós-histórico coisa nenhuma porque Tristan Tzara aderiu ao comunismo soviético, um determinismo histórico, relacionou dadá à Primeira Guerra Mundial e afirmou que surrealismo estava encerrado com o fim da Segunda Guerra Mundial (Breton foi à palestra dele de 1947 e deu um escândalo), etc. Na verdade, o tema era do meu companheiro de mesa, que o sustentou de modo adequado, e terminamos todos bem entendidos.
  3. CONFERENCISTA BALBUCIANTE, normalmente professor/a universitário/a ou aspirante a, hipnotizado pela tela do laptop, monocórdico, vai murmurando o que está na tela, entende-se com esforço. Variante do conferencista com a cara enfiada nas folhas do “paper”. Comum nos grandes eventos universitários em que apresentar qualquer coisa vale pontos no CAPES, prestigiados pela clientela dos certificados.
  4. CONFERENCISTA SALVADOR: nos mesmos eventos, brilhante, capaz de conferir credibilidade ao transmitir informação nessas ocasiões e através das subseqüentes publicações coletivas. Auditórios lotam e todos saem achando que compensou a viagem e o calor.
  5. CONFERENCISTA DERROTADO PELA TECNOLOGIA: aconteceu comigo no Festival Beat em São Paulo, em janeiro. Equipamento de data show do CCBB queimou. Palestra atrasou uma hora, improvisei sem as imagens selecionadas, ao final até que deu certo. Variante, o conferencista que esquece o pen drive em casa ou o perde na viagem – também já me aconteceu.
  6. CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS – encarnei no Festival Beat do Rio de Janeiro no CCBB, palestra sobre Jack Kerouac (dia 11 de fevereiro – a boa foto é de Thereza Christina Rocque da Motta). Calor e platéia muito informal (houve quem viesse sem camisa e quem esmurrasse a porta por não haver mais lugar no auditório). O dramaturgo Plinio Marcos fazia esse tipo, em eventos menos informais. Entre outros , por volta de 1985 na Biblioteca Mário de Andrade, em uma sessão promovida pela UBE sobre mercado editorial ou algo assim. Enquanto o outro participante da mesa, um presidente da Câmara Brasileira do Livro, expunha, cruzou as pernas e ficou mexendo no dedão do pé direito, tirando cutícula, acho. Ninguém reparou no que o presidente da CBL dizia, todos olhavam Plinio Marcos a ocupar-se com seu dedão. Antes, em sua fala, havia insultado o presidente da CBL – injuriado por não permitirem que vendesse seus livros, feito um camelô, na Bienal do Livro. Coordenei a sessão (outro tipo, o coordenador impassível). Inesquecível (tanto é que me lembro).