Archive for the ‘Artigos, Opniões e Provocações’ Category

Mais um aniversário de Jorge de Lima (23 de abril de 1893 – 15 de novembro de 1953): imagens e dois poemas

Álbum de fotos de quando dei palestra em União dos Palmares, cidade natal do poeta, convidado por Claufe Rodrigues em outro 23 de abril, de 2014. Entre outros motivos de satisfação, subir à Serra da Barriga (reduto de Zumbi dos Palmares e onde Jorge esteve pela primeira vez aos 5 anos de idade, experiência marcante), visitar a casa dele, trocar idéias com a filha Maria Tereza Jorge de Lima e outros especialistas.

Separei dos poemas dele que aprecio especialmente, de Invenção de Orfeu. Um deles, o XXVII do Canto Primeiro, trazido a esta oficina literária que estou coordenando no EdArt, bem escolhido como exemplo de imagens poéticas; outro, o XXI do Canto Terceiro, que levarei á próxima sessão da oficina, no qual a meu ver, o som toma a frente do sentido.

 

XXVII

Há uns eclipses, há; e há outros casos:

de sementes de coisas serem outras,

rochedos esvoaçados por acasos

e acasos serem tudo, coisas todas.

 

Lãs de faces, madeiras invisíveis,

visões de coitos entre os impossíveis,

folhas brotando de âmagos de bronze,

demônios tristes, choros nas bifrontes.

 

Tudo é veleiro sobre as ondas íris,

condores podem ser os baixos ramos,

montes boiarem, aços se delirem.

 

Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,

lábios sedentos, lírios com ventosas,

ódios gerando flores amorosas.

XXI

As portas finais,

os cantos iguais,

os pontos cardeais

sempre obsidionais.

 

Os tempos anuais,

as faces glaciais,

as culpas filiais,

sempre obsidionais.

 

Os dois iniciais,

as dores tais quais,

os juízos finais

sempre obsidionais.

20 anos sem Allen Ginsberg (3 de junho de 1926 – 5 de abril de 1997)

De um artigo de Mikal Gilmore publicado na Rolling Stone de maio de 1997 e reproduzido no substancioso compêndio The Rolling Stones Book of the Beats: “A uma dada altura em sua última semana de vida, ele [Ginsberg] cantou acompanhando uma gravação de “C. C. Rider” pela vocalista de blues da década de 1920 Ma Rainey – a primeira voz de que Ginsberg se lembrava de ouvir quando criança.” Em seu necrológio para Naomi Ginsberg, sua mãe morta em um hospício, pôs este verso “com teus olhos de Ma Rainey morrendo numa ambulância”. Tratei, em uma palestra recente, do significado dos blues para a poesia de Ginsberg. Seu modo de ler poemas, achava-o parecido com um “kantor” de sinagoga; mas Ginsberg esclareceu, em uma entrevista para Harvey R. Kubernik, também na Rolling Stone: “… eu cresci com os blues, Ma Rainey e Leadbelly. Ouvi-os ao vivo na estação de rádio WNYC, no final dos anos trinta e começo dos quarenta. Há algo de uma relação do canto hebraico com os blues que eu sempre tive.” Em outro trecho, comenta que Frank Sinatra havia aprendido seu modo de expressar-se, de dizer as palavras das músicas, com os negros. Pela mesma razão, suponho, Kerouac estava nas filas de fãs para assistir a shows de Sinatra em 1939, antes de conhecer Ginsberg e os demais beats.

Quero voltar a tratar disso em palestras, mostrando algo da contribuição dos negros americanos, com os quais Ginsberg, Kerouac e outros beats se solidarizavam e se identificavam. Associar aos rumos que a poesia de Ginsberg tomou depois dos poemas de alto impacto como “Uivo”, “América” e “Kaddish”, e suas parcerias com músicos (Bob Dylan, Paul McCartney em Dance of Skeletons, The Clash etc).

Também do artigo de Gilmore: “Mais que qualquer outra coisa, contudo, Ginsberg foi alguém que convocou a bravura para dizer verdades escondidas sobre coisas de que não se falava, e algumas pessoas ganharam consolo e coragem de seu exemplo. Esse exemplo – a insistência em que ele não iria simplesmente calar a boca e de que não se deveriam aceitar valores e experiências delimitadas – talvez seja o maior presente de Ginsberg para nós.”

Fiz uma seleta de posts sobre Ginsberg já publicados aqui:

Minha tradução de “Kral Majales”, seu poema sobre a expulsão da Tchecoslováquia em 1965, com observações sobre sua religiosidade plural, não-institucional: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Um dos meus posts mais visitados é “Allen Ginsberg para homofóbicos”, com a tradução de “Please master”, “Por favor meu amo”, por Paulo Henriques Brito, publicado em A queda da América (L&PM): https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/05/allen-ginsberg-para-homofobicos-um-poema-edificante-e-instrutivo/

Pdf de cartas d Ginsberg, incluindo instruções importantes para minha tradução: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/09/mais-paginas-de-cfartas-de-allen-ginsberg/

A comparação do trecho de “Kaddish” com “Union libre” de Breton, sugerida por Barry Miles: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/03/kaddish-de-allen-ginsberg-1926-1997/

Reproduzo trecho do meu post de 2011, sobre sua lucidez e capacidade de antecipação:

“A exaltação mística e o ímpeto messiânico de Ginsberg coexistiram com um pensamento político articulado e atento aos detalhes. A passagem de algumas décadas confere valor adicional a suas declarações e manifestações. Isso, pelas tomadas de posição que o projetaram como liderança na mobilização contra o militarismo norte-americano e a intervenção no Vietnã, e por críticas como aquela ao regime cubano, então precursoras e atualmente óbvias, em tópicos como a perseguição de homossexuais e repressão à “santeria”. E por precisas análises pontuais. Por exemplo, em sua palestra sobre Ezra Pound, “Poetic Breath, and Pound’s Usura”, de 1971, publicada em Allen Verbatim. Após discorrer sobre prosódia, ritmo e respiração em poemas de Charles Olson e William Carlos Williams, detém-se nos famosos versos sobre a usura do Canto XLV dos Cantos de Pound. Mostrando a musicalidade de um verso como “Azure hath a canker by usura”; comenta o modo como o próprio Pound lia esses versos; observa a escolha de “with usura the line grows thick” em vez de “with usura the line gets thick”, argumentando que em Pound o som tinha sentido e cada vogal tem “substancialidade”. Finalmente, levando em conta esses valores sonoros, caracteriza o Canto XLV como um “grande exorcismo da usura” e contextualiza, denunciando a privatização e controle do dinheiro por bancos, que por sua vez se tornam credores dos governos:

Assim, o que Pound está observando é que todo o sistema monetário, o sistema bancário, é uma alucinação, e ele está explicando a estrutura dessa alucinação e retroagindo historicamente, porque a estrutura muda em cada era da reforma bancária. […] A questão é que a franquia é comprada por um grupo de monopolistas privados; daí em diante eles possuem o negócio bancário, nesse sentido, pois pagaram um milhão ao governo e tem um milhão em seus porões, e subitamente, no papel, possuem dezoito milhões a mais do que o capital inicial.

Nem é preciso insistir na pertinência dessa análise; o quanto se aplica à crise econômica em curso, decorrente da condução de políticas econômicas por bancos e da especulação desenfreada. Poderia constar em artigos escritos de 2008 até hoje.

Outro exemplo da sintonia fina em análises políticas está em Indian Journals, o diário de sua estada na Índia por mais de um ano, de março de 1962 a maio de 1963. No meio de poemas, reflexões sobre criação poética, registros de leituras, relatos de alucinações e efeitos de drogas, descrições do que via no período em que, junto com Peter Orlowski, levou vida de saddhu, monge mendicante, acrescentou um recorte de jornal. É um artigo intitulado “A classe privilegiada”, denunciando que “1% dos lares do país possuem nada menos que 75% dos bens privados”. Assim argumentou que a estatização, a economia fechada e o monopólio bancário geram corrupção e acentuam a concentração de renda – também algo evidente hoje, à luz das melhoras do quadro econômico daquele país.

Ainda sobre os bons insights políticos de Ginsberg, seu exame, também precursor, do tema das drogas, tal como exposto na série de palestras-diálogos de Allen Verbatim intitulada “Political Opium” (ópio político). Nelas, ao caracterizar o tráfico de drogas como flagelo urbano, argumentou tratar-se de resultado da proibição . Focalizou especialmente o Harrison Act de 1920, que baniu o ópio e derivados, e criminalizou seus usuários – invariavelmente, conduzindo à colaboração entre policiais e crime organizado, além de desviar recursos do que realmente interessaria, pesquisas e políticas de saúde pública em favor de viciados, obrigando-os a ter nos traficantes seus únicos interlocutores.

Apontar economias fechadas e burocratização como fonte de corrupção; proclamar que a transferência das decisões de política econômica para os bancos levaria ao desastre; insistir em que a criminalização do uso de drogas fortalece o crime organizado; tomar a defesa da diversidade sexual e cultural como crítica ao ‘socialismo real’: aí estão tópicos de uma agenda que deixou de ser exclusiva de seguidores ou continuadores da Geração Beat. No entanto, Ginsberg formulou esse tipo de crítica em 1962 (relativamente às economias fechadas), 1965 (sobre Cuba), 1970 (contra a criminalização de drogados) e 1971 (sobre os bancos e a especulação financeira). Pode-se, por isso, caracterizá-lo como um lúcido analista político.

Em outras intervenções, Ginsberg foi igualmente precursor, nas manifestações pacifistas, na defesa incondicional da liberdade de expressão, do multiculturalismo, da tolerância e respeito à diferença.

Tudo isso, hoje em dia, é agenda de setores amplos da sociedade e de um diversificado elenco de personalidades públicas; mas eram temas minoritários, alguns vistos como excêntricos, quando apresentados por Ginsberg; e também, em inúmeras ocasiões, por McClure, Ferlinghetti, Snyder, Di Prima, Waldman e outros beats.

O registro dessas manifestações corrige um estereótipo relativo ao místico, como alguém isolado e alheio ao mundo. Passar metade do ano recluso, em meditação (na época em que o traduzi), e a outra metade dedicando-se a uma intensa atuação pública chega a ser uma metáfora da harmonia desses dois campos, misticismo e política.”

Os índios brasileiros e as declarações do novo Ministro da Justiça

(índios Kalapalo fotografados por mim em 1967 no Parque do Xingu)

Estas declarações, de que “terra não enche barriga”, etc:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865209-ministro-da-justica-critica-indios-e-diz-que-terra-nao-enche-barriga.shtml?cmpid=compfb

Há um equívoco no modo como a questão vem sendo abordada por representantes do agronegócio e de toda sorte de invasores. Não se trata apenas de defender “terras”, porém os direitos de índios serem índios. Há um inestimável patrimônio simbólico, imaterial, em jogo. Já havia citado esta passagem de Octavio Paz, aqui, neste blog:

[…] é preciso defender as sociedades tradicionais se quisermos defender a diversidade. Todos vemos que isso é dificílimo, mas a outra possibilidade é sombria: uma derrocada geral da civilização, diante da qual o fim do mundo antigo, entre os séculos V e VII, teria sido apenas um modesto “ensaio geral” do desastre. Dessa perspectiva, a preservação da pluralidade e das diferenças dos grupos e indivíduos é uma defesa preventiva. A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro. A história havia sido, até agora, plural: diversas visões do homem, cada qual com uma visão distinta de seu passado e de seu futuro. Preservar essa diversidade é preservar a pluralidade de futuros, isto é, a vida mesma.

É claro que observações dessa ordem não sensibilizam aqueles que buscam revanche depois de haverem sido obrigados a devolver aos Pataxós as terras no entorno do monte Pascoal que haviam invadido em 1979; as dos Xavantes, da antiga Fazenda Liquigás ao lado do Parque do Xingu, também na década de 1970; que tiveram que desistir de acabar com os Yanomami (nota de rodapé: até onde sei, esse conspícuo Romero Jucá teve participação importante em um grande massacre desses índios por garimpeiros, em 1993); que, mais recentemente, viram o STF sancionar a criação da terra indígena Raposa Serra do Sol. Quem tem uma visão da sociedade como algo análogo à uniformidade de suas plantações de soja e pastagens continuará incapaz de associar diversidade ambiental e humana à riqueza, ou, ao menos, a um futuro menos desolador.

Uma apresentação de Piazzas de Roberto Piva e do meu Anotações para um Apocalipse

Escrita por José Paulo Vieira da Cunha, grande amigo nosso, extraordinário erudito (como podem ver pelo texto a seguir) e parceiro em vários episódios. Distribuído em folha solta para o lançamento dos dois livros – no Barroquinho na Galeria Metrópole, também teve uma banda musical, barril de 100 litros de vinho e uma quantidade de gente que me surpreendeu. Final de outubro de 1964. Transcrito agora por Guilherme Ziggy, como parte dos trabalhos de organização da Biblioteca Roberto Piva:

EM PROL DA NOVA METAMORFOSE

“Sob o sol ardente fundem-se as neves do Himalaia” (1964)

Tempos novos exigem obras novas. Mas o que querem os novos? Povoar naacàlicamente os céus de Inquanok? Ou derrubar as almênares do Qalaat-ul-Hamrâ? Ou ainda provar que o governador do Estado de São Paulo é pederasta? Talvez tudo isto e mais a deglutição da hidra do farisaísmo e filistinismo para vomitar o esplendor novo de sóis azuis e amarelos e mais os frágeis planetas dos tempos longínquos e imemoriais. É o que fazem, como novos, Roberto Piva e Claudio Jorge Willer, nos livros ora apresentados, de uma maneira belíssima, nos seus contatos com uma realidade superior mística e aceitável e uma realidade vizinha e cotidiana que não aceitam e que desejariam ver destruída ou relegada à categoria de ruína. Opondo-se categoricamente a uma realidade inaceitável, constroem, talvez num movimento compensatório, uma estratificação especial onde predominam os valores do por-vir. Isto, entretanto, não significa uma fuga ou uma evasão fundada em motivos psíquicos. É uma reação natural e a única válida na época natural. A literatura, digamos assim, do romantismo para cá, inserida no âmbito de uma sociedade industrial, onde prevalecem o útil, o eficiente, o técnico, o científico, vem passando por transformações tão desmesuradas que só as suas captações constituem, de per sí, uma introdução geral à essência da nossa época. Frente ao espectro do niilismo, porque verdadeiramente o niilismo é o grande devorador da nossa época, a literatura reage de maneiras as mais variadas. Não cabe enumerá-las “hic et nunc”, mas fica o registro do fato. Dentro deste contexto, que dizer de Roberto Piva e Claudio Jorge Willer? Suas obras enquadram-se na situação apenas esboçada acima? Sem dúvida alguma, o que não quer dizer que suas obras sejam de transição, mas sim construções acabadas e destinadas a placentar a nova geração. Pedagógicas ou não, éticas ou não, são obras definitivas e válidas no contexto sempre mutável do momento que passa. Pelas suas obras perpassam o hálito de Nietzsche, Rimbaud, Desnos, Böehme, Lautréamont, Freud, Bosh, dos alquimistas, dos poetas loucos, enfim da imensa sucessão dos eternos ressuscitadores. Além do mais, como obras profundamente geracionais, os seus traços marcantes são um constante esforço de lucidez e conscientização da problemática da época atual, aliada a tomadas de contato com forças estranhíssimas, as quais, hoje sabemos, dirigem verdadeiramente os destinos da Arte. Há, ainda, nestas obras, conexões sutilíssimas para as quais chamamos a atenção. A tarefa de vislumbrar e captar tais conexões pertence por inteiro aos leitores realmente integrados na problemática da nossa época. Para resumir, nada melhor que citar uma frase de Heidegger, o pensador inquietante: “na comunicação e na luta, a força do destino comum liberta-se” (“Ser e Tempo”, pg. 397).

Roberto Piva, verdadeiro “cavaleiro do mundo delirante”, quer e exige a Metamorfose. Daí o seu grito, tanto mais lancinante quanto mais próximo está do núcleo de fogo das forças terríveis. Poeta de segundo livro, com seu “Paranóia” vivenciou o dito de Jean-Paul Richter: “os reinos terrificantes dos mundos em formação”, agora, com “Piazzas”, lança-se segundo suas próprias palavras, “numa contemplação além do bem e do mal” (“Post-fácio”). Claudio Jorge Willer, “entrepreneur et entreteneur des choses terribles”, clarividente de todas as horas, com seu “Anotações para um Apocalipse” arroja-se numa aventura irreversível: a de desafiar as potências demoníacas de que nos fala Blake, para que saiam a campo conduzindo o Himalaia, e o Hindu-Kush, e num supremo transporte de prazer, destruam o potencial larvar-impecilho ainda subsistente em nossas relações e possibilidades de comunicação. Ambos constituem uma ameaça terrível para a continuação dos tempos. Tomem nota. A sucessão endiabrada das insignificâncias do todo-o-dia tem neles os seus mais ferozes inimigos. Que se precavenha a Lei, porque em suas mãos transformar-se-á em Canto. A magia das coisas não ditas transforma-se no teoremas da incompatibilidades totais. Daí, ambos correm para o país das alucinações, e convidam-nos, com insistentes gestos de amizade, para a aventura histórica de abrirmos um significado maior no âmbito da existência plena. Acho que devemos aceitar o convite e o conteúdo das suas mensagens. Aqui estão eles, pois. Degluta-os os leitores. Amém.

JOSÉ PAULO VIEIRA DA CUNHA

O CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS E OUTROS TIPOS

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Após centenas de apresentações e participações, enxerguei uma tipologia:

  1. CONFERENCIATA DE COPO D’ÁGUA: Formal, protocolar (“sinto-me honrado” etc), fala pausadamente, mostra que sabe expressar-se, faz breve pausa para tomar três golinhos de água e prossegue – ainda hoje, em academias de letras e cenáculos afins.
  2. CONFERENCISTA POLÊMICO: Destrói o tema proposto em vez de expô-lo. Cognato do entrevistado polêmico, que vai questionando as perguntas que lhe são feitas em vez de respondê-las. Já encarnei. A última vez, setembro do ano passado, mesa sobre dadaísmo em Goiânia. Seria sobre “pós-história”, “pós-histórico”, algo assim, e minha simpatia por essa categoria é tão nula quanto pelo “pós-moderno” e “pós-modernidade”. Fui argumentando que dadá não é pós-histórico coisa nenhuma porque Tristan Tzara aderiu ao comunismo soviético, um determinismo histórico, relacionou dadá à Primeira Guerra Mundial e afirmou que surrealismo estava encerrado com o fim da Segunda Guerra Mundial (Breton foi à palestra dele de 1947 e deu um escândalo), etc. Na verdade, o tema era do meu companheiro de mesa, que o sustentou de modo adequado, e terminamos todos bem entendidos.
  3. CONFERENCISTA BALBUCIANTE, normalmente professor/a universitário/a ou aspirante a, hipnotizado pela tela do laptop, monocórdico, vai murmurando o que está na tela, entende-se com esforço. Variante do conferencista com a cara enfiada nas folhas do “paper”. Comum nos grandes eventos universitários em que apresentar qualquer coisa vale pontos no CAPES, prestigiados pela clientela dos certificados.
  4. CONFERENCISTA SALVADOR: nos mesmos eventos, brilhante, capaz de conferir credibilidade ao transmitir informação nessas ocasiões e através das subseqüentes publicações coletivas. Auditórios lotam e todos saem achando que compensou a viagem e o calor.
  5. CONFERENCISTA DERROTADO PELA TECNOLOGIA: aconteceu comigo no Festival Beat em São Paulo, em janeiro. Equipamento de data show do CCBB queimou. Palestra atrasou uma hora, improvisei sem as imagens selecionadas, ao final até que deu certo. Variante, o conferencista que esquece o pen drive em casa ou o perde na viagem – também já me aconteceu.
  6. CONFERENCISTA DE SANDÁLIAS – encarnei no Festival Beat do Rio de Janeiro no CCBB, palestra sobre Jack Kerouac (dia 11 de fevereiro – a boa foto é de Thereza Christina Rocque da Motta). Calor e platéia muito informal (houve quem viesse sem camisa e quem esmurrasse a porta por não haver mais lugar no auditório). O dramaturgo Plinio Marcos fazia esse tipo, em eventos menos informais. Entre outros , por volta de 1985 na Biblioteca Mário de Andrade, em uma sessão promovida pela UBE sobre mercado editorial ou algo assim. Enquanto o outro participante da mesa, um presidente da Câmara Brasileira do Livro, expunha, cruzou as pernas e ficou mexendo no dedão do pé direito, tirando cutícula, acho. Ninguém reparou no que o presidente da CBL dizia, todos olhavam Plinio Marcos a ocupar-se com seu dedão. Antes, em sua fala, havia insultado o presidente da CBL – injuriado por não permitirem que vendesse seus livros, feito um camelô, na Bienal do Livro. Coordenei a sessão (outro tipo, o coordenador impassível). Inesquecível (tanto é que me lembro).

TONINHO MENDES, ANTONIO DE SOUZA MENDES, 1954-2017

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Não fazia idéia do que fosse colaborar em uma publicação que tirava 100.000 exemplares, com distribuição nacional, dirigida preferencialmente aos jovens. Percebi mais tarde, pelas pessoas que me disseram que seu interesse por Geração Beat e contracultura havia sido despertado por minhas matérias em Chiclete com Banana: Joca Reiners Terrón, que a comprava ainda em Cuiabá, o também criador de quadrinhos João Pinheiro, entre outros.

O restante daquela revista é uma efusão única de criatividade e anarquia. Celebração frenética da liberdade em um Brasil recém-redemocratizado, finalmente livre da censura. Uma farra. Além do parceiro e amigo de infância Angeli com todos os Bob Cuspe, Mara Tara, Skrotinhos e Rebordosa, de Laerte, Glauco, Luis Gê e outros renovadores do humor brasileiro, havia Roberto Piva e as crônicas incendiárias (estão no Volume 3 de Obras Reunidas), Glauco Mattoso e seus elogios da perversão, Cacá Rosset com umas invenções incríveis, a musa Cristiane Tricerri, Guto Lacaz e mais invenções, integrantes da côterie de Toninho como Furio Lonza e Souzalopes. Ponto alto da sua contribuição como editor e artista gráfico, Chiclete com Banana durou pouco. Sem anunciantes, sem patrocinador, não era auto-sustentável, apesar da circulação extensa e dos leitores.

Como não havia dinheiro, Toninho propôs que cada colaboração minha valesse um convite para jantar. Nas duas primeiras, escolhi o Cantábrico, à rua Homem de Melo nas Perdizes. Encantou-se com as ostras, mandou vir bandejas. Na terceira, o Vikings do Maksoud Plaza: não se entusiasmou com os acepipes escandinavos, provou todos aqueles defumados com indiferença. Mas comer, para ele, era algo muito sério, desde as pirâmides de tudo sobre o prato no Chá Moon, quando trabalhava na Isto É ao lado, até, recentemente, no Caçador da Heitor Penteado, próximo de onde moro e ele morava, na Rua Bica de Pedra, fundão da Vila Pompéia ou começo da Lapa – sempre preferiu a Zona Oeste, visitei-o muito na casa-ateliê na Barão de Bananal.

Seu descomedimento – bebeu um bocado, entre outras fruições – parecia um índice de vitalidade, que nunca baixou nem baixaria: nada fazia prever o infarto fulminante que o levou. Nas ocasiões recentes em que o encontrei, enfrentava a crise brasileira com firmeza, encarando toda sorte de trampos, de frilas – algumas vezes, passou correndo para pegar o ônibus na Heitor, sem me ver – enquanto preparava novos projetos. No meu aniversário, queria-o em um jantar, mas não foi possível, pois ficou até tarde cuidando de um estande na Comic.Com. Conversamos na véspera do Natal, sentados no banco diante da frutaria da Rua Paulistânia – como sempre, rememorando e rindo. Comentou como se sentia bem aos 62 anos. Jogamos no bicho, prática na qual, filho de um bicheiro, era exímio – chegou a livrar-se de uma enrascada apostando o número de um prontuário policial e assim arrecadando a quantia de que precisava. Falou-me dos projetos: reedição e exposição da Confissão sobre o Tietê, novas mostras e coletâneas de suas realizações pela Circo Editorial, Peixe Grande e outras iniciativas. Consta-me que seu acervo está organizado. Se estivesse em órgão público ou instituição cultural forte, providenciava já uma mostra do que deixou. Tanta coisa, a série do Visconde da Casa Verde pela L&PM, as edições recentes recuperando o pornô e obsceno brasileiro.

Conheci-o através de Roberto Piva (de quem mais poderia ser?) em 1977 – apresentou-o em uma das leituras de poesia no calçadão da Itapetininga. Piva também o incentivou a ler e criar poesia, e prefaciou a Confissão sobre o Tietê. Poderia tê-lo conhecido na mesma época através de outro grande amigo, Marcos Faerman. Não obstante a forma como se desligou do jornal Versus, mais uma de suas criações gráficas – tirou a roupa, subiu peladão na mesa da reuniões para discursar contra a vinculação daquele jornal a uma corrente política –, continuaram amigos próximos, encontrando-se regularmente (acontecimentos subsequentes lhe dariam razão). Impressionava em Toninho esse modo de expressar opiniões e avaliações, de aprovação ou desaprovação, com absoluta clareza, sem meias medidas.

Provinha da Casa Verde. Fazia questão de apresentar-se como alguém da periferia. Da sua turma juvenil fizeram parte Angeli, outros cartunistas se não me falha (Glauco? Laerte?) e amigos que o acompanharam por toda a vida. Foi capaz de dialogar e relacionar-se igualmente com a marginalidade, o mundo alternativo e figuras da alta cultura e do empresariado. Convencia a todos pela honestidade.

Foi meu hóspede por alguns meses em 1980. Diagramava na Isto É, após o expediente ainda passava por outros lugares, mas conseguia chegar à Peixoto Gomide. Nós dois naquela revista, recortando e colando uma a uma as tiras de papel couchê – era assim que se fazia – dos poemas de Jardins da Provocação, para que ficassem na disposição gráfica do original. Adaptou-se bem, contudo, às mediações digitais. Sempre esteve à disposição, fez todos os panfletos e jornais de campanha de que precisei. Fiel aos amigos – como se empenhou pela recuperação do projeto gráfico original de Paranóia de Piva e Wesley Duke Lee, resultando na edição do Instituto Moreira Salles em 2000, por iniciativa de outro amigo, Antonio Fernando de Franceschi.

De todos os velórios a que compareci, este de hoje foi quando fiquei com a voz mais embargada, ao dizer algo para a filha e amigos. A expectativa de novas alegrias substituída pela sensação de um irreparável nunca mais.

 

Michele Morgan, Jean Grémillon, Jacques Prévert, surrealismo e cinema

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Aqui, Michèle Morgan, que acaba de falecer aos 96 anos, junto com Jean Gabin em ‘Remorques’ de Jean Grémillon, de 1941. Quando me chamarem para dar palestra sobre surrealismo e cinema, tratarei deste belo filme. Roteiro de Jacques Prévert. Assim como no anterior ‘Quai des brumes’ de Marcel Carné, de 1939, Prévert carrega nas tintas bretonianas, inspira-se em ‘L’amour fou’. Basta observar que o protagonista interpretado por Gabin – capitão de um rebocador, ‘remorque’, que resgata navios em perigo – se chama André e o filme se passa em Brest, na Bretanha. E isso foi criado por Prévert: ele refez um roteiro anterior, que não havia agradado a Grémillon.

Aliás, Carné foi realmente grande quando contou com Prévert, poeta extraordinário, como roteirista – também em ‘Les visiteurs du soir’ e no celebrado ‘Les enfants du paradis’. Tratarei disso quando etc.

As circunstâncias da realização de ‘Remorques’ – filmagens interrompidas pela guerra, em 1941 rodaram mais algumas cenas, foram montando o que era possível, do jeito como dava, meio clandestinamente – tornam o filme ainda mais surrealista, com seu desfecho abrupto. Grémillon, realizador de um filme sobre a Comuna de Paris, foi boicotado, parece-me, e deixou poucas obras. A recuperar.

O filme completo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UC7rKVRLuyc

(esta foto, em especial, me dá a impressão de situar-se em alguma praia em que estive ou constituir-se em cena que vivi)