A coletânea Rebelados da Cultura: Revoltas e Antropolíticas

Fui publicado em uma coletânea especialmente importante e atraente, “Rebelados da cultura: Revoltas e Antropolíticas”, organizada por Alex Galeno, Fagner Torres e Lucas Fortunato. Por enquanto, só através de kindle/Amazon.

Rebelados da Cultura: Revoltas e Antropolíticas (Revolta e Cultura Livro 1) https://www.amazon.com.br/dp/B08H9W1WHQ/ref=cm_sw_r_other_apa_OoIwFbQN8JP92

Informam os organizadores:

Depois de bastante trabalho, é com muita satisfação que comunicamos o lançamento do primeiro volume do livro Rebelados da Cultura: Revoltas e Antropolíticas, projeto desenvolvido em parceria com a Caravela Selo Cultural e Selo Marginália, por meio da coleção Revolta e Cultura. Devido à grande adesão d@s colegas ao projeto, decidimos dividir os livros por temáticas e em três volumes, chamados de Trilogia da Revolta. A decisão triplicou  os custos da publicação, levando em conta a organização, edição e tradução de alguns textos, inteiramente custeada pelos organizadores, sem qualquer recurso de outra ordem. Os livros sairiam inicialmente em suporte físico, mas por causa da Pandemia fomos obrigados a alterar os planos. Lançaremos os volumes em formato e-book e trabalharemos para viabilizar a trilogia impressa para o próximo ano. Enquanto isso, a versão digital do livro agiliza o processo de distribuição da obra, contornando a questão da crise sanitária. O segundo volume deverá sair dentro de 6 meses, e o terceiro, em 1 ano. A decisão de publicação em formato digital pela Amazon resolve inicialmente as questões de divulgação e distribuição da obra em âmbitos nacional e internacional. Para quem desejar uma cópia digital, por gentileza, envie sua solicitação que retornaremos com o link de acesso à íntegra do livro digital. Quem não possuir o dispositivo kindle pode baixar o aplicativo para PC. 

Mais uma vez, gostaríamos de agradecer a todos os autores e todas as autoras que dispuseram de seu tempo e do seu trabalho para contribuírem com este belo e necessário projeto. 

Vejam o índice:

PREFÁCIO 6

APRESENTAÇÃO 7

ENTREVISTAS 11

“Seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre” 12

uma entrevista com Edgar Morin

Úrsula Passos

Por uma ciência mais Antígona e menos Creonte 18

Fagner França

Arte, Tecnologia e Resistência 36

Entrevista com Steve Kurtz – Critical Art Ensemble

Lucas Fortunato

Cláudio Willer: poeta rebelde 45

Alex Galeno, Fagner França

ENSAIOS 50

Genealogia da Revolta 51

Lucas Fortunato, Alex Galeno

Breviário da revolta 73

Edgard de Assis Carvalho

A primavera dos povos 89

Michel Maffesoli

A mística de Orides Fontela: 105

revolta e selvageria

Gustavo Castro

Revolta e anarquia 117

Edson Passetti

As lutas anarquistas no presente entre a utopia e as heterotopias 127

Acácio Augusto

Imagino, logo existo! 142

– Existir e resistir na imaginação, ou o Coringa nosso de cada dia…

Alípio De Sousa Filho

Álvaro Guimarães 165

As transas contraculturais de um encenador

Raimundo Matos de Leão

Artivismos e Insurgências em Performance 180

Felipe Henrique Monteiro Oliveira

Resistências: 185

as guerras de Antonin Artaud

Florence de Mèredieu

“Existe algo que destrói meu pensamento”: 194

cartas imaginadas entre Ana K. e A. Artaud

Ana Kiffer

Carta para Michel Foucault 207

Tony Hara

Bartleby – um resto de naufrágio resiste no mar 216

Rosanne Bezerra de Araújo

Loucos, santos e chapados 229

(literatura como revolta)

Pablo Capistrano

Direitos dos Robôs, ou Pensar o Impensável 242

David J. Gunkel

Um certo estado de furor 249

Camille Dumoulié

Gestos de revolta feminina 258

Florence Dravet

UMA NOVA OFICINA LITERÁRIA

certificado Rimbaud 1

(ilustração é do ano passado: distribuindo certificados de um curso sobre Rimbaud, organizado por Matheus Chiaratti / Arte/Passagem)

AGORA, NO MEIO DIGITAL. A seguir, depoimento sobre oficinas, programa da próxima, instruções de como inscrever-se, depoimentos de quem participou de oficinas anteriores:

SOBRE OFICINAS LITERÁRIAS

Minha primeira participação em uma oficina de criação literária foi em 1987, na Biblioteca Mário de Andrade, convidado pela poeta Eunice Arruda. Meu tema: surrealismo e imagens poéticas. Passei a coordenar oficinas regularmente a partir de 2002. Inicialmente, na Casa da Palavra, em Santo André. Foram quatro anos consecutivos; isso, a pedido de participantes. Poetas e prosadores foram estimulados a escrever mais e a publicar: José Geraldo Neres, Edson Bueno de Camargo, Vanessa Molnar, entre outros.

Naquelas oficinas e nas que coordenei subsequentemente – em unidades do SESC, na USP, UFSCar, mais recentemente no Ed.Lab – constatei o quanto a criação se confunde com a leitura; a ligação entre escrever algo original e enxergar mais em um texto, captar mais sentidos em obras literárias. A oficina de criação e a roda de leitura, desenvolvimento da criatividade e da sensibilidade, se confundem. Leituras se harmonizam com o exame do que é trazido pelos participantes. E o autor / participante pode atuar como leitor crítico, com um duplo benefício: para sua escrita, e para aquela de quem foi lido e comentado.

De tudo isso resultou, em várias ocasiões, o que chamo de “efeito oficina”. É quando a criação de um participante dá um salto; adquire, digamos assim,  fisionomia própria; constitui-se uma identidade literária. Vários dos meus “oficineiros”, como os denomino, poderão atestar. E, principalmente, mostrar as publicações nas quais estão presentes rastros dessa experiência. Outra consequência importante foi romper bloqueios: participantes que não estavam mais escrevendo poesia retomaram essa modalidade de criação.

O trabalho presencial tem atrativos; o contato pessoal pode ser enriquecedor. Mas, nesta próxima oficina, nos beneficiaremos com o trabalho no meio digital, pelo modo remoto. Pode ser mais confortável; abre oficinas para quem teria dificuldades para comparecer pessoalmente. Dará condições para intercâmbio, troca de textos e informações.

Na última oficina, partindo de meu tema mais forte, as imagens poéticas, cheguei até os haicais e seu precursor, a poesia chinesa da dinastia T’ang, um milênio antes. Poetas da natureza. Pretendia, se houvesse continuidade, focalizar o Brasil como tema ou substância de poemas. Examinar Poemas negros de Jorge de Lima, por exemplo? Talvez. São possibilidades. Há outras. Chegar à poesia puramente sonora, feita de glossolalias? Confrontar cantos arcaicos / xamanismo e poesia contemporânea, como o faz Herberto Helder em Magias? O grupo, o conjunto de “oficineiros”, dirá. Mostrarão o caminho a seguir”.

A PROGRAMAÇÃO: CRIAÇÃO, LEITURA E OFICINAS LITERÁRIAS

A finalidade da oficina será estimular a criação literária, examinar sua relação com a leitura e expor metodologias e procedimentos. Interessará a poetas, e também a prosadores; a estudantes de Letras e áreas afins; a leitores em geral. Será obtido um melhor relacionamento com o texto literário e com a própria linguagem. Combinará procedimentos de duas modalidades de oficina: aquelas voltadas especificamente para a criação, e outras focalizando a leitura. Já foram alcançados resultados expressivos: participantes de oficinas já tiveram obras não apenas publicadas, porém premiadas e reconhecidas pela crítica.

2         Conteúdo

  • O valor: o que permite que um texto literário seja considerado “bom”?
  • A imagem poética;
  • Poesia e prosa; a poesia na prosa;
  • Modalidades de criação; “inspiração” versus “trabalho”;
  • Criação e leitura: a relação da criação original com a leitura de outras obras;
  • A poesia e o poético; literatura e vida; poesia, linguagem e realidade.
  1. Procedimento: Oficinas literárias são um trabalho coletivo. Seu coordenador não é neutro: avalia, sugere, recomenda leituras. Contudo, não deve impor seus valores e referencial poético. Parte da oficina será mais expositiva; em outra, textos dos participantes serão examinados, em um trabalho coletivo. Poderão ser propostos outros temas e exercícios. Serão recomendadas leituras. Entre outras, O Arco e a Lira, de Octavio Paz, obra básica para tratar de valores poéticos e da criação poética.

ONDE, COMO E QUANDO:

– 8 sessões com 2 horas de duração cada (16 horas/aula ao todo)
– De 20/08/2020 até 15/10/2020 (às quintas-feiras)
– Sempre das 20 às 22 horas
– Ao vivo, no Google Meets (os links serão enviados aos participantes um dia antes de cada aula, por e-mail)

– Investimento: R$ 550,00 (Quinhentos e Cinquenta Reais) à vista ou em até 12X no cartão de crédito.

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COMO SE INSCREVER:

            Faça o pagamento pelo PagSeguro https://pag.ae/7WfXxmLKp e nos envie o comprovante + seus dados (nome completo, RG, e-mail e telefone) por e-mail: willer.cursos@gmail.com  

Você receberá a confirmação da inscrição por e-mail em até 1 dia útil. Nosso meio de comunicação será sempre por aqui! Quem vai te responder é o Ikaro Max.

IMPORTANTE: Só receberemos inscrições até 17/08/2020!

OBSERVAÇÕES:

*As oficinas serão ministradas ao vivo e não ficarão gravadas!
** Por conta da dinâmica do curso, não poderemos repor faltas.
*** Você pode desistir do curso até a terceira aula. Neste caso, estornaremos 40% do valor investido (via PagSeguro). Desistências a partir da quarta aula não serão reembolsadas.
**** Para melhor aproveitamento, o grupo deverá ter, no máximo, 20 pessoas. Se o interesse por inscrições exceder esse número, iniciaremos uma lista de espera para formação de uma nova turma, sempre por ordem de chegada. Avisaremos por e-mail!

SOBRE:  Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde, ao surrealismo e geração beat. Livros recentes: Escritos de Antonin Artaud – nova edição, revista; organizador e tradutor (L&PM, 2019); Dias ácidos, noites lisérgicas – relatos (Córrego, 2019); Extrañas experiencias – poesia 1964-2004 (tradução de Thiago Pimentel, Nulú Bonsai, Buenos Aires, 2018); A verdadeira história do século 20, poesia (Córrego, São Paulo, 2016; Apenas Livros, Lisboa, 2015); Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, ensaio (L&PM, 2014); Manifestos, 1964-2010, (Azougue, 2013), Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (Civilização Brasileira, 2010); Geração Beat (L&PM Pocket, 2009); Poemas para leer en voz alta (tradução de Eva Schnell, Andrómeda, San José, Costa Rica, 2007); Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004). Traduziu Lautréamont, Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Antonin Artaud, Bukowsky, Aimé Césaire, entre outros. Publicado em  antologias e periódicos no Brasil e em outros países. Presidiu a UBE, União Brasileira de Escritores, em vários mandatos. Doutor em Letras pela USP, onde completou pós-doutorado. Deu cursos, palestras, coordenou oficinas literárias e outras atividades em uma diversidade de instituições culturais.

ALGUNS DEPOIMENTOS DE QUEM JÁ PARTICIPOU DE OFICINAS:

            “Fiz a primeira oficina literária com Claudio Willer em 2011. Seguiram-se a essa tantas outras. Seu modo de ler e pensar poesia teve a potência de um reator atômico em minha cabeça, dada sua particularidade e riqueza. Não tenho dúvidas de que esse encontro com Willer mudou completamente meu modo de pensar e criar poesia. Sempre que posso, o ouço – um parque de diversões na mente!” – Diogo Cardoso

            “Uma experiência pra sair do lugar. Deixar de apenas colher a poesia do mundo para injetá-la onde você quiser!” – Jeanine Will/ Caminhão de Mudanças

            “Academia e magia das palavras. Palestra de pontas de garfo.” – Benedito Bérgamo

            “Willer, suas oficinas fazem renascer a criação poética. Incentivam leituras. Despertam ideias para novos livros. Trazem as palavras certas para os poemas. Seu método de trabalho é muito importante para os novos escritores. Prossiga, sempre com nosso apoio.” – José Antonio Gonçalves

            “Uma oficina literária é sempre uma aposta: o participante se coloca corajosamente na posição de quem escreve. Uma oficina conduzida por Claudio Willer está à altura das grandes apostas: Willer fala de literatura como poeta que é, não se detém em amenidades e opera com as forças da melhor e menos óbvia poesia. Ao fazer uma oficina com Claudio Willer, tenha uma certeza: coisas acontecerão.”  – Wilson Alves-Bezerra

             “Participar das oficinas de criação literária ministradas por Claudio Willer, me abriu horizontes e uma enorme gama de autores brasileiros e da literatura mundial para reforçar minhas leituras, e visão crítica da escrita. Pensar novos diálogos e me descobrir capaz de alcançar novos voos. Sou grato por revelar caminhos, e de apoiar cada participante a buscar o melhor de si e de seu processo criativo.” José Geraldo Neres

            “Na tarde de 16 de junho de 1997, escrevi os 22 poemas de ‘Lilases’, durante três horas e meia, tomando os primeiros versos de cada poema de ‘A Terra Devastada’, de T.S. Eliot, como resultado de um exercício, depois do término da oficina poética realizada por Claudio Willer, em São Paulo, entre março e junho de 1997. O poema, em uma tradução portuguesa, fora lido na festa de encerramento, na véspera, pelos alunos, a quem também dediquei o livro. A minha participação, a convite de Willer, foi para ‘aumentar o coeficiente de poetas’, uma vez que os demais participantes eram contistas, mas queriam fazer uma oficina de poesia. Eu estava passando por um período de retorno à escrita, e a oficina poética foi fundamental para tomar esse novo impulso. Voltei a escrever e não parei mais, depois de um lapso de 13 anos sem publicar, entre 1982 e 1995. Lanço agora a minha ‘Poesia Reunida’, com a produção dos últimos 40 anos (1980-2020), e uma das pedras fundamentais foi o incentivo que recebi de Willer, que prefaciou meu primeiro livro individual, em 1982, ‘Joio & trigo’. Sem ele, nada disso teria sido possível. Nem a primeira, nem a segunda fase da minha escrita poética, que se estende até hoje, com 20 livros publicados.”  – Thereza Christina Rocque da Motta

Conheci Claudio Willer antes de me dar conta de que se tratava de Claudio Willer. Na biblioteca da escola, quando estava no primeiro ou segundo colegial, deparei-me com um livro de capa roxa, bastante singular, chamado “Cantos de Maldoror” e “Poesias”. Li aquilo e foi um choque. Anos depois, na faculdade, deparei-me novamente com o livro numa barraca de usados. Comprei. Conheci logo depois outro grande amigo e poeta, Paulo Ortiz, que então avisou: Willer vai dar uma palestra sobre Herberto Helder na USP! Fomos – levei o Maldoror e Willer, ao tomar em mãos para autografar, exclamou seu característico “UM LEITOR!”. Desde esse dia, foram palestras e oficinas – “A criação poética”, “A natureza e algusn poetas”, “Poetas da natureza e o Sagrado”, “Magia e Criação Poética”, “Os Rebeldes – Geração Beat e Anarquismo Místico”, “Barroco e Surrealismo”… oficinas e palestras que aconteciam e faziam coisas estranhas acontecerem, que traziam consigo novos amigos, livros, experiências singulares e por vezes sobrenaturais. Tudo isso para dizer que Willer fez parte de uma formação paralela à que eu tinha na academia – um conhecimento mais profundo e mágico, que só os grandes poetas são capazes de ministrar e partilhar. Ouvir de sua voz cavernosa o seu outro característico bordão: “PUBLIQUE!” é uma das grandes honras que pude receber ao longo desse período de formação – que continua até hoje. – Elvio Gonçalves Fernandes Junior

 

 

O 30º Festival de Poesia de Medellín

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Abre amanhã, dia 01 de agosto, sábado. Segue até 10 de outubro. Com 180 poetas. Desta vez, no modo remoto, digital, com acesso através de festivaldepoesiademedellin.org

Programação completa, aqui: https://www.festivaldepoesiademedellin.org/es/Festival/30/Programacion/ Aqui, ficha dos participantes: https://www.festivaldepoesiademedellin.org/es/Festival/30/Invitados/ Como podem ver, estarei em excelente companhia.

Começa às 11 h da manhã, horário colombiano, 13 h, pelo horário brasileiro. Representando o Brasil, estou nessaa abertura, às 14h50, horário brasileiro.

Já havia participado da edição de 2010 desse Festival. Impressionou-me. Cem poetas, cem apresentações, em grupos ou individuais, em uma diversidade de lugares: bibliotecas e outros espaços culturais, e em outras localidades colombianas (como se chama aquela cidadezinha no meio das montanhas, onde após a apresentação nos serviram um delicioso peixe na chapa? Achei: Marinillas! No meio das montanhas, passeio belíssimo). Apresentação-solo, na Casa del Encontro do Museu de Antióquia, ou seja, rodeado por obras de Botero. Sempre com um público atento (é o que mais importa). Apresentação final, coletiva, no teatro ao ar livre no Cerro Nutibara, anfiteatro na enconsta de uma montanhya, milhares de pessoas, mais transmissão pela TV.

E com a subsequente publicação com traduções para o inglês e espanhol na Revista de Poesía Prometeo – Memoria del XX Festival Internacional de Poesía de Medellín, número 86-87, ano XXVIII, 2010, Medellín, Colômbia.

Tudo isso, resultado da persistência do poeta Fernando Rendón, organizador, e de seus colaboradores.

Esse festival faz parte de um crescimento das políticas culturais colombianas, especialmente em Medellín, que, de cidade estigmatizada pela violência, imprensada entre cartéis e grupos de luta armada, passou a exemplo de superação desses problemas.

É assim que se faz. E, embora tenhamos (tivéssemos) uma boa agenda de eventos literários, faz falta assim no Brasil. Quando…???

BILHETE PARA O BIVAR, de Roberto Piva

©twjonas

Soube há pouco que Antonio Bivar se foi. COVID. Poema do Piva para ele, de Estranhos sinais de Saturno, desgraçadamente atual. Foto de tw jonas, abril do ano passado, após mesa sobre contracultura e lançamento de Dias ácidos, noites lisérgicas.

BILHETE PARA O BIVAR

hoje é o dia que os
anjos descem nas
catacumbas de cimento
sem o aviso das
máquinas de empacotar
sem saltar sobre
caramanchões de poluição
disseminando comportamento
de Lacaio
é o momento do
último homem
o que dura mais
tempo
é o tempo do crime
& sua prova
a caveira que ri
na noite vermelha
a explosão demográfica
& a fome a galope
é o Sol mudo a
Lua paralítica
Drácula janta na
Esquina

E para que ser poeta
em tempos de penúria? Exclama
Hölderlin adoidado
assassinos travestidos em folhagens
hordas de psicopatas
atirados nas praças
enquanto os últimos
poetas
perambulam na noite
acolchoada

Dez anos sem Roberto Piva: 25 de setembro de 1937 – 3 de julho de 2010

willer

A foto é de uma palestra sobre Paranoia de Piva no MIS em 2016, examinando a relação entre os poemas e as imagens por Wesley Duke Lee. Outra palestra dessas, sobre o mesmo tema, na Tapera Taperá, está preservada, com vídeo disponível. Havia um convite para dar curso sobre Piva agora, neste meio de ano, que infelizmente rodou, por causa da pandemia.

A relação de dissertações e teses sobre Piva que organizamos para a Biblioteca Roberto Piva: https://bibliotecarobertopiva.wordpress.com/dissertacoes-e-teses/ . É um dos indícios – o principal, evidentemente, são os leitores – de como, à margem por décadas, agora é o poeta mais influente de sua geração.

Além dos três volumes da Obra Reunida pela Globo Livros, e da reedição de Paranoia pelo Instituto Moreira Salles, o leitor encontrará a coletânea de entrevistas Encontros – Roberto Piva pela Azougue e os inéditos de Antropofagias e outros escritos pela Córrego.  Aguarda-se a publicação de Corações de Hot-dog, do qual já publiquei algo neste blog.

Três ensaios em Academia.edu:

https://www.academia.edu/20566138/ROBERTO_PIVA_E_A_POESIA

https://www.academia.edu/20798539/ROBERTO_PIVA_E_O_SURREALISMO

https://www.academia.edu/21072084/ROBERTO_PIVA_POETA_DO_CORPO

Voltarei ao assunto – deu vontade de publicar mais. Quanto ao curso, fazer, usando os recursos de webcam. Na palestra de segunda feira passada sobre Alfred Jarry, tudo funcionou bem. Retomar.

 

 

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Nova palestra sobre Alfred Jarry e o Doutor Faustroll

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Pelo Google Meet. Informam os organizadores:

Quando e onde: 29/06/2020 – Segunda Feira – das 18h às 19h30 na sua Casa

Com Claudio Willer (escritor e tradutor) e João Andreazzi (diretor artístico e coreógrafo).

O texto “Os dias e as noites e Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico” Uma Novela Neo-Cientifica,  de Alfred Jarry , que escreveu seus primeiros fragmentos em maio de  1895, no Mercure de France,   recentemente traduzido para o português por Eclair Antonio Almeida Filho, que por indicação de Claudio Willer, convidou em 2014 a Corpos Nômades a fazer uma montagem inspirada nessa novela.

Embora mais conhecido como o criador da peça Ubu Rei, Alfred Jarry é um autor extremamente complexo. Ubu Rei um fragmento de uma obra colossal: são 4.500 páginas, em três volumes da coleção Pléiade. Inclui narrativas como Le sûrmale (O supermacho), Os dias e as noites e Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico. Nesta, apresenta os fundamentos da Patafísica, “ciência das soluções imaginárias”, dedicada ao estudo do particular e dos epifenômenos.

Fascinado pela ciência, assim como por hermetismo e ocultismo, antecipou as representações do Universo e do mundo sub-atômico concebidas por Einstein, Max Plank e Heisenberg. Chegou a transpor noções de física atômica e eletromagnetismo para a linguagem: palavras seriam objetos com propriedades eletromagnéticas, atraídas ou repelidas.

Antecipou a noção futurista de “palavras em liberdade” (Marinetti o traduziria para o italiano, já em 1909), bem como a concepção surrealista expressa no título da primeira obra de escrita automática, Les champs magnètiquesOs campos magnéticos, de 1919. Personagem de si mesmo, levou, como observa o ensaísta Roger Shattuck, a fusão de poesia e vida até o limite da autodestruição.

“Este projeto foi realizado com o apoio do Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura”.

Data: 29/06/2020 segunda das 18h às 19h30.

Público Alvo: escritores, poetas, artistas das artes cênicas, estudantes e as pessoas interessadas no tema.

Local: na sua casa, plataforma da Oficina Cultural Oswald de Andrade (Poiesis).

Inscrições: através da Plataforma Digital poiesis.org.br/maiscultura, link: http://poiesis.org.br/maiscultura/oficinas_culturais/alfred-jarry-criador-do-patafisico-dr-faustroll/

Vagas: limitada à capacidade da plataforma digital, junto ao Google Meet.

Faixa Etária: acima de 18 anos.

A Cinemateca Brasileira: como reagir à destruição das nossas políticas culturais públicas

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A Cinemateca Brasileira foi agregada ao então Ministério da Educação e Cultura, MEC, em 1977. Era então presidida pela escritora Lygia Fagundes Telles. Seu companheiro, o crítico e estudioso de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, acabara de falecer: o fundador e dirigente da Cinemateca  junto com outro personagem extraordinário, Francisco Luiz de Almeida Salles. Do trabalho desenvolvido desde então, destaco a digitalização de obras cinematográficas.

Em 1977… Durante o regime militar, no governo Geisel… Lygia tratou da salvação da Cinemateca com a então titular da pasta, Esther de Figueiredo Ferraz, ex-reitora do Mackenzie (expulsou dois amigos meus do último ano de Arquitetura em 1989, com base na infame Lei 477).

O informe ilustra a dupla face do regime militar. De um lado, implacável censura. Por exemplo – entre milhares de exemplos – qualquer coisa de Plínio Marcos era proibida, e Chico Buarque foi obrigado a adotar um pseudônimo. De outro, criação e ampliação de órgãos culturais públicos; alguns, como o IPHAN e INL, que vinham desde o governo de Getúlio Vargas, na gestão de Gustavo Capanema.

O governo Bolsonaro  vai além do regime militar que vigorou de 1964 a 1985. Censurar não pode, pois a Constituição impede: limita-se a alimentar seus veículos de propaganda de um fascismo rasteiro. Mas está liquidando as políticas culturais públicas existentes. Desencadeia sua “guerra cultural” – conforme proposta por seus ideólogos – através de uma estratégia de terra arrasada. Um dos exemplos, esta supressão de recursos para a Cinemateca.

A Constituição estabelece algumas obrigações do governo com relação à cultura. Fiz parte, inclusive, do grupo de representantes de entidades culturais que apresentou propostas aprovadas e incorporadas à Carta Magna.

Não sou advogado, mas tenho alguma experiência em  políticas culturais e sua legislação. Acho que, além das manifestações de protesto, é possível – necessário, talvez? – entrar com medidas judiciais para frear essa destruição. Isso vale para o caso da Cinemateca, para as enormidades de Sergio Camargo na Fundação Palmares e outras barbaridades – inclusive aquelas contra os “indígenas” abominados pelo atual (ainda) titular da Educação. Transcrevo, da nossa Constituição. Parece-me claro, evidente:

Título VIII
Da Ordem Social

Capítulo III
Da Educação, da Cultura e do Desporto

Seção II
Da Cultura

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

    § 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

    § 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

    § 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:

        I –  defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;

        II –  produção, promoção e difusão de bens culturais;

        III –  formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;

        IV –  democratização do acesso aos bens de cultura;

        V –  valorização da diversidade étnica e regional.

Filmes à margem, 16: Myiamoto Musashi

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Ou ‘Trilogia samurai’ Na versão em três episódios, realizados entre 1954 e 1956, por Hiroshi Inagaki, com Toshiro Mifune, Takakura Ken e Mariko Okada. Baseada no romance Musashi, por Eiji Yoshikawa. Música de Ikuma Dan. Fotografia de Jun Yasumoto.

E viva o esteticismo. Sim – a versão subsequente sobre o lendário samurai, por Tomu Uchida, é superior. E sim – os samurais de Hakira Kurosawa são mais próximos de seres humanos, mais distantes da mera estetização da violência. Aliás, tudo em Kurosawa é superior – quantas vezes assisti a Ran (oito vezes?) ou Kagemusha? Evidentemente, a realidade samurai – digamos assim – após a centralização do poder e derrocada do feudalismo é retratada  de modo mais fiel em Seppuku / Haraquiri de Masaki Kobayashi. E também em Kagemusha de Kurosawa: belíssimo, mas retratando a derrocada de um bando de idiotas sanguinolentos.

No entanto, como esta versão de Inagaki é bonita. Que fotografia. Que luminosidade do Eastancolor deles. Que direção segura. A música com acordes wagnerianos, grandiloquente, mas na medida certa. Cada cena, cada enquadramento são obras de arte. Expressão de uma inigualável sensibilidade visual e um extremo apuro estético no cinema japonês.  Sabiam usar lentes e câmeras. Especialistas falam em “profundidade de campo”. Fez escola. Uma fonte na qual tantos cineastas dos Estados Unidos e outras nacionalidades beberam.

Inagaki ganhou um Oscar de filme estrangeiro por este Myiamoto Musashi. Mais tarde, um prêmio em Cannes por O homem do Riquixá, enorme sucesso. Com a crise dos estúdios japoneses, entrou em depressão, saiu de cena, parou.

Vejam – e imaginem o que é perambular pelo bairro da Liberdade em 1959, entrar no Cine Niterói para conhecer, saber o que havia, e deparar-se com isso.

Filmes à margem, 15: Les liaisons dangereuses / As ligações perigosas

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Não é a versão – excelente – da narrativa pseudo-epistolar de Choderlos de Laclos por Stephen Frears, de 1988, com aquele requinte todo e as atuações marcantes de John Malkowich, Glenn Close e Michelle Pfeiffer – por sua vez, eclipsando outra adaptação, por Milos Forman, lançada simultaneamente. Porém aquela de 1959, criada / dirigida por Roger Vadim – e passando na contemporaneidade, na época da filmagem. Com Gérard Philipe (que morreria antes do lançamento do filme, de câncer no fígado, aos 36 anos), Jeanne Moreau, Annette Vadim, Jean-Louis Trintignant – e, em um papel menor, o escritor Boris Vian. Música de Duke Jordan, Art Blakey e The Jazz Messengers, executada por Thelonius Monk.

Deu escândalo (motivo para aprecia-lo): houve tentativas de censura e restrições à circulação, especialmente nos Estados Unidos. Como deixaram passar no Brasil, entenda-se (aqui, na mesma época tiraram de cartaz Les amants / Os amantes de Louis Malle, também protagonizado por Jeanne Moreau). Sexo à vontade e alguma nudez , porém de modo fiel ao espírito do livro. Transporem para o então presente, teria incomodado? Libertinagem podia, mas no século XVIII?

Vadim foi um diretor importante, embora desigual, oscilante. Sua contribuição não se resume a E Deus criou a mulher, um terremoto, convertendo Brigitte Bardot, que já atuava e a quem descobrira, em mito. Barbarella com Jane Fonda, acho uma bobagem, datado. Mas O repouso do guerreiro merece ser revisitado. E Rosas de sangue / Et mourir de plaisir, de 1960, adaptado da história de Sheridan le Fanu sobre vampiras mulheres, com Elsa Martinelli e Annette Vadim, é o ápice do esteticismo, especialmente nos quesitos fotografia, música e atrizes – a cena do beijo de Elsa e Annette é memorável.

Trilha sonora, capítulo à parte. A boa acolhida francesa ao jazz, adotado como fundo musical do ambiente boêmio e rebelde daqueles anos. Morar em Paris foi o melhor tempo da vida de Charlie Parker. Não se incomodavam com isso de alguém ser negro, afrodescendente, não segregavam. E já em 1902, Éric Satie, em carta para Maurice Ravel, afirmava que o blues era a expressão do sofrimento. Sabiam ouvir.

 

Filmes à margem, 14: Teorema

Teorema

Direção e roteiro de Pier Paolo Pasolini.

De 1968. Com Terence Stamp, Silvana Mangano, Anne Wiazemski, Laura Betti, Massino Girotti, Ninetto Davoli. Música de Enio Morricone. Fotografia de Giuseppe Ruzzolini. Produzido por Manolo Bolognini e Franco Rossellini.

Copio a boa sinopse da página de internet “Adoro Cinema”: Em Milão a vida de uma rica família burguesa é totalmente modificada por um misterioso visitante (Terence Stamp), que seduz a empregada, o filho, a mãe, a filha e finalmente o pai. Além disto tem um contato intelectual com todos eles, convencendo-os da futilidade da existência, e após cumprir seu objetivo parte em poucos dias. Após sua ida ninguém da família consegue continuar vivendo da mesma forma, sendo que cada um deles toma um caminho diferente: a mãe se entrega ao primeiro que surge, a empregada passa a levitar, o filho pinta quadros que suja com fezes, a filha se torna uma catatônica e o pai, um rico empresário, abandona sua fábrica, se desnuda em plena estação ferroviária de Milão e desaparece no deserto.

Ganhou um prêmio em Veneza e foi repudiado pelo Vaticano.  Culminância ou um dos mais expressivos registros de uma contestação da burguesia e seus valores que teve em 1968 seu ano emblemático? É belíssimo. Imagens esplêndidas e uma atuação extremamente ajustada de Terence Stamp. Um filme sedutor sobre a sedução, acho. Luminoso. Especialmente subversivo. Tem sido pouco lembrado, frente a outros títulos de Pasolini: o precedente O Evangelho segundo Mateus e a subsequente fase épica e de revisita a clássicos e mitos, Medeia, Decamerão, Édipo, As mil e uma noites, precedendo a chocante (e ambivalente) despedida com Salò. Fazem parte de uma obra gigantesca, que inclui, além de bastante cinema, a poesia, teatro, ensaio – e seu resgate do dialeto friuliano. Cabe perguntar como conseguiu fazer tanta coisa e o que mais faria esse crítico tão lúcido e radical, se não tivesse sido assassinado na idade de 53 anos.

Comentei no Facebook – nestes tempos de – de…. difícil qualificar – estou privilegiando o esteticismo e o confronto com a caretice. Andam juntos, como se vê em Teorema.