A coisarada identitária: sinônimo de ignorância

fantasiados como índios

Quer dizer que agora não pode mais folião fantasiado de índio? São “cancelados”? Trata-se, na verdade de uma tradição, ligada à própria natureza do Carnaval, que consiste em pessoas, por um período, serem o que não são na vida “normal”, regrada. Cito um verbete sobre “carnavalização”:

“O que caracteriza estes rituais é, antes do mais, a sua natureza não oficial, configurando, como diz Bakhtine, uma segunda vida do povo, um duplo das práticas da Igreja e do Estado, em que todo o povo participava numa comunhão utópica de liberdade e abundância, de suspensão de todas as hierarquias e de dissolução da fronteira entre a arte e o mundo.”

Isso vale para hétero sair vestido de mulher; apresentar-se, durante esse período, no qual o bufão é rei e vice-versa, como o que não é na vida “normal”. E as demais fantasias tradicionais do carnaval de rua, que retorna em boa hora, após um período de espetacularização dos desfiles de escola de samba – nada contra, quero deixar claro, a transmissão de mensagens por meio dos desfiles, legado dessa grande figura que foi Joãosinho Trinta (certa vez, promovi uma mesa sobe Carnaval na Biblioteca Mário de Andrade com Joãosinho e Zé Celso, mediados por Betty Milan – a fala do irreverentes carnavalesco provocou-me câimbras de tanto dar risadas).

Extensão da carnavalização para o cotidiano, pessoas saírem vestidas ou produzidas de tudo quanto é jeito: isso é progresso, típico de sociedade mais aberta. Algo oposto aos quartéis e afins, com todo mundo de uniforme, em ordem unida. Por isso, critico restrições a alguém com trancinhas, “dreadlocks”, cachinhos, usando batas, o que for. Objetar a isso é recíproca ou complemento do reacionarismo.

Agora, o que me deixou injuriado mesmo com a turma identitária foi o que aconteceu há alguns meses: amigo nosso, de ascendência húngara, repreendido por divulgar uma festa de um centro de Umbanda que frequenta. Deveria ser apenas para negros, alegaram. Aqui, é a ignorância crassa. A Umbanda foi criada em setembro de 1908 pelo médium Zélio de Morais, frequentador de um centro espírita, de kardecistas, em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Através dele se manifestou o Caboclo Sete Encruzilhadas, que orientou a criação de uma espécie de junção ou sincretização de espiritismo, candomblé, catolicismo eo que era designado como “macumba”, “mandinga” ou “baixo espiritismo” – cf. entre outras fontes Espiritismo e religiões afro-brasileiras, organizado por Artur Cesar Isaia e Ivan Aparecido Manoel, editora Unesp, 2011. Dando um Google, vê-se que Zélio era branco. A intenção, com isso de baixar “caboclo” e “preto velho” – entre outras “linhas” criadas pela Umbanda – foi, equivocada ou não, essa é outra discussão, promover uma confraternização de raças, povos, etnias, o que for. Para 1908, passados 20 anos da Abolição, algo pioneiro.

África é grande. Não se deve confundir Umbanda e Candomblé. É um assunto no qual dá para ir longe e já deixei um antropólogo baiano indignado . Entidade manifestar-se e atender a consultas seria estranho no Candomblé. Uma mediação fundamental no Candomblé, os búzios, regidos por Ifá, está ausente na Umbanda (se estiver presente, então é Candomblé). Abguar Bastos, em Os cultos mágico-religiosos no Brasil (Hucitec, 1979), distingue um “complexo Iorubá” (ou Ioruba, ou Yoruba…?) e um “complexo Banto” (ou Bantu?), mesmo reconhecendo que é generalização, ocultando a diversidade em cada um desses mundos. Candomblé seria do complexo Iorubá e Umbanda tem influência de complexo Banto. Isso, embora o vocábulo “Candomblé” seja de origem Banto e não Iorubá, como me observou um conhecedor do assunto, e praticante, Mestre Didi. Aliás, mesmo o Candomblé sendo genuinamente negro, tem um débito enorme para com brancos, não-africanos, a começar por Jorge Amado, que emprestou seu prestígio ao culto, foi ogã (até nos anos de 1950, sessões de Candomblé em Salvador precisavam de autorização da delegacia local para realizar-se). Juanita Elbein, parceira do Mestre Didi, era (ou é? não tive mais notícias) loira. Marco Antonio de Ossain, mentor de Roberto Piva, um erudito, era inteiramente “branco”, não-afrodescendente. Etc. Não confundam isso que escrevi com falácias sobre “democracia racial” e afins.

Há mais. Importa que os identitários deveriam ler mais. Hora dessas falo de outra categoria que me aborrece, “lugar da fala”. Lembra-me 1980, por aí, você era convidado para dizer algo ou ler poemas, o tipo na plateia resolvia questionar, argumentar que não era democrático eu ocupar lugar na mesa e ele não…

DUAS VEZES NOVALIS

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A reimpressão / reedição de A flor azul, lançado ano passado, pela editora de Rafael Copetti. (quem disse que livro bom não vende?)

O lançamento de Hinos à noite, pela Clepsidra.

Ambos prefaciados por mim.

A flor azul vem com capa e ilustrações do extraordinário artista plástico e poeta Rodrigo de Haro – meu amigo há décadas. Tem apresentação e tradução de Maria Aparecida Barbosa. Faz parte do inacabado Heirich von Ofterdingen, uma saga romântica. A flor azul é um símbolo forte, impregnado de mistério.

Hinos à noite é elegantemente ilustrado por colagens de Filipe Florence Rios. Tradução e posfácio de Felipe Vale da Silva. É obra precursora do poema em prosa ou prosa poética (e que prosa poética!), importante a partir de Baudelaire, Rimbaud e simbolistas.

Duas palavras sobre Maria Aparecida Barbosa e Felipe Vale da Silva, a quem não conhecia: são gente que sabe das coisas. Ensaios impecáveis. O modo como Felipe examina a categoria “romantizar”, por exemplo. As traduções, nota 10 – enfim, um prazer participar.

A meu favor: não me repito nesses dois prefácios (mas reaproveito algo do capítulo “Novalis e a gnose de Jena” de meu Um obscuro encanto.

Minha sugestão, ambiciosa: uma edição completa dos Fragmentos de Novalis, vertiginosos. Temos a edição de Polem pela Iluminuras, preparada, claro que com competência, pelo poeta e filósofo Rubens Rodrigues Torres: mas abrange sua produção mais propriamente filosófica. Quero mais do místico e visionário. Geistliche Lieder, cantos espirituais, também pode ser. Como ele fez tudo isso antes de morrer aos 29 amos, mistério.

Novalis foi um holista, em busca da síntese dos saberes. A poesia como instância máxima do conhecimento. Bom para ser retomado em períodos de ameaça de obscurantismos.

 

 

 

SESSÃO DE AUTÓGRAFOS DA NOVA EDIÇÃO DE “ESCRITOS DE ANTONIN ARTAUD”

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Edição revista e atualizada, após décadas fora do mercado.

QUANDO: Dia 25 de janeiro, sábado, das 16 às 21 h.

ONDE: Sebo Clepsidra, Rua Fortunato 117, Santa Cecília, São Paulo, SP

PROGRAMAÇÃO: Além de receber meus leitores, falarei algo das 17h50 às 18h30 (aproximadamente). Mostrarei imagens, comentarei brevemente algumas palestras recentes sobre Artaud e alguma coisa que descobri: novidades.

Agradeço divulgarem e avisarem interessados. VENHAM. Modo de curtir bem o feriado: lugar é agradável e há muitos bares no entorno.

Outros livros meus estarão à disposição na Clepsidra: Geração Beat e Os rebeldes (L&PM), Dias ácidos, noites lisérgicas e A verdadeira história do século 20 (Córrego), Volta (Iluminuras).

Arte do convite, L&PM.

Publiquei dez livros em uma década.

Ou 11? Ou 12? A seguir, capas: poesia, prosa, ensaios, traduções, reedições revistas. Apesar de toda espécie de dificuldades, mantive produtividade. Isso, além da quantidade de textos em revistas, antologias, coletâneas etc, e de palestras, cursos, oficinas.

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Pela ordem cronológica :

  1. Geração Beat, L&PM
  2. Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, Civilização Brasileira
  3. Livro de haicais, Jack Kerouac, L&PM
  4. Manifestos, Azougue
  5. Os rebeldes : Geração Beat e anarquismo místico, L&PM
  6. As pessoas parecem flores finalmente, Charles Bukowski, L&PM
  7. Lautréamont reeditado, Iluminuras
  8. A verdadeira história do século 20, edição de Portugal, Apenas livros, Cadernos surrealistas,
  9. A verdadeira história do século 20, edição brasileira (ampliada), Córrego
  10. Extrañas experiencias, poesia 1964-2004, a edição argentina, Nilu Bonsai, tradução de Thiago Souza Pimentel
  11. Dias ácidos, noites lisérgicas, Córrego,
  12. Escritos de Antonin Artaud, a nova edição, L&PM

Aguardem informe de sessão de autógrafos da nova edição de Artaud.

LEIAM-ME.

MEU PRÓXIMO CURSO: WILLIAM BLAKE NA CASA DAS ROSAS

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Ainda há vagas para inscrições. O curso é realizado em sincronia com a exposição sobre William Blake, no mesmo local.

Informam os organizadores:

CURSO

WILLIAM BLAKE, POETA E PROFETA

POR CLAUDIO WILLER

Terças-feiras, 14, 21 e 28 de janeiro e 4, 1 e 18 de fevereiro de 2020, das 19h às 21h

O curso examinará a obra poética de William Blake, desde seus livros iniciais, com foco em O casamento do Céu e do Inferno e as Canções da Inocência e Experiência, à sua recepção posterior, que o tornaram poeta matricial para diversas gerações. Além disso, serão abordadas suas contribuições às artes visuais e a questão do misticismo, que inclui sua relação com gnosticismo e anarquismo místico.

Faça sua inscrição online, neste link, ou presencialmente, na recepção da Casa das Rosas, a partir de 15/12/2019, até o preenchimento das vagas. Emissão de certificado digital aos participantes que atingirem o mínimo de 75% de frequência.

Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde, ao surrealismo e geração beat. Livros recentes: A verdadeira história do século 20, poesia (Apenas Livros, Lisboa, 2015); Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, ensaio (L&PM, 2014); Manifestos, 1964-2010, (Azougue, 2013), Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (Civilização Brasileira, 2010); Geração Beat (L&PM Pocket, 2009); Poemas para leer en voz alta (Andrómeda, San José, Costa Rica, 2007); Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004). Traduziu Lautréamont, Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Antonin Artaud. Publicado em antologias e periódicos no Brasil e em outros países. Presidiu a UBE, União Brasileira de Escritores, em vários mandatos. Doutor em Letras na USP, onde completou pós-doutorado. Deu cursos, palestras e coordenou oficinas e outras atividades em uma diversidade de instituições culturais.

 

 

A excelente revista ‘Intempestiva’: uma leitura recomendada

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Não é por eu fazer parte (tem inéditos meus) e em ótima companhia (um dos “tops”, Corações de Hot-dog de Piva, além de algum belo Bicelli, lusófonos  e traduções, é cosmopolita) – ao final do post, lista de autores publicados. É mesmo pela qualidade: exemplarmente editada, limpa, atraente, informativa. Enfim, o bom gosto chegou à Intempestiva e parou aí. Faz parte de uma intensa movimentação literária nos últimos tempos, ainda insuficientemente registrada. 

Informam os editores, Alberto Lins Caldas, Thyago Marão Vilella e Pedro Spingolon: A revista custa 35 reais e está a venda no site da Editora Urutau, no seguinte link:
http://editoraurutau.com.br/titulo/intempestiva-revista-de-literatura-e-artes-visuais-numero-02_ano-01dezembro-de-2019

Os autores:
Mayra Rojo [artista visual]
Jarid Arraes
Ana Iris
Ronald Augusto
Patricia Laura Figueiredo (Pat Lau)
Kaká Werá
Maria Luiza Chacon
Mário Loff
Marianne Moore, por Mariana Basílio
Claudio Willer
Roberto Piva
Roberto Bicelli
Tarso de Melo & Renan Nuernberger
Mafalda Sofia Gomes
André Caramuru Teixeira Aubert
João Pedro Azul
Daniel Francoy

Boa leitura!

 

 

JURO QUE SONHEI ESTE SONHO

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Há pouco. Cochilei. Estava em uma periferia residencial de cidade de interior. No quintal ou jardim dos fundos de uma casa, um grupo de pessoas. Julguei discernir Abraham Weintraub. Segui em frente, aqueles deslocamentos rápidos ou instantâneos dos sonhos, e agora o lugar era um campus de universidade. Algo entre o campus e um descampado. Iria acontecer um recital de poesia. Pessoas chegavam. Eu, sentado junto a um muro ou cerca. Um rapaz, barba rala e aloirada, cabelos e olhos também claros, vestindo uma jaqueta de lã azul, usando um gorro também de lã, perguntava-me sobre maconha – queria, estava procurando: “Sabe onde é que posso achar?”. Disse-lhe: “Olha, logo ali, nos fundos de uma casa, eu vi o Abraham Weintraub. Pergunta pra ele. É quem mais conhece e pode dizer onde é que tem. Vai lá.” Antes de acordar – achando graça do sonho – o rapaz ainda me olhou com uma expressão meio de ceticismo ou espanto.

Agora, falando sério, sonhos à parte: como é que pode…? Plantação….?! Passei boa parte da minha vida na Cidade Universitária, o campus da USP. Alguém chapado passar por mim, pode ser – menos, bem menos que nessas quebradas do centro da cidade. Em meus cursos e palestras – e alguns dos meus temas atraem, convenhamos, Beat e contracultura, etc – jamais reparei. Nem nos arredores de mata exuberante da FFLCH. Dizem que havia algo nos fundos da ECA-USP, mas isso foi décadas atrás. Outros campus – tantos – a indigitada Federal de Brasilia, UNIFESP, Federal de Pernambuco, de Goiás, de São Carlos, algumas UNESP, a Unicamp, a UFRJ, etc, nunca reparei. O público maior da minha palestra sobre  “A criação poética e algumas drogas” em 2014, brinquei com o organizador, Fábio Ferreira de Almeida: “Acho que atraímos todos os junkys  de Goiânia” – mas, novamente, ninguém que parecesse alterado por ter tomado ou fumado algo.

Polícia só entra nas universidades com autorização ou mandado. O tipo quer acabar com a autonomia universitária e inventou essa história estapafúrdia. Mas é tão fácil conferir. Qualquer um pode ir a campus universitários, entrada não é controlada – e ficar circulando, para ver se acha algo, alguma “plantação”, até um mísero pé. Perderia tempo – exceto em centros de pesquisa. Quem quiser, compra facilmente, “drogas” são vendidas nas metrópoles em sistema quase de feira livre – motivo para não ter qualquer função plantarem, exceto, é claro, nos laboratórios de pesquisa.