POESIA E XAMANISMO: UM NOVO CURSO

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Quando: Três sessões às quartas feiras, dias 8, 15 e 22 de março de 2017, das 19h30 às 21h30

Onde: Espaço Cênico O LUGAR da Cia. Corpos Nômades, Rua Augusta 325

Valor do ingresso: R$ 30,00 por aula, com direito à meia entrada para as categorias que têm direito à meia entrada, além de participantes de outros cursos e atividades dos Corpos Nômades, xamãs, poetas surrealistas e quem comprar para os 3 dias. Inscrevam-se e paguem antes através deste e-mail: ciacorposnomades@gmail.com com assunto: Poesia e Xamanismo (convém, pois o número de lugares é limitado, para 40 pessoas). Também poderão retirar/comprar o ingresso no Espaço Cênico O LUGAR de segunda a sexta das 15h às 18h, exceto no Carnaval (dinheiro ou cartão).

O curso: Em julho de 2016 dei uma extensa palestra sobre poesia e xamanismo. Falei por duas horas, público que lotou o auditório apreciou, mas não consegui cobrir todos os tópicos que havia proposto. Sobrou assunto. Desde então, pesquisei mais e novas leituras mostraram-me interpretações e modos originais de examinar o assunto. Daí programar três sessões. O objetivo é, em primeira instância, enriquecer a leitura da poesia, possibilitando enxergar mais sentidos, além de ampliar a sensibilidade dos leitores e proporcionar o acesso ao maravilhoso, ao mundo mágico-poético.

Examinaremos tópicos como estes:

Até que ponto alguns poetas podem ser identificados a xamãs? O que em suas obras justifica essa associação? O mito de Orfeu – patrono dos poetas – é xamânico? (muito, vou adiantando , e sob vários aspectos) A propósito, quais os principais poemas órficos? (quem mencionar Altazor de Huidobro acertou) Por que uma declaração como “O Eu é um outro” de Rimbaud corresponde a algo típico do xamanismo? E de Michael McClure, “QUANDO UM HOMEM NÃO ADMITE SER UM ANIMAL, ele é menos que um animal”? O que pode ser dito sobre animais no xamanismo e na poesia, inclusive em bestiários? E sobre instrumentos? Qual a contribuição de Herberto Helder à compreensão das afinidades de poesia e xamanismo? Um poema como “O índio interior” de Invenção de Orfeu de Jorge de Lima pode ser lido como xamânico? O soneto “Versos dourados” de Gérard de Nerval é xamânico? Cabem as associações de Antonin Artaud ao xamanismo? (claro que sim, porém detalharei) Quais as evidências de uma percepção lúcida e informada de xamanismo em Roberto Piva? Sobre quais outros contemporâneos nossos eu teria algo a dizer?

Além das abordagens clássicas – como aquela de Mircea Eliade – e contemporâneas – como a de Eduardo Viveiros de Castro (acho brilhante) – e referências obrigatórias como a Etnopoética de Jerome Rothenberg, trarei novidades, contribuições pessoais. Por exemplo, a categoria “alucinação” do semiótico Michel Riffaterre, como distinta do “delírio”, projetada na experiência poético-xamânica. Justificarei minha admiração por Patti Smith. E me apoiarei bastante em recursos audiovisuais, data-show e afins.

Agradeço retransmissão e outros modos de divulgação. Em breve publicarei outros posts, sobre o conferencista de sandálias e em seguida sobre a extensa oficina de criação também preparada para iniciar-se em março. Nosso problema não será a falta de assunto.

RADUAN NASSAR, O CAMÕES E SUA REPERCUSSÃO: A PROPÓSITO DO QUE HAVIA PUBLICADO NO FACEBOOK

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Repercutiu, tornou-se viral – por isso, reproduzo aqui, com observações adicionais. Teve adesões, críticas e apenas dois “haters”; ou seja, ambiente melhorou desde 2014. Um dos xingadores, Jorge Henrique Bastos (aquele que era da Martins Fontes? que coisa), além de depreciar-me como poeta (não ligo, tenho os leitores que mereço e não sou perseguidor de glórias) escreveu que apoiei o regime militar (jamais…! meu dossiê de atuações contra a ditadura é grande) e fiz carreira em cargos públicos – nem tanto e só em governos eleitos democraticamente, isso sem desmerecer quem ocupava cargos durante os militares e fez boas coisas, por exemplo o pessoal do então Serviço de Teatro da SEC do MEC que premiou autores censurados.

Aí vai o post:

ACHO QUE HOJE PERDI A PACIÊNCIA. Cada um escolhe a resistência e os heróis da resistência que preferir. Governo Temer é no mínimo deplorável e a perpetuação da corja ou parte dela deve ser denunciada. Mas desinformação e ingenuidade, somada à produção de bobagens, precisam ter um limite. Raduan Nassar é ótimo – benemérito inclusive, doou sua propriedade rural á UNESP – retifico, à UFSCar – , e eu queria ter registrado o que ele me disse sobre Jardins da Provocação em 1981. Merece as homenagens. Mas, durante o regime militar, absteve-se – chegou a sustentar que não houve censura de livros durante o dito regime – isso em julho 1981, em um encontro de escritores, UBE e SESC, eu estava lá, ele levou uma bronca do Péricles Prade (então presidente da UBE, havia atuado no caso Herzog) por isso. Não participou da visita ao Armando Falcão da Lygia, Nélida, Antonio Torres e outros escritores para protestar contra a censura. Nem de mais nada. Não acho que isso o reduza ou deva ser cobrado. Tem o direito de tomar a posição que bem entender em cada circunstância. Já Roberto Freire era dirigente do PC, o Partidão, com militantes presos, torturados e até mortos. E daí? São as voltas que o planeta dá sobre si mesmo? Baudelaire e a defesa do direito de contradizer-se? Provavelmente. Se a reunião de 1981 fosse de adeptos do regime militar e não de opositores, então ele defenderia a redemocratização? Mas as manifestações sobre esse episódio da premiação, do Camões deveriam conter mais informação e menos demagogia. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando e está omitindo, de ma fé. Estão inclusive enganando a garotada, o pessoal que chegou mais recentemente. Obliterar a história, esquecendo quem estava em qual lugar quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe) é péssimo, não se justifica de modo algum.

Como refutação, circulou algo do Brasil 247, que obviamente desconsidero (propaganda paga, não), e um artigo de Pádua Fernandes intitulado “Desarquivando o Brasil CXXXIII: Raduan Nassar e a ditadura militar”, citando-me. Este: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2017/02/desarquivando-o-brasil-cxxxiii-raduan.html

As informações de Pádua Fernandes são corretas. Sim, Um copo de cólera é lido como literatura de resistência, inclusive por gente do calibre de Leyla Perrone-Moisés e Milton Hatoun. E sim, Raduan publicava o Jornal do Bairro no fim da década de 1960, fichado pelo DOPS, e foi sócio da PAT Edições indexada pelo CENIMAR.

Mas isso não contradiz nada do que escrevi, nenhuma das informações do meu post. Jornalismo de resistência eram Pasquim, Opinião, Movimento (onde publiquei), Versus (onde colaborei) e outros tablóides de combate. Muito visitados pela repressão. Ter ficha no DOPS pouco significa, isoladamente. Sei disso por haver examinado minhas cinco fichas. Feitas por uns burocratas que não tinham noção (felizmente) e anotavam qualquer coisa – mais burros, só os censores. Iniciativas de maior alcance, não repararam. Federais, exército e SNI, eram mais perigosos: naquelas leituras de poesia na porta da Brasiliense no calçadão da Itapetininga em 1977, a quantidade de tipos fotografando e gravando que não eram jornalistas, mas o DOPS nem reparou naquilo.

E a interpretação de Um copo de cólera como literatura de resistência é de 1996, nos substanciosos Cadernos do Instituto Moreira Salles. Quando saiu, não lemos assim aquele desabafo de um machão desenfreado de uma só extensa frase. Literatura de resistência, no campo da narrativa em prosa, eram, entre outras, As meninas de Lygia Fagundes Telles (que ganhou Camões em 2005), com relato de tortura, ou Zero de Ignácio de Loyola Brandão, também com cenas de tortura e proibido na época. Pelo mesmo motivo não podia no Brasil O livro de Manuel de Julio Cortázar, comprei meu exemplar em Buenos Aires – mas, com toda a grandeza de Cortázar, naquele momento Zero me impressionou mais. Aliás, aí estaria um bom premiado do Camões, o Loyola, inclusive pelo antecipatório Não verás país nenhum e o experimental Os dentes ao sol. Sem comício e claque na entrega – em 1980, andava de estrelinha vermelha na lapela, foi se decepcionando e distanciando, perdeu de vez a paciência ao ser lesado pelo BANCOOP.

Isso, em prosa – em poesia, Ferreira Gullar levou um Camões em 2010, para decepção da banda sectária. Se é para registrar poemas de resistência, também lembro o belo Coração Americano de Renata Pallottini, apresentação no Municipal, organizei, foi outra das ocasiões em que o DOPS não chegou a tempo.

FINALMENTE, houve objeções a este trecho: “quando as coisas estiveram realmente feias, durante a vigência do golpe (daquele verdadeiro golpe)”. Acho a comparação entre o que houve e o que está acontecendo agora uma ofensa a muitos que tiveram que agüentar o regime militar (além dos que não agüentaram). Em dada altura, lá pela década de 1970, parecia escuridão sem luz no fim do túnel. Hoje tenho acesso ao que quiser, vou aonde me aprouver sem olhar sobre o ombro para ver se tem alguém seguindo. Sustos que passei, registros das vezes em que dei sorte (outros não tiveram a mesma sorte), não, nunca mais. Diferindo dos regimes de força, governo Temer tem data para acabar. Se anteciparem saída (pode acontecer, levando junto o Jucá massacrador de Yanomamis, Lobão e outros ex-ministros de Dilma), Brasil passaria a ser presidido por Rodrigo Maia – grande troca. Alguns militantes declaram que precisa mudar tudo – mas nesse caso, não teriam que fechar o Congresso…? Legalidade é só para cobrar dos outros? Ah, sei, uma ilegalidade justificaria a outra. Ou então, preparar-se para disputar eleições – manifestações de “fora Temer” podem até contribuir para mobilizar, aproveitando inteligentemente a conjuntura democrática. Eu focalizaria uns temas institucionais. Reforma partidária, chega dessas alianças doentias entre partidecos. Desburocratização, esse pessoal, que reclama das investigações e processos em curso tinha que olhar como é na Inglaterra etc – até em países que parecem ainda mais frouxos que o Brasil a delação da Odebrecht está tendo consequências rápidas.

Mas não, essa gente só quer mesmo recuperar o poder, impor suas crenças político-religiosas (‘catecismos leigos’, onde li essa expressão – no Roberto Calasso, eu acho, ou foi no Octavio Paz?). Vale qualquer coisa, e o episódio Raduan Nassar é um triste exemplo.

Os ‘Poemas completos’ de Herberto Helder

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Este lançamento brasileiro da editora portuguesa Tinta-da-China vem a um preço bem mais palatável, R$ 99,00 ou até R$ 79,20 (na Saraiva), em contraste com os R$ 234,90 daquela de Portugal (na Cultura). Tenho a satisfação de figurar na quarta capa, com dois parágrafos de um artigo de 2001, situando-o na “linhagem de poetas visionários”, por sua “criação movida pela paixão”. Quando soube, dirigi-me à editora, escrevi que deveriam enviar-me um exemplar de cortesia. Um endereçamento desengonçado fez que o livro desse algumas voltas antes de chegar aqui.

Descobri Helder através da pioneira antologia Poesia portuguesa contemporânea de Carlos Nejar (Massao Ohno / Ropswitha Kempf, 1983). Levei um susto com “O amor em visita” e outros textos selecionados. Um amigo me trouxe, pouco depois, Poesia toda, na edição da Assírio & Alvim. Surtei com poemas como “Joelhos, salsa, lábios, mapa”. Em 1993, em Portugal, adquiri uma nova edição– país de leitores é outra coisa, matérias grandes nos jornais, exemplares bem expostos nas vitrinas das livrarias. Publiquei algo sobre ele quando saiu O corpo, o luxo, a obra pela Iluminuras em 2000, na revista Agulha, http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag9helder.htm Uma das minhas leituras de “Joelhos, salsa, lábios, mapa” em oficinas literárias está em https://www.youtube.com/watch?v=LSuFRfHqwjE . Através dessa e outras apresentações, contribui para formar leitores helderianos. Exacerbei vocações. Em 2011, resolvi dar palestra sobre Helder no Centro Cultural São Paulo, falei por uma hora e meia sem parar e percebi que havia exposto uma espécie de introdução, tratando da dificuldade de falar sobre Helder; insatisfeito, agendei outra palestra na Letras da USP, falei 2 horas e 40 minutos e não fui muito além dos paradoxos dele, inclusive a relação idiossincrática com surrealismo e a quantidade de alusões em sua obra, como Os passos em volta lembrando Les pas perdus de Breton – e para mim, “Cidades são janelas em brasa com cortinas / puras, praças com a forma da chuva” é Breton e Nadja na Place Dauphine, Isso, além da amizade com Cesariny e principalmente Cruzeiro Seixas, a quem dedicou um livro; e, principalmente, da afirmação daquele movimento haver criado um ambiente favorável à boa recepção de Helder – algo que também foi observado por outros estudiosos.

Em ocasiões, mostrei como em “Lugar último” ele faz tudo o que não é admitido pelas regras da boa redação e do estilo. Repetições: “e agora / o meu amor é puro puro louco louco. / E o que dorme dorme / do que é forte.” Ou, ainda melhor: “[…] e Deus / fale de em mim no puro alto da carne. / E uma onda e outra onda e outra e outra / e outra / onda e onda / batem em sua belíssima deserta altíssima / voz.” Ou nesta locução vazia: “Uma mulher passou quando eu dormia ou acordava” – afinal, se uma mulher passou, isso só poderia ocorrer em duas circunstâncias: quando o personagem que se expressa estivesse adormecido ou desperto, não há terceira opção.Tratei dele como poeta da natureza, a propósito da relação com a África. E ao comentar o original ensaio de Maria Estela Guedes, A obra em rubro (editora Escrituras).

A presente edição, preparada pelo próprio Helder, tem as obras mais recentes, as que saíram depois de A faca não corta o fogo: Servidões e sua despedida, A morte sem mestre. Mas retirou os trechos de Photomaton & Vox, e duas coletâneas que aprecio: O bebedor nocturno, em que reuniu poemas de egípcios, da Bíblia, dos maias, astecas, de japoneses, indochineses, árabes, andaluzes e outros povos arcaicos; e As magias, cotejando poetas contemporâneos como Henry Michaux e cantos tribais, com destaque para as glossolalias (também tenho em separata, em um opúsculo). Mostram que criação poética é leitura; que o tempo da poesia é outro, circular, recorrente, e não linear e sucessivo. Pedagógicos, além do valor propriamente poético, da sua beleza. Mas esse ensinamento é transmitido, de modo implícito ou mais sutil, em toda a sua poesia. Ao contorcer um poema de Mallarmé, a propósito de “linguagem pura”. Parafraseia, cita e alude à vontade; é intertextual; ao mesmo tempo, originalíssimo.

Vários estudiosos brasileiros mereceriam figurar como referência de quarta capa ou em uma galeria de helderianos. Em primeiro lugar, a poeta Maria Lúcia Dal Farra, autora do pioneiro A alquimia da linguagem, de 1986. Há um grupo de bons helderianos formando um eixo Rio – São Paulo, como Luis Maffei, autor da tese Do mundo de Herberto Helder (UFRG), especialmente substanciosa, além de organizar, junto com Lilian Jacoto (USP) a coletânea de ensaios Soldado aos laços das constelações (editora Lume). Recentemente, fiz parte da banca da tese de Tatiana Picosque, A poética obscura e corporal de Herberto Helder, na USP – gostei. E há mais.

Sabem o que eu gostaria que fosse preparado? Uma edição realmente completa, crítica, contendo tudo o que ele escreveu, com notas, bastante informação, incluindo variantes, o que ele foi modificando de uma edição para outra. Helder é poeta para ser não apenas lido, porém atentamente estudado. Voltarei a tratar do “lento prazer de escrever, imitando / cantar”; da capacidade de exibir “a cor imensa de um símbolo”.

A Mostra de Filmes Geração Beat no Rio de Janeiro – incluindo nova palestra minha

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Desta vez, escolhi para ilustrar páginas da minha série sobre Beat e Contracultura que foi publicada no Chiclete com Banana de Toninho Mendes e Angeli, por volta de 1990. Homenagem, perdemos Toninho na semana passada. Incrível como aquela série atraiu futuros leitores dos beats.

A Mostra de Filmes Geração Beat no Rio de Janeiro será novamente no Centro Cultural do Banco do Brasil – Rua Primeiro de Março, 66, Centro. Vai de 08 a 26 de fevereiro. A programação completa está no link a seguir. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada). Minha palestra – esperando o mesmo interesse que suscitou aqui em São Paulo – será dia 11, sábado, às 17h00, com entrada franca. Cheguem antes para retirar senha (em São Paulo sobrou público). Falarei sobre Jack Kerouac e a Geração Beat – preparei algo para data show. Pretendo chegar a uma visão de conjunto da enorme contribuição literária do autor de On the Road. Tratarei também de outros beats. Como a sessão terá duas horas de duração, haverá tempo para conversarmos.

Também estou tratando de sessão de autógrafos de livros meus. Assim que confirmar local e data, informarei aqui.

A enorme programação – o post inclui São Paulo (que está chegando ao fim) e na sequência o Rio de Janeiro: http://www.revistamuseu.com.br/site/br/noticias/nacionais/1863-23-12-2016-ccbb-apresenta-mostra-geracao-beat.html

TONINHO MENDES, ANTONIO DE SOUZA MENDES, 1954-2017

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Não fazia idéia do que fosse colaborar em uma publicação que tirava 100.000 exemplares, com distribuição nacional, dirigida preferencialmente aos jovens. Percebi mais tarde, pelas pessoas que me disseram que seu interesse por Geração Beat e contracultura havia sido despertado por minhas matérias em Chiclete com Banana: Joca Reiners Terrón, que a comprava ainda em Cuiabá, o também criador de quadrinhos João Pinheiro, entre outros.

O restante daquela revista é uma efusão única de criatividade e anarquia. Celebração frenética da liberdade em um Brasil recém-redemocratizado, finalmente livre da censura. Uma farra. Além do parceiro e amigo de infância Angeli com todos os Bob Cuspe, Mara Tara, Skrotinhos e Rebordosa, de Laerte, Glauco, Luis Gê e outros renovadores do humor brasileiro, havia Roberto Piva e as crônicas incendiárias (estão no Volume 3 de Obras Reunidas), Glauco Mattoso e seus elogios da perversão, Cacá Rosset com umas invenções incríveis, a musa Cristiane Tricerri, Guto Lacaz e mais invenções, integrantes da côterie de Toninho como Furio Lonza e Souzalopes. Ponto alto da sua contribuição como editor e artista gráfico, Chiclete com Banana durou pouco. Sem anunciantes, sem patrocinador, não era auto-sustentável, apesar da circulação extensa e dos leitores.

Como não havia dinheiro, Toninho propôs que cada colaboração minha valesse um convite para jantar. Nas duas primeiras, escolhi o Cantábrico, à rua Homem de Melo nas Perdizes. Encantou-se com as ostras, mandou vir bandejas. Na terceira, o Vikings do Maksoud Plaza: não se entusiasmou com os acepipes escandinavos, provou todos aqueles defumados com indiferença. Mas comer, para ele, era algo muito sério, desde as pirâmides de tudo sobre o prato no Chá Moon, quando trabalhava na Isto É ao lado, até, recentemente, no Caçador da Heitor Penteado, próximo de onde moro e ele morava, na Rua Bica de Pedra, fundão da Vila Pompéia ou começo da Lapa – sempre preferiu a Zona Oeste, visitei-o muito na casa-ateliê na Barão de Bananal.

Seu descomedimento – bebeu um bocado, entre outras fruições – parecia um índice de vitalidade, que nunca baixou nem baixaria: nada fazia prever o infarto fulminante que o levou. Nas ocasiões recentes em que o encontrei, enfrentava a crise brasileira com firmeza, encarando toda sorte de trampos, de frilas – algumas vezes, passou correndo para pegar o ônibus na Heitor, sem me ver – enquanto preparava novos projetos. No meu aniversário, queria-o em um jantar, mas não foi possível, pois ficou até tarde cuidando de um estande na Comic.Com. Conversamos na véspera do Natal, sentados no banco diante da frutaria da Rua Paulistânia – como sempre, rememorando e rindo. Comentou como se sentia bem aos 62 anos. Jogamos no bicho, prática na qual, filho de um bicheiro, era exímio – chegou a livrar-se de uma enrascada apostando o número de um prontuário policial e assim arrecadando a quantia de que precisava. Falou-me dos projetos: reedição e exposição da Confissão sobre o Tietê, novas mostras e coletâneas de suas realizações pela Circo Editorial, Peixe Grande e outras iniciativas. Consta-me que seu acervo está organizado. Se estivesse em órgão público ou instituição cultural forte, providenciava já uma mostra do que deixou. Tanta coisa, a série do Visconde da Casa Verde pela L&PM, as edições recentes recuperando o pornô e obsceno brasileiro.

Conheci-o através de Roberto Piva (de quem mais poderia ser?) em 1977 – apresentou-o em uma das leituras de poesia no calçadão da Itapetininga. Piva também o incentivou a ler e criar poesia, e prefaciou a Confissão sobre o Tietê. Poderia tê-lo conhecido na mesma época através de outro grande amigo, Marcos Faerman. Não obstante a forma como se desligou do jornal Versus, mais uma de suas criações gráficas – tirou a roupa, subiu peladão na mesa da reuniões para discursar contra a vinculação daquele jornal a uma corrente política –, continuaram amigos próximos, encontrando-se regularmente (acontecimentos subsequentes lhe dariam razão). Impressionava em Toninho esse modo de expressar opiniões e avaliações, de aprovação ou desaprovação, com absoluta clareza, sem meias medidas.

Provinha da Casa Verde. Fazia questão de apresentar-se como alguém da periferia. Da sua turma juvenil fizeram parte Angeli, outros cartunistas se não me falha (Glauco? Laerte?) e amigos que o acompanharam por toda a vida. Foi capaz de dialogar e relacionar-se igualmente com a marginalidade, o mundo alternativo e figuras da alta cultura e do empresariado. Convencia a todos pela honestidade.

Foi meu hóspede por alguns meses em 1980. Diagramava na Isto É, após o expediente ainda passava por outros lugares, mas conseguia chegar à Peixoto Gomide. Nós dois naquela revista, recortando e colando uma a uma as tiras de papel couchê – era assim que se fazia – dos poemas de Jardins da Provocação, para que ficassem na disposição gráfica do original. Adaptou-se bem, contudo, às mediações digitais. Sempre esteve à disposição, fez todos os panfletos e jornais de campanha de que precisei. Fiel aos amigos – como se empenhou pela recuperação do projeto gráfico original de Paranóia de Piva e Wesley Duke Lee, resultando na edição do Instituto Moreira Salles em 2000, por iniciativa de outro amigo, Antonio Fernando de Franceschi.

De todos os velórios a que compareci, este de hoje foi quando fiquei com a voz mais embargada, ao dizer algo para a filha e amigos. A expectativa de novas alegrias substituída pela sensação de um irreparável nunca mais.

 

SARAU BEAT: A FESTA NO PRÓXIMO SÁBADO, APÓS MINHA PALESTRA NO FESTIVAL DE CINEMA BEAT NO CCBB

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Quando: Dia 07 de janeiro, sábado, a partir das 20:00 h.

Onde: Comuna Rua Cardeal Arcoverde, 520  Pinheiros – São Paulo – SP

ENTRADA FRANCA

“Soltem as fechaduras das portas!
Soltem também as portas dos seus batentes!”

A programação divulgada pelos organizadores – agradecendo aos poetas e demais artistas e animadores culturais que se associaram ao evento:

O ponto de convergência entre os gatherings esfumaçados do Greenwich Village nos anos 40 e os Acid Tests de Ken Kesey na Califórnia vinte anos depois é só um: a palavra falada. O spoken word de Jack Kerouac possibilitou que a geração do pós-guerra rompesse com velhos valores conservadores e questionasse tudo, principalmente a si mesmos. A estrada beatificada de Kerouac, as barbas e os mantras de Allen Ginsberg e a agulha mais a mira certeira de William S. Burroughs definiram não só a literatura moderna, mas cada um de seus leitores.  Celebrando a palavra falada e todos os expoentes da nossa geração, a Comuna e a Saraguina Filmes apresentam o Sarau Beat, uma festa dedicada à poesia e pensamento desses poetas e autores, que marcaram toda um época.

[PROGRAMAÇÃO]

Noite de autógrafos com o poeta e ensaísta Claudio Willer (dos livros de poesia Estranhas experiências e A verdadeira história do século 20)

RÉCITA BEAT com

Claudio Willer

Roberto Bicelli

Ademir Assunção

Mário Bortolotto

Gabriel Rath Kolyniak

Guilherme Ziggy

Mauricio Salles Vasconcelos

Vanderley Mendonça

Joaquim Bührer

Lerei uma tradução minha inédita de Ginsberg e outra de Kerouac, entre outras intervenções.

Minha palestra ou ‘masterclass’ sobre Geração Beat

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Quando: dia 07 de janeiro, sábado, das 17h30 às 19h30.

Onde: Centro Cultural do Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112 – São Paulo (SP) (11) 3113-3651

Faz parte da mostra Cinema Geração Beat, organizada por Roberta Sauerbronn e equipe da Saraguina Filmes. Estará em cartaz dos dias 06 a 29 de janeiro, nessa instituição.

A programação – enorme, diversificada, com raridades de permeio a filmes mais conhecidos – está aqui: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/geracao-beat-2/

Em seguida, tudo isso será apresentado no Rio de Janeiro, também no CCBB, ao longo do mês de fevereiro – inclusive nova palestra minha, dia 11 de fevereiro.

A imagem que ilustra este post é de uma palestra equivalente no CCBB, porém em Brasília, em julho deste ano. Reparem não só no auditório lotado, mas na atenção do público. Gostei.

A propósito de auditório lotado: ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência, pela ordem de chegada. Em Brasília, amigos vieram assistir, porém não havia mais lugar.

A propósito da programação: reúne desde filmes mais notórios, inclusive o de Walter Salles, a raridades e preciosidades – como Chappaqua e outros experimentos relacionados a Burroughs. Serei visto em algumas das sessões, inclusive na abertura.

Gostei muito da escolha de The Magic Trip para abrir. É o registro dos tomadores de LSD liderados por Ken Kesey, os “merry pranksters” que atravessaram os Estados Unidos no ônibus com Neal Cassady ao volante. Acho comovente em sua pureza. Saíram levando equipamento de filmagem profissional, mas sem noção de como operá-lo. Então, o começo é muito confuso (mas registra o episódio da garota que tomou LSD demais, tirou a roupa, saiu estrada afora e teve que ser mandada de volta para casa). Vai se refinando, ganhando em precisão ao longo da epopéia, até o ponto culminante, o encontro com Ginsberg e Kerouac na Feira de Nova York. Ainda há lindas cenas no Canadá, precedendo o revertério da volta à Califórnia para enfrentar uma campanha contra o LSD. Prodígio de edição, as 32 horas rodadas convertidas em um longa normal.

Esse e outros filmes – inclusive o de Walter Salles que precede minha palestra – eu pretendo comentar na hora de conversar / debater com o público. Antes, darei sugestões de leitura e interpretações de Kerouac, apresentando motivos para considerá-lo um escritor extraordinário – além de outros tópicos relacionados á Beat.

De tudo que publiquei sobre Kerouac, Ginsberg & friends, separei esta resenha de O livro de Jack, que saiu na Ilustríssima uns três anos atrás: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/12/1381731-kerouac-o-biografavel.shtml