A entrevista no programa “Sala de leitura” de Fabiano Fernandes Garcez

A 22 de abril deste 2017, um sábado à tarde, Fabiano Fernandes Garcez gravou uma extensa entrevista comigo no estúdio que montou em sua residência. Integra seu programa “Sala de leitura”, dedicado a poetas contemporâneos brasileiros.

Divulgou-a em três partes:

Parte 1, 39 minutos, mais evocativa: “como era divertido São Paulo ser província”, digo algo sobre minha poética e bastante leitura de poesia em voz alta, comentada: https://www.youtube.com/watch?v=drq_6XFP5aM

Parte 2, 40 minutos, alguma informação sobre gnosticismo e minhas incursões mais recentes em xamanismo e poesia, e mais leituras de poemas: https://www.youtube.com/watch?v=ceGeslwMIDc&feature=youtu.be

Parte 3: 19 minutos, os beats, minhas traduções, entre outros tópicos – e leituras de poesia: https://www.youtube.com/watch?v=HhfU7l-TaMk

Meu registro videográfico é considerável (viva os avanços tecnológicos, e que pena não haver tudo isso umas décadas atrás….), além das entrevistas e depoimentos publicados. Nesta, transformada em série de três, observo sua atualidade, as informações sobre o que tenho preparado e os comentários sobre o que se passa agora. E a precisão de Fabiano como entrevistador, por ele conhecer bem o conteúdo, os temas de suas perguntas.

Palestra: “Os Cantos de Maldoror e a poesia selvagem de Lautréamont”

(Quando divulgada por Jean-Jacques Lefrère em 1977, esta foto de Lautréamont / Isidore Ducasse suscitou dúvidas; contudo, outra, em companhia de colegas identificáveis do Liceu de Tarbes, confirmou ser mesmo ele)

Quando: dia 20 de maio, sábado, das 18 h. até aproximadamente as 19h45, incluindo conversar com o público.

Onde: Espaço Cênico O Lugar da Cia. Corpos Nômades de João Andreazzi, à Rua Augusta 325, fone 011-32373224

EVENTO GRATUITO. Contudo, por motivos óbvios, convém inscrever-se no Espaço Cênico O LUGAR – Cia. Corpos Nômades.

Além de traduzir e prefaciar a obra de Lautréamont, e de publicar artigos, dei inúmeras palestras sobre ele. Não obstante, conseguirei preencher um tríplice propósito, sem repetir-me:

  1. Oferecer uma introdução geral a Lautréamont, com algumas chaves importantes para sua leitura;
  2. Mostrar conexões com a encenação de “Hotel Lautréamont: os bruscos buracos do silêncio” de João Andreazzi, em cartaz neste Espaço Cênico O Lugar;
  3. Apresentar alguma interpretação adicional com relação ao que já publiquei. Por exemplo, argumentar que o título do capítulo “Lautréamont: elucubrações de um serial killer” em A literatura e os deuses de Roberto Calasso pode ser tomado no sentido literal. E falar mais sobre Poesias, e não apenas Os cantos de Maldoror.

Lembrando que exemplares da mais recente reedição de Lautréamont completo publicada pela Iluminuras – Os cantos de Maldoror , Poesias, Cartas, além de prefácio e outras informações – estão à venda no teatro, com uma redução significativa do preço: a R$ 50,00 o exemplar. Já autografei alguns na estréia.

A palestra possibilitará que leitores absorvam os perfumes e as emanações sulfúreas do delicado escrínio (estou novamente imitando o estilo dele).

Um artigo meu disponível no meio digital: Lautréamont, leitor de Baudelaire, em https://www.academia.edu/16274999/LAUTR%C3%89AMONT_LEITOR_DE_BAUDELAIRE

Com a peça em cartaz e a palestra, que tal transformarmos maio de 2017 em mês Lautréamont?

Lautréamont completo à venda, e com desconto, nesta nova encenação de “Hotel Lautréamont: Os Bruscos buracos do silêncio”

A edição que preparei para a Iluminuras, o Lautréamont completo reeditada várias vezes desde 1997, com Os cantos de Maldoror, Poesias, Cartas, notas, ensaio, informações adicionais. Aqui, a capa da nova edição, publicada em 2015, com os abutres – ou alguma outra ave falconiforme? – tão bem adicionados pelo artista plástico Nuno Ramos.

O livro escrito pelo homem de lábios de bronze (como podem ver, estou imitando seu estilo propositadamente rebuscado) estará à venda e poderá ser adquirido e levado para casa (ou qualquer outro lugar) para ser lido por novos (e antigos) leitores a R$ 50,00 o exemplar – livrarias oferecem a mesma edição dos escritos do homem dos lábios de enxofre, tão empenhado em seu combate com Deus e o Homem, e principalmente na destruição da relação de significação, a R$ 66,00 (minha credibilidade não será abalada pela consulta ao Google e a páginas de internet).

Já havia anunciado que o reencontro será nesta encenação de “Hotel Lautréamont: Os Bruscos buracos do silêncio” pela Cia. Corpos Nômades de João Andreazzi no Teatro O Lugar, á Rua Augusta 325, às sextas, sábados e domingos, com estréia nesta sexta feira, dia 12 de maio. A mesma encenação, ou uma atualização da mesma encenação que ficou mais de um ano em cartaz entre 2010 e 2011, colhendo elogios da crítica e sonoros aplausos de espectadores. Demais informações relevantes – ou acessórias, conforme o julgamento de cada um – estão aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2017/05/01/a-volta-do-conde-de-lautreamont/

Minha espectral figura estará presente na estréia, inclusive para autografar exemplares, assim como em outras ocasiões, previsíveis ou imprevisíveis.

Em breve, anunciarei palestra, em um futuro próximo, ou não tão distante, no mesmo local. Esclarecerei o sentido da imagem do pato com lábios de vermute, entre outras informações – algumas talvez familiares para quem já assistiu palestras ou esteve em minhas oficinas; outras que poderão surpreender, pois sempre procuro renovar-me. É claro que curtiremos as redundâncias propositais, anacronismos, perífrases e demais artifícios da sedução do criador de Maldoror.

Adiciono ainda o mais recente dos artigos elogiosos (mas todos foram elogiosos) tratando da minha tradução da obra do homem dos lábios de safira: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/02/a-boa-resenha-da-nova-edicao-de-os-cantos-de-maldoror-poesias-cartas-de-lautreamont/

Maldoror, Lautréamont, Isidore Ducasse, este seu tradutor e comentarista, João Andreazzi e os Corpos Nômades agradecem à editora Iluminuras de Samuel León pela  oportuna promoção.

A VOLTA DO CONDE DE LAUTRÉAMONT

Retorna pela Cia. Corpos Nômades de João Andreazzi a encenação / adaptação de Os Cantos de Maldoror de Lautréamont, com tradução – publicada pela Iluminuras – e assessoria minhas. Estréia será dia 12 de maio, sexta feira. Dia 20, um sábado, darei palestra intitulada “A poesia selvagem de Os Cantos de Maldoror de Lautréamont”.

Lembrando, a versão anterior da mesma encenação ficou mais de um ano em cartaz, entre 2010 e 2011. Além do comparecimento de público, justificando ampliação da temporada, foi calorosamente elogiada pela críticas.

A seguir, ficha técnica e outras informações:

“HOTEL LAUTRÉAMONT – OS BRUSCOS BURACOS DO SILÊNCIO”
Espetáculo da Cia. Corpos Nômades inspirado na obra de Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont, considerado o precursor do surrealismo na literatura.

Dia 12 de Maio de 2017 estreia a remontagem do espetáculo ‘Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio’ (2009), com coreografia e direção de João Andreazzi. A temporada inicia o projeto que comemora 10 anos de existência da sede da companhia – o Espaço Cênico O Lugar, na Rua Augusta 325. O projeto foi contemplado pelo 20º Programa Municipal de Fomento à Dança da cidade de São Paulo e para comemoração dos 10 anos de existência do Espaço Cênico O LUGAR a Cia. Corpos Nômades e conta com o apoio do O BOTICÁRIO NA DANÇA, através do PROACICMS/ Governo do Estado de SP.

‘Os Cantos de Maldoror’

Livro poético escrito entre 1868 e 1869 por Isidore Ducasse sob o pseudônimo Conde de Lautréamont. Poeta francês de origem uruguaia, Ducasse serve de referência para a construção e a elaboração dos momentos cênicos coreografados.

Como diretor e coreógrafo residente da Cia. Corpos Nômades, Andreazzi gerou um amplo espectro de encenações. De Marcel Duchamp a Samuel Beckett e de Manoel de Barros a Shakespeare, todos relidos a partir do tratamento específico dado ao corpo por Deleuze e Guattari, ele propõe encenações múltiplas, plurais. Ao mesmo tempo dança, teatro e música, as elaborações visuais criadas por Andreazzi e apresentadas pela Cia. Corpos Nômades são únicas; criando símbolos em cena, ao invés de simbolizar.

O próprio ser mutante protagonista do Conto, Maldoror, é um afrodisíaco para a criação coreográfica, um homem que se recorda de haver vivido durante meio século sob a forma de tubarão, nas correntes submarinas que margeiam as costas da África. Ora jovem, ora de cabelos brancos; aqui moribundo, ali capaz de façanhas atléticas; transformado em águia para combater a esperança, polvo para melhor lutar com Deus, porco em seus sonhos, coisa informe, misturada à natureza, objeto de identidade indefinida.

Trechos: “É um homem ou uma pedra ou uma árvore quem vai começar o quarto canto. Disfarça-se no combate ao bem: Tinha uma faculdade especial para tomar

formas irreconhecíveis aos olhos mais treinados”. Esses elementos são extremamente

férteis para a construção cênica coreográfica.

Serviço

“Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio”

Estreia 12 de Maio de 2017, temporada segue até 09/07/2017.

Sextas e sábados 21h, Domingos 20h30

Recomendação: 14 anos

Lotação: 64 lugares

Ingressos: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (Meia)

Espaço Cênico O LUGAR – CIA. CORPOS NÔMADES

Rua Augusta, 325

São Paulo – SP

tel. 011-32373224

PALESTRA: “A Poesia Selvagem de os Cantos de Maldoror de Lautréamont”, com Claudio Willer, no dia 20/05/2017 sábado das 18h às 20h. Evento gratuito. No Espaço Cênico O LUGAR – Sala Norte. Inscrições até o dia 19/05, pelo e-mail:ciacorposnomades@gmail.com, encaminhar uma carta de interesse e escrever no assunto (Palestra Lautréamont).

Ficha Técnica

Concepção Geral, Direção e coreodramaturgrafia: João Andreazzi

Elenco: Gervásio Braz, João Andreazzi, Korina Kordova, Rossana Boccia, Vagner

Cruz

Textos: Conde de Lautréamont

Assessoria dramatúrgica e tradução da obra do Conde de Lautréamont: Claudio Willer

Adaptações e novos textos: Claudio Willer e Cia. Corpos Nômades

Montagem Trilha Sonora: Vanderlei Lucentini

Pianista ao vivo: Diogenes Junior

Iluminação: Décio Filho

Figurino: David Schumaker

Produção: Cia. Corpos Nômades

Fotos: Cris Lyra e Lenise Pinheiro

Recomendação etária: 14 anos

Agradecimentos: Bernhard Gal e Arco Duo (trechos da trilha sonora)

Mais um aniversário de Jorge de Lima (23 de abril de 1893 – 15 de novembro de 1953): imagens e dois poemas

Álbum de fotos de quando dei palestra em União dos Palmares, cidade natal do poeta, convidado por Claufe Rodrigues em outro 23 de abril, de 2014. Entre outros motivos de satisfação, subir à Serra da Barriga (reduto de Zumbi dos Palmares e onde Jorge esteve pela primeira vez aos 5 anos de idade, experiência marcante), visitar a casa dele, trocar idéias com a filha Maria Tereza Jorge de Lima e outros especialistas.

Separei dos poemas dele que aprecio especialmente, de Invenção de Orfeu. Um deles, o XXVII do Canto Primeiro, trazido a esta oficina literária que estou coordenando no EdArt, bem escolhido como exemplo de imagens poéticas; outro, o XXI do Canto Terceiro, que levarei á próxima sessão da oficina, no qual a meu ver, o som toma a frente do sentido.

 

XXVII

Há uns eclipses, há; e há outros casos:

de sementes de coisas serem outras,

rochedos esvoaçados por acasos

e acasos serem tudo, coisas todas.

 

Lãs de faces, madeiras invisíveis,

visões de coitos entre os impossíveis,

folhas brotando de âmagos de bronze,

demônios tristes, choros nas bifrontes.

 

Tudo é veleiro sobre as ondas íris,

condores podem ser os baixos ramos,

montes boiarem, aços se delirem.

 

Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,

lábios sedentos, lírios com ventosas,

ódios gerando flores amorosas.

XXI

As portas finais,

os cantos iguais,

os pontos cardeais

sempre obsidionais.

 

Os tempos anuais,

as faces glaciais,

as culpas filiais,

sempre obsidionais.

 

Os dois iniciais,

as dores tais quais,

os juízos finais

sempre obsidionais.

A propósito da Biblioteca de Roberto Piva, uma consulta

Vejam 

Gabriel Rath Kolyniak alerta que, para manter-se, a Biblioteca de Roberto Piva precisa de recursos: “[…] abril é um mês crítico para nosso projeto. O dinheiro arrecadado com o crowdfunding foi suficiente para apenas pagar alguns meses de aluguel adiantadamente. Passado abril, precisamos encontrar uma solução para manter a Biblioteca onde ela está.” Lembrando, fica à Avenida São João, 108, sala 24, perto do metrô São Bento. Mais em https://www.facebook.com/bibliotecarobertopiva/?pnref=story Vejam também: https://bibliotecarobertopiva.wordpress.com/contact/

Proponho-me – depois de conversar com Gabriel – a dar cursos, destinando metade do arrecadado para a Biblioteca. Recentemente, no teatro da Cia. Corpos Nômades – O Lugar, tivemos Xamanismo e Poesia, com bons resultados: cobramos R$ 30,00 por aula, com direito a meia para quem pagasse pelo curso todo. Valores seriam esses. Mas eu quero saber quais temas suscitam maior interesse. Só não darei oficina de criação literária, por motivos éticos: comecei uma, agora, também cobrando mensalidade, no EdArt, e não concorro comigo mesmo.

Os temas possíveis de cursos – informem quais preferem no espaço para comentários deste blog ou no Facebook, onde isto também aparecerá :

ROBERTO PIVA: POESIA E POÉTICA: quatro aulas, duração de duas horas cada, incluindo a contribuição de teses, dissertações e ensaios tratando dele, além de publicações recentes como a biografia-reportagem Os dentes da memória, a coletânea de entrevistas e a nova antologia, todas lançadas pela Azougue, e o volume de inéditos Antropofagias e outros escritos, pela Córrego.

XAMANISMO E POESIA: também quatro aulas; basicamente, o curso que acabei de dar na Cia. Corpos Nômades – O Lugar, e que suscitou interesse.

SURREALISMO: UMA POÉTICA DO DELÍRIO, com oito aulas, versão atualizada do que apresentei há dois anos na Unicamp e na Cia. Corpos Nômades – O Lugar, tratando de poesia, artes visuais, cinema, objetos, espaços urbanos e arquitetura, acaso objetivo e demais tópicos relevantes.

UMA INTRODUÇÃO À LEITURA DE JACK KEROUAC: três aulas, mostrando a complexidade da obra do criador do termo Geração Beat, sugerindo interpretações e roteiros de leitura. Nas três palestras na mostra de cinema Geração Beat, que atraíram mais de cem pessoas (público excedeu, faltou lugar), ficou claro para mim que sobrava assunto, que caberiam mais palestras

ALLEN GINSBERG E A GERAÇÃO BEAT: três aulas, examinando- como poeta, pensador político e personagem relevante do século 20 – nestes dois tópicos, Ginsberg Kerouac, tenho acréscimos e novidades com relação aos livros e artigos que já publiquei.

POESIA E CIDADES – de William Blake, Gérad de Nerval e Baudelaire até os contemporâneos: seis aulas. Ministrei esse curso por duas vezes, em 2008, e obviamente tenho novidades.

Consulto também sobre datas e horários: sextas feiras à noite, tipo 19h30 às 21h30? Ou sábados no fim da tarde, por volta das 18 hs?

20 anos sem Allen Ginsberg (3 de junho de 1926 – 5 de abril de 1997)

De um artigo de Mikal Gilmore publicado na Rolling Stone de maio de 1997 e reproduzido no substancioso compêndio The Rolling Stones Book of the Beats: “A uma dada altura em sua última semana de vida, ele [Ginsberg] cantou acompanhando uma gravação de “C. C. Rider” pela vocalista de blues da década de 1920 Ma Rainey – a primeira voz de que Ginsberg se lembrava de ouvir quando criança.” Em seu necrológio para Naomi Ginsberg, sua mãe morta em um hospício, pôs este verso “com teus olhos de Ma Rainey morrendo numa ambulância”. Tratei, em uma palestra recente, do significado dos blues para a poesia de Ginsberg. Seu modo de ler poemas, achava-o parecido com um “kantor” de sinagoga; mas Ginsberg esclareceu, em uma entrevista para Harvey R. Kubernik, também na Rolling Stone: “… eu cresci com os blues, Ma Rainey e Leadbelly. Ouvi-os ao vivo na estação de rádio WNYC, no final dos anos trinta e começo dos quarenta. Há algo de uma relação do canto hebraico com os blues que eu sempre tive.” Em outro trecho, comenta que Frank Sinatra havia aprendido seu modo de expressar-se, de dizer as palavras das músicas, com os negros. Pela mesma razão, suponho, Kerouac estava nas filas de fãs para assistir a shows de Sinatra em 1939, antes de conhecer Ginsberg e os demais beats.

Quero voltar a tratar disso em palestras, mostrando algo da contribuição dos negros americanos, com os quais Ginsberg, Kerouac e outros beats se solidarizavam e se identificavam. Associar aos rumos que a poesia de Ginsberg tomou depois dos poemas de alto impacto como “Uivo”, “América” e “Kaddish”, e suas parcerias com músicos (Bob Dylan, Paul McCartney em Dance of Skeletons, The Clash etc).

Também do artigo de Gilmore: “Mais que qualquer outra coisa, contudo, Ginsberg foi alguém que convocou a bravura para dizer verdades escondidas sobre coisas de que não se falava, e algumas pessoas ganharam consolo e coragem de seu exemplo. Esse exemplo – a insistência em que ele não iria simplesmente calar a boca e de que não se deveriam aceitar valores e experiências delimitadas – talvez seja o maior presente de Ginsberg para nós.”

Fiz uma seleta de posts sobre Ginsberg já publicados aqui:

Minha tradução de “Kral Majales”, seu poema sobre a expulsão da Tchecoslováquia em 1965, com observações sobre sua religiosidade plural, não-institucional: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/

Um dos meus posts mais visitados é “Allen Ginsberg para homofóbicos”, com a tradução de “Please master”, “Por favor meu amo”, por Paulo Henriques Brito, publicado em A queda da América (L&PM): https://claudiowiller.wordpress.com/2015/06/05/allen-ginsberg-para-homofobicos-um-poema-edificante-e-instrutivo/

Pdf de cartas d Ginsberg, incluindo instruções importantes para minha tradução: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/09/mais-paginas-de-cfartas-de-allen-ginsberg/

A comparação do trecho de “Kaddish” com “Union libre” de Breton, sugerida por Barry Miles: https://claudiowiller.wordpress.com/2014/06/03/kaddish-de-allen-ginsberg-1926-1997/

Reproduzo trecho do meu post de 2011, sobre sua lucidez e capacidade de antecipação:

“A exaltação mística e o ímpeto messiânico de Ginsberg coexistiram com um pensamento político articulado e atento aos detalhes. A passagem de algumas décadas confere valor adicional a suas declarações e manifestações. Isso, pelas tomadas de posição que o projetaram como liderança na mobilização contra o militarismo norte-americano e a intervenção no Vietnã, e por críticas como aquela ao regime cubano, então precursoras e atualmente óbvias, em tópicos como a perseguição de homossexuais e repressão à “santeria”. E por precisas análises pontuais. Por exemplo, em sua palestra sobre Ezra Pound, “Poetic Breath, and Pound’s Usura”, de 1971, publicada em Allen Verbatim. Após discorrer sobre prosódia, ritmo e respiração em poemas de Charles Olson e William Carlos Williams, detém-se nos famosos versos sobre a usura do Canto XLV dos Cantos de Pound. Mostrando a musicalidade de um verso como “Azure hath a canker by usura”; comenta o modo como o próprio Pound lia esses versos; observa a escolha de “with usura the line grows thick” em vez de “with usura the line gets thick”, argumentando que em Pound o som tinha sentido e cada vogal tem “substancialidade”. Finalmente, levando em conta esses valores sonoros, caracteriza o Canto XLV como um “grande exorcismo da usura” e contextualiza, denunciando a privatização e controle do dinheiro por bancos, que por sua vez se tornam credores dos governos:

Assim, o que Pound está observando é que todo o sistema monetário, o sistema bancário, é uma alucinação, e ele está explicando a estrutura dessa alucinação e retroagindo historicamente, porque a estrutura muda em cada era da reforma bancária. […] A questão é que a franquia é comprada por um grupo de monopolistas privados; daí em diante eles possuem o negócio bancário, nesse sentido, pois pagaram um milhão ao governo e tem um milhão em seus porões, e subitamente, no papel, possuem dezoito milhões a mais do que o capital inicial.

Nem é preciso insistir na pertinência dessa análise; o quanto se aplica à crise econômica em curso, decorrente da condução de políticas econômicas por bancos e da especulação desenfreada. Poderia constar em artigos escritos de 2008 até hoje.

Outro exemplo da sintonia fina em análises políticas está em Indian Journals, o diário de sua estada na Índia por mais de um ano, de março de 1962 a maio de 1963. No meio de poemas, reflexões sobre criação poética, registros de leituras, relatos de alucinações e efeitos de drogas, descrições do que via no período em que, junto com Peter Orlowski, levou vida de saddhu, monge mendicante, acrescentou um recorte de jornal. É um artigo intitulado “A classe privilegiada”, denunciando que “1% dos lares do país possuem nada menos que 75% dos bens privados”. Assim argumentou que a estatização, a economia fechada e o monopólio bancário geram corrupção e acentuam a concentração de renda – também algo evidente hoje, à luz das melhoras do quadro econômico daquele país.

Ainda sobre os bons insights políticos de Ginsberg, seu exame, também precursor, do tema das drogas, tal como exposto na série de palestras-diálogos de Allen Verbatim intitulada “Political Opium” (ópio político). Nelas, ao caracterizar o tráfico de drogas como flagelo urbano, argumentou tratar-se de resultado da proibição . Focalizou especialmente o Harrison Act de 1920, que baniu o ópio e derivados, e criminalizou seus usuários – invariavelmente, conduzindo à colaboração entre policiais e crime organizado, além de desviar recursos do que realmente interessaria, pesquisas e políticas de saúde pública em favor de viciados, obrigando-os a ter nos traficantes seus únicos interlocutores.

Apontar economias fechadas e burocratização como fonte de corrupção; proclamar que a transferência das decisões de política econômica para os bancos levaria ao desastre; insistir em que a criminalização do uso de drogas fortalece o crime organizado; tomar a defesa da diversidade sexual e cultural como crítica ao ‘socialismo real’: aí estão tópicos de uma agenda que deixou de ser exclusiva de seguidores ou continuadores da Geração Beat. No entanto, Ginsberg formulou esse tipo de crítica em 1962 (relativamente às economias fechadas), 1965 (sobre Cuba), 1970 (contra a criminalização de drogados) e 1971 (sobre os bancos e a especulação financeira). Pode-se, por isso, caracterizá-lo como um lúcido analista político.

Em outras intervenções, Ginsberg foi igualmente precursor, nas manifestações pacifistas, na defesa incondicional da liberdade de expressão, do multiculturalismo, da tolerância e respeito à diferença.

Tudo isso, hoje em dia, é agenda de setores amplos da sociedade e de um diversificado elenco de personalidades públicas; mas eram temas minoritários, alguns vistos como excêntricos, quando apresentados por Ginsberg; e também, em inúmeras ocasiões, por McClure, Ferlinghetti, Snyder, Di Prima, Waldman e outros beats.

O registro dessas manifestações corrige um estereótipo relativo ao místico, como alguém isolado e alheio ao mundo. Passar metade do ano recluso, em meditação (na época em que o traduzi), e a outra metade dedicando-se a uma intensa atuação pública chega a ser uma metáfora da harmonia desses dois campos, misticismo e política.”