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MAGIA E CRIAÇÃO POÉTICA: O XAMANISMO

Peço ampla divulgação desta palestra. Venham. Tenho certeza de que apreciarão:

O que é um xamã? A que modalidades de magos, feiticeiros e sacerdotes se aplica o termo? Até que ponto alguns poetas podem ser identificados a xamãs? O que em suas obras justifica essa associação? Por que uma declaração como “O Eu é um outro” de Rimbaud resume algo típico do xamanismo? Qual a contribuição de Herberto Helder à compreensão das afinidades de poesia e xamanismo? Um poema como “o índio interior” da Invenção de Orfeu de Jorge de Lima pode ser lido como xamânico? O soneto “Versos dourados” de Gérard de Nerval é poesia xamânica? Cabem as associações de Artaud ao xamanismo?

 

Local: Rua Salvador Simões, 918, no Ipiranga Business Center (a um quarteirão da estação de Metrô Alto do Ipiranga, saída na Rua Gentil de Moura) (agradeço hospitalidade e cederem espaço)

Data e horário: Sábado, dia 23 de julho de 2016, das 18h00 às 20h30 (com intervalo para lanche).

Valor do ingresso R$ 12, 00.

Capacidade do Auditório- 60 lugares.

Haverá projeção de audiovisual, imagens e textos.

 

Como fazer sua Inscrição?

Para efetuar sua inscrição você deverá se cadastrar no “Fale Conosco” pelo link: http://www.ipirangabusinesscenter.com.br/#!blank-3/lb231 .

O valor de contribuição de R$12,00 deverá ser pago no dia do evento. Qualquer dúvida entre em contato pelo e-mail: contato@ipirangabusinesscenter.com.br ou pelo telefone 50616205 e fale com Philippe

SINOPSE

O termo xamã, originariamente aplicado a sacerdotes ou feiticeiros siberianos e uralo-altaicos, deve sua extensão, comsideravelmente, a Mircea Eliade, autor de O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase, livro de 1951. O historiador das religiões registrou suas características em povos e sociedades de diferentes lugares e períodos. Examinou iniciações com viagens aos céus e ao centro da terra, subidas e descidas ao longo de um eixo do mundo; experiências de morte e renascimento, destruição e reconstituição do corpo; utilização de substâncias psicoativas; o ocasional travestimento ou transexualidade; as provas de aquisição de poderes como profetizar, curar, deslocar-se. E a expressão através de outra linguagem –origem da poesia – possibilitando a comunicação com espíritos, animais, a natureza.

Serão citados estudiosos mais recentes, enriquecendo esse exame e tornando mais preciso o uso do termo. E será mostrado de que modo temas e traços do xamanismo podem ser encontradas em uma diversidade de autores, desde Dante Alighieri, passando por William Blake, Gérard de Nerval e Rimbaud, até modernos e contemporâneos como Jorge de Lima, Antonin Artaud, Vicente Huidobro, Herberto Helder, Michael McClure, Jerome Rothemberg, Roberto Piva e outros mais recentes. O objetivo é enriquecer a leitura da poesia, possibilitando enxergar mais sentidos.

O CONFERENCISTA: Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde, ao surrealismo e geração beat. Livros recentes: A verdadeira história do século 20, poesia (Apenas Livros, Lisboa, 2015); Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, ensaio (L&PM, 2014); Manifestos, 1964-2010, (Azougue, 2013), Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (Civilização Brasileira, 2010); Geração Beat (L&PM Pocket, 2009); Poemas para leer en voz alta (Andrómeda, San José, Costa Rica, 2007); Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004). Traduziu Lautréamont, Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Antonin Artaud. Publicado em antologias e periódicos no Brasil e em outros países. Presidiu a UBE, União Brasileira de Escritores, em vários mandatos. Doutor em Letras na USP, onde completou pós-doutorado. Deu cursos, palestras e coordenou oficinas e outras atividades em uma diversidade de instituições culturais. Mais em https://claudiowiller.wordpress.com/about .

 

Nova palestra sobre Antonin Artaud: após espetáculo do Taanteatro, na Cia. Corpos Nômades

(haverá postagem frenética neste blog por causa da agenda intensa deste fim de mês : esta palestra, apresentação no próximo domingo em Bragança Paulista, oficina de criação na UFSCar em São Carlos, a coletânea ‘Ásperos perfumes’ com meu ensaio sobre criação literária e algumas drogas, outras novidades interessantes)

Será esta sexta feira, dia 22 de maio. Em O Lugar, após cARTAUDgrafia 1 – uma correspondência, do Taanteatro de Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek, que começa às 21 h. Tudo sobre o espetáculo no informe a seguir.

Já havia apresentado palestra após espetáculo sobre Artaud do Taanteatro. Em dezembro, registrada neste vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=YbMBNG-24iw&feature=youtu.be

Desta vez, falarei uns 38 minutos – ou uns 43? Comentarei as cartas de Artaud a Jacques Rivière e sua identificação com os poetas malditos.

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O informe:

cARTAUDgrafia 1 – uma correspondência – Primeiro espetáculo da trilogia cARTAUDgrafia, projeto da Taanteatro Companhia para 2015, aborda a vida e a obra de Antonin Artaud. cARTAUDgrafia 1 traz a correspondência de Artaud com Jacques Rivière, editor da Nouvelle Revue Française, nos anos 20. Esta correspondência nunca foi traduzida e tampouco encenada no Brasil. O espetáculo evoca a infância de Artaud, suas origens, os tratamentos eletro-terapêuticos aos quais foi submetido na juventude por sofrer de meningite; a crítica artaudiana das instituições da família, do Estado e do racionalismo ocidental. Traz ainda seu panteão de “poetas malditos” – habitado por Baudelaire, Nerval, Nietzsche, Lautréamont, Rimbaud, Poe, Jarry – considerados por Artaud como os “campos de batalha” da cisão entre corpo e espírito.

cARTAUDgrafia 1: Uma Correspondência – Temporada:22 a 31 de maio de 2015 – sexta e sábado às 21h, domingo às 20h.-Classificação 10 anos | 60 minutos

Video da palestra sobre Artaud: um brinde ao Ano Novo

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Falei por quase uma hora. Improvisei. Video muito bem montado por Paula Alves, utilizando as imagens projetadas no evento organizado por Wolfgang Pannek, do Taanteatro.
Este é o link para assistir à palestra:
https://www.youtube.com/watch?v=YbMBNG-24iw&feature=youtu.be ou

A nota divulgada pelo Taanteatro:
Pensamentos em Performance
SOBRE ARTAUD
Video da palestra de Claudio Willer
por ocasião do lançamento de
cARTAUDgrafia…
projeto da Taanteatro Companhia em 2015.
Coordenação; Wolfgang Pannek
Video: Paula Alves
Fomento À Dança

Sobre Artaud e surrealismo, neste blog:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/
Uma postagem com o link de um artigo mais extenso sobre Artaud, além daquele da entrevista, que menciono, com Paule Thévenin, e outras observações:
https://claudiowiller.wordpress.com/2013/10/06/antonin-artaud-o-ensaio-e-mais/
Faltou, nesta palestra (problema não foi a falta de assunto):
Eu observar que Artaud, mesmo reconciliado com Breton, não aceitou o convite dele, de participar na Exposição Internacional do Surrealismo:
Nas projeções finais de imagens de Maria Izquierdo e Ortiz Monasterio, associar a outras passagens de Artaud, como o esquartejamento de Heliogábalo e todas as castrações e mutilações relatadas nessa obra – isso, como etapas para chegar a sua idéia de um novo corpo, um corpo sem órgãos, nas obras finais.
Haverá mais palestras – e ensaios, e outras intervençoes.
Agradeço aos 316 assinantes deste blog. Que se multipliquem – subscrevam-me.
Feliz 2015.

Palestra sobre Antonin Artaud

Antonin Artaud downloadPróximo sábado, dia 06/12. Às 20 h.Na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Promovida pela Taanteatro Companhia, de Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek, como parte do ciclo ‘Debates: pensamentos em performance’ e do lançamento de “cARTAUDgrafia” – projeto coreográfico da Taanteatro Companhia sobre a obra e vida de Antonin Artaud.
Será logo após o espetáculo “Androgyne – Sagração do fogo”, direção Coreográfica e Supervisão Geral: Maura Baiocchi, concepção, coreografia e interpretação: Alda Maria Abreu, no mesmo local, às 19 h. Os organizadores informam: 40 lugares (retirar senhas com 30 minutos de antecedência). 60 minutos. O espetáculo [já assisti e gostei] distingue-se por uma meticulosa pesquisa corporal e evidencia as dimensões erótica e sagrada do corpo andrógino. Além das fronteiras de gênero, a obra transborda as linguagens cênicas promovendo um pas des deux entre dança real e virtual, onde corpo e imagem se fundem na criação de um corpo multimídia. “Androgyne” é a mais recente produção da Taanteatro Companhia e foi contemplada com o Prêmio APCA 2013, o Prêmio Denilto Gomes 2013 e o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2013.
Oficina Cultural Oswald de Andrade: Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – Cep: 01123-001 – São Paulo – SP
Telefone: (11) 3222-2662 / 3221-4704 | oswalddeandrade@oficinasculturais.org.br
Programação completa, informando tudo o que acontecerá (bastante coisa): http://oficinasculturais.org.br/programacao/ver.php?idoficina=7
Faz tempo que não dou palestra sobre Antonin Artaud. Outra hora publico o relato de como foi aquela em São Tomé das Letras – acho que desta vez não teremos raios, trovões e apagões. Com o Taanteatro, foi em 1996, comemorando o centenário do criador do teatro da Crueldade. Acho que retomarei e detalharei tópicos deste artigo: https://www.academia.edu/4691151/Sobre_Antonin_Artaud_um_ensaio_in%C3%A9dito – e do meu “Escritos de Antonin Artaud” (L&PM), infelizmente esgotado há décadas. Com o pessoal do Taanteatro já fiz outras coisas. Sobre esse ativo grupo, http://www.taanteatro.com/taanteatro e http://www.taanteatro.com/
Ah, sim! Já publiquei sobre Artaud aqui, neste blog! https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/ – além das obrigatórias reimpressões da minha tradução da Carta ao Papa, um dos post mais acessados aqui, e da carta aos chefes de manicômios.

Sinopse da palestra sobre poesia e loucura, SESC Santos, 15 de fevereiro

No ciclo Mente & Arte: Subjetivo infinito, coordenado por Flavio Viegas Amoreira. Não examinei todos os tópicos dessa sinopse. Pulei o exame de Artaud e geração beat: material para curso ou ciclo de palestras. Preferi dar maior atenção à questão de método ou de crítica ao final: a distinção entre o texto louco e o autor louco.

1. A MUDANÇA DE STATUS DA LOUCURA AO LONGO DA HISTÓRIA:
a) na Antiguidade, o louco como emissário divino; o delírio inspirado em Platão; sibilas, mênades, pitonisas oráculos e xamãs.
b) com o advento do cristianismo, o louco como um possuído pelo diabo.
c) a loucura clássica: o louco como alguém a ser isolado; caso extremo, a Nave dos Loucos (entre outras fontes, História da loucura de MICHEL FOUCAULT)
c) o louco como doente a ser tratado, com o Iluminismo, na virada dos séculos 18 e 19: PHILIPPE PINEL (1745-1826); a psiquiatria e as classificações ou tipologias da loucura.
d) os sintomas, especialmente o delírio, passam a ser considerados significativos, dotados de um sentido: PIERRE JANET (1859-1943), JOSEF BREUER (1842-1925) e especialmente SIGMUND FREUD  (1856-1938): da hipnose e associação livre à interpretação e à compreensão mais profunda do ser humano
d) o louco como um criador: especialmente, ANDRÉ BRETON (1896-1966) e o surrealismo.

2. A MUDANÇA DO VALOR LITERÁRIO AO LONGO DA HISTÓRIA:
Sugeri um paralelo entre a percepção da loucura e aquela do valor artístico e literário:
a) o classicismo, valor como ajuste ao cânone; a imitatio dos mestres – mas relativamente, também valorizaram a inovatio, exemplifiquei com Dante Alighieri, que na Divina Comédia apresentou Virgílio como mestre mas homenageou Arnaut Daniel e Guido Cavalcanti, dois inovadores.
b) o valor romântico, arte como expressão do indivíduo, da subjetividade, do “eu”; a correlata valorização da originalidade.
c) o valor simbolista: citei ROGER SHATTUCK em The Banket Years, The Origins of the avant-garde in France, para quem, na belle époque (de 1885 a 1918) criações passaram a interessar, não mais como reprodução da norma, mas como desvio dessas normas. Se o romantismo havia questionado a imitatio, contrapondo-lhe a originalidade, para os simbolistas o artista deixou de ser quem eterniza o ideal do classicismo; passou a ser aquele que rompe com o ideal, afirmando-se como individualidade e diferença. Daí as proclamações, identificando o novo ao valor, como “é preciso ser absolutamente moderno” de ARTHUR RIMBAUD (1854-1891), e sua poética do desregramento dos sentidos, do delírio e da loucura.

3. POETAS LOUCOS:
Loucos românticos. FRIEDRICH HÖLDERLIN (1770-1843), que prosseguiu a escrever poesia de qualidade depois de perder a identidade, mergulhar na loucura. GÉRARD DE NERVAL (1808-1855), autor de uma narrativa delirante, Aurélia, escrita quando internado e antes de suicidar-se: “O que são as coisas deslocadas! Não me acham louco na Alemanha. […] A imaginação trazia-me delícias infinitas. Recobrando o que os homens chamam de razão, não deveria eu lamentar tê-las perdido?”. Mas quando escreveu os sonetos perfeitos de As quimeras também teve surtos; e narrativas em prosa como Silvia tem estranhos desvios, como bem percebeu UMBERTO ECO em Seis passeios pelos bosques da leitura; os relatos de viagem que confundem descrições, mitos e invenções.
Um louco simbolista: GERMAIN NOUVEAU (1851-1920), colega de Rimbaud em Londres, saiu andando em peregrinação, voltou anos mais tarde, nunca mais falou e continuou a escrever poesia de excelente qualidade. ALFRED JARRY (1873-1907), autor de Ubu Rei: excêntrico delirante e inovador. Para Shattuck, “aquilo que distingue Jarry de toda uma tradição de visionários, de Plotino a Rimbaud, é, antes de tudo, haver tentado, chegando quase ao suicídio, atingir um grau novo de existência, através do mimetismo literário, de confusão entre vida e arte”. RAYMOND ROUSSEL (1877-1933), autor de Locus Solus e Impressões da África: caso psiquiátrico, paciente de Pierre Janet.

4. SURREALISMO E LOUCURA:
A formação de ANDRÉ BRETON (1896-1966) em psiquiatria. No Manifesto do surrealismo, “o medo da loucura não nos impedirá de hastear a bandeira da imaginação”. Gênese do surrealismo em Gérard de Nerval. Alucinações, ataque aos psiquiatras e manicômios em Nadja. À notícia de que Nadja, em pleno delírio, havia sido internada, afirmou que, se fosse internado, mataria alguém, de preferência um de seus médicos, para que o deixassem em paz, confinado no isolamento. Simulação da loucura em Imaculée Conception de Breton e PAUL ÉLUARD. Elogio da loucura em La clé des champs, l’art des fous, sobre o movimento Art Brut, com JEAN DUBUFFET: o artista louco é uma reserva de saúde moral, por não criar para a aceitação pela crítica e mercado.
ANTONIN ARTAUD (1896-1948), sua ligação com surrealismo: a Carta aos médicos-chefes dos manicômios, de 1925, antecipando seus internamentos a partir de 1937. As Cartas de Rodez; “Loucura e magia negra” em Artaud o Momo; Van Gogh, o suicidado pela sociedade: “O que é um louco?” O reencontro de Breton e Artaud em 1946, do qual tratei em meu blog: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/

5. GERAÇÃO BEAT: A VALORIZAÇÃO DA LOUCURA:
JACK KEROUAC (1922-1969), no início de On the Road: “[…] porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaah!’” Dentre os vagabundos encontrados por Kerouac em On the Road, o “fantasma de Susquehanna”, que “caminhava direto pela estrada no sentido contrário ao tráfego e quase foi atropelado várias vezes”. Perdeu a orientação espacial e já não sabe mais para onde vai. A mística da marginalidade como manifesto em On the Road: “Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, não era música o suficiente.” Paráfrase do que Rimbaud escreveu sobre o “mau sangue” em Uma estadia no Inferno: “Sou um bicho, um negro. […] Falsos negros que sois, vós, maníacos, perversos, avaros. […]” (Rimbaud 1998, p. 141) A cosmovisão de Kerouac se traduz em reverência diante dos vagabundos errantes, e de índios, negros e integrantes de culturas arcaicas. Em Vanity of Duluoz, uma afirmação de princípios em favor do multiculturalismo: “[…] pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe”. Em On the Road, camponeses indígenas são adâmicos e universais: “Essas pessoas eram indubitavelmente índias e não tinham, absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços, eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela.” Em Vanity of Duluoz, a revelação ao ser internado em um hospício em 1942 e conhecer “Mississipi Gene”, vagabundo errante por opção, também citado em On the Road. O personagem perfeito de Kerouac, alguém ao mesmo tempo negro, louco, emigrante, apátrida e delinqüente: conjunto de qualidades representadas por seu companheiro na balsa de Dover a Calais em Viajante solitário.
ALLEN GINSBERG (1926-1997) e a relação íntima com a loucura. A internação em 1949, quando conheceu CARL SOLOMON, leitor de Artaud. A loucura de sua mãe. Uivo, dedicado a Solomon: os trechos relacionados ao internamento de Solomon, e a terceira parte do poema: “Eu estou com você em Rockland”. Em Kaddish, o relato da loucura da mãe. Uma poética da loucura em “Sobre a obra de Burroughs”: “Não escondam a loucura”. A relação com Peter Orlowski e seus irmãos, também loucos.Uma visão de mundo: tolerância, uma sociedade em que coubessem os loucos e os normais, uma superação da dualidade loucura-normalidade.

6. UMA QUESTÃO DE FUNDO: A DIFERENÇA ENTRE O AUTOR LOUCO E O TEXTO LOUCO.
Convergência de ambos em Gérard de Nerval, louco que escreveu como um louco. Autor louco cujo texto nada teve de louco: GUY DE MAUPASSANT (1850-1893), autor de Bel Ami e O Horla. Há, contudo, confusão de ambos pela crítica, atribuindo características do texto ao autor, ao se declarar a loucura em LAUTRÉAMONT (Isidore Ducasse, 1846-1870), como o fizeram Léon Bloy, Rémy de Gourmont e outros. Exemplifiquei a boa interpretação da loucura de um texto com ROBERTO CALASSO, em A literatura e os deuses, sobre Lautréamont: “Elucubrações de um serial killer”. Li a estrofe de Os cantos de Maldoror sobre a cabeleira de Falmer (“Toda noite”… etc), com o abuso das repetições.
Autor de um texto louco sobre a loucura: CAMPOS DE CARVALHO (1916-1998), em A Lua vem da Ásia. Autora louca, que passou boa parte da vida internada, MAURA LOPES CANÇADO (1929-1993), cujo texto ora é racional, analítico, mas com metáforas estranhas, em O Hospicio é Deus; ora é delirante ou com imagens surrealistas em O sofredor de ver (deveria ser mais lida). A propósito de Maura, o horror manicomial brasileiro.
Autores em que texto e loucura são antagônicos, entidades separadas: o prosador RENATO POMPEU. E especialmente a poeta ORIDES FONTELA (1940-1998), autora de Teia e Alba, entre outras obras. Poesia luminosa, concisa, o oposto da miséria em que vivia – li alguns de seus poemas. Relatei suas loucuras, e seu desapreço por surrealismo e escrita delirante.
Um texto louco, e a loucura como valor literário: ROBERTO PIVA (1937-2010), desde Paranóia (1963). Li trechos e exemplifiquei equívocos da crítica, com “O delírio não cria” de Luis Costa Lima sobre Paranóia, citando como delírio não criativo um trecho – “os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos secos enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembléias de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar asilo em tua face?” que é evidente paráfrase, de boa qualidade, de O poeta em Nova York de Federico García Lorca, que nunca foi louco mas escreveu algumas obras delirantes.
O encontro de Roberto Piva e Renato Pompeu promovido por Maria Rita Kehl, relatado em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ha-metodo-em-sua-loucura,579155,0.htm “Renato, o “verdadeiro” louco, relatou sua experiência manicomial com muita sobriedade e resistiu à sedução do Piva, que tentou o tempo todo levá-lo para seu campo, do elogio à loucura.” programa de rádio de Maria Rita foi repreendido por causa das exteriorizações de Piva.
Haverá uma síntese? Penso que sim, em HILDA HILST (1930-2004) em Amavisse, retomando o desregramento dos sentidos de Rimbaud: “Estendi-me ao lado da loucura/ Porque quis ouvir o vermelho do bronze/ […] Um louco permitiu que eu juntasse a sua luz/ À minha dura noite”. […] “E o que há de ser da minha troca de inventos/ Neste entardecer. E do ouro que sai/ da garganta dos loucos, o que há de ser?” […] “Minha sombra à minha frente desdobrada/ Sombra de sua própria sombra? Sim. Em sonhos via./ Prateado de guizos/ O louco sussurrava um refrão erudito:/ – Ipseidade, senhora. – / E enfeixando energia, cintilando/ Fez de nós dois um único indivíduo”.

O DEBATE AO FINAL: Especialmente importante Flávio Amoreira haver lembrado JOSÉ AGRIPINO DE PAULA, autor louco de obra delirante. E citar ligação de Hilda Hilst com a cidade de Santos.

Palestra sobre Poesia e Loucura no SESC-Santos

Será dia 15 de fevereiro, sábado, às 17 h.

A unidade de Santos do SESC fica à Rua Conselheiro Ribas, 136, próximo à praia, altura do Posto 6, entre o Embaré e Ponta da Praia, me parece – já dei palestras lá, sobre Lautréamont e Geração Beat.

Por favor, avisem aos interessados da região, Santos e Baixada Santista.

Não faltará assunto. Tema imenso, dava curso ou ciclo de palestras. Aceito sugestões. Penso em algo refinado sobre representações da loucura em Campos de Carvalho.

Mas não deixarei de citar André Breton em L’art des fous, la clé des champs: “a arte daqueles que são classificados, hoje em dia, na categoria dos doentes mentais constitui um reservatório de saúde moral.” De Breton também, em Nadja, que, se fosse internado, mataria alguém, de preferência a um dos psiquiatras, para que o deixassem sossegado no isolamento. De Antonin Artaud: “E o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana.”

A seguir, o release / programa preparado pelo coordenador do ciclo de palestras, poeta Flávio Viegas Amoreira:

MENTE & ARTE: SUBJETIVO INFINITO
projeto de discussão sobre criatividade e descaminhos da Alma: Arte e transgressão
dia 15 de fevereiro a partir das 17 horas no SESC SANTOS o convidado é o mestre de gerações de escritores, um dos maiores poetas brasileiros…
o professor, ensaísta e tradutor CLAUDIO WILLER que vai discorrer sobre ´´POESIA E LOUCURA´´ a partir de autores como Nerval, Rimbaud, Lautréamont, Jarry, Artaud até Kerouac, Ginsberg e Burroghs. Um dos maiores especialistas em poetas malditos, outsiders literários, gnose e beat generation
CLAUDIO WILLER é o convidado do curador e apresentando do evento o escritor FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA que comemora abertura das festividades de seu cinquentenário abordando temas caros a tranZmodernidade: qual papel dos poetas em nosso mundo em transe e o poder do delírio criativo em nossa sociedade.
Comemoração do cinquentenário de Flávio Viegas Amoreira
MENTE & ARTE: SUBJETIVO INFINITO
dia 15 de fevereiro a partir 17 horas
Sala 1 SESC SANTOS
POESIA E LOUCURA
convidado CLAUDIO WILLER
mediação FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA
CITY – COMPANHIA INSTÁVEL DE REPERTÓRIO
PERCUTINDO MUNDOS

Mais de Antonin Artaud

A “Carta ao papa” de Artaud é dos posts mais visitados neste blog. Também publiquei algo, aqui, sobre o reencontro de Artaud e Breton. Agora, foi postado no Facebook, por Celia Musili, outro dos textos de Artaud de 1925, sobre proibição de drogas. E, nos comentários, um trecho da carta aos psiquiatras, chefes dos hospícios. Reproduzo-os. Presente de 2014: que fosse reeditada essa minha coletânea, Escritos de Antonin Artaud. Continua valendo.

SEGURANÇA PÚBLICA
A liquidação do ópio

“Tenho a intenção declarada de encerrar o assunto de uma vez por todas, para que não venham mais nos encher a paciência com os assim chamados perigos da droga.
Meu ponto de vista é nitidamente anti-social. Só há uma razão para atacar o ópio. Aquela do perigo que seu uso acarreta ao conjunto da sociedade.
Acontece que este perigo é falso.
Nascemos podres de corpo e alma, somos congenitamente inadaptados; suprimam o ópio: não suprimirão a necessidade do crime, os cânceres do corpo e da alma, a inclinação para o desespero, o cretinismo inato, a sífilis hereditária, a fragilidade dos instintos; não impedirão que hajam almas destinadas a seja qual for o veneno, veneno de morfina, veneno de leitura, veneno de isolamento, veneno de onanismo, veneno de coitos repetidos, veneno de arraigada fraqueza da alma, veneno de álcool, veneno de tabaco, veneno da anti-sociabilidade. Há almas incuráveis e perdidas para o restante da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura, inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na essência – só por usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade. Deixemos que os perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial.

Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero.”

[…] e o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis

Outros posts aqui, sobre Artaud:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/03/01/a-carta-ao-papa-de-artaud-e-alguns-comentarios/

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/10/06/antonin-artaud-o-ensaio-e-mais/